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Poéticas Híbridas: O Percurso da Produção Cabo-Verdiana no Século XX

Norma Lima, Professora e ensaísta, especializada em Literaturas Africanas, apresentou no evento «Africanas 10!» o tema intitulado «Poéticas Híbridas: O Percurso da Produção Cabo-verdiana no Século XX».

Para a ensaísta as palavras do poeta «são suas e alheias. Por um lado, históricas, pertencem a um povo e a um momento da fala desse povo. Por outro lado, são anteriores a toda data: são um começo absoluto. Pensando que tais palavras nos envolvem no seu jogo sedutor de se metamorfosearem na voz alheia, lembremos que as temáticas trabalhadas pelo verso cabo-verdiano são reflexos de um povo cuja identidade se formou na encruzilhada de múltiplos antecedentes étnicos e históricos, em que a luta pela sobrevivência teve um papel determinante e, em muitos casos, decisivo».

Norma Lima garante que «buscar os elementos híbridos que tal produção aponta implica «perceber a singularidade da formação do Arquipélago, com suas marcas das diásporas europeia e africana. Tais, de construção heterogénea, encontram respaldo nos debates acerca da mestiçagem e do hibridismo cultural, envolvendo aspectos relativos à globalização e ao comunitarismo. O mundo se criouliza em uma heterogeneidade que, se por um lado interessa a uma espécie de ideologia perversa da globalização, por outro pode ser também apreendido como forma de tolerância e de democratização com o Outro».

Para a ensaísta o percurso poético que nos propomos percorrer é marcado pela «presença de sujeitos multifacetados os quais trazem em si, de longa data, aspectos de uma sociedade multicultural. Ao identificarmos a produção cabo-verdiana como híbrida, naturalmente deixamos de lado o ultrapassado uso do conceito da mestiçagem que, sob a aparência de aceitação do mestiço, via nele a possibilidade de clareamento da raça...Entendemos, por outro lado, o híbrido como um processo de ressimbolização em que a memória dos objectos se conserva e em que a tensão entre elementos díspares gera novos objectos culturais que correspondem a tentativas de tradução ou de inscrição subversiva da cultura de origem em uma outra cultura (...) [em] um processo fertilizador».

«O poeta cabo-verdiano Corsino Fortes, com a sua poesia já estabelecida no momento da Pós-Independência do Arquipélago, associa a memória do tambor africano à imagem da ilha que se ergue à boca do mundo:

Oh tambores de barlavento

Oh tambor!

tambores de sotavento

Agora

Que na omoplata do homem

estala o coração de pedra

A ilha ergueu-se até à boca do mundo

a baía austera

E o espírito é árvore. E o sangue

o sal da terra

(...)

na bela imagem do poema, a árvore convive com a paisagem desértica das ilhas. É deste modo que os autores cabo-verdianos se opuseram à colonização cultural, negando o isolamento geográfico, na busca de diálogos com outras culturas. Ao realizarmos este percurso, percebemos como os passos poéticos vão em busca da liberdade de uma sociedade multicultural, que não pode ser interpretada como fragmentada, e sim como forte, na medida em que a comunidade cultural só é possível se o sujeito conseguir, previamente, se separar do comunitarismo, pois o outro não pode ser aceito como tal se não for compreendido e amado como sujeito», concluiu.

O texto pode ser lido integralmente no link «Críticas & Ensaios».

UEA- Digital, Seomara Santos

 

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