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Velho e Velhice nas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa Contemporâneas Destaque

Maria de Nazaré, professora de Literaturas Africanas fez uma breve dissertação sobre o tema “Velho e velhice nas literaturas africanas de língua portuguesa contemporâneas”.

Para a professora falar de velho e de velhice, tomando como referência as representações feitas por um tipo de literatura que, em época bastante recente, assumiu a tarefa de “reafirmar as identidades essenciais e defender um projecto de nacionalidade, é o que pretende este trabalho. A partir das literaturas africanas de língua portuguesa e dos mecanismos por elas desenvolvidos para recuperar uma tradição que fora sufocada pelo colonialismo, é possível identificar uma acentuada tendência de se retomarem as representações do velho, o guardador da memória do povo, e com elas compreender peculiaridades da cultura ancestral, tal como se evidencia em projectos de nação e de nacionalidade, assumidos como plataforma das lutas pela independência, nos espaços africanos de língua portuguesa”.

Maria Nazaré frisa ainda que “é interessante observar que a passagem do sistema colonial a etapas de construção da identidade nacional, na maioria dos países africanos de língua portuguesa, marcou-se pela ênfase no resgate dos costumes típicos de cada povo, principalmente a tradição que reverencia a terra e os ancestrais. As diferentes expressões de terra e as figurações do espaço natural – a geografia, a paisagem, a flora e a fauna – compõem, assim, o referencial identitário das novas nações. A terra é os topos da identidade cultural, modelada pelos costumes preservados pela palavra dos antepassados, ensinada aos vivos desde a infância. A ancestralidade é o referencial identitário que irmana as diferentes gerações. Neste contexto, a literatura acentua uma feição celebrativa ou evocativa, em que a infância, como metáfora da origem, torna-se o lugar da possibilidade de igualdade e a tradição ancestral é valorizada para recompor significados modelados pelos projectos de feição nacionalista. As manifestações literárias dos espaços africanos de colonização portuguesa – e estou me referindo particularmente às de Angola e Moçambique – constroem-se, com frequência, como exaltação de temas ligados ao passado ancestral, espaço de gestação da identidade africana ansiosamente buscada. É nesse esforço pela reconstrução de uma identidade sufocada pela colonização que a tradição volta a ser valorizada e reorganizadas formas de identificação do homem com a terra e com os valores transmitidos pelos mais velhos. Essa tradição, que parece unir as diferentes regiões da África, não pode ser entendida como una, pois cada cultura a preserva a seu modo, muitas vezes fazendo-a conviver com a hibridação natural dos novos tempos em que a fala sábia do ancião, capaz de criar o maravilhoso que congrega modos de saber específicos de sua cultura, convive com novas idéias e com novos hábitos”.

A professora considera que “essa importante questão acentua o facto de não se poder estender o que se diz sobre algumas culturas africanas ao continente em geral. É certo que existe ainda, na África, uma tradição que delega ao mais velho funções importantes na hierarquia social. Deve-se considerar, no entanto, que essa tradição tem expressões diferenciadas e localizadas e que, por isso, não pode ser enforcada com um intuito generalizante. Quando se afirma, por exemplo, que nas culturas africanas o velho desfruta de um lugar privilegiado porque exerce funções ritualizadas na comunidade e participa de uma relação mais próxima com os deuses, corre-se o risco de se cair em generalizações bastante perigosas. A existência de peculiaridades como o culto dos antepassados, que se expressa através de rituais que definem as relações entre os vivos e os espíritos, exercidas como se fossem relações entre pessoas, faz-se através de simbolismos que significam não somente os actos em si, mas ritualidades que têm expressões próprias em cada cultura”. E mais informa que “nos dias actuais, em muitas culturas, a tradição ancestral tem de conviver com as alterações inevitáveis trazidas pela modernização, temida, mas necessária à entrada das culturas africanas nas novas leis de mercado. Por essas razões, a tradição tem de ser pensada a partir da complexidade com que se apresenta em cada cultura e dos processos que reafirmam tanto os costumes ancestrais como a presença de novos hábitos que se vão impondo até mesmo como forma de assegurar a tradição”.

Para concluir a professora garante que “em algumas situações, o gravador do etnólogo, o vídeo e o computador impõem-se como forma de conservação de práticas que a modernização vai desconfigurando. Em compensação, mesmo em outras, vividas junto a culturas em que há pouco contacto com novas técnicas e com novas idéias, são vivenciadas formas de convivência que também provocam atritos e fricções. Faz-se importante, por isso, afirmar que a tradição ancestral continua a ser preservada em meio a peculiaridades que definem a forma de ser de cada cultura e aqui, certamente, não me refiro apenas às africanas. São essas peculiaridades que aparecem, com frequência, encenadas na literatura produzida pelos novos países africanos, quando procuram responder a um complexo conjunto de expectativas típico da época actual. Ao resgatar a figura do velho e o seu lugar na estrutura social, transportando para a escrita os rituais de uma tradição aprendida com os ancestrais, essa literatura evidencia, certamente, uma forma peculiar de convivência entre os africanos. Mas, ao mesmo tempo, faz-se espaço de denúncia da exclusão do velho dos modernos hábitos levados à África, os quais, com alguma frequência, contribuem para o silenciamento das formas de educação tradicional que têm no idoso a figura mais importante. Ao iluminar essas contradições, a literatura integra-se, de forma directa ou não, na produção de textos comprometidos com a realidade social. Vale a pena reflectir, por isso, sobre algumas feições do diálogo que textos produzidos pelas literaturas africanas de língua portuguesa, na época actual, realizam com a tradição ancestral”.

UEA-Digital, Seomara Santos

 

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