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A Transgressão Nas Cidades Sitiadas: Cidade de Deus Manual dos Inquiridores e Maio, Mês de Maria

Jurema José, Professora Doutora Substituta da Universidade Estadual do Estado do Rio de Janeiro, UERJ, falou sobre «A Transgressão Nas Cidades Sitiadas: Cidade de Deus Manual dos Inquiridores e Maio, Mês de Maria», um trabalho ensaístico que faz parte da sua tese de Doutorado.

A professora começou a sua dissertação frisando que «de acordo com Mircea Eliade, o mundo «é um Cosmos e qualquer ataque exterior ameaça transformá-lo em Caos» . Essa visão mítica do mundo pode ser atualizada por uma ótica inversa, não mais integrada a um sistema coeso e articulado, a uma narrativa atemporal, mas apreendida por meio de figuras soltas, díspares, resultantes do «caos» que paira sobre a cidade distanciada do princípio mítico original e sofre a acção perpetrada pelas actuações humanas em contextos históricos marcados por uma degradação que se assemelha ao «Caos» gerado no plano mítico pelo «Dragão» que atacava a cidade dos deuses num tempo primordial. A cidade sagrada era o habitat humano por excelência e a sua conservação garantia a perpetuação das espécies, enquanto que as cidades encenadas nas obras estudadas nesta tese são vítimas da violação de regras preestabelecidas que ameaçam a fundação da cidade imaginária. Todo o processo de degradação nelas instaurado e produzido pelas acções humanas reatualiza a idéia de «Caos» original sem a potencialidade mítica ritualística perpetrada pelo ciclo de luta entre o Bem e o Mal, como bem define Jean Baudrillard, em A transparência do mal: ensaios sobre os fenómenos extremos . A violência desenfreada, que assola as cidades narrativas, simboliza as práticas desenvolvidas por aglomerados humanos em descompasso com o habitat natural. O desconforto gerado pelos actos humanos permeados por motivações políticas, sociais, económicas, etc., impulsiona a violência que, do ponto de vista contextual, afecta as cidades e desponta na enunciação como um ataque à «narrativa da nação»». Para a professora «o dilaceramento do discurso da nação precisa ser suturado, unido por meio dos recortes recuperados muitas vezes às avessas. A voz da enunciação mata o texto primordial para criar as narrativas das cidades sitiadas nos romances aqui estudados. As «vozes da cidade» têm um cunho parodístico na obra de Boaventura Cardoso, testemunhal em Paulo Lins e memorialista em António Lobo Antunes. Os três autores violam as leis preestabelecidas para corporificar no «silêncio fundador» que torna todo significar viável a transgressão que emana da performance do escritor. Transgredir pressupõe violar as leis preestabelecidas. A humanidade guarda, entre outros preceitos, o «não matarás». Este deve ser zelado e guardado universalmente. Ele não nasce nos limites da razão, mas se estabelece como regra pela natureza do tabu, «que torna possível um mundo da calma e da razão», mas isso não significa que, na qualidade de intangível, o mesmo não possa ser violado e continuar, depois disso, tendo o estatuto de intangível. Georges Bataille apresenta, na obra O erotismo, a seguinte proposição: «o interdito existe para ser violado», em outras palavras, as regras existem para serem quebradas, mas esta idéia guarda em si uma outra questão, os efeitos gerados pela violação das leis sacralizadas.» Sobre o diálogo dialético traçado pelo escritor entre a tradição e a modernidade da discursividade revela por intermédio da polifonia a «complexidade identitária do jogo social encenado entre Dala Kaxibo, região de origem de João Segunda e seus familiares e o Bairro do Balão, centro do furacão. Os fenómenos advindos do procedimento parodístico encontram na instância do discurso polifônico a comunicabilidade desejada pelo autor. É uma premissa para o surgimento de uma multiplicidade de vozes, que buscam abarcar as particularidades e a complexidade dos fatos reinventados como: a língua, os símbolos, os códigos diversos de comportamento, os valores, os rituais, as técnicas e os artefactos da comunidade ali representada. O dialogismo permite uma interlocução com o passado e com as mais diversas situações do presente narrativo», e mais adianta. Na interlocução dialógica produzida pelo agente do discurso de Boaventura Cardoso, constata-se uma associação entre História e Memória no resgate de um tempo que reinventa, reelabora a força vital e as outras forças que coadunam na representação de aspectos inerentes à cultura angolana. O tempo mítico primordial se reactualiza como resistência aos estágios de rupturas violentas gerenciadas pelos homens em descompasso, que experimentam o afã da descontinuidade e da heterogeneidade temporal. Em Maio, mês de Maria a defunta Zefa, apesar da sua constituição etérea, interpela, questiona as acções do viúvo João Segunda». Para Jurema José «esse fenómeno reforça o dialogismo entre o mundo dos vivos em desequilíbrio – encenado no Bairro do Balão com um tempo primordial rememorado no komba, símbolo festivo da ligação indissolúvel entre «a vida humana que não é sentida como breve aparição no Tempo» e o Cosmos. Este, um organismo vivo, que se renova periodicamente de forma dialética, apesar de a cultura com diversas vozes identitárias se confrontar no tempo narrativo com políticas estatais que se sobrepõem à cultura que «se contrai e depois se expande enormemente» para redesenhar a cultura angolana que corresponde «a entidades não fixas que resultam de um processo que teve os seus primórdios, conhece o seu devir e um dia verá o seu termo». O cenário literário é o «local», espaço de confluência, o habitat, a casa para um mundo fora do lugar, mas não irrecuperável, pois: (...) a literatura conspira com a especificidade histórica, usando a incerteza mediúnica, o distanciamento estético, ou os signos obscuros do mundo do espírito, o sublime e o subliminar. [para atingir] a compreensão da acção humana e do mundo social como um momento em que algo está fora de controlo, mas não fora da possibilidade de organização». Concluiu

O Texto Poderá ser lido integralmente do Link «Críticas & Ensaios»

UEA-DIGITAL, Seomara Santos

 

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