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Poesia em Tempos Sombrios: O Projecto Literário de Sagrada Esperança

Maria de Nazareth Fonseca, Mestre em Literaturas Africanas pela (PUC-MG) fez um estudo sobre «Poesia em Tempos Sombrios: O Projecto Literário de Sagrada Esperança».

A professora começa o seu estudo frisando que ainda que superficial, os textos literários que alicerçaram o projecto de identidade cultural desenvolvido pelos intelectuais angolanos, na década de cinquenta, demonstra a utilização de algumas tácticas que, no “campo da literatura e da conscientização política – ou nos dois ao mesmo tempo – induziram à percepção da problemática situação do africano visto como negro e colonizado num sistema que o nega enquanto sujeito. Utilizada como táctica literária e como exercício de conscientização, a redescoberta da África, no geral, e de Angola, no particular, orienta os escritores para a concretização de recursos que a escrita literária dissemina, trazendo para as páginas do livro as imagens de uma terra espoliada ou recuperando os cenários resistentes à devastação colonialista. Mário Pinto de Andrade (1997) ressalta o esforço desempenhado pelos estudantes africanos residentes em Lisboa, na década de cinquenta, para intensificar uma reflexão mais profunda sobre a África, produzida por africanos. O intelectual angolano acentua na necessidade de produzir uma reflexão sobre a diversidade de uma África que era desconhecida da maioria dos africanos, uma vez que o sistema colonial impunha concepções e valores sobre a África e sobre os africanos produzidos de fora. É por esse viés que se torna possível encontrar na produção literária dessa época alguns marcadores de um processo que os escritores africanos, pela palavra de Mário Pinto de Andrade, denominaram de “auto-consciencialização da cultura africana na sua globalidade” e que, de certa forma, procurava reverter o olhar depreciativo que o sistema colonial havia projectado sobre a África, sobre os africanos onde quer que estejam, subjugando-os através de estereótipos, utilizando-se de mecanismo semelhante ao ferro em brasa, que inscrevia no corpo dos escravos a marca indelével da propriedade”.

Para a especialista essas reflexões são a base de que “me valho para propor uma análise da proposta literária explícita no livro Sagrada esperança, de Agostinho Neto, procurando destacar os dados que, no texto literário, revelam a preocupação do autor de desvelar Angola para os angolanos, de percebê-la em sua especificidade africana, ainda que sob o domínio da colonização, de certa maneira, já internalizada nas transformações impostas aos territórios ocupados. Os versos dos poemas serão o lugar de inscrição de uma consciência de pertencimento a um território que precisava ser descoberto por aqueles que, nascidos nele, dele foram alijados”, e mais informa que “No livro Sagrada esperança (1974) delineia-se uma proposta poética que recupera dados importantes do processo de conscientização encaminhado pelos intelectuais e escritores angolanos. A poesia de combate de feição pragmática recorre por vezes à intenção mais descritiva e compõe quadros em que o dia-a-dia dos angolanos toma o lugar das intenções pedagógicas tão comuns à poesia de desalienação. Percebe-se nesses momentos em que o texto assume uma intenção mais plástica, mais pictural, o delineamento de uma poética que acolhe o trivial, que se sustenta na apreensão de cenas a que comparecem “compadres discutindo/escandalosamente/velha dívida de cem mil réis” , os “bêbados caídos nas ruas”, as “mães aos gritos /à procura dos filhos desaparecidos”, o “ homem/ que consulta o kimbanda/ para conservar o emprego” ou a “ mulher/ que pede drogas ao feiticeiro/ para consertar o marido”) para fotografar um “sábado nos musseques”. A intenção de trazer para a cena do texto os acontecimentos triviais da rotina dos sábados, vividos pela gente pobre de Luanda, uma busca de formas simples que contestem o modelo literário ocidental. É certo que a fotografia do quotidiano percorre as trilhas do neo-realismo e a intenção de trazer para o texto as cenas tomadas do “real”, mas o projecto literário do livro acolhe tais cenas como um meio de dar voz aos assujeitados pela própria condição de feitura do texto”, concluiu.

Este texto poderá ser lido integralmente no link «Críticas & Ensaios».

UEA-Digital, Seomara Santos

 

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