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Antologia mostra literatura nacional na Alemanha

O Instituto Goethe, que representa a cultura alemã internacionalmente, e a União dos Escritores Angolanos, editaram recentemente uma antologia de prosa e poesia nacionais, numa edição bilingue, em português e alemão. Os textos dos escritores incluídos no livro Oxalá Cresçam Pitangas foram traduzidos pela primeira vez para o idioma germânico, à excepção de Agostinho Neto. A tradução é de Bárbara Mesquita, e a organização da Dra. Ineke Phaf-Rheinberger, professora de Literatura da Universidade Humbolt, em Berlim.

A edição é dividida em duas partes, Prosa e Poesia, e traz a obra de treze escritores de diferentes gerações e das mais diversas preocupações temáticas. Segundo a organizadora, os critérios de escolha destes escritores assentaram no facto de serem inéditos em alemão e o desconhecimento geral sobre a literatura angolana naquele país, onde não há traduções disponíveis de escritores nacionais, com raras excepções.

"À parte das traduções mais recentemente publicadas -uma obra de Pepetela, outra de Ondjaki, uma de Ana Paula Tavares e quatro de Agualusa -, não existe conhecimento ou uma experiência sistemática com esta literatura. Precisamente para chamar a atenção deste vácuo na Alemanha, decidi começar com autores desconhecidos, para incentivar o interesse também pelas obras já traduzidas dos outros autores angolanos", explica a organizadora.
Tradução alemã de "Jaime Bunda", de Pepetela

Tradução alemã de "Jaime Bunda", de Pepetela

"O romance de Pepetela, Jaime Bunda, numa excelente tradução de Bárbara Mesquita, teve tão pouca saída que a casa editorial não quis investir noutras traduções deste autor. Então, o meu critério foi focar-me no entusiasmo momentâneo pela literatura assim como no dado de que muitos novos e já experimentados autores publicam com uma regularidade impressionante", acrescentou Ineke Phaf-Rheinberger.

Tazuary Nkeita, Carmo Neto, Roderick Nehone, Sónia Gomes, Isabel Ferreira e João Melo (prosa); Agostinho Neto, António Gonçalves, José Luís Mendonça e Décio B. Mateus (poesia); e Zetho Cunha Gonçalves, Amélia Dalomba, Arnaldo Santos (prosa e poesia) são os autores representados nesta antologia.

A organizadora teve contacto directo com a União dos Escritores Angolanos e assistiu a várias edições do "Maka À Quarta-Feira", um encontro periódico do grupo para a discussão de diversos temas sobre Angola, o que levou a um estreitamento de laços.

De tal forma, que foi convidada para o lançamento do livro O Último Segredo, de Tazuary Nkeita, que tem dois textos incluídos na antologia.

O processo de selecção tentou respeitar alguns critérios, entre eles a diversidade dos temas e a longevidade das obras.

"Existe uma grande variedade temática e um dos primeiros critérios foi o de não escolher textos demasiado históricos. Falar da história de Angola na Alemanha, muitas vezes, implica falar das guerras, do anti-colonialismo, ou da situação político-social em geral. Queria outra coisa", explicou.

"Um problema que enfrentámos foi o da falta de uma autora que trabalhasse de forma experimental a língua portuguesa na sua poesia como Ana Paula Tavares, mas descobri o primeiro romance de Sónia Gomes, A Filha do General, no qual se ilustram problemas de jovens mulheres em Luanda, reconhecíveis pelos leitores no mundo inteiro. Ou um livro tão complexo como o livro Nsinga, de Amélia Dalomba, sobre o processo da iniciação em Cabinda", disse.

Ineke Phaf-Rheinberger também se deixou contagiar pelas "ganas sedutoras de contar histórias de Carmo Neto e o intento de as integrar numa estrutura de romance de Tazuary Nkeita", considerando-se também fascinada pelo "sarcasmo de Roderick Nehone e a experiência com a literatura falada de Arnaldo Santos e a poesia de Zetho Cunha Gonçalves, António Gonçalves, José Luís Mendonça, ou Décio B. Mateus".

A tiragem inicial da obra é 1000 exemplares. O lançamento alemão está previsto para Março de 2015, no Festival de Literatura de Leipzig. De acordo com o Instituto Goethe, os exemplares estarão em breve disponíveis para a venda, tanto nas suas instalações, quanto na sede da União dos Escritores Angolanos, e posteriormente em outros pontos de venda. Os detalhes de distribuição ainda estão por ser anunciados.

"Não são borboletas que vivem somente um dia"

A responsável pela organização da antologia diz que "a selecção dos textos também é mais ou menos casual". Podia ter incluído outros, explica, "mas, todos os autores incluídos têm em comum uma obra considerável de publicação. Não são borboletas que vivem somente um dia, por assim dizer".

É de um verso de António Gonçalves, presente na colectânea, que vem o título da obra, Oxalá Cresçam Pitangas, o mesmo já utilizado por Ondjaki e Kiluanje Liberdade para o documentário de 2007 sobre a Luanda contemporânea.

A organizadora reconhece, tanto em Gonçalves, quanto no documentário, uma inspiração comum para a antologia: "Vi o documentário e gostei da sua intenção de mostrar a vida dos
Capa da edição alemã de "As Mulheres do meu Pai", de José Eduardo Agualusa

Capa da edição alemã de "As Mulheres do meu Pai", de José Eduardo Agualusa

cidadãos de Luanda. No meu epílogo nas Pitangas, somente publicado em alemão, sem tradução, também escrevo sobre ele, assim com sobre Tavares, Pepetela ou Agualusa, para que o público leitor na Alemanha se dê conta das traduções existentes das suas obras".

A expressão "que cresçam pitangas", vem igualmente do poema "Intervalo com jindungu kahombo". "Gonçalves escreve 'oxalá cresçam pitangas no papel', o que quer dizer que o florescimento duma literatura sempre está acompanhado de um desenvolvimento tremendo da língua, pesquisando todos as matizes possíveis para dizer algo não dito. Gosto de ter desempenhado um papel neste processo", refere.

Ineke Phaf-Rheinberg, crítica literária especializada em América Latina, Caraíbas e África, vê com optimismo o momento que vive actualmente a produção angolana, não apenas na literatura, mas nas artes em geral.

"Acho que em Angola, neste momento, vive-se o auge duma energia criativa – diria que é quase uma explosão – pouco usual. Outra ilustração encontra-se na artes plásticas com personagens como Álvaro Macieira e Edson Chagas, dos quais também incluímos algumas imagens na antologia, para não esquecer a obra considerável de António Ole. Acho que a própria cidade de Luanda expressa esta tendência, mudando ano após ano de uma maneira acelerada. Pode ser que, depois de um tempo, esta energia converta-se em rotina, talvez, mas neste momento não é assim".

Uma segunda antologia já está em progresso, a ser traduzida também por Bárbara Mesquita. Não será, no entanto, uma edição bilíngue, e procurará textos com referências a momentos históricos com uma ideia subjacente: Vamos Descobrir Angola.

Além disso, Phaf-Rheinberger revela que há outros projectos de traduções para o alemão de obras nacionais. "Sei que Michael Kegler (tradutor das obras de Agualusa) já terminou a tradução do romance Os Transparentes, de Ondjaki, que recebeu o prémio Saramago no ano passado. E Manuela Sambo, uma artista e tradutora angolana residente em Berlim, publicará este Outono fragmentos bilíngues da novela O Reino das Casuarinas, de José Luís Mendonça, na revista Welwitschia da Embaixada de Angola em Berlim".

O livro

Oxalá Cresçam Pitangas é uma colectânea dividida em duas partes, prosa e poesia. A princípio, a intenção de evitar os textos demasiadamente históricos não é evidente, já que ambas as partes começam por fazer referência à Guerra Civil, com o conto "O Inferno e a Morte na Palma da Mão", de Zetho Cunha Gonçalves, e o período colonial com "Poema", de Agostinho Neto. A presença do primeiro presidente de Angola pode ser discutível, não pelos seus versos, mas pela proposta. No entanto, o violento conto de Cunha Gonçalves inicia muito bem a antologia, num tom exaltado, mostrando que numa situação onde a morte está presente, quem engorda são os cães, as jibóias e os demais animais que se alimentam de carne humana. É uma ideia que funciona tanto literal quanto metaforicamente, e não à toa o autor utiliza-a também nos "Quatro Poemas sobre a Guerra em Angola", igualmente fortes.

Ultrapassada a introdução, a antologia encontra um tom que, a olhos estrangeiros, como os alemães, deve ilustrar bem o quotidiano da Angola em paz, tanto nas classes mais pobres, como nas mais ricas ou nas remediadas, com muitas zonas cinzentas entre essas definições. Alguns dos contos e excertos de romances, como "Xaimita Zungueira-Fina", de Isabel Ferreira, sofrem, no entanto, de uma falta de naturalidade ao lidar com essa questão social: ao colocar parênteses explicativos nas expressões do dia-a-dia dos angolanos, deixa-se de reconhecer nestas pessoas o seu público e o texto passa a ser então explicitamente para quem é de fora, ou para quem não se mistura.

Um trecho de A Filha do General, de Sónia Gomes, descreve quase em jeito de relatório a Baixa de Luanda antes de começar a acção. Nesse ponto, "O Catador de Bufunfa", de Roderick Nehone é o mais bem-sucedido ao transpor a linguagem das ruas com ritmo, energia e descontracção.

A opção de destacar excertos de romances, como O Último Segredo, de Tazuary Nkeita, e Nsinga – O Mar, no Signo do Laço, de Amélia Dalomba, soam como uma boa ideia perdida, pois apesar de revelarem o talento dos seus autores, resultam numa experiência descontextualizada e anti-natural, como se a leitura fosse interrompida. Talvez por isso o grande destaque de toda a parte da prosa seja Tesouro da Quianda, de Arnaldo Santos, um conto delicado e muito bem pensado, no único texto que ousa flertar com o batido realismo mágico que, fora de África, se costuma esperar das literaturas do continente. Sim, o texto soa como um caminho já trilhado, mas a beleza da sua ideia, que envolve tão bem crianças e lendas urbanas locais, continua intacta.

Na parte de poesia, superada a obrigação de Agostinho Neto, destacam-se o experimentalismo vibrante de António Gonçalves e José Luís Mendonça. Ambos os escritores conseguem oscilar entre uma escrita arrojada, sem amarras, e um ponto de vista especificamente angolano. Gonçalves, por exemplo, escreve sobre a próprio acto de exprimir-se e também sobre a capital, na sua série Luanda Sem Óculos de Sol. Mendonça revolta-se contra Shakespeare (o resto é poesia, não silêncio), ao mesmo tempo que descreve em verso uma experiência discretamente erótica no fundo de um táxi cheio.

Se, como afirma a organizadora, a sua intenção foi transmitir o entusiasmo presente na literatura angolana de hoje, a poesia dá-lhe muito mais razão. Talvez na prosa não haja um refinamento técnico de construção ficcional, mas os versos, às vezes brutos, mostram que não lhes falta sentimento.

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