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A invasão da poesia de ABV na palavra percorre uma reflexão sobre o labor poético, sobre a função da linguagem e sobre a função específica que esta adquire na especial forma escolhida pelo autor para fazer comunicar a sua subjectividade. Há poemas ponteados pela metapoesia e, com maior incidência, pela poética, pela tecitura do verbo no verso, ou seja, pelo percurso existente entre o sujeito e o resultado conseguido pelos firmes passos dados. O fulcro da obra assenta, assim, na criação. O poeta, os lavradores, os heróis e as personagens presentes nos poemas são criadores, entre o poema e o quase poema que nos é denunciado e apresentado. A negação é usada, então, como estratégia discursiva e de criação e liga-se à relação estabelecida entre criador e criatura: "Não se pode escrever o poema porque entre os seus elementos vigora uma voz/ que indica o lugar / da agonia". É frequente que o criador questione a sua criatura, colocando-se perante ela e deixando-se por ela inundar, como se o processo criativo se processasse no inverso, como é perceptível nos versos exemplificados: "E a palavra antes de ela ser estrofe vive / uma luta com o que nos vem em sangue para apertar / o mundo". A palavra faz e desfaz, constrói o abandono, desfrutando, pelo seu som, o silêncio; a voz cede o seu lugar cativo aos outros sentidos físicos que se compõem em poesia. A recorrente metáfora poética do tecto surge, neste sentido, como expressão do desejo de toque do inatingível, do alto, do máximo organizador ao qual se acede precisamente pela vogal, pelo verbo com poder de nomear e de apropriar na subjetividade o visível, o perceptível e o imaginável. O espelho é filtrado pela visão na sedução da imagem com a obsessão pela palavra. As mãos, os dedos, a boca que sentem o barro, o ouro e a terra, húmus fértil, tal como a dança que envolve toda a percepção sensorial, comunicam com as outras artes, as da palavra e as do corpo. "Todos os meus dedos tinham o vício / das luas nas salivas dos teus desejos. A água / é um imenso espelho com olhos no teu umbigo / e a felicidade treme na ponta de todos os troncos / para que a túnica se amarrote / na noite", versos síntese da junção inevitável de todos os sentidos concretos e imaginados. A poesia de ABV faz-se pela palavra escrita na voz que ressoa no corpo e em seu apelo. A apreensão e a inventariação do mundo medem-se pelos sentidos físicos, que podem ser ou não simultâneos, presentes ou ausentes, como a música que acompanha a surdez...excerto da pág. 15

 

 

Informação Adicional

  • Autor: Adriano Botelho de Vasconcelos
  • Editora: UEA
  • Ano: 2008

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