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Hélia Correia- "Não se morre de desejo..." Destaque

Escrito por  Ana Marques Gastão
"Não se morre de desejo mas não se regressa igual" 'Bastardia' é o último livro de Hélia Correia, editado pela Relógio d'Água. Uma bela narrativa sobre o poder do desejo, algo que o sujeito desesperadamente procura.

A iminência do desastre atravessa Bastardia, que se debruça sobre o desejo, centrado nas sereias. Que é esse apelo aliado, tanto no início como no fim do livro, à decepção?

É algo que nos chama, não sabendo nós o que se lhe segue. Eu própria tive de chegar à decepção ao sentir destruir-se em mim a mitologia infantil quando me apercebi de que as sereias gregas não eram as mermaids que concebemos ao ler a história de Ulisses. O episódio das sereias representa a sedução feminina e o perigo que esta constitui do ponto de vista masculino. Ulisses sente-se chamado, corre perigo, mas, com as suas artimanhas, consegue ouvir o canto sem se perder. É uma imagem de grande beleza, um chamamento de beleza...

De esplendor?

Também, e de erotismo dificilmente realizável, mas que não deixa de ser erotismo. Num momento marcante da minha vida, estar com a professora Maria Helena da Rocha Pereira na Grécia permitiu, de forma esplendorosa, que eu me confrontasse com a realidade das sereias gregas, aves com corpo de mulher, bem como com a iconografia, que nada tem a ver com a nossa. Na pintura clássica, visualiza-se o barco perseguido por elas. A voz que seduz, destrói e aniquila os homens provém do feio, do monstruoso, e o que há de feminino no monstro é um rosto quase de harpia. Nada disto tem a ver com o nosso imaginário. Há um material imenso na Grécia que a nossa cultura não consegue entender e me fascina. Num primeiro momento, senti o deslumbramento perante o forjar da civilização, num segundo, aquele em que me encontro, sinto na cultura grega algo que me remete para a escuridão inicial. Ao contrário das nórdicas, as sereias gregas são seres da escuridão e cantam, chamam, no seu esvoaçar cruel, para a perdição.

A escuridão liga-se à decepção?

A decepção é a incapacidade de compreender um outro imaginário que não o nosso. É, por outro lado, desilusão sexual, a destruição da imagem da sereia como atracção e perigo. Fica o extremo dilaceramento.

São seres do mal, as sereias?

Seres do incompreensível. Há algo na nossa esfera mental que não alcança a cultura grega. Esse confronto, para o ocidental, é mortal, porque ele não está, de modo algum, preparado para a decepção.

Não se morre de desejo, mas não se regressa dele?

Não se morre dele, mas não se regressa igual. A história de Moisés, em Bastardia, relaciona-se com a dissonância entre os dois imaginários das sereias, mas a informação que ele recebe das mermaids não é muito forte, mais poderoso dir-se- -ia o universo das aves de rapina, rostos de mulher de absoluta estranheza que não pertencem a ninguém.

Filho do mar, Moisés? Que queria ele do mar, a sabedoria?

Sim. Acontece. Acredito nisso, que é possível existir um encontro, embora raro, entre energias vivas. Mas pode dar-se. Sendo filho do mar, Moisés tem a porção do seu desejo masculino encaminhada para as criaturas do mar. E ele queria saber, conhecer o pai.

Bastardia é uma narrativa cheia de mistério e de pressentimentos. Nela há dois rostos predominantes, o do pai e o da mãe. Quer falar deles?

Não os concebi previamente à escrita. Vi-os em situação. Gosto dela, daquela mulher, da sua imagem de camponesa com algo de rebeldia, de diferença que nunca leva a rupturas acabadas. O pai é um ser vago com a força da obstinação que tem quem lida com a terra. A acção decorre depois de O Crime do Padre Amaro e centra-se em Leiria, mas a Moisés só lhe interessa a direcção do mar.

Bastardo é, como diz, o que perdeu o dom da casa, o solitário?

Um ser marcado pela diferença, pelo segredo. Isso fá-lo perder os vários circuitos de protecção a família, a casa, a aldeia, a vila. Como qualquer filho bastardo, cuja bastardia é desconhecida pelos outros.

Fala-se do mal neste livro. A literatura torna-o mais inteligível?

Sim, mas não o considero uma questão contemporânea, embora esteja a tomar novas formas que não são ainda entendíveis. O mal que vem de outras civilizações é quase tão incompreensível como o que vinha das bruxas e dos seres demoníacos no tempo de Moisés.

A palavra tem o poder de o ver?

Talvez possa vê-lo, embora não deva. As palavras não devem proceder nesse sentido. Gosto apenas de segui-las nessa direcção, de expor o fascínio e a beleza que há nele, a energia também.

Está a falar dessa "coisa escura" que surge nas palavras, no correr do texto?

Não só, também da magia branca. Estou a falar de tudo o que escapou à pata civilizadora. Essas coisas gostam de palavras.

Não receia essa "coisa escura"?

Fui formada no receio da instituição. Os meus grandes medos - além dos normais das crianças e dos fantasmas das narrativas dos adultos - eram a polícia, a PIDE, o padre, tudo o que emanava da Igreja ou do poder. Isso levou-me a que os medos imaginários acabassem por ser menores e se tornassem mais atraentes. Passei a conviver amigavelmente com eles, até porque sempre existiam as fadas e os duendes que salvam.

Esta é "uma história assustada que corre de um lado para o outro, tentando libertar-se"?

Há uma corrida e um fim, uma chegada, uma luz que se liberta na história, nas palavras, e que vai ao encontro da decepção. Libertação num sentido amplo não a vejo, é mais uma obsessão, um impulso, uma busca de si mesmo.

Bastardia é, de alguma forma, o negativo de Montedemo?

Dir-se-ia a versão masculina de Montedemo, embora neste livro a vila seja a personagem. Bastardia é um cenário de sentimentos. Em ambos os livros há uma sexualização da natureza que pode chegar à fecundação de um ser humano.

Há algo de fantástico nos seus livros, qualquer coisa de Raul Brandão...

Não há uma filiação consciente em Brandão, nem directa nem remota, mas os universos literários coincidem de algum modo. Aquilino tem um conto semelhante no enredo a Montedemo, Andam Faunos pelos Bosques. Com ele não sinto afinidades nenhumas.

A ideia de um destino cego que pode destruir percorre a sua obra. É a voz da poesia e do teatro?

Talvez seja a Grécia em mim. Há tentativas múltiplas de a entender à luz da nossa lógica e ela escapa- -se-lhe. É isso que estimula o meu convívio com os gregos todos os dias, algo da ordem do desejo.

A tragédia repete-nos que o domínio da razão, da ordem, da justiça é limitado. É irreparável, impiedosa...

E eu tive uma educação positivista. Cresci com a esperança de que o mundo pudesse fazer sentido, de que os actos generosos tivessem sempre as mesmas consequências, de que a justiça funcionasse como bem absoluto. Para a criança que fui, o fatalismo, o inevitável, a pequenez provinham dos universos sociais, religiosos, analfabetos. O sentido trágico do mundo caiu sobre mim quando eu já não tinha protecção, a não ser a da cultura grega. Foi ela que me ajudou a aceitar o carácter cego do destino humano por meio da única solução possível, a beleza da criação.

A sua escrita é atravessada pelo que as palavras não cobrem. Sente-o?

Sinto a força do não-dito. Um texto faz-se de música, tecido que está sempre a ser puxado por duas energias, a da palavra e a do silêncio. O texto não é uma coisa nem outra. Por vezes, as palavras também são abusivas, há coisas a salvo delas.

Um pouco como no amor?

O não-dito é o mais eloquente no amor, que se move no território do inominável, do tabu, do sagrado. As palavras são adornos, dispensáveis, provocam disputas de soberania. Dão para fazer uns belos poemas... Mas eu sou inapta para lidar com a realidade.

Que lhe trouxe a sua mais bela personagem, Lillias Fraser?

Ela própria. Lillias é uma criatura que eu amo. Trouxe-me outra prenda muito bonita porque tem uma força de vida tal que já passou para dentro de outra ficção, o romance de Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, inspirado na vida da marquesa de Alorna.

Há uma cintilância nos seus livros que provém de um universo primitivo onde se abrigam as bruxas...

Que são seres não do caos, mas da desordem. Hoje há senhoras que dão consultas e que nada têm a ver com as minhas bruxas provindas do imaginário rural ainda muito nítido quando eu era criança. Nas minhas bruxas, a palavra não é solta, mas poderosa.

A sua obra reúne ainda a fuga, a transgressão, a loucura...

Tudo isso é o mesmo. Não me refiro a nenhum psicologismo na minha escrita.. A literatura não se sente bem no mundo de que dispomos e a que chegámos.

Realidade e ficção digladiando-se?

Isso é dar muita importância à realidade...

Mas ela existe, dá alegria e dói...

A realidade e as palavras são criação dos homens. Se eu tomar o partido da palavra, não estou a menosprezar o ser humano.

Escrever é o quê?

Criar e obedecer às palavras.

E estas obedecem a quê?

À sua música. São gatos. Tenho a submissão às palavras e aos gatos.

Escrever é uma fatalidade?

Uma tirania, uma bela servidão.

 

Ana Marques Gastão in Dn

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