testeira-loja

O Corpo Feminino da Nação.

Escrito por  Maria Nazareth Soares Fonseca
Classifique este item
(2 votos)
RESUMO: O texto propõe discutir as imagens de terra, pátria e nação construídas em poemas escritos por mulheres africanas e associar essas imagens com os modos como as literaturas africanas de língua portuguesa absorveram o projeto de identidade cultural, no período pré-independência. Como contraponto, são tecidas considerações sobre a escrita poética produzida por mulheres, em fase mais recente, a qual, subvertendo a tradição da poesia de combate, mostra-se mais atenta às expressões de um corpo que tem suas próprias emoções.

RESUMO: O texto propõe discutir as imagens de terra, pátria e nação construídas em poemas escritos por mulheres africanas e associar essas imagens com os modos como as literaturas africanas de língua portuguesa absorveram o projeto de identidade cultural, no período pré-independência. Como contraponto, são tecidas considerações sobre a escrita poética produzida por mulheres, em fase mais recente, a qual, subvertendo a tradição da poesia de combate, mostra-se mais atenta às expressões de um corpo que tem suas próprias emoções.

Ó minha África misteriosa, natural! Minha virgem violentada Minha mãe!... (Noémia de Souza)

Venham, oh mães, amparar-me nesta hora Morro porque estou ferida de amor (Ana Paula Tavares)

Fazer uma nação e fazer uma literatura são, como afirma Antônio Cândido (1969), processos simultâneos. A observação do teórico faz-se importante quando se pretende discutir os modos como, em poemas produzidos pelas modernas literaturas africanas de língua portuguesa, o corpo da nação é figurado por atributos femininos. Do mesmo modo, ao se ressaltarem as formas como a literatura procura preencher o vazio provocado pelo «desenraizamento de comunidades e parentescos» (Bhabha, 1998: 199), e utilizar-se de alegorias e metáforas que resgatam as imagens de terra e de nação, associando-as com a figura feminina, está-se penetrando num espaço de gestação do ideal de congraçamento que celebra o amor entre os iguais, mas que, por isso mesmo, precisa fortalecer-se na agressividade ao diferente. Pode-se dizer que, em textos dessas literaturas, a figuração de terra, território, ao se relacionar com imagens ligadas à mãe, ao milagre da gestação e do nascimento, recompõe a paisagem interior da identidade nacional e a pátria recupera as feições de uma grande mãe, louvada em versos como os que servem de epígrafe a este trabalho nos quais a alegoria, evidente nos de Noémia de Souza, é desconstruída pela subjectividade que aflora nos versos da poeta angolana Paula Tavares.

Para se discutirem essas dicções que aludem a momentos significativos das literaturas africanas e se indagar sobre os modos como a literatura produzida por mulheres deixa perceber as tensões próprias do ato de apropriação da escrita em espaços culturais marcados pela oralidade, fazem-se pertinentes algumas reflexões sobre as figurações de nação desenhadas no espaço da poesia.

A etimologia da palavra pátria é importante para se compreenderem as alegorias e figurações em que pátria é a nação imaginada como mulher, descrita como um corpo que nutre e aconchega. Nesse sentido, é interessante ressaltar que a palavra pátria, ainda que guarde muitos dos significados relacionados com o poder do pai, pater, deriva da palavra latina patria, feminina, preservando de sua origem uma gama de sentidos ligados à mulher, à mãe, por excelência. O imaginário ligado a terra, pátria, nação reforça com atributos femininos a idéia de origem, o lugar onde se nasceu, as alusões ao berço/colo «esplêndido» que nos embala. Não é de se estranhar, portanto, que imagens ligadas ao feminino sejam retomadas para se compor o corpo da nação, embora nem sempre seja a mulher a produtora dos discursos que tecem os contornos dessa comunidade imaginada, pensada como a grande casa que acolhe todos os seus filhos. No entanto, ao se transformar em alegoria e assumir os qualificativos que fortalecem o ideal de nação, o feminino é esvaziado dos predicados que fazem dele um corpo desejante, pois é silenciado em suas expressões mais íntimas. Alijado de corporeidade, o feminino faz-se realidade estética e política e fortalece a imagem da mulher-terra, da grande-mãe de colo e seios fartos, mas esvaziada em sexualidade. O corpo feminino é, assim, um locus indiferenciado e modelar, cujas virtudes são as que o ligam à maternidade, às ocupações ligadas ao ato de criar, de cuidar, à capacidade de amar, de forma indiferenciada, entretanto.

Muito se tem salientado que as literaturas africanas de língua portuguesa, em particular a angolana e a moçambicana, fazem-se sistema sob o signo das lutas por libertação. Discutindo essa questão, a professora Inocência Mata (1997), afirma que o processo de formação da literatura angolana acompanhou o da conscientização nacional e Fátima Mendonça (1995) aponta, na literatura moçambicana, um traço que se fortalece na busca de uma feição negra que se quer em disjunção com o modelo literário português. A partir de uma tradição que estaria próxima da busca de vertentes criativas fortalecidas como configurantes de uma diferença, alguns textos produzidos por mulheres, nas novas nações africanas que têm a língua portuguesa como língua nacional, reforçam o imaginário de terra, pátria e nação e ajudam a produzir uma literatura de feição nacionalista. Em textos literários mais recentes, que se voltam para a intensificação do trabalho com a linguagem, esforçando-se para que a escrita assuma as expressões do universo oral, o corpo feminino é, ainda, entrevisto no cumprimento das tradições que acompanham as tarefas costumeiras da mulher que pila, semeia e cultiva as machambas, colhe o alimento e cuida dos filhos. Mas nesses textos, o corpo é também um texto pulsante e se exprime em suas muitas linguagens.

Ao assumir como proposta deste trabalho, a produção literária de escritoras pertencentes a espaços que têm, na África, o português como língua oficial, pretendo estabelecer pontos de interseção com os quais parece ser possível identificar as diferentes dicções produzidas a partir da metaforização do corpo feminino que se faz terra fértil, úbere que alimenta e figuração da identidade. Com esse propósito volto-me para a produção poética de escritoras africanas e destaco tanto a que se nutre dos apelos de uma causa coletiva, como a que encaminhou o processo de independência de Angola e Moçambique, até a que se volta para o espaço em que o feminino se mostra. Procuro perceber e relação dos versos com «a função silenciosa que a mulher ocupa enquanto guardiã da maternidade»(KANDJIMBO, 1995:133) e como os novos papéis que passa a exercer em virtude das alterações político-econômicas em evidência no mundo globalizado.

No caso específico das literaturas africanas de língua portuguesa, o período caracterizado pelas lutas contra o colonialismo português mostra que as vozes femininas são raras e, quando se anunciam, incorporam-se à conclamação da tarefa de construção de um novo tempo em que a liberdade poderá vivida. Rastreando os poemas que compõem algumas coletâneas que nos dão a conhecer a produção literária da fase pré-independência de algumas das ex-colônias portuguesas na África, é possível perceber os modos como a mulher se anuncia como escritora, ao se inscrever nos textos que produz.

As Antologias de Poesia da Casa dos Estudantes do Império, (1994), a antologia de Poesia Negra de Expressão Portuguesa (1953), de Francisco Tenreiro e Mário Pinto de Andrade, a coletânea No Reino de Caliban, organizada por Manuel Ferreira, de 1998 e a Antologia de Poesia Africana; na noite grávida de punhais 1975), de Mário Pinto de Andrade, constituem o primeiro passo para a investigação das dicções femininas que podem ser ouvidas nos poemas registrados por essas antologias. Nesses poemas, delineia-se uma visão sobre a África em geral e sobre as peculiaridades do povo, das tradições celebradas, mas é sobretudo realçado o sofrimento imposto pela colonização e pelo trabalho forçado. Neles também se delineia o comprometimento da mulher escritora em África com a causa social que defende, ainda que, quase sempre, a voz da mulher não se distancie muito das outras vozes que clamam por justiça e cantam a esperança.

É interessante notar as imagens de mulher que se mostram nas ilustrações que aparecem em algumas das antologias selecionadas. Em algumas dessas ilustrações, como nas anexadas a este trabalho, a figura da mulher que carrega o filho no ventre ou às costas está relacionada com a tendência a se identificar a África com a maternidade, imagem insistentemente reiterada em muitos poemas escritos por homens e por mulheres. Essa feição literária ressalta o fato de que no período da pré-independência das ex-colônias portuguesas na África, o corpo feminino estar associado à simbologia da Mãe/Terra/África e, conforme afirma Inocência Mata, marcado por construções ideológicas que anunciam um projeto de ocupação dos espaços legitimados (MATA, 1994). Figurada por semas que indiciam uma dimensão épica da figura feminina, vista como corpo fecundante da terra ou como imagem geradora de um futuro de liberdade, a representação da mulher, nessa literatura produzida em tempos de guerra, modela-se, assim, pela insistência na fertilidade, na maternidade e pela percepção da mulher como herdeira e transmissora das tradições familiares. É essa mulher, personificada na força que sustenta a esperança no amanhã, que é cantada pela maioria dos poemas de feição revolucionária, escritos por mulheres. Mas, lendo mais atentamente esses poemas, é possível perceber-se uma enunciação em que a mulher, mesmo figurada como terra, mãe, irmã, expressa seus anseios e emoções.

No volume I das Antologias de Poesia da Casa dos Estudantes do Império, dedicado à produção poética de Angola e de São Tomé e Príncipe, o poema «Canção do mar vermelho», de Alda Lara, poeta angolana falecida em 1962, se expressa por um eu poético, que se anuncia pelo masculino (Amor/ (...) eu aguardo a tua presença, aqui, sozinho) e lamenta a distância que o separa do ser amado, não se furtando a descrever cenas do «drama de uma raça sacrificada», levada para «paragens longínquas e ignoradas». A descrição realista de cenas da escravidão contrasta com a intenção do eu-lírico de dirigir-se ao outro, conclamando-o a vir a cantar uma «canção do amor». Em outro poema da mesma autora, «Regresso», a terra africana é relembrada por versos que recuperam as cores vivas e os odores fortes de uma paisagem vista como «um inferno de cor». É interessante observar que, nesse poema, o feminino não se identifica por nenhuma marca linguística, mas pode ser apreendido no modo de descrição da paisagem angolana, marcado pelo excesso de cores das casuarinas, das acácias rubras pelo odor escaldante do «húmus vivificante» que embriaga, pela pujança das ondas do mar, das calemas traiçoeiras, das cheias alucinadas. No poema, os sentidos privilegiados são os que propiciam descrever a terra africana como o lugar paradisíaco, onde é possível viver o «prazer sem lei» nomeado pelo excesso. A mãe-África se expõe, assim, com seus trajes típicos (exuberância de cor, de calor, magia de sons) e o corpo feminino é o da terra que se mostra exuberante nos versos do poema. Em «Presença», a intensificação dos laços que ligam corpo da mulher à terra faz-se ainda pela recorrência aos aspectos que figuram Angola como metonímia da Mãe-África, identificada pelos «coqueiros de cabeleiras verdes/ e corpos arrojados sobre o azul». É interessante observar que o corpo de mulher, literariamente construído, (E apesar de tudo/ainda sou a mesma!/Livre e esguia), ao ser realçado pelos atributos da terra africana, afirma também a feminização do ideal a ser conquistado. A nação ganha, assim, atributos de mãe («mãe forte da floresta e do deserto), de irmã (ainda sou /a irmã-mulher/ de tudo o que em ti vibra), ainda que silencie as expressões mais íntimas de um corpo que tem os seus próprios desejos. Transformando-se no lugar onde gesta o amor pelos irmãos miseráveis explorados no cais, pelas crianças roídas pelas doenças (Regresso), pelos «desterrados» pelas prostitutas que se vendem nos bairros miseráveis (Testamento), os predicados da Mãe-negra, da Grande-mãe africana significam a terra aviltada, ao mesmo tempo que se faz básamo, lenitivo. Vê- se, assim, que nos poemas de Alda Lara, publicados nas Antologias de Poesia da Casa dos Estudantes do Império, quando o eu poético conclama o amor, esse também é pensado como um sentimento coletivo, como certeza da construção “de um mundo melhor»(Rumo).

Em poemas de Alda do Espírito Santo, de São Tomé e Príncipe, a figuração da terra como moldura de uma ação que propugna a liberdade também está presente não apenas nos textos recolhidos pelas Antologias de Poesia da Casa dos Estudantes do Império, como também nos três poemas que aparecem na Antologia de Poesia Africana; na noite grávida de punhais (1975).

Cenas do dia-a-dia são recuperados como celebração da terra. A faina dos contratados, das mulheres que sustentam os filhos e a vida com o suor do seu corpo, dos trabalhadores das docas, das roças, do mar de pesca são evocações que sustentam a esperança em mudanças (No mesmo lado da canoa). A denúncia de um sistema de repressão violenta (Trindade) deixa aflorar a certeza de que somente a resistência e a luta podem construir a esperança “num mundo sem peias/ onde a liberdade/é a pátria dos homens (Onde estão os homens caçados neste vento de loucura). Fica nítida, assim, a intenção de trazer para a cena do texto flagrantes da terra e de sua gente e de apontar, com a força dos versos, a situação de exceção em que se vive.

Também em poemas de Noémia de Souza, os temas recorrentes são os ligados à luta do povo moçambicano pela conquista de liberdade, os que salientam os contornos da terra africana, da África-mãe para desmanchar os estereótipos e as imagens negativas construídas sobre o continente:

E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual jarra etrusca, exotismo tropical, demência, atração, crueldade, animalidade, magia... e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias. (Souza. Apud Andrade, 1975, p. 150)

No «Poema da infância distante», a recorrência aos temas da infância, lugar de vivência do companheirismo e da felicidade recobre uma outra faceta dessa poesia de libertação. Ainda aqui, embora o eu-lírico se identifique com o feminino («dia a dia mais insatisfeita») e se expresse a vivência de «felicidades e aventura inesquecíveis», a subjetividade evidente desloca-se para o prazer de viver as brincadeiras com «os meus heterogéneos companheiros de infância» e para formular a esperança de que o tempo maravilhosos da infância possa ser vivido outra vez. Vê-se, portanto, a infância da poeta como metonímia de um tempo em que a felicidade fora possível para todos. É, todavia, no poema «Deixe passar o meu povo» que essa expressão de fraternidade, de amor ao povo de sua terra, sofrido e explorado, ganha força extraordinária. Estrategicamente, o eu-lírico apreende os sons da noite moçambicana pela associação com os gospels negros do Harlem. As vozes moçambicanas irmanam-se com as vozes vindas da América e o corpo da poeta transforma-se em «instrumento do (...) sangue em turbilhão» que a impele à escrita do poema. O poema torna-se, assim, manifestação de um corpo que se transforma para repudiar as «revoltas, dores, humilhações» com o «fel da revolta». É certo que, ainda aqui, o corpo é possuído pela dor do povo, por um sentimento coletivo, mas a escrita do poema faz-se impulsionada pela vibração que vem dos «sons longínquos de marimba» e das vozes de Robeson, Marian e Paul que atravessam o corpo da poeta e a escrita do poema.

Pode-se dizer que, ainda que esse corpo de mulher se mostre conturbado pelo clamor de uma causa coletiva, vislumbra-se, no poema, um deslocamento em que o erotismo se aloja na escrita e, sendo vibração, tensão, é força de um desejo que se faz poesia. Não é por acaso que é neste poema que Noémia de Souza deixa transparecer o poder de sedução da escrita que desarticula as fronteiras impostas à sujeição do corpo e às obrigações propostas pelo sofrimento. De certo modo, há uma contraposição entre o corpo da mulher comum, metonimizada pela referência à mãe «de mãos rudes e olhos cansados» e o da mulher que escreve o poema com «a alma e os nervos» remexidos, retesados. O corpo que escreve é, assim, um corpo possuído pelas emoções que pulsam nos versos, pelo fel que instiga a revolta e expurga a passividade.

Por outro lado, percebe-se que o fato mesmo de essas três poetas poderem-se fazer ouvir no espaço da literatura já anuncia uma transgressão dos modos como o corpo feminino é culturalmente representado. Deixando as ocupações tradicionais e assumindo a feitura do poema, a mulher transgride espaços demarcados e alegorias aprisionadoras. Ainda que em representações femininas de os poemas de Alda Lara, Alda do Espírito Santos e Noémia de Souza possa ser vista a reinscrição dos lugares de circulação da mulher: a gestação, a maternidade, a zeladora do lar, a que descobre a comida e reinventa a vida, ouve-se também a voz da mulher sonhadora, da que se encanta com as belezas da terra africana, da que se emociona seja com o sofrimento seja com o espetáculo da paisagem, com o burburinho das ruas e com os ritmos frenéticos das festas («Descendo o meu bairro» Alda do Espírito Santo). Ou se deixa extasiar com os «ritmos fraternos do samba» com que Noémia de Souza celebra a vitalidade do negros levados aos mais longínquos lugares. Ao cantar os ritmos fraternos do samba a poeta deixa aflorar um corpo em diferença, que se mostra no «gingar dos quadris» das mulheres e nas «pernas bailarinas dos negros». Por essas transgressões, a mulher que se anuncia nos poemas dessas três escritoras africanas, ainda que identificada com uma voz que clama por justiça, revela também um corpo que tem suas próprias emoções. De algum modo, o corpo feminino desloca-se das intenções veiculadas por um discurso que silencia as manifestações próprias à feminilidade.

As pulsações do corpo feminino que se escondem sob o manto do ideal a ser conquistado, sob compromisso com uma causa coletiva podem ser percebidas, de forma mais constante, na produção literária escrita por mulheres nos dias atuais. Também aqui, para falarmos dessas dicções que deixam aflorar um corpo que expõe conflitos, sentimentos, emoções, vamos nos ater a escritoras que aparecem em três antologias publicadas mais recentemente. Na mais antiga, a Antologia de jovens poetas angolanos, No caminho doloroso das coisas, publicada em 1988, são registradas produções de três poetas: Ana Paula Tavares, Ana Francisca Silva Major (Doriana) e Ana de Santana.

Das três, Ana Paula Tavares é, talvez, a mais conhecida dos estudiosos das literaturas africanas de língua portuguesa, e tem um excelente livro, O Lago da Lua, publicado em 1999, pela Editora Caminho, em Lisboa. Nos poemas de Ana Paula Tavares publicados na Antologia No caminho doloroso das coisas observa-se uma transgressão significativa dos modos enunciativos cultivados na fase da poesia de combate. A palavra poética deixa ressoar a voz da mulher, muitas vezes anunciando-se em lugares em que tradição ancestral é a lei que deve ser seguida:

Dos meus ancestrais ficou-me a paciência O sono profundo do deserto. A falta de limite... (Tavares. Apud Feijoó, 1988, p. 22)

Em outro poema, «A abóbora menina», a poeta anuncia a mulher e o feminino pela aproximação entre mulher e planta, apreendendo os gestos deliciados de uma e outra:

Tão gentil de distante, tão macia aos olhos vacunda, gordinha de segredos bem escondidos estende-se à distância procurando ser terra quem sabe possa acontecer o milagre: folhinhas verdes flor amarela ventre redondo

depois é só esperar nela desaguam todos os rapazes.

Fica evidente neste poema, inclusive na forma mais ousada, o enfraquecimento de uma voz que distanciada do corpo, procurou reproduzir o brado revolucionário, o ardor necessário à mudança. Passada a urgência das lutas, o corpo da nação vai-se construindo, talvez na contracorrente, por dicções mais atentas não apenas às tradições seculares, mas também às palavras ditas pela mulher na vivência de sua individualidade. Nos poemas de Ana Tavares o significante mulher é acentuado para acentuar a preocupação com o seu próprio corpo e com a situação real da mulher.

O poema «Canção para uma mulher» revela um universo definido pelos compromissos com os filhos e com as tarefas do dia-a-dia: o semear, o colher. A fecundação do ventre e a germinação da semente são expressões de um mesmo destino de espera, de resignação, de desencontros entre a ternura que brota desses gestos e a determinação de leis e de costumes. É pela voz da mulher que a escrita poética se faz pele de um outro corpo, um corpo que pulsa e que emite seus próprios ruídos.

Mesmo quando, o olhar é dirigido para o exterior, é com as emoções de um corpo pulsante que a terra se manifesta e a construção do poema faz-se semelhante ao bordado, à costura, ao cerzido: A vida bordou surpresas em ponto agrilhão/ Tecias auroras cerzidas nos mostram os versos do poema «Costuras», de Ana Francisca Silva Major.

Na Antologia da Nova Poesia Moçambicana, há somente a expressão de duas poetas. Noémia de Souza, com um poema escrito, em 1987, em homenagem a Samora Machel no qual ainda persistem as palavras de ordem características de grande parte de seus poemas escritos até 1951, quando saindo de Moçambique, deixou de escrever poesia. A homenagem ao líder político faz-se pela voz de mulheres que lamentam a morte do «filho maior». É com um coro de vozes femininas que a poeta reitera a imagem de uma nação cujos valores a serem preservados se mostram, com freqüência, identificados com a figura feminina. A nação ganha ainda os contornos da mãe, da geradora. No poema, as mulheres que choram o «filho» morto são guardiãs solenes que geram os filhos, pranteiam a sua morte, mas continuam a tecer a vida com as dificuldades do cotidiano.

Já nos poemas de Clodilde Silva vislumbram-se manifestações do corpo desobrigadas de uma relação mais próxima com o social. No poema «Desafio aos dogmas», o nome é bem significativo, evidencia-se o desejo da mulher de viver a sua sexualidade:

Ainda te ergo – Amor No meu estro sem idade E dissolvo dogmas Nesta doçura de meus lábios Sobre o teu cabelo.

Essa linguagem mais próxima das palpitações do corpo e de seus desejos pode ser percebida também em alguns poemas escritos por mulheres na Antologia dos novíssimos poetas cabo-verdianos, Mirabilis de veias ao sol, na qual, como nas outras antologias referidas, as mulheres são ainda vozes solitárias.

Em poemas de Alzira Cabral, de Arcília Barreto, de Dina Salústio, de Vera Duarte, o amor aparece delineado, às vezes, como sofrimento e a solidão da mulher é sintoma reiterado. Vejam-se alguns trechos: (...) é porque não sei (incrível !...) se saberia descrever-te com palavras os contornos do meu amor. (Silêncio, Alzira Cabral)

E chega o momento Em que faltam forças Ao ventre maduro De quem só quis Sentir a vida Sem se mentir (Sentir a vida, Arcília Barreto)

Éramos eu e tu Dentro de mim. Centenas de fantasmas compunham o espetáculo E o medo Todo o medo do mundo em câmara lenta nos meus olhos. (Apanhar é ruim de mais, Dina Salústio) Em todos os fragmentos é possível perceber-se que o eu enunciador se forja num universo feminino talhado em medos e solidões, mas aflora uma subjetividade que tece os versos, mais próximos das emoções sentidas.

Em alguns dos «Exercícios poéticos», de Vera Duarte, pode-se perceber uma reflexão sobre a situação da mulher e a revelação de uma consciência profunda de lugares ainda rigidamente instalados:

E dentro de mim, censuradas, sucedem-me, minuto a minuto, as imagens interditas e as sensações proibidas. Sublimar é a palavra d’ordem. O amor e a paixão a libido e o prazer. No altar dos valores supremos. Sublimar aqui e agora e manter estóica e estupidamente secretos os diálogos que comigo mantenho contigo. (Vera Duarte, Exercício poético 5) Ao se reflectir sobre as representações literárias construídas na África de língua portuguesa para tecer as imagens de terra e a figuração de nação, com elementos do universo feminino, procurou-se observar os modos como tais imagens se elaboram como formas de comunicação e de criação desenvolvidas pelas mulheres nas diferentes ocupações em que se empenham. Analisando a produção poética feminina procurou-se indagar sobre a real significação das imagens de mulher que aparecem em poemas escritos em diferentes fases das literaturas africanas, nascidas em contextos culturais de longa tradição oral onde a palavra está associada com o corpo, pois ressoa em seus ritmos. Pode-se, assim, procurar nas modulações do corpo feminino que se expõem no texto literário, a permanência dos cantos e danças que «dão alegria e cor aos rituais e às funções do dia-a-dia»(CHIZIANE, 1999: 98), mostrando que, afinal, o corpo da nação expressa-se por múltiplas linguagens.

Pode-se dizer, então, que, passada a urgência das lutas revolucionárias, a mulher poeta desloca-se dos discursos que a descrevem esvaziada de si mesma, para assumir, com seus versos, a palavra falada nos rituais da oralidade, o corpo expresso em viva voz, gestos, emoção e sensualidade. Essa consciência das sensações do corpo tão significativa de culturas que têm uma larga tradição oral pode possibilitar que a literatura, arte da palavra escrita, faça-se como um ato de recolha e preservação de manifestações que, resgatando o universo feminino, interagem-se com outras expressões, para recompor a multiplicidade em que tais culturas se mostram.

RÉSUMÉ

Dans cet essaye, on se propose à mettre en relief les images raspportés à la terre, à la patrie et à la nation qui se trouvent dans des poèmes de femmes africaines pour les associer au project d’identité culturelle que les intelectuels ont défendu pendant le période de la prè-indépendance. D’un autre côté, on fait des considérations sur l’écriture poétique actuel pour démontrer que cette écriture en subvertissant la poésie de combat, expose les expressions d’un corps qui a des émotions intimes.

Referências bibliográficas

ALMADA, José Luís Hopffer. Mirabilis de veias ao sol. Lisboa:Caminho, 1981.

ANDRADE, Mário. Antologia Temática de Poesia Africana; Na noite grávida de punhais. Lisboa: Sá da Costa, 1975. ANDRADE. Mario. Antologias de Poesia da Casa dos Estudantes Do Império. Lisboa: ACEI, 1994. Vol. I e II. BHABHA, Homi K. O local da Cultura. Trad. Myrian Ávila et al. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998. BRASÃO, Inês Paulo. Dons e Disciplinas do Corpo Feminino; os discursos Sobre o corpo da história do Estado Novo. Lisboa: Gráfica 2000. 1999.

CHIZIANE, Paulina. A literatura como forma de expressão popular. In: Mar além; revista de cultura e literatura dos países africanos de língua Oficial portuguesa. Maio, 1999, p. 97- 99. FEIJOÓ, Lopito (Org.). No caminho doloroso das coisas. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1988. FERREIRA, Manuel. No Reino de Caliban. Vol. I, II, III.Lisboa: Plátano Editora, 1994. FONSECA, Maria Nazareth Soares. Vozes femininas em afrodicções poéticas Brasil e África portuguesa. In: Anais do Seminário Internacional «A Situação da mulher escritora em África e na América Latina. Lisboa: Associação Regresso das Caravelas (no prelo). KANDJIMBO, Luís. Apologia de Kalitangi; ensaio e crítica. Luanda: Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1997. MATA, Inocência. As vozes femininas na literatura africana; passado e presente; representações da mulher na produção literária de mulheres. Anais do Congresso «O rosto feminino da expansão portuguesa». Lisboa, 1994. MENDONÇA, Fátima e SAÚTE, Nelson. Antologia da Nova Poesia Moçambicana. Maputo: União dos Escritores Moçambicanos, 1988.

Ler 7706 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips