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Exclusivo com o Francisco Soares da Universidade Katiavala Bwila Destaque

Escrito por  Cláudio Fortuna

Francisco Soares, é professor a mais de vinte anos de literatura africana de expressão, neste momento lecciona nas Universidades de Évora e da Katiavala Bwila em Benguela, é critico literário, poesia e fotografia, nesta conversa fala-nos a produção literária Angolana, da fraca critica literária no país, da importância da obra de Óscar Ribas, da historia da literatura Angolana, que foi uma iniciativa do Ministério da Cultura, cuja comissão havia tomado posse em 2005, e tinha como mesa a entrega do draft, em 2009, algo que não veio acontecer e não sabemos os motivos presidentes que impediram a não concretização deste desiderato.


Professor Francisco Soares, gostaríamos que nos ajudasse a caracterizar o estado actual da literatura angolana?


F.S- Está bem, há um aumento em quantidade, mas também há um aumento em qualidade e inovação, há como sempre pessoas que tentam travar o progresso que é uma coisa inútil de fazer, retomamos algumas linhas de orientação da literatura angolana, que estavam meio esquecidas e avançamos com outras, criamos outras, eu acho que a literatura angolana está viva, está boa, bom claro! Como também há muitos livros, há muita coisa que não presta, isto é normal.


Viajando imaginariamente pelo anos 80, década em que houve uma produção literária muito grande para época, com a União dos escritores Angolano, a jogar um papel de charneira na edição de obras, e da própria Brigada Jovem de Literatura Angolana, temos a impressão, pelo menos a vista desarmada que o quadro é diferente, qual é a sua virtude de razão, professor?


F.S- O quadro já  não é o mesmo, é totalmente diferente por vários aspectos e por vários motivos, aquela era outra União de outro tempo, a U.E.A. entretanto, tem publicado na mesma, não é! Agora num quadro mais diversificado, naquela altura a União cumpria o seu papel julgo eu, houve as Brigadas que também cumprira o seu papel, houve a Achote, que foi uma publicação muito interessante e que daquele quadro, conseguiu ser independente e isto foi muito importante. Actualmente, há uma diversidade muito maior, e um índice de convivialidade muito maior, há mais editoras, há mais edições. Portanto, não podemos, não temos grandes condições para fazer esta comparação, praticamente naquele tempo quem editava era a União, por vezes a Mensagem, por vezes o INALD, mas sobretudo a União dos Escritores Angolanos, era a grande editora não é! E o nosso meio cultural e editorial era ainda pequeno, repare, que os escritores que se revelaram nos anos 80, eram poucos, relativamente aos que se vêm revelando nos últimos dez anos.


Um dos barómetros para aferirmos a qualidade da nossa literatura é inquestionavelmente a critica literária, esta é uma área que nos parece que não tem estado acompanhar a produção literária angolana, como é que a literatura poderá sobreviver, sem exactamente este condimento?


F.S- Bom! A literatura e a crítica literária são como dois irmãos não são! Eles não pediram para nascer juntos, depois de nascerem são irmãos para o resto da vida, acredito que a critica literária em Angola, tenha que evoluir mais, mas vejo um interesse cada vez maior pela crítica, e cada vez mais gente a querer fazer critica literária. Agora, a critica literária como a produção literária, exige muita leitura, uma leitura com inteira liberdade, e com sentido crítico, pondo em causa preconceitos, pondo em causa, tudo aquilo que nos é dado, a partida como uma coisa que temos que pensar e acabou não é! O exercício da crítica é essencialmente um exercício de inteira liberdade, e de lucidez, sobre a literatura não é!


As faculdades de Letras podem ser um indicador extraordinário, que ajudará  na mudança do quadro?


F.S. Quer dizer, todos os estudos de literatura, toda universidade onde haja estudos de literatura vai de certeza ajudar, mas se podermos com isso facultar aos alunos, bibliografia, endereços na Internet, onde eles possam ler boas criticas, bons livros e artigos de teorias literárias, para acompanharem tudo que se tem feito, vivemos no mundo inteiro, hoje um momento de intensa e qualificada diversidade, em termos de pensamento critico, há  muitas correntes de pensamento, e elas apuram-se num debate frutífero, e formidável, quando assim não é, põe – se de lado, e há muitas correntes de pensamento, que têm cada vez desenvolvido e se têm teorizado mais as suas posições e o que é fundamental para nossa critica, e sem esquecermos a herança que temos, é estarmos a par daquilo que se está fazer no mundo inteiro, se não vamos fazer uma coisa que não interessa a ninguém, porque está ultrapassada, porque aquilo que estamos a dizer, já foi pensado, e superado até por aqueles que são discípulos dos que foram nossos Mestres.


Que receita deixaria, para aquele que pretendem navegar pelo exercício da crítica literária?


F.S- Não há  receitas, há talvez alguns preconceitos, desafiar-se em primeiro lugar a si próprio, e tentar examinar tudo aquilo em que acredita.


Que apreciação faz da obra produzida por Óscar Ribas professor?


F.S- É um autor que me interesso desde muito novo, continuo a lê-lo, com muito interesse, em primeiro lugar, foi um grande escritor, em segundo lugar tem uma obra etnográfica incontornável, e não podemos falar hoje de Angolanidade sem falar, da obra de Óscar Ribas, quer literária, quer etnográfica. Portanto, faço uma leitura sempre entusiasmada, sem deixar de a fazer com sentido crítico.


Há  alguns críticos literários, alegam que nas primeiras obras de Óscar Ribas, haver reiteradas vezes referencias nas dedicatórias favoráveis ao colonialismo, que apreciação faz destas apreciações?


F.S- É preciso transmitirmos nas gerações mais novas o contexto, em que aquelas pessoas do princípio do século estavam a trabalhar, se eles não fizessem certos elogios não tinham margens de manobra. Portanto, seriam presos, desapossados dos seus bens não é! Então, retoricamente é claro, faziam alguns elogios, para ver se mantinham alguma margem de manobra, para não serem reprimidos e se podiam continuar a publicar, é preciso entender as coisas assim. Porque, se formos a ver por outro lado, toda obra do Óscar Ribas, é uma obra essencialmente Angolana. Portanto, que não haja dúvidas sobre isto, como nos foi revelado, o Óscar Ribas, mantinha o contacto assíduo por correspondência com os líderes nacionalistas, entre eles o Cónego Manuel das Neves, que esteve por de trás do 04 de Fevereiro, e outros líderes nacionalistas, que ele contactava por escrito. Portento, ele estava atento, não tenho duvidas nenhumas que ele sempre quis a independência de Angola. É preciso sabermos ler as coisas no seu contexto.


Segundo o professor Michel Laban, também de feliz memoria, dizia ele que o Óscar Ribas, o teria escrito uma carta a solicitar um exemplar do seu primeiro livros “ Nuvens que Passam”. Acha que seria pertinente fazer-se a reimpressão desta obra?


F.S- Acho que é  interessante, porque é a primeira obra dele, temos que ler como é que ele começou a escrever, hoje a gente vê grandes escritores que até mandam retirar as primeiras obras porque têm vergonha delas não é! O Óscar Ribas, assumiu, era um homem certamente íntegro e assumiu sempre as suas obras, e eu acho que é preciso reeditar toda obra dele, isso já foi feito, estão aqui os livros, falta precisamente “ Nuvens que Passam”. E falta um outro que agora o título escapa-me, faltam dois títulos ainda, que tenho certeza, que vão sair proximamente não é! Mas esperemos por eles.


Faz parte da equipa que trabalha para feitura da Historia da Literatura Angolana?


F.S – Não faço parte de equipas oficiais.


Mais alguma coisa a dizer sobre esta iniciativa?


F.S – Não tenho opinião, não conheço o suficiente para emitir um opinião, em tempos recuados fui contactado, mostrei a minha disponibilidade, mas disse sempre que não faria parte de qualquer historia, digamos que culturalmente conduzida ou condicionada.


Se tivesse que fazer uma pesquisa pessoal, em função varias categorias de pesquisa, qual seria a que melhor se adaptaria?


F.S- Por inclinação pessoal dedico-me mais a poesia lírica e o verso, dedicar-me –  ia, mas a esta área.


Uma palavra para os leitores, e apreciadores da sua obra.


F.S- O importante, é, continuar a ler, há gente que as vezes têm esta dificuldade, não temos reacções, ou há reacções de elogio gratuitos e inconsequente, ou há reacções de críticas também gratuitas, a maior gratidão que o escritor pode ter, é ver que os seus livros são comentados, por outras pessoas.


Tem alguma obra em forja professor?


F.S – Sim, mais do que uma, mas principalmente uma sobre os livros que saíram em Angola no século XIX, sobre a investigação que venho conduzindo desde 1996.


Quando é que sai?


F.S- Bom, ainda não tive tempo para acabar de escrever, depois procuro o editor

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