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Entrevista a Luís Filipe Borges: "A escrita criativa é a minha paixão" Destaque

Escrito por  Sofia Martins Santos
Homem de vários ofícios, Luís Filipe Borges confessa-se muito romântico. Feliz e realizado, afirma que não pensa na fama e assume que o seu maior medo é acabar sozinho.

P - O Luís é um homem dos ‘sete ofícios'. Mas qual é a sua verdadeira paixão?


- Definitivamente, é a escrita.
- Faz questão de que a escrita esteja sempre em primeiro lugar ou fica dividido pela paixão que sente por outros projectos?

- Apaixono-me pelos outros projectos mas faço sempre questão de que a escrita esteja envolvida. Por exemplo, no ‘5 para a Meia-Noite', cada um escreve para o seu próprio programa. Eu gosto de ter sempre em mãos um projecto de escrita.
- Sem a escrita, haveria um vazio...

- Haveria, certamente, mas provavelmente sem as outras coisas a escrita sofreria também um sentimento de vazio. Eu utilizo muitas coisas de outros projectos que tenho na escrita. Escrevi alguns dos últimos episódios do ‘Conta-me Como Foi' e usei muitos pormenores baseados em coisas que vivi.
- Que projectos tem agora?

- O ‘5 para a Meia-Noite', a crónica no ‘Sol' e o ‘Caveman', no Teatro Armando Cortez. Vou ser embaixador do licor Beirão, juntamente com os outros anfitriões [do ‘5 para a Meia-Noite'], e sou formador de escrita criativa.
- Com todos estes projectos, o que fica para trás?

- Muitas vezes fica o descanso, e é possível que fique a saúde também, porque eu há três anos que não tenho férias e já começo a notar nas dores de cabeça. De resto, não fica nada para trás, porque eu gosto muito do meu trabalho e não o encaro como tal. São coisas que me ocupam muito tempo e exigem muito esforço mas que me dão um gozo enorme.
- Quantas horas de trabalho tem um dia normal?

- Tem muitas. É muito raro ter fins-de-semana. Não sei quantas horas de trabalho tenho por dia mas sei que estou sempre a trabalhar.
- Com uma vida tão preenchida, como é ter uma namorada?

- As coisas têm corrido bem. Se uma pessoa está comprometida e feliz, como é o meu caso, arranja tempo de qualidade. O tempo que estamos juntos é muito bem aproveitado. Já houve alturas no passado em que o trabalho era bastante negativo para as relações, mas isso é tudo uma questão de feitios e compatibilidades, porque quando a outra pessoa entende o nosso trabalho tudo se torna mais fácil.
- Nunca se falou muito da sua vida pessoal...

- Pois não, mas eu também faço por isso. Como comediante, dá-me jeito que as pessoas mostrem o seu lado mais pessoal, mas eu não quero ser conhecido pela minha vida pessoal.
- Sente-se famoso?

- Nem sequer penso nisso, porque não é um objectivo. Embora tenha 33 anos, ainda sou do tempo em que as pessoas tinham de fazer qualquer coisa para serem famosas, agora acho que isso já não acontece. Sinto-me reconhecido pelo trabalho que faço, e essa era a minha ambição.
- O que é o pior da fama?

- O meu público é muito simpático, porque quem me vê quer ver. É um nicho, e por isso nós [do ‘5 para a Meia-Noite'] não somos um fenómeno de massas como seríamos fazendo parte do elenco de uma novela de horário nobre. Tenho dificuldade em compreender as pessoas que falam mal da fama. Num país como o nosso, a fama só nos dá coisas boas, e quem nega isso está a ser hipócrita. Muitas vezes queremos uma coisa que podemos comprar, mas as pessoas oferecem.
- Hoje agradece aos seus pais não terem gostado da ideia de ser actor?

- Não sei se agradecer seria o termo, mas compreendo. Para mim é uma questão bastante bem resolvida, porque fez com que procurasse outras saídas criativas. Acabei por ir ter ao mesmo sítio que ambicionei no início. Não me considero actor, mas posso experimentar e iludir-me um bocadinho em alguns projectos. Considero-me realizado, e percebo os meus pais porque, na altura, a ideia deles era eu vir para o Continente estudar qualquer coisa mas depois voltar para o arquipélago. Se fosse um actor nunca conseguiria trabalho nos Açores, e os meus pais perceberam isso, razão pela qual não me apoiaram.
- Muitas vezes pega em temas muito delicados. Já se autocensurou?

- Já, porque, ao contrário de alguns comediantes, acredito que há limites no humor. Isso aconteceu, por exemplo, com o homicídio do Carlos Castro, homem por quem não nutria a mais pequena admiração mas, independentemente de gostar ou não, é uma pessoa que morreu em circunstâncias horrendas, e eu penso que tem de haver respeito.
- Lembra-se da sua primeira crónica no jornal ‘A Capital'?

- Não me lembro da primeira mas fico contente por recordar isso, já que foi o trabalho individual que mais gozo me deu fazer na vida.
- Quando olha para o rapaz que escreveu a crónica e para o homem que está a dar esta entrevista, que diferenças é que vê?

- O rapaz era muito mais ingénuo e não sabia que ia fazer televisão dando a cara. Aliás, foram essas crónicas que me levaram até à televisão, o que é uma coisa estranha e relativamente rara em Portugal. O rapaz que escrevia as crónicas nessa altura confiava mais na bondade do ser humano e permitia alguns excessos, porque não tinha a noção do impacto que as palavras escritas têm. Acabei por fazer alguns inimigos sem estar à espera.
- Tem um livro que se chama ‘Desejo Casar'. O casamento faz parte dos seus planos?

- Já fez, mas agora já não. Já ‘fui noivo', mas não cheguei a casar porque as coisas correram mal. Agora já não penso nisso, a não ser que tenha alguém que trate de tudo e diga: "Amanhã casas-te, porque está tudo pronto."
- É conhecido como o ‘Boinas'. Acha que o conhecem mais pela alcunha do que pelo nome?

- Sem dúvida. Poucas pessoas sabem o meu nome, mas fui eu próprio que comecei a fomentar que me chamassem o ‘Boinas'.
- Faz tudo com a boina?

- Não, por exemplo, tiro-a para fazer ‘o amor'. Além disso, há trabalhos em que não posso usá-la, e no Verão é muito raro usar.
- Quanto custou a mais cara?

- Não me lembro de quanto custou mas sei que paguei 220 euros por uma boina, umas luvas e um cachecol. Nunca mais.
- Considera-se uma pessoa simples?

- Simples, realizada e muito feliz. Tão feliz que até mete medo.
- Por falar de medos, tem algum?

- Tenho imensos. Tenho pavor de baratas, porque as dos Açores são muito grandes. Além disso, tenho medo de acabar sozinho. Esse é o meu principal medo.
- É um profissional bem remunerado?

- Não me posso queixar. Tenho noção do país onde vivo e tenho noção do momento que atravessamos. Trabalho, e sempre trabalhei, a recibos verdes; se pudesse escolher não era assim mas, por outro lado, faz com que esteja sempre atento.
- O que ganha dá para luxos?

- Gosto de um bom fim-de-semana fora mas não tenho extravagâncias. Sempre vivi em casas arrendadas, por gosto da sensação de poder mudar quando quiser, e os únicos bens que tenho em minha posse são livros, CD e um carro em segunda mão. Estou longe de receber como a Júlia Pinheiro, mas se ganhar sempre o mesmo consigo viver bem. Não vou dizer quanto, porque é variável, mas dá para tudo.
- Como é a sua relação com os Gato Fedorento?

- Não existe nenhuma relação. Eles fizeram piadas sobre mim no passado e, apesar de ser grande admirador do trabalho do Ricardo Araújo Pereira, como milhões de pessoas, não há qualquer tipo de relação entre nós.
- Como lida com as críticas?

- Muito bem. Eu comecei a trabalhar na Mínima Ideia, uma pequena produtora de televisão que ainda existe, e o meu patrão era o Luís Osório, um líder nato. Nós éramos uma equipa muito pequena e ele foi um mestre que me ensinou a relativizar a crítica. O primeiro programa que fiz foi o ‘Zapping', e nós tivemos uma crítica extraordinária. Estávamos todos contentes, e ele disse: "Não liguem muito a isso e comecem já a trabalhar, porque esta foi muito boa mas há-de vir uma má." E foi mesmo isso que aconteceu. Tento sempre tirar o melhor que lá está mas não tenho muitas críticas más.
- Qual é a sua melhor qualidade?

- Ninguém é bom avaliador em causa própria, mas acho que a minha melhor qualidade é o sentido de humor.
- Já sentiu vontade de sair de Portugal?

- Já. Sempre quis experimentar viver fora de Portugal. Temo que já não vá a tempo, mas Madrid seria uma das primeiras opções.
INTIMIDADES
- Quem gostaria de convidar para um jantar a dois?

- Gostava de convidar o Miguel Esteves Cardoso, porque é um dos autores portugueses de quem li a obra toda e penso que ele é fundamental para a minha geração.
- Não consigo resistir a...

- ... um cigarro com um café, apesar do péssimo exemplo.
- Se pudesse, o que mudava em si, no corpo e no feitio?

- No feitio, deixava de ser tão ansioso. Fisicamente, gostava de ter mais 10 cm [mede 1,74m].
- Sinto-me melhor quando...

- Durmo muito. Tenho de dormir dez horas, pelo menos, para me sentir mesmo bem.
- O que não suporta no sexo oposto?

- Acho que o sexo feminino é muito mais interessante do que o meu. Mas se tivesse que escolher uma coisa, talvez acabasse com a parte em que as mulheres dizem "não sei". É o pior, porque esse "não sei" pode ter muita coisa envolvida.
- Qual é o seu pequeno crime diário?

- Cigarros a mais, mas estou a reduzir. Neste momento já consigo fixar-me num maço diário.
- O que seria capaz de fazer por amor?

- Qualquer coisa. Até mesmo atirar-me para a frente de um autocarro antes que o autocarro atingisse a pessoa de quem gosto. Sou dolorosamente romântico.
- Complete. A minha vida é...
- ... um absoluto privilégio, porque tenho o prazer de trabalhar no que gosto.
PERFIL
Luís Filipe Borges nasceu em Angra do Heroísmo, nos Açores, no dia 5 de Agosto de 1977. Actualmente é um dos apresentadores do programa ‘5 para a Meia-Noite', da RTP 2. É ainda autor de vários livros, como é o caso de ‘A Vida é Só Fumaça' e ‘Desejo Casar' e...
Sou português...e agora?

Luís Filipe Borges arregaçou as mangas e partiu por um caminho sem retorno, à descoberta do que afinal é ser português. Um espécime único que devemos a todo o custo preservar, com uma relação conflituosa e ambígua com o futebol, o sexo, o trânsito, a Economia, a Europa, os telemóveis, a política, os imigrantes, etc. Claro que há sempre a hipótese de deixar de ser português, através de estratégias mirabolantes inventadas pelo «gajo da boina» e que podem ser seguidas à risca, sem perigo de vida. Mas e daí, quem é que quer deixar de ser «tuga», quando somos invejados por todos os outros habitantes do planeta Terra, pelo clima do nosso belo país à beira mar plantado, pela bica quentinha, o pastel de nata, o fado, o Mourinho…

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