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“A língua de um povo é que substância o espaço de identidade”- Prof. Yada Castro Destaque

Escrito por  Claúdio Fortuna
Professora Yeda Pessoa de Castro, étno linguista, professora da Universidade do Estado Salvador da Baía é a convidada para esta edição cultural do Semanário Angolense, ouvimos de sua justiça sobre a produção literária em Angola, a questão a oralidade e da crítica literária e das Faculdades de letras ,que na opinião devia-se chamar Faculdade de Línguas e não de Letras, porque Letras na opinião da nossa  da nossa convidada mata à oralidade.

SA- A professora tem estado a estudar a literatura africana, que apreciação faz da evolução professora?

YP- Eu tenho estado a estudar a literatura africana, no que diz respeito aquilo que está associado às Línguas africanas sobretudo as angolanas, tem sido o meu principal foco de interesse, fiz o meu doutoramento na antiga Universidade do Yale, em linguística  africana, dentro da  área de étno linguística, por isso é que também transito pela literatura, mais no que diz respeito ao que é usado dentro desta literatura em termos de línguas nacionais.




SA- Que influências é que as línguas africanas podem ou têm na literatura angolana em particular?


YP- Eu tenho notado que ultimamente, tem havido uma progressão muito grande em termos africanos  nas expressões angolanas dentro da literatura, que antes disso, eram poucos  escritores que faziam uso deste recurso. Alias, o pioneiro foi o Óscar Ribas, que começou a estar nas línguas angolanas, a introdução do costume dentro da sua literatura, frase e expressões e provérbios publicados por ele, sobretudo da língua Kimbundu não é? Mas vejo que ultimamente, há uma grande produção dentro da literatura angolana, do que há de línguas africanas, que é muito importante, e afinal de contas” A língua de um povo, é que substância o espaço de identidade , e o espaço identitário deste povo”. Portanto, é importante fazer-se uso das palavras e dos termos africanos, a mesma coisa acontece no Brasil, por exemplo os Romances do Jorge Amado, estão cheios de termos baianos, termos brasileiros que são rigorosamente termos africanos, que expressam exactamente a identidade  e à nacionalidade de um povo que nós assumimos.




SA- Esta tonalidade é fundamental para se detectar angolanidade  na nossa literatura professora?


YP- Acredito que sim, se nós partirmos do principio de que a língua substância o espaço identitário e de identidade de um povo, como diz à grande linguista angolana Amélia Mingas, claro que quando   usa os termos nativos, termos nacionais você está dar uma identidade nacional à literatura e a língua que está a fazer uso, e a própria literatura que  está escrever. Embora seja feita em português, mais  afasta do português de Portugal.



SA- Assim sendo professora, até que ponto é que as línguas africanas podem servir de marcos identitários para o reconhecimento da  literatura em si?


YP- É  verdade elas dão um marco, em cada palavra africana e angolana particularmente, da sua língua materna, da sua língua nacional que se usa, nota-se em cada palavra que  escreve lá se  encontra  à identidade angolana, a sua identidade, por exemplo nós Brasil, só temos uma palavra para dizer o filho mais jovem, o filho mais moço, que é a palavra cassula que é o vosso cassule, é a única palavra que nós temos no Brasil. Portanto, se nós escrevemos qualquer texto ou qualquer coisa que  invés de usarmos à palavra cassula, usamos Benjamim, toda gente vai reconhecer que aquilo não é brasileiro, porque a Palavra brasileira que nos identifica a nossa nacionalidade é a palavra cassula, a mesma coisa acontece com o samba, o samba é de origem angolana, mais nós incorporámos como musica como identidade como estado de espírito, hoje todo mundo reconhece o samba como manifestação autenticamente brasileira, isto é importante, à língua marca,  a palavra marca definitivamente a identidade de um povo.




SA- Nesta senda professora, qual é o  papel joga a oralidade no meio disto tudo?


YP-Á oralidade é mais importante ainda, porque antes da escrita o que havia era oralidade, este espaço é de contos de cânticos, a tradição oral africana é muito importante. Embora, o mundo ocidental toda pedagogia do mundo ocidental esteja baseada no prestigio da escrita, da escrita literária em literais, em letras, fez com que à oralidade fosse relegada ao segundo plano, por causa deste preconceito, deste parâmetro entre a escrita europeia e a oralidade africana que nós temos muito  no Brasil, às línguas africanas no Brasil, até hoje não chegaram no posicionamento de línguas dentro das nossas Universidades, este ainda é um grande preconceito porque não eram línguas com escrita literária, que só recentemente é que começaram a ter, elas ainda são descriminadas, são vistas como  falares inferiores e num outro eram vistos como dialectos porquê? Porque falta à escrita. Ora, é um grande preconceito por não vermos a oralidade como parte da ciência, como parte da história, ela  tem que ser incluída na história, porque antes da escrita  havia a fala, o ser humano primeiro começou a falar depois inventou a escrita para reproduzir o que estava falar.




SA- Uma das grandes faltas em termos literários em Angola tem a ver com a pousa crítica literária, segundo alguns autores insuspeitos afirmam que a nossa literatura tem qualidade, mais paradoxalmente não temos uma crítica literária que se compagina com esta classificação, qual é a sua visão professora?


YP- Bom! Não vejo porquê, à crítica literária, não conheço profundamente as literaturas africanas  , embora conheça um pouco das literaturas africanas de expressão inglesa, porque vivi cinco anos na Nigéria, acabei por fazer o meu mestrado na Nigéria em Linguística, tenho reparado que é a mesma coisa que se passa aqui, então, porque nos temos que acreditar nas críticas, o que interessa de facto é fazer e continuar a fazer, escrever o que se tem feito aqui, tenho estado a usar coisas da literatura infantil angolana que se tem publicado, como a publicação da Kanguimo Ananás, “O Avó Sabalu” e tenho estado a citar nos meus trabalhos, porquê? Porque ela traz dentro do seu livro  uma história  de um jogo infantil que é muito conhecido entre vocês que é o Kiela, que nós usamos também no Brasil, temos que dar credito a este aspecto não é? A crítica literária tem de ser uma crítica positiva, sempre positiva, e nunca desestimuladora, na verdade dos países africanos de língua  portuguesa, à literatura angolana é que se tem revelado mais produtiva, e a mais importante de todas.




SA -A literatura hoje é ciência e  não se pode falar da literatura sem falar da ciência, já temos implantada em Angola, algo que a muito se reivindicou, a Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, professora, até que ponto é que as Universidades podem podem desempenhar um papel preponderante, para qualidade da produção literária?


YP- Ai é que está, não concordo com este titulo de Faculdade de Letras, porque acho que devia ser Faculdade de Línguas, a partir do momento em que as Línguas africanas e voltando a questão da oralidade não tinham escrita, não tinham letras. Então, com a Faculdade de Letras acho que este termo deve ser retirado, para ser Faculdade de Línguas ou Instituto de Línguas, porque Faculdade de Letras, vai se basear muito nas Letras, e que Letras? Da Europa, as letras em Literatura e línguas hoje não têm o prestigio da escrita em relação a tradição oral africana.



SA  - Apesar de não concordar à designação de Faculdade de Letras, mais tem a componente da crítica literária, um dos papeis que os estudantes e estudiosos, não sairiam da Universidade com ferramentas aceitáveis para ajudar na qualidade literária professora?



YP- Sim! Claro que sim, porque hoje quem venceu ou quem está vencer infelizmente hoje é o poder da escrita, do mundo ocidental do mundo europeu, é o português de Camões que está a vencer à oralidade africana, é o que se passa também no Brasil, porque não se admite no Brasil que as línguas africanas, e o Brasil africanizou o português de Camões, como tenho estado a dizer. Porquê? Como é que se imaginaria, línguas faladas por indivíduos escravizados que não tinham a forma de  literatura escrita de uma forma literária podia influenciar numa língua de prestigio à língua de Camões. Jamais! Então, os preconceitos parte dai, é bom que estas Faculdades formem  os estudantes, mais que eles não a busca dos parâmetros “europeizantes”para explicar a questão das línguas nativas.



SA- Hoje a literatura é um produto vendável, se o livro como produto se não garantirem qualidade, de certeza que não vendem, ai as editoras não apostam, tudo está interligado no comercio...

YP- Não vende sim! Vende sabe porquê? Isto também está acontecer no Brasil, com o decreto do residente Lula, é obrigatório o ensino das línguas e culturas africanas, que não é a primeira vez, já em 1984, na Baía à Secretária da Educação, o Presidente Lula, apenas levou este projecto para o resto do país, com esta febre de africanidade como se diz hoje vulgarmente no Brasil, tem se produzido coisas de péssima qualidade, e as editoras estão a patrocinar este tipo de coisas porquê? Porque faltam no mercado editorial coisas com ...necessariamente, só agora é que as pessoas começaram a se interessar por estas questões.



SA- Na década de 1980, a União dos Escritores Angolanos, tinha uma produção literária regular e por conseguinte, havia uma crítica literária igualmente muito regular, hoje que o parte editorial está diversificado , mesmo com as  várias Faculdades de Letras, a que se deve a isto professora?


YP- Bem! A começar não gosto desta terminologia, porque para mim Letras exclui e oralidade,  que é fundamental que está antes de qualquer Letra, e a história de África é uma historia oral, sobretudo oral, só muito recentemente, isto é em termos históricos é recente, é que começou a ser uma história escrita em letras, mais é sobretudo baseada na oralidade. Por isso é que não gosto deste termo, acho que deve ser línguas e não letras. Quanto a questão das editoras não sei bem o que se passa aqui, que é uma questão interna do país, sei o que se passa no meu país como disse antes, aqui não realmente porque é uma questão interna vossa que não posso opinar sobre este assunto.



SA- Diz-se que hoje há uma certa crise de crítica literária, parece que até no mundo,  professora, qual é a sua opinião ?


YP- Bem, eu não sei muito bem, não conheço a literatura do mundo, mais acho que as recessões literárias tem muito a ver com o momento politico, para o nosso caso,  passamos no Brasil por uma ditadura de vinte e cinco anos, não podíamos escrever nada que não tivesse uma censura política. Então onde é que entra ai á crítica literária? Tinha de  ser de acordo com aquela orientação, isto se passou nos Estados Unidos da América, na Inglaterra.




SA- Quais as referências dos escritores angolanos que a professora conhece?

YP- São mais os clássicos, os mais conhecidos, a começar pelo Óscar Ribas, de que sou apaixonada pelas suas obras, o Água Lusa, o Ondjaki, o Pepetela, são estes  mais famosos que conhecemos, e que temos acesso, no Brasil do que os outros que são publicados aqui, mais que os livros  infelizmente lá não chegam. Então,  comprarmos livros de autores angolanos, temos que sair do país, temos que vir para cá para poder comprar, porque lá só chegam realmente o destas grandes editoras  e dos escritores já consagrados.



SA- Como é que avalia a poesia produzida hoje no Brasil?

Y.P- Bem, depende da região, porque cada região tem a sua historia, por exemplo eu sou a Baía do leste, onde desde o primeiro momento desde o século XVI, tivemos a presença de falantes angolanos, tanto é que o primeiro dicionário de Kimbundu também foi publicado na Baía, no final do século XVII. Hoje a poesia é muito marcada na Baía por esta africanidade, por esta presença, Africana, sobretudo em relação aos movimentos negros libertários que combatem a descriminação no Brasil, que ainda é muito forte infelizmente, com há na maior parte do mundo também , é difícil dizermos que não há descriminação racial no  mundo, no Brasil ainda é muito forte, a poesia é uma poesia de evocação, é uma poesia de luta contra à descriminação racial, que é um legado africano no Brasil.

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