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Professora Mariagrazia Russo diz: «Estou farta de ouvir falar de África como uma identidade cultural única» Destaque

Escrito por  Claúdio Fortuna
Esta professora italiana de literatura em língua portuguesa em Viterbo, no seu país no se país, foi convidada pelo seminário Angolense para abordar sobre o que se faz essencialmente nos países  lusófonos de África em matéria de criação literária.
No decorrer da conversa, ela revela que há  cada vez mais estudantes italianos interessados em conhecer à literatura que é produzida nos países africanos lusófonos. Contrapõe-se à ideia cimentada em alguns círculos europeus que advogam a tese segundo a qual, África é uma identidade cultural única. Quanto a crítica literária, aqueles que querem enveredar por esta importante vertente da criação e análise cultural, ela lança o seguinte conselho« Devem estudar muito. É estudando que se muda o mundo, estudando pode-se mudar e crescer a todos os níveis, desde o pessoal, o literário e o cultural, sendo à crítica fundamental, porque senão vão ser os outros a criticar os vossos trabalhos, era bom que vocês também aqui  dentro criticassem e apreciassem e soubessem distinguir o que é bom e o que é mal, do que é uma boa literatura ou uma má literatura. Era bom que aqui também houvesse críticos literários. Eis então as virtudes de razão da professora Mariagrazia Russo Hudson  ao Semanário Angolense


SA- Em quanto professora de literatura portuguesa, que avaliação faz da literatura africana de expressão portuguesa professora?

M.H- Nós dentro do nosso curso de Literatura portuguesa, falamos também da Literatura africana de expressão portuguesa, não em todos anos, mas eu já reparei que quando nos programas introduzimos autores africanos, os estudantes participam com mais frequência, não sei se será uma causalidade, não sabemos não é? Mais parece que eles estão muito mais interessados nas literaturas africanas e brasileiras do que a literatura portuguesa em si. Em termos de literatura africana o que é que a fazemos? Bem, nós não podemos concentrar-nos só numa Nação, temos que passar por todas,  sobretudo com enfoque para o ponto de vista linguístico, e a questão da crioulidade ou não crioulidade,  a questão das línguas locais e da língua portuguesa, eventualmente à norma e a variação na língua portuguesa falada em África, e nos PALOP, e por vezes também à literatura por vezes à literatura cabo-ver diana, outras vezes a literatura angolana e outras vezes a literatura moçambicana. Poucas vezes tratamos da literatura guineense, santomense. Porque digamos que é menos relevante, a literatura angolana neste momento é tão forte em Itália, que acaba por ter um espaço maior, actualmente estamos a traduzir muita literatura angolana, só a titulo de  exemplos em termos de autores temos o Pepetela, pessoalmente dirigi uma tese de Mestrado que foi uma tradução da obra literária Jaime Bunda do Pepetela, que foi traduzida e publicada.

 

Portanto, como vê foi uma tese de mestrado que foi publicada e feita por um estudante nosso, fazendo com que o Pepetela seja um dos autores angolanos mais traduzidos em Itália. E também gostaria de realçar que um outro nosso ex- estudante cá esteve como leitor de italiano, também apaixonou-se pela literatura do Pepetela e traduziu o livro que vai ser agora publicado, e será publicado numa colecção dirigida por mim, dentro de uma casa editora, que se ocupa exclusivamente da literatura lusófona, eu própria  traduzi e tentei introduzir muitos autores africanos. Portanto, o espaço para literatura africana existe, é preciso que as pessoas que estudam, tanto os licenciados, mestrados e doutorados, possam também acompanhar o léxico de África, porque por vezes não o mesmo léxico português, quer dizer nós temos bolsas de estudos para os estudantes irem para Portugal, mas o português que eles aprendem é o português europeu, e por vezes não dominam bem o léxico africano. Portanto, é também preciso que eles ampliem um bocado os seus horizontes neste domínio. Depois, temos outros exemplo como é o caso do Eduardo Agua  Lusa, que também é muito traduzido, o Luandino Vieira, fui eu própria quem propôs o Luandino Vieira, a uma casa editora que se chama Albatros, e foi traduzido o último livro do Luandino por meu ex- estudante muito bom e temos agora uma boa  tradução.

 

SA- Professora, relativamente a literatura oral que informações  é que tem  de  angolana neste domínio?

MH- Esta literatura não trabalhamos muito,  sobretudo  porque não temos muito por estudar,  porque não termos. Alias, o que temos são alguns livros e ensaios, porque eu sou assim por vezes um bocado especial e gravo as histórias contadas pelas pessoas de idade, idosas , que resulta de uma paixão não é? Mais não temos outros instrumentos e fica difícil os estudantes acompanharem, eles sabem que existe  como é evidente, por exemplo eles sabem que existem  provérbios, sabem que existem contos que são tirados da tradição oral, que se tornaram literatura mas foram tirados da tradição oral. Portanto a tradição oral também entra na literatura não é?

 

SA- Conhece a obra do Óscar Ribas, professora?

MH- Sim! Sei que neste momento está exposta lá no Hall de entrada deste centro, Mas do Óscar Ribas, conheço sobretudo o dicionário porque é o instrumento que mais utilizei, recomendei para nossa Biblioteca mais ainda não chegaram estes livros, espero que cheguem agora, porque esta colecção que eu estou a ver reeditada é muito interessante e ai também tem muitos contos, muita coisa por exemplo só a partir dai é que podemos também tratar disso, eu tenho que ser sincera    consigo e dizer que no domínio da tradição oral, nós apontamos mais para Moçambique, porque Moçambique com  Myacoto, é quem transmite mesmo à tradição oral, e pela via da literatura tem nos sido mais fácil . Portanto, através do Óscar Ribas, talvez a gente possa chegar a ter um contacto mais próximo com a oralidade angolana.

 

SA- Quanto a poesia angolana como é que ela está ao nível da Itália professora?

MH- Bom! Eu conheço bem, e com os estudantes analisamos  com mais frequência à poesia da Ana Paula Tavares, ela é a  principal, talvez porque a maioria dos meus estudantes são também mulheres, mas nós estudamos e lemos muito a poesia da Ana Paula Tavares, e há um outro autor que temos estado a ler que é o Abreu Paxe, que é preciso dizer que é muito complicado, mas is meus estudantes conseguiram ler e compreender a poesia dele. Agora, há também outra expressão e também não se pode fazer tudo não é? Temos que limitar  o tempo, temos que limitar os livros, porque também  não é só a literatura angolana, temos que dar um bocadinho de tudo desde a angolana, a moçambicana e a cabo-verdiana não é?

 

SA- Enquanto professora, é possível falar-se de angolanidade na nossa literatura, faz sentido?

MH- Acho que sim, quer dizer  pessoalmente estou farta de ouvir falar de África como se fosse uma única identidade, isto é um absurdo! Quer dizer, ninguém fala de europeus, como italiana não me sinto nada igual a uma francesa, ou a uma inglesa, as nossas culturas são muito diferentes, se são   diferentes as nossas culturas de um país tão pequeninos, uns tão próximo um do outro,  porquê que não há de haver uma especificidade por cada país, angolanidade existe porquê que não há de existir? É  que vocês tiveram uma história própria, têm autores próprio,s têm uma cultura própria, existe uma africanidade porque talvez vocês queiram interpretar como pertencentes a um continente comum, porque a maioria tem pele negra, são negros, mais também não pode ser a cor da pele a unificar, pelo contrário deve existir uma diversificação. Alias, digo-lhe mais angolanidade é uma coisa comum, mais também dentro de Angola há muitas realidades. Portanto, uma angolanidade que uni a todos, mais também  vocês têm que saber, que cada lugar tem uma própria individualidade , cultural, tradicional e religiosa. É como nós em Itália, somos um país tão pequenino, mas com milhares de dialectos de línguas diferentes, de culturas diferentes, as pessoas não se entendem ente o Norte e o Sul, como é que vocês podem ser assim unificados, africanidade primeiro, segundo angolanidade. Sim angolanidade com as suas peculiaridades, assim com africanidade com as suas próprias peculiaridades, é o que eu penso.

 

SA- Em 2005, a nível institucional isto é do Ministério da Cultura, criou-se uma equipa multidisciplinar, esteve a trabalhar na História da literatura angolana, em função da sua experiência como professora  e do contacto que com a mesma, seria fácil fazer um trabalho desta dimensão ?

SA- Fácil pode não ser, mais pode-se chegar, pode-se fazer, porque é uma literatura como todas as literaturas do mundo não é? Tem que se apanhar umas linhas gerais, tem que se contar o que aconteceu antes e depois do 25 de Abril, depois da  independência de Angola, deve-se encontrar umas fases, encontrar alguns autores significativos, saber o que representa hoje, porque os autores mais conhecidos por vezes são os estão fora de Angola, saber o que é que temos que considerar-destes autores, quais são os outros autores que podemos considerar que não são bem considerados, bem mais eu acho que sim, todos os países fazem uma história da literatura que abranja vários factores, vários elementos, sim, sim acho que podem. Alias é bom que se faça rapidamente para que os estudantes tenha uma base, e também para nós no estrangeiro termos um livro para proporcionarmos aos nossos estudantes, era bom que vocês fizessem isto rapidamente.

 

SA- Existirá muitas teses em Itália sobre a História da literatura angolana professora?

MH- Como já lhe disse tivemos esta tradução do Pepetela, acabamos de fazer uma tradução do livro  do Pacavira da memorias, portanto, são por vezes trabalhos literários e outros são históricos  sobre a História e sobre a literatura, também trabalhamos muito sobre os movimentos, sobretudo o movimento do MPLA,  os jovens dentro do movimento do MPLA, fizemos várias teses, nós temos uma cátedra de língua e literaturas de expressão portuguesa. Portanto, nós temos Portugal, Brasil e todos os países de África lusófona e mesmo assim, estou a dar-lhe três ou quatro títulos, mesmo assim como dizia é muito para o nosso âmbito pequeno, se trata de uma Universidade pequenina dentro da Itália, agora multipliquem esta produção por todas Universidades Italianas, Roma, Veneza      Pádua, Florença, Milão, têm Universidades maiores e a literatura angolana é conhecida.

 

SA- Professora segundo opinião de alguns académicos insuspeitos, dizem que a literatura angolana comparativamente as outras de expressão portuguesa ocupa um lugar cimeiro, nós sentimos que temos uma grande fragilidade a nível da crítica literária, até que ponto é que este hand cap, pode digamos comprometer este lugar privilegiado no naipe das literaturas africanas de expressão portuguesa?

MH- Este é que é o problema, depois vocês delegam a crítica a pessoas que não são angolanas. Nós fazemos crítica, nós perante um texto podemos a fazer crítica, mas é uma crítica que vem de fora, não é uma crítica vem dentro de um ambiente angolano, claro que se houver mas crítica, mais ensaístas seria mais fácil para nós o trabalho a propor aos estudantes, caso contrário teremos que ser nós a fazer crítica, e por acaso não há uma boa crítica em Angola, ou eu desconheço ou não temos bons críticos angolanos, pelo que eu saiba. Agora não sei, se calhar há e eu não conheço.

 

SA- Falávamos da Universidade, foi criada a coisa de oito anos se tanto a Faculdade de Letras, até que ponto é que as Universidades podem ajudar a direccionar a qualidade da literatura angolana professora?

MH- É estudar cada vez melhor, se há aqui uma Faculdade de Letras, quer dizer que se vão formar pessoas que percebem o que escrevem, que lêem, que aumentam a própria cultura, eu acredito que a cultura muda uma país profundamente em todos os aspectos, é evidente que eu acredito também que estudar mas à literatura ajuda na feitura de mais literatura e na produção de mais literatura, tem que ser não é? Se não os nossos escritores saíram da Universidade, quer dizer quem sabe escrever depois escreve, quem estuda depois continua a estudar e transmite cultura. Portanto à única solução é esta estudar muito bem, acho muito bem que haja uma Faculdade de Letras, acho muito bem que haja uma Faculdade de línguas, espero que entre as línguas estudadas esteja presente também o Italiano, porque entre à Itália e Angola sempre houve uma relação muito forte, e a minha presença aqui é testemunha disto, nós sempre acompanhamos sempre os movimentos de libertação de Angola, desde o principio e numa Europa que quase que desconhecia os vossos movimentos revolucionários não é? E nós, os Ingleses e os Franceses fomos os primeiros a consciencializar o resto da Europa.

 

SA- Que papel é que o Português falado em Angola poderá ajudar no universo da língua portuguesa professora?
 
MH- É uma boa pergunta, penso que já jogou no sentido em que muitos angolanos estão em Portugal, é hoje já o falar dos jovens portugueses tem sido influenciado pela fala angolana, não sei se será angolana, mais por exemplo o vosso bué, já chegou e já toda gente diz bué, ninguém diz muito,  também a vossa maneira quase de cantar o sotaque um bocadinho diferente, por vezes os nossos estudantes frequentam mais os angolanos do que os portugueses, e regressam com os vosso sotaque não é? Penso que pode influenciar no português padrão europeu digamos assim, vocês têm o vosso padrão angolano, o padrão europeu, as línguas caminham, as línguas andam, discorrem-se, as línguas acompanham-se, é um dar e receber tudo aos mesmo tempo, vocês deram no momento em que os portugueses encontram as pessoas que viviam aqui em África, e continuam a dar, porque as línguas continuam andar, elas vão para frente nunca param.

 

SA- Que recado gostava de deixar para as pessoas que têm pretensão de navegar para área da escrita e  da crítica literária?

MH- Eu normalmente dou sempre este conselho, que é estudar muito, é estudando que se muda o mundo, portanto, estudando pode-se mudar e crescer a todos os níveis, desde o  pessoal, o literário e o cultural, à crítica é fundamental porque senão vão ser os outros a criticarem os vossos trabalhos, e era bom que vocês também aqui dentro criticassem e apreciassem e soubessem destingir o que é bom e o que é mal, do que é uma boa literatura e de uma má literatura, era bom que aqui também houvesse críticos literários.


Por: Cláudio Fortuna

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