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“A oralidade é meu culto”, entrevista a Ana Paula Tavares Destaque

Escrito por  Pedro Cardoso

Ana Paula Tavares tem olhos grandes e doces. E uma intensidade na escrita que a tornam numa das mais queridas poetisas e escritoras angolanas. Em entrevista por e-mail a partir de Lisboa, onde vive, aborda aspectos da sua escrita e da sua vida. Sem sequência cronológica, com uma leveza que prende, pela profundidade que evidencia.

É normalmente apontada como a referência da poesia contemporânea angolana no feminino. O que significa isso, na verdade?

Não, não é verdade. Isso seria de uma injustiça extrema para com Ana de Santana, Liza Castel e Maria Alexandre Dáskalos, para só citar três nomes de criadoras intensas, originais no universo da poesia angolana. O número de títulos publicados não invalida outras contribuições de grande qualidade. Procuro um lugar no universo da poesia angolana, porque é de Angola a minha fala. Não sou muito dada a concursos, lugares cimeiros, comendas.

Cresceu no Lubango, numa sociedade colonial marcadamente europeia, que ignorava a sociedade africana com quem convivia, mas que ao mesmo tempo a fascinava. A sua escrita reflecte ou afasta-se deste paradigma?

Todos nós somos de um lugar, de uma infância, disse o poeta. Nasci na Huíla, no meio de uma sociedade colonial injusta. Os pastores estavam ali. À sociedade Nyaneka eu devo a poesia, a música, o sentido do cheiro, a orientação a sul. O contacto era-nos (a quem estava em processo de assimilação) interdito. E, também por isso, o desejo era mais forte. Conhecer, saber quem eram e quem éramos deu um sentido à vida. A escrita, em português, ficou para sempre ligada ao paradigma da oralidade, da chama do lugar, do acompanhamento dos ciclos, do respeito pela diferença, do horror à injustiça.

Disse que a Huíla a influenciou do ponto de vista estético, sobretudo através dos cheiros, sons, cores e canções que a terão marcado muito do ponto de vista estético. Provém daí a sinestesia constante da sua obra?

A troca de sentidos, ou do apelo dos sentidos, uma certa doença é coisa que carrego desde a infância. Se não tivesse nascido ali talvez fosse mais normal.

Para além do Lubango viveu também no Huambo, Gabela, Sumbe, Benguela e Luanda. Luanda esta que sempre adiou, como já confessou. Que rastos lhe deixaram estes lugares?

Tenho memória dos tempos nestes lugares. No Huambo, aprendi outras cores do medo, ao mesmo tempo que ensinava a ler os mais velhos nos arredores da cidade. Experimentei os limites da coragem física, ganhei amigos para a vida. No Kwanza- Sul (Gabela, Sumbe, Kibala, Ebo) percebi que a história de Angola tinha vários tempos e outras tantas velocidades. Fiquei esmagada com a imponência. Percebi o tamanho da minha ignorância. Que tempos eram os das necrópoles em pedra seca, rodeados por silenciosos inselbergs graníticos cheios de pinturas em grutas inacessíveis? Como perceber essas mensagens no meio do ruído louco da guerra. O sonho da cronologia e o seu avesso também ficou para sempre na minha escrita e na minha vida. Nasceu-me a filha, o que foi começar tudo de novo, água pura, meu novo sentido de mim. O medo voltou. Seria capaz de proteger, de percorrer os rios outra vez. Sumbe ajudou a inscrever para sempre, para nunca esquecer a memória do mal: a escravatura, o colonialismo, as relações de dominação, os pequenos e grandes poderes, o alargamento definitivo do sentido da história ao quotidiano. Benguela reforçou a minha ideia de lugares de pertença e lugares de rejeição. A poética do espaço foi um longo aprendizado. Não estava cá dentro. Praticava-se uma linguagem que tinha que aprender. Luanda é o princípio da cidade que de vez em quanto deixa de o ser. Convive bem e mal com os seus fantasmas. A baía é mágica, tem a mais bela curva do mundo. Quase enlouqueci a tentar perceber e a fazer pactos com deus e com o diabo. Mas foi ali que ficou mais clara a força das mulheres do meu país, a forma leve como pisam o chão, apesar de carregarem um filho em cada mão e outro às costas e na cabeça o mundo inteiro.

Já definiu a saída do Huambo para Luanda, por altura da independência, como uma “fantástica fuga que um dia alguém terá que contar”. Quer ser a primeira?

Não seria a primeira. Lembro que o poeta Costa Andrade, Ndunduma, que infelizmente já não está entre nós, deixou no seu livro de memórias, Adobes de Memória (dois volumes), uma versão dessa fantástica e terrível aventura. Devo aos meus companheiros de viagem, por enquanto, o silêncio.

Há quem fale num “mundo angolano” de Paula Tavares. Que mundo é este – o de Angola da infância, da independência, de 1992, de agora, à distância?

Não sei quem falou. Para mim deve ser porque eu não sei falar de outra coisa. Angola dói-me todos os dias, alegra-me da mesma maneira. Dá-me a medida exacta do meu desconhecimento.

África, Angola, Japão à luz de Mishima, Europa. Lugares seus. Qual o ponto de intersecção?

O chão, a terra, os afectos, a leitura.

Considera-se uma escritora universal?

Não. Quem sou eu? O mundo é vasto e estranho.

A relação com o corpo e com o sexo em África é também muito diferente da das sociedades ocidentais. A sensualidade e o erotismo presentes em alguns dos seus trabalhos têm como fonte esse nosso maior à-vontade com o corpo?

Acho que essa famosa e proclamada relação com o corpo não existe. Também tivemos e temos igrejas que nos ensinam a ter vergonha do corpo. Temos mulheres que não têm tempo de crescer e escutar o seu corpo. Temos relações de violência e sofrimento em silêncio. Temos comportamentos próprios das cidades e outros de comunidades distantes. Temos relações injustas reguladas pela força do dólar, pelo exercício do poder. Velhos mitos coloniais sobrevivem, às vezes com novas máscaras, em plena pós- colonialidade.

 

De facto, o seu primeiro livro, Ritos de Passagem, foi recebido em Angola com polémica. Consideraram-na “ressabiada”, “pornógrafa”, como contou numa entrevista…

Pois assim se provam os velhos e novos equívocos e também que as idades da inocência se pagam amargamente.

Escreve desde pequenina, “para espantar os medos”. Que medos tinha, quando era criança?

Todos os medos das crianças, medo do escuro, medo da luz, da injustiça, de perder, de ganhar.

Continua a escrever com o mesmo objectivo? Se sim, quais são os medos da Ana Paula Tavares adulta?

A escrita tem muitos sentidos. Vastos os enunciados. Não estou fechada na concha do medo. Agora há angústias: não consigo suportar a partida dos amigos, o sofrimento de alguns deles. O medo de estar longe, demasiadamente longe, a ideia de perder a voz e a vez da poesia.

Definiu já a literatura e música brasileiras, que os viajantes lhe traziam, como grandes influências enquanto escritora. Que impacto tiveram, ao certo?

O Brasil literário e musical foi chegando aos poucos, por ondas em todos os momentos de crescimento, maturidade e velhice. Chico e Caetano, Elza Sores, Elis Regina, Tom Jobim, e tantos outros. A poesia impôs-se com Manuel Bandeira, Drummond de Andrade, Murillo Mendes, o definitivo João Cabral de Melo Neto. Depois a prosa com um lugar de visita constante para Clarice Lispector, Nélida Pinon, Lygia Fagundes Telles. As descobertas mais recentes com Radnuam Nassar, Milton Hatoum ou Bernardo de Carvalho pedem que continue atenta ao que se passa na margem de lá do Atlântico.

Trabalhou muito na recolha de tradição oral em Angola. Há quem diga que os seus textos podem ser lidos em voz alta, que não perdem a força nem se “perdem pelo caminho”.

 A oralidade é meu culto. As mães embalam os filhos cantando ou dizendo palavras nas nossas línguas todas. Se os meus textos puderem ser lidos em voz alta fico muito contente.

Em que ponto está o seu projecto sobre as culturas lunda e tchokwe?

Entregue a tese [de doutoramento], a luta pelo conhecimento continua.

Considera a sua escrita ritualista?

Não. Nem por sombras.

A sua segunda obra publicada, Sangue de Buganvília, surgiu apenas 13 anos depois de Ritos de Passagem. E passa da poesia à prosa. Porquê este interregno e a mudança de registo?

Nunca parei de escrever. Só não via a necessidade da publicação. A escrita sempre se fez nos dois registos: a poesia e a história curta entre a crónica e o conto.

A “prosa” e a “poesia” vivem isoladamente? São o que pensamos delas como conceitos, ou excedem-nos?

Podem viver isoladamente ou na maior das misturas. Para mim a poesia pode viver isoladamente. Já a prosa (a minha) vive da outra de forma sôfrega e vampiresca.

Que possibilidades ou limitações lhe colocam?

Possibilidades todas. Limitações: lembro o provérbio Cabinda «A centopeia tem cem pernas, mas anda sempre pelo mesmo caminho».

Dizem-na avessa ao excesso no uso das palavras. As palavras têm um valor definido, como o que vemos afixado num produto no supermercado?

As palavras têm o seu valor. Depende de quem e como as usa.

Feminilidade, literatura feminina. Meros rótulos ou problemáticas sérias?

Não são meros rótulos. O Feminismo dos anos sessenta do século passado já não está na moda, ou por vezes adquiriu facetas de uma tal rigidez de critérios que abalam as nossas crenças, objectivos, sensibilidades. Mas continuo sensível à diferença: aquilo que escrevem as mulheres, aquilo que vivem as mulheres, mesmo com mulheres presidentes ou ministras é absolutamente diferente daquilo que os homens passam. Mesmo avessa a uma teoria da interpretação, continuo a ler e a sentir essa diferença.

fotografia de Marta Lança

Ana Paula Ribeiro Tavares é natural do Lubango, onde nasceu a 30 de Outubro de 1952. Estudou História na então Faculdade de Letras do Lubango (actual ISCED), curso que terminou em Portugal. É mestre em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.
Logo após a independência, foi delegada da cultura no Kwanza-Sul e técnica do Centro Nacional de Documentação e Investigação Histórica (hoje Arquivo Histórico Nacional), do Instituto do Património Cultural. Nos anos 80 foi responsável pelo Gabinete de Investigação do Centro Nacional de Documentação e Investigação Histórica, em Luanda.
Tem vindo a trabalhar em cultura, museologia, arqueologia e etnologia.
Como poetisa e escritora, publicou um conjunto de obras que inclui Ritos de Passagem (1985), O Sangue da Buganvília (1998), O Lago da Lua (1999), Dizes-me coisas amargas como os frutos (2001, vencedor do Prémio Mário António de Poesia 2004, da Fundação Calouste Gulbenkian), Ex-votos (2003) e a A Cabeça de Salomé (2004). A sua obra está presente em antologias de Portugal, Brasil, França, Alemanha Espanha e Suécia.

 

in AUSTRAL nº 78, texto gentilmente cedido pela TAAG - Linhas Aéreas de Angola

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