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“É necessário sairmos a rua a procura da nossa literatura pátria“, diz professor Ângelo Costa Pereira Destaque

Escrito por  Claúdio Fortuna
O professor Ângelo Costa Pereira, lecciona a disciplina de introdução aos estudos literários, na Faculdade de Letras da Universidade Jean Piaget de Angola, e presentemente é doutorando em estudos literários, mas concretamente no domínio da literatura oral Kimbundu, e foi precisamente a margem do simpósio em homenagem ao maior investigador da literatura oral angolana Óscar Ribas, que o Semanário Angolense foi ao encontro deste académico Angolano, para ouvir o s seus argumentos de razão em torno da nossa literatura.
S.A- Professor enquanto doutorando em estudos literários, nomeadamente no domínio da literatura  oral Kimbundu, que avaliação das obras de Óscar Ribas?     

A. P- Poucas são as pessoas que leram as obras do Óscar Ribas, e o facto de a mesma ter sido quase toda reimprimida, é uma boa iniciativa do Ministério da Cultura, espero que à nível das Universidades e dos académicos, se passe a  estudar à obra dele, pude constatar durante estes dias, que de facto poucos têm lido, o que ele escreveu, inclusive ouvi ai algumas imprecisões, que vão ao encontro disto mesmo, da necessidade de se ler, pelo que penso que faz todo sentido à reimpressão de toda sua obra. Porque agora, já não se reedita nada, porque ele já morreu, e a reedição contém sempre elementos novos, à  reedição de uma obra tem haver com as leituras de aprimoramento, ou da introdução de outros elementos nas obras feitas pelo próprio autor.

 

S.A- Este tem sido uma falha ou erro incorrido por muito de nós, que por vez dizemos que toda segunda, terceira ou quarta tiragem de uma obra é reeditada, quando existem critérios próprios para se chamar reedição professor....

A. P- Sim, porque por vezes os editores não facilitam, as reedições à primeira, segunda, terceira ou a vigésima reedição, que por vezes, funciona um bocado como marketing, para dizer que a obra é muito lida, mais está errado. Porque editar, isto é fazer uma nova edição tem contido o condão de ser revisto e ampliado. Por vezes, vemos a informação do editor à dizer segunda edição revista e ampliada. É perfeitamente escusado, porque já está contido no elemento reedição, quando se edita qualquer obra, é porque esta obra foi revista e ampliada, ou seja, introduziram-se elementos novos, a reimpressão não. É quando se tem uma das edições, depois exactamente da mesma maneira volta a ser reimpressa. Portanto são duas coisas diferentes, este trabalho todo feito pelo Ministério da Cultura em relação as obras do Óscar Ribas, são reimpressões e não reedições, já não há hipótese nenhuma de haver reedições, na medida em que o Óscar Ribas já não mexeu mais na sua produção literária. Alias, ele fé-lo em relação ao Wanga, que eu conheço, pelo menos três edições, e são efectivamente edições, ele no lançamento da segunda edição que foi uma edição do autor, explica isto mesmo, que passados tantos anos, creio que foram dezoito anos da primeira edição, o seu conhecimento do mundo que ele retrata sofreu transformações, ele quis reflectir isto na segunda reedição, e o mesmo se passa, pelo que tive à oportunidade de ver na terceira edição, que foi logo depois da Independência, logo nos primeiros anos depois da Independência, a União dos Escritores Angolanos, fez uma terceira edição, mas com a intervenção do autor que incorporou textos novos dentro do Wanga. Isto é que uma reedição, tudo mais em que não haja qualquer alteração do texto anterior são reimpressões.

 

S.A- Enquanto professor como é que caracteriza a literatura dos nossos dias?

A.P- Risos....! Quer dizer, esta pergunta é um bocado complicada, ela está bem feita, e acho que é um  desafio muito grande, eu é que não serei à pessoa balizada para dar uma resposta, penso que estamos a viver um período. Penso ou pelo menos tenho esta percepção, e não porque tenha estudado criteriosamente a literatura, os vários escritores que tenham surgido, mais penso que estamos a viver uma fase extremamente interessante, com muita produção, desde as produções de autores, e produções das próprias editoras que existem em Luanda. O problema é o mercado, os livros são extremamente caros, as pessoas podem ter muito gosto para ler, mas o que é certo, é que um livrinho com dez poemas, custa no mínimo mil Kwanzas. Em contrapartida, você compra um disco com todo um trabalho de produção musical do cantor por 150 Kwanzas, é, evidente que ai também temos um trabalho cultural, e de produção que é preciso também cumprir com este trabalho lúdico, de resposta aos anseios de conhecimentos, de satisfação que a literatura realiza, isto também se faz através da musica, onde não há duvidas, de que é incomparável o preço , como disse à mil e quinhentos Kwanzas, compro dez discos, que me dão imensas horas de prazer, de apropriação  de manifestações culturais interessantes, que é o mesmo que eu gasto para comprar um livro, o mais pequeno possível.

 

 Portanto, a grande complicação vem dai, depois pronto, as edições são limitadas, os livros também não se vendem. Ouvi aqui, uns jovens a queixarem-se, de  que  há dificuldades de impressão, porque o Estado não edita, de facto não tem que ser o Estado a editar,  têm que ser as editoras a entrarem neste mercado, mais para entrarem neste mercado é necessário que as coisas estejam muito mais baratas com a produção, e isto complica. Pergunta-me como está a nossa literatura? Eu não consigo ter uma resposta, a não ser esta assim muito lisa, e sem qualquer piedade epidérmica, até porque neste momento, o doutoramento que estou a perseguir é sobre o estudo da literatura oral em Kimbundu, cujo maior colector, ou à base, o corpus do meu estudo é a obra do Óscar Ribas, principalmente os Missossso, e não me dá muito mas tempo para estar absorver tudo quanto se edita, apesar de não ser muito, mais há muitas coisas que estão todos os dias a  sair, e nós temos que ter prioridades não é? E a minha prioridade agora enquanto não concluir esta tarefa que me propus, vai ser mesmo estar a ler atentamente a produção literária em Kimbundu, que tem a ver com a literatura oral.

 

S.A- Professor, por favor corrija a nossa ignorância se for o caso,temos a impressão de que nos anos 80 e parte dos anos 90, havia uma produção literária pujante, acompanhada de uma produção crítica considerável,  com a União dos Escritores Angolanos, a Brigada Jovem de Literatura Angolana, com o entusiasmo da juventude, sentimos que as atitudes têm sido outras ou pelo menos diferentes, qual é a sua virtude de razão?

A.P- Talvez por causa destas regras de mercado, faz com que o livro seja um produto comercial, que  se não houver procura, não é oferecido, e como o preço de facto não vai ao encontro, ou seja não é ditado pela procura, mais sim pelos custos, eles acabam por se tornar elevadíssimos, fazendo com que haja pouca leitura, eventualmente pouco material produzido, mas acredito que a literatura em si, ou seja, os autores existem, só não estão é a editar. Por exemplo, eu tenho um programa na Rádio Viana, em onde abrimos a participação dos ouvintes, e desta participação não queira saber, eles mandam-nos poemas, crónicas com muita literacia, o que nós nos propomos neste programa é um pouco pegar no facho do Óscar Ribas, e descobrir a nossa literatura, a nossa literatura pátria como diria o Cordeiro da Mata, é necessário sairmos a rua a procura desta literatura pátria, e ela está ai, existe, agora como digo, os livros são o suporte destas produções literárias  actuais do nosso mundo de hoje, o problema tem tudo haver com esta indústria livreira que é muito  complicada e a produção é cara, e o dinheiro não abunda no bolso do leitor...Ai é que está a complicação.

 

 S.A- Que solução para esta situação constrangedora, do maior acesso aos livros? 

A.P- Bom! Eu penso que podemos introduzir o gosto pela leitura através da oralidade, penso que era importante recuperar as tertúlias, e o exercício de contar histórias, penso que há muitos contadores de histórias  que poderiam ser convidados a participar em actividades mas organizadas , há algumas um bocado dispersas. Fruto de um incipiente associativismo que existe, por exemplo em Viana, existe um grupo de jovens que se junta todas as quartas feiras para declamarem poesia, nós queremos penetrar neste grupo para que além da poesia, possamos introduzir, o contador de historias numa das quartas feiras de cada mês, e penso que está prática tem que ser introduzida a nível das escolas, é preciso criarem-se hábitos escolares como actividades lúdicas, para além da dança e do exercícios físicos, também as crianças devem ouvirem os contadores de historias, eventualmente brigadas de teatro que sejam capazes de contar as suas histórias, porque há imensas histórias, o Óscar Ribas levantou as histórias além da literatura, aquilo que ele chamava de contos tradicionais, ele manteve viva todo seu plano de produção, ele era um grande transmissor da literatura oral,  que ele tinha em todos os seus livros aquilo que ele chamava “os instantâneos da vida angolana ” e estes  instantâneos são brilhantes, são pedaços da vida que são contados de uma maneira literária, eu lembro de um cantinho que são duas paginas que ele relata a conversa de um casal em que a senhora diz para o marido ” Deus fez mal quando permite que a mulher morra de parto,  e o marido diz é tens razão, e ela acaba a ideia dizendo pós é porque não devia ser, quando  está dar a luz não devia morrer, porque está dar a vida, Deus fez mal, o que não acontece com as outras espécies, e o marido diz pós tens razão até porque a galinha põem o ovo, e a senhora diz é verdade tens razão porque o filho da galinha é o ovo e não é o pinto, porque o pinto nasce do ovo,e o pinto diz tia tia “ e isto é uma historia, é um conto é a captação do instantâneo não é? E milhares  de historias destas   de puro prazer das pessoas que ouvem, podem ser contadas todos os dias, eu lembro-me de a uns anos estava em Portugal a fazer o meu Mestrado, quando um amigo meu que é um belíssimo contador de historias, me mandou uma historia acompanhou no programa Ecos e factos da Televisão, e a historia relatava as peripécias de um senhor com uma pedra de diamantes  que é um enredo lindíssimo, e que atraiu as pessoas que acompanharam o mesmo, e  estas historias podem ser escritas, a tal literatura oral que é a oralidade que está viva, a oralidade não quer dizer só a reposição do conto tradicional, antigo, é também o contar aquilo que nos acontece todos os dias de uma maneira literária, e este gosto pelo serão, o contar historias, ouvir historias e criar este gosto nas crianças nas escolas, ai as pessoas se calhar são capazes de levar isto até as famílias,  vai criar de facto o campo para que as nossas crianças criem um espaço cada vez maior para absorver a literatura, e quando ficarem mais velhas vão ter a necessidade de ler e vão querer ler para alimentar este gosto pela literatura que lhes foi transmitida através da oralidade, e creio que o percurso terá de ser este, não é agarrar em livros e pôr livros, ninguém vai ler o livro, este é um drama que não se verifica só em Angola, digamos que da literatura livresca, mas em todo mundo, isto acontece .

 

S.A- Voltando ao Óscar Ribas, segundo o professor Michel Laban de feliz memoria, havia dito nos               que o   Óscar Ribas o teria escrito uma a solicitar-lhe um exemplar da sua primeira obra literária “ Nuvens que Passam” para fazer a reimpressão ou reedição, acha que seria profícua  fazer o lançamento desta obra?

A.P- O positivo é que o Ministério da Cultura reimprimiu todas as suas obras, só não reimprimiu o dicionário dos regionalismos, portanto , isto está ai e disponível agora, é a obra quase toda, até porque ele escreve, e não é um escritor digamos que romântico primogenitor não é, e com uma comunicação irreversível, única  e produzida naquele momento, ele escreve seguindo um plano bem conseguido e prossegue este plano exaustivamente, sem cansaço, tal maneira que a ultima obra dele  foi editada em 2002 e que estão incorporados 323, novos provérbios, isto quer dizer que a pesquisa e a continuação do estar atento ao mundo que o rodeia sempre o acompanhou até a dois passos da morte, penso mesmo que ele conseguiu adiar o fim da vida dele, porque tinha a sensação que ainda faltava muito para fazer, e que o trabalho que ele se pro pois que foi dar a conhecer a literatura  angolana do grupo etnolinguistico Kimbundu, não estava nem de longe nem de perto realizada.

 

S.A- Uma das críticas que se faz hoje ao Óscar Ribas, é o facto de nas suas primeiras obras,  haviam nas primeiras paginas dedicatórias favoráveis ao sistema colonial, qual é a sua apreciação professor?

 A.P- Quer dizer... Eu tenho uma leitura sobre isto que é a seguinte, todas estas formas ou para textos que ele introduziu, vai ao encontro de estratégias não é, estratégias do gueto digamos assim, estratégias para fazer passar aquilo que ele quer fazer passar, mas que ele próprio diz, nomeadamente no Wanga, na edição de 1969, não na primeira, porque eu não sei exactamente como é que está o prefacio da primeira, mas acho que não terá dito isto, porque a primeira mereceu um premi de um programa da Agência da Ultramar, que tinha o programa geral de incentivar a colonização e a defesa dos valores coloniais, mas na segunda edição da obra, ele marca muito bem as águas e diz assim, “Eu quero fazer uma literatura que se demarque claramente dos escritores coloniais” ele diz isto e escreve que se demarca claramente dos escritores coloniais que tratam de assuntos que não  sabem, nós para sabermos é fácil, basta investigar e aprofundar, ele diz isto misterioso não é a África, não somos nós, misteriosos são as pessoas que se põem  a falar de coisas que não conhecem, África, o negro não tem mistério nenhum, tem a sua maneira própria de ver, encarar e viver o mundo, não há mistério nenhum, e volto a dizer, ele combate o exotismo que era muito da expressão da tal literatura, colonial ou falar do negro que punham lhe de uma forma exótica, ele combate isto. Portanto, é natural que nalguns para textos ele introduza dedicatórias, mensagens agradecimentos, possam induzir numa falsa interpretação, e até que ele pagou caro por isso, foi de certo modo ostracizado com uma certa crítica muito ideológica que não viu a dimensão literária da sua obra, que eu acho que tem e que infelizmente agora o Ministério da Cultura reimprimiu toda sua obra que vai permitir que todos os estudiosos e académicos voltem a ler a obra, tal como fazem os nosso irmãos brasileiros que efectivamente de uma maneira descomprometida agarravam na obra do Óscar Ribas leram e estudaram a sua obra, não estão preocupados em saber se o Óscar Ribas é mestiço ou se é colonial, que ele não tem nada disso, ele fala e descreve um mundo marcado por uma matriz bantu.

 

Portanto, nada absolutamente nada, o judaico ou cristão, o sujeito o agente, o entrever é o povo aquele que vive, ama e que sofre e que tem todas as peripécias, a sua religião ele mostra a sua religião, os seus ritos lúdicos, tudo numa dimensão profundamente africana, se nós quisermos saber o que somos devemos ler o Óscar Ribas, porque há claramente uma marcação, é feita uma fronteira muito clara entre a matriz que informa a vida que ele desenha nos seus livros e a matriz que informa um outro escritor, enfim, muitos deles que foram fundamentais para todo ganhar da consciência nacionalista e tudo isto, mas a alma negra, a alma bantu, a maneira de interpretar o mundo que é diferente, que não é um mundo informado pelo judaico ou cristianismo não é, eu costumo dizer nós não comemos a maçã da Eva, nem crucificamos Jesus Cristo, o nosso mundo é diferente e ele explica muito isto no Hilundo, que são ritos de Angola onde ele tenta caracterizar e descrever região e fala das entidades sobrenaturais, explica e diz quais foram as dificuldades que teve para conseguir informações indirecta que ele leu e releu e interpretou para poder perceber como é que a religião é desenhada, e de facto nisto se verifica desde o século XVI, e se criou muitas confusões, no que diz respeito ao conseguir desvendar esta religiosidade própria deste grupo, e eu estou a me referir a este grupo que ele estuda com profundidade que é o grupo etnólinguistico Kimbundu, que como dizia o António Jacinto,” A Nação Kimbundu” porque não tenhamos medo das palavras e eu não faço mas do que repetir o que António Jacinto disse, e ninguém pode pôr  em causa o nacionalismo e o patriotismo do António Jacinto, que no prefácio do livro o Gissabu,  ele diz meus que gostaria de ter a capacidade do Marcelino para dar a conhecer a literatura  das muitas nações que constituem esta nação única que é Angola, e ele o Óscar Ribas falo em  relação ao Kimbundu.

             
               
  S.A- Aguisa de conclusão professor, gostaríamos de convida-lo a deixar uma palavra para os futuros profissionais das letras, tanto no domínio da escrita como das crítica e docência literária...

 A.P- É pois é! Eu acho que a crítica literária enferma de um grande academismo, porque na media que nós vertemos e fazemos um decalco muito grande sobre a corrente crítica que existe em Portugal, que é marcadamente ideológica, eu penso que as pessoas têm que e se querem enveredara para crítica literária têm que manifestar que lêem, leram o que leram não é? E sobre o que leram vão produzir efectivamente uma informação e que vão ao encontro das sensações lhes despertou a sua leitura, e nós não temos de facto não existe crítica literária, como era preciso, mas isto também resultará de todo um trabalho que possa ser feito nas Universidade que também ainda é muito incipiente, porque a crítica literária não está dissociada da instituição literária e é uma parente do sistema de ensino sem duvidas, e não só da necessidade de facto das editoras, as editoras quando necessitarem mesmo de vender livros e de lançar escritores vão ter que estimular o surgimento da crítica, porque normalmente são elementos de textos importantes e interessantes que devem ser incorporados nos livros para que as pessoas possam ter uma orientação de leitura, porque muitas vezes não é suficiente ter os livros para ler, é bom, é óptimo, mas por vezes  a orientação de leitura ajuda, e isto tem que ser estimulado todo este edifício, primeiro o sistema de ensino, depois as editoras, se eles o fizerem eu acho que vai surgir, como vai surgir com certeza com toda pujança uma crítica literária adequada, capaz de ver o mundo e a nossa literatura.  

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