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Ao conceito de “angolanidade” eu oponho o de “angolanitude” Destaque

Escrito por  Aguinaldo Cristóvão
A literatura angolana tem uma longa e intrincada relação com a história de Angola. Os escritores confundem-se com os políticos. Alguns foram guerrilheiros e viveram no “maqui”, lá onde se forjou a independência. A conversa com Manuel dos Santos Lima vem comprovar o que se refere. Simples, directo e incisivo, o discurso de um dos mais importantes romancistas angolanos reflete a sua obra e a autonomia intelectual que faz questão de sublinhar.

Sobre o passado e futuro da literatura angolana entende que “as literaturas africanas derivam das literaturas dos países europeus que, colonizando os respectivos territórios africanos, impuseram a sua escrita, pois que, como se sabe, a África é essencialmente, o continente da oratura e não da literatura. Passou-se algo semelhante no plano político dado que os africanos copiaram o modelo de organização do Estado europeu”.

P- Nasceu em 1935 na casa dos seus avós maternos, e que aos quatro anos foi viver com o pai para a então Vila Teixeira de Sousa (atual Luau). Que mais pode acrescentar a este breve percurso pela sua infância?

 

R- Nasci na casa dos meus avós maternos, em Cassamba, para a minha mãe usufruir de um parto devidamente assistido pela família, pois o meu pai era funcionário da Fazenda, em Silva Porto, atual Bié, há meia centena de quilómetros de distância. A tipóia era, nessa altura, o único meio de transporte.

 

P- Que recordações guarda da Vila Teixeira de Sousa, onde fez os seus estudos primários?

 

R- Tinha cerca de quatro anos quando o meu pai, funcionário da Fazenda, foi transferido para Teixeira de Sousa, um lugar recôndito, a 15 quilómetros da fronteira com o Congo ex-belga. Era uma espécie de terra morta como a Camaxilo que Castro Soromenho retratou no seu grande romance “Terra Morta”, pois ali campeavam os estigmas da colonização portuguesa. Essa vivência marcar-me-ia para todo o sempre e serviria de base ao que escrevi em “As Sementes da Liberdade”, o meu primeiro romance. Recordo-me que fui o primeiro aluno, não branco nem mestiço, a ser admitido na “Escola Primária n.º 54 de Baltazar Teixeira e Aragão” porque o meu pai se bateu para eu não ir para a escola da Missão Católica, onde se ensinava as crianças negras a rezar, cantar hinos patrióticos e cantigas do folclore lusitano, de acordo com a política de assimilação vigente.

 

P- É verdade que começou a escrever aos treze anos?

 

R- Efetivamente comecei a escrever aos treze anos, agrilhoado pela saudade da família e da terra distantes, que era a forma de continuar fiel a mim mesmo.

 

P- Li algumas referências suas e delas constam: “primeiro negro a ser admitido na escola primária”, “primeiro negro a ser incorporado em curso de oficiais milicianos” etc. É igualmente frequente o paralelismo que faz da luta pela igualdade racial em Angola, sobretudo no período colonial, aos movimentos afins dos Estados Unidos da América. Gostaria que nos contasse esta fase da sua vida e as dificuldades que existiam para a formação do homem angolano…

 

R- Os negros americanos inspiraram a minha geração porque tinham voz e imagem positivas em todos os campos: da música, literatura, cinema, dança, ciência, desporto e movimento reivindicativos. Por isso admiravamos Paul Robeson, Marian Anderson, Richard Wright, Lena Horne, Garvey, Booker T. Washington, Bave Rooth, Joe Louis, Louis Armstrong, Washington Carver, Jess Owens, Countee Cullen, Langston Hughes e tantos outros. Estes nomes cimeiros da Negritude americana enchiam-nos de orgulho, eram fonte de inspiração nacionalista e de consciencialização dos valores culturais negros. Tal como acontecia em Paris, os negros de Lisboa também se organizaram em associações culturais e recreativas.

 

P- Como viveu este período na medida em que uma parte do seu percurso de vida foi passado em Lisboa?

 

R- Nesse período da minha adolescência e juventude era frequente, nas ruas de Lisboa, quando se via um negro, as pessoas fingirem que espirravam, uma reminiscência do tempo em que os escravos carregavam sacos de pimenta pelas ruas da capital portuguesa; e os garotos dançavam a nossa roda cantando: “Ó preto da Guiné lava a cara com café”, pessoas que até nos tocavam e em seguida olhavam para os dedos para ver se nos mascarávamos. As senhoras acreditavam que iria dar bom agoiro ver um preto pela manhã. Como vivia na casa de uma família são-tomense, cresci em ambiente extremamente favorável ao desenvolvimento dos meus sentimentos nacionalistas. Foi assim que ainda muito jovem conheci de perto, entre outros, o respeitável Francisco de Assis Júnior e Mário de Andrade, Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Francisco tenreiro, Mário Rodrigues, Alda do Espírito Santo e Lúcio Lara, gente de cultura e militantes ou simpatizantes de esquerda.

 

P- Era possível pensar na altura de daquele vosso grupo de jovens, revolucionários, sairiam tantos escritores?

 

R- Foi na Casa dos Estudantes do Império que as vocações literárias se foram revelando. Todos líamos muito e sobretudo tudo quanto a Censura fascista proibia e tentávamos conjugar a nossa inspiração poético-literária com os nossos autores favoritos, entre os quais Jorge Amado, Erico Veríssimo, Pablo Neruda, Nicollás Guillen, Ciro Alegria, García Lorca, Aimé Césaire e Léopold Senghor.

 

P- Uma das formas de perceber a sua visão da vida e do mundo, é pedir-lhe que nos trace o grande roteiro académico da sua vida, que o retirou de Luau à Vila Nova Teixeira de Sousa; do Bié a Luanda; de Luanda a Lisboa; de Lisboa ao Brasil e daí para o Canadá…

 

R- O meu roteiro académico começou  em Vila Teixeira de Sousa (Luau) e prosseguiu em Lisboa, ensino secundário e depois universitário, não concluído, na Faculdade de Direito. Posteriormente optei pela Faculdade de Letras de Lausanne (Suíça) onde fui até ao Doutoramento (Literatura Comparada) graças a bolsas de estudos concedidas pela Holanda e Suécia, no âmbito do World University Service (WUS), para ajuda a formação de quadros dos países subdesenvolvidos ou em situação de guerra. No Canadá limitei-me a fazer a formação pedagógica imposta aos professores estrangeiros para integração no sistema educativo canadiano.

 

P- Por outro lado, a sua carreira política - de que mais tarde falaremos com mais profundidade – levou-o aos mais variados países africanos e europeus. Quais foram os momentos mais altos da sua carreira política do ponto de vista de participação em eventos culturais internacionais?

 

R- Na minha carreira política, nos países africanos, convivi com Chefes de Estado ou personalidades dos respectivos regimes e vivi situações que foram do solene ao divertido e caricato. Gostei de ter conhecido o gigante Gamal Abdel Nasser, de ter trabalhado com Bem Bella, Bouteflika e Modibo Keita; Kazavubu, Mobutu, Adoula e quejandos eram palhaços corruptos; Fulbert Youlou chegou a receber-me, às nove da manhã, já embriagado. Gostei muito de ter trabalhado com os marroquinos e argelinos. Ajudaram--nos a sério. O encontro dos escritores afro-asiáticos, no Cairo, em 1962, e ter conhecido Arafat e Ben Barka, foram muito bons momentos.

 

P- É curioso notar que nunca esteve em Luanda como militar do exército português, porém se formou em comando de contra-guerrilha no Centro de Instrução de Operações Especiais de Lamego. Disse certa vez que alguns dos seus antigos “colegas” viriam depois a ter por missão capturar-lhe. Quer-nos contar mais sobre este período da sua vida…

 

R- Nunca estive em Angola como militar português porque desertei depois do curso de comandos, em Lamego, onde de resto, era o único negro. Por ter desertado “com passagem ao inimigo”, se fosse apanhado, não escaparia à pena de morte, segundo as leis portuguesas. Por isso, todos, incluindo amigos e colegas antifascistas pertencentes ao meu curso, tinham instruções para me trazerem vivo ou morto. Mas eu não poderia agir de outra maneira para ser coerente comigo próprio e com o meu tempo. O vento da História mudara com o fim da II Guerra Mundial e a Conferência de Bandoung dera voz aos povos submetidos. Assim nasceu o bloco afroasiático que nas Nações Unidas, reivindicava o fim de todos os colonialismos. Isso levaria Portugal a mascarar as suas colónias, designando-as por “províncias ultramarinas”, isto é, extensões de Portugal; abolir o “Estatuto Indígena” e a integrar os africanos nas suas Forças Armadas. É neste contexto que me calha ser o primeiro oficial negro angolano no exército português.

 

P- Onde estava e que efeito lhe trouxeram as notícias do 4 de Fevereiro de 1961, 25 de Abril de 1974, 11 de Novembro de 1975 e 4 de Abril de 2002?

 

R- No dia 4 de Fevereiro de 1961, trabalhava, em Portugal, numa repartição militar. O 25 de Abril saudei-o com os antifascistas portugueses, em Montreal; no 4 de Abril de 2002 já estava de novo no exílio.

 

P- Que ganhos estas datas trouxeram para a literatura angolana?

 

R- Penso que ainda é cedo para se fazer uma avaliação correta.

 

P- Continua exercendo outra atividade gratificante que é a docência universitária. Lecionou em Portugal, França, Senegal, Estados Unidos da América e Angola. Que experiências acumulou e em que altura associa as suas atividades profissionais com a literatura?

 

R- Terminei a minha carreira académica como reitor da Universidade Lusíada de Angola, em 2008. Nunca lecionei na nossa terra porque não me foi dada oportunidade de o fazer. Em 1977 ofereci-me ao Ministério da Educação de então, para lecionar na nossa terra e até hoje não me foi dada qualquer resposta. A minha condição de professor convidado e conferencista, sempre viajando de um lado para o outro, impediu-me de ter maior atividade literária. Agora, não contando alguns compromissos em média dúzia de universidades, sinto-me quase aposentado de todo e então retomei a “Memória do Tempo Perdido”, um fresco histórico sobre a minha geração.

 

II. (Obra)

P- O seu primeiro romance, “As Sementes da Liberdade”, foi publicado no Brasil. É verdade que o espaço em que decorre o romance coincide ou é uma reminiscência desta sua infância na então Vila Teixeira de Sousa?

 

R- O cenário de “As sementes da Liberdade” é, efetivamente, uma evocação da antiga Vila Teixeira de Sousa, donde saí aos doze anos para só lá voltar cinquenta e oito anos depois e, ironicamente, por apenas uma hora, pois o avião tinha de descolar antes do anoitecer. Não deu para passear pelos sítios onde brinquei e nem sequer consegui identificar a minha antiga casa!...

 

P- Que importância atribui à Casa dos Estudantes do Império no seu amadurecimento artístico literário, tendo em conta que por ela passaram e se desenvolveram vários nomes da literatura angolana…

 

R- A Casa dos Estudantes do Império (CEI) foi sobretudo um ponto de encontro e de troca de ideias. O amadurecimento literário veio depois com a luta de libertação e a independência que nos foi dado alcançar. As vicissitudes de uma e outra e as posições assumidas por cada escritor dariam, posteriormente, a dimensão real de cada um…

 

P- Quer-nos falar de uma da obra “Kissange”, uma antologia de poesias que terá publicado ainda na década de 50, como resultado de textos publicados na secção cultural da Casa dos Estudantes do Império.

 

R- “Kissange” foi uma coletânea de poemas organizada pelo Carlos Ervedosa e o Costa Andrade, nessa altura responsáveis pela secção cultural do CEI. Espero poder vir a publicar a obra concebida à maneira do “Canto General” de Neruda. A década de 50, apesar da opressão salazarista, foi um período exaltante para os jovens da minha geração. Acreditávamos que íamos mudar o mundo, abolir fronteiras e desigualdades, realizar todos os sonhos e, sobretudo, construir pátrias de liberdade e de democracia para fazer do homem irmão do homem.

 

P- Se pudesse retratar as memórias da Casa dos Estudantes do Império, através de nomes de seus contemporâneos quais resaltaria?

R- Entre os contemporâneos da Casa dos Estudantes do Império ocorre-me os nomes dos santomenses António Tomás de Medeiros, José Fret, Miguel Trovoada, Virgínia Amorim, Frederico Sequeira; os angolanos Carlos Ervedosa, Pepetela, Carlos Sonnemberg, os irmãos Carlos e Augusto Pestana Heinnecken, Iko Carreira, Onambwé, Gentil Viana, João Vieira Lopes, Ruy Mingas e a Leta, Gabriela Antunes, Lihaúca e até o Jonas Savimbi; os moçambicanos Domingos Arouca, Sérgio Vieira, Fernando Ganhão, Hélder Martins e José Gil; os cabo-verdianos Pedro Pires, Gabriel Mariano, José Leitão da Graça, Caoberdiano Dambara, Elisa Andrade, José Salústio etc. Faltam muitos, muitos nomes, seria demasiado longo quiçá fastidioso, enumerá-los a todos. Tantas trajetórias e tantos destinos e cambalhotas absolutamente imprevisíveis! E afinal até parece que só o mundo é que não mudou.

 

P- Da sua Obra consta ainda uma peça de teatro intitulada “A Pele do Diabo”, que venceu o segundo lugar do concurso literário da Sociedade Cultural de Angola. O tema da peça é o racismo, um “fenómeno” que abordou na década de 50 e ainda parece atual. Quer contar aos seus leitores, que aspectos históricos ou fatuais lhe terão motivado para escrever a peça.

 

R- “A Pele do Diabo” foi escrita tendo em conta a luta pelos direitos cívicos dos negros americanos. As estatísticas da época indicavam que anualmente cerca de 30 mil negros americanos claros tentavam atravessar, clandestinamente, as fronteiras raciais e integrarem-se no lado branco, para terem muito maiores oportunidades de singrarem na vida. Imaginei o drama tendo em conta a situação colonial em que, como sabemos, ser descendente de pai branco era e continua a ser uma vantagem inestimável, mesmo após as independências. Por isso a eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos comoveu-me e deixou-me completamente estupefato. Julgo que nas suas tumbas alguns dos seus antecessores, se não todos, devem ter rodopiado como piões. Não vejo, por exemplo, essa possibilidade em nenhum país europeu, cristão, humanista, civilizador etc, etc. nos tempos mais próximos.

 

P- Como foi recebida esta obra assim que foi publicada?

 

R- Foi recebida discretamente. O assunto não interessava. Tanto quanto eu saiba, a peça tem sido objeto de teses em universidades lusófonas e francófonas e até já foi encenada por amadores.

 

P- “As Lágrimas e o Vento” é o segundo romance que escreveu. De que forma o Autor se posiciona perante os fatos narrados, na medida em que parte deste romance se refere à guerra colonial – de que não participou activamente – na óptica do exército colonial e outra parte se refere a factos decorrentes da sua experiência político-militar como dirigente do MPLA?

 

R- Tentei ser objetivo e imparcial para dar a dimensão da engrenagem que ceifou tantas vidas, alterou tantos sonhos e destinos, para proveito de tão poucos!..

 

P- Quis, com esta obra, apresentar um contributo para a compreensão da luta de libertação nacional ou o deveremos entender que o Autor se aproveitou dos dados que dispunha para sobre eles ficcionar…

 

R- Uma obra literária pode ser praticamente tudo o que se quiser ver nela. Daí as teses que sustentam os diversos pontos de vista. A obra foi intensamente sentida pois há nela relatos ou episódios de experiências vividas. Atualmente está em curso um projeto muito sério para a sua transposição para o cinema.

 

P- “Os Anões e os Mendigos” (romance, Portugal, 1984) é o mais importante dos seus romances. Quer seja pela forma como a comunidade académica tem-se debruçado sobre ela, quer seja pela forma como ela se repercutiu em África. Existem várias leituras deste livro. Vamos a primeira delas: será uma sátira social?

 

R- Quanto a “Anões e Mendigos” trata-se de um romance satírico, amargo e triste, inspirado pelos conhecimentos adquiridos, analisados e comparados, durante a luta de libertação, junto de muitos Estados africanos.

 

P- O título da obra “Os Anões e os Mendigos” é encarado como “provocativo” e até tendencioso. Sei que não se pergunta por que um pai optou dar este ou aquele nome ao filho, mas para o caso pode dizer-nos em que altura e, como chegou, ao título definitivo da obra?

 

R- Sei que este romance continua a provocar muitas crispações naqueles que se reconhecem em certos personagens ou julgam identificar outros. O certo é que as estatísticas políticas, económicas e sociais negativas, confrangedoras, revoltantes ou vergonhosas referentes ao continente africano não são ficção. Recorde-se, por exemplo, que a África, composta por 53 países, apesar de toda a riqueza, contribui com cerca de 28 países para o grupo dos 35 países mais pobres do mundo! E o comportamento corrupto da maioria dos políticos africanos é demasiado conhecido, comentado e censurado internacionalmente por estudos sérios e insuspeitos; e é até ridicularizado pelos próprios cidadãos dessas repúblicas produtoras de muitas bananas!... Há que não esquecer que o africano, com toda a sua simplicidade e poder de encaixe, sabe rir-se de quem o maltrata e o oprime e, de improviso, se põe a cantar, a dançar e a rir-se da sua própria desgraça. Já assim era no tempo da escravatura.

 

P- Li vários romances de autores angolanos e é notório, para o leitor, que a convergência de fatores como a experiência político-militar, a formação académica e a visão social do escritor ajudam a que se confunda a ficção com a realidade. Sei que há imensos trabalhos académicos sobre “Os Anões e os Mendigos”, inclusive teses de doutoramento sobretudo estrangeiros…

 

R- Foi ainda durante a luta de libertação que cheguei à conclusão de que havia em África muitos anões, mendigos e até palhaços, alguns com as mãos tintas de sangue irmão.

 

P- Como entender que uma obra desta natureza não seja do conhecimento da maior parte da comunidade universitária e não tenha já sido reeditada?

 

R- Julgo que a obra feriu certas suscetibilidades e personalidades que gostariam de apagar o meu nome da história da luta de libertação nacional, porque lhes faço sombra. Essa gente esquece-se ou finge esquecer que a minha participação na luta era um dever de consciência e um direito de colonizado. Por isso me engajei totalmente nela, assumindo os respectivos riscos. E apesar da profunda desilusão sofrida, se tivesse que recomeçar, a minha atitude seria a mesma. Espanta-me no entanto que os meus contemporâneos não tenham tido a coragem de se opor aos mabecos e predadores da nossa História.

 

P- Adriano Botelho de Vasconcelos, poeta, afirma que “só mesmo o livro «Os Anões e os Mendigos», romance de Santos Lima, pode ser considerado a mais perfeita caricatura hilariante do que fomos durante o longo período cinzento da pós-independência. Hoje os políticos terão de olhar para a nossa literatura como espelho do que se constitui como modelos sociais e culturais que descaracterizam o meio”. Quer comentar?

 

R- Tenho bastante respeito e consideração pelo poeta Adriano Botelho de Vasconcelos. É um dos nossos valores seguros e já uma referência da sua geração. Se ele tem essa opinião, para mim lisonjeira, de “Os anões e os Mendigos” isso significa que ele recebeu o testemunho.

 

P- O professor Russell Hamilton refere-se ao seu livro como umas das poucas obras literárias que censuram categoricamente os regimes africanos da pós-independência. “Manuel dos Santos Lima, qualifica os regimes africanos estabelecidos depois da independência como neo-colonizados, querendo dizer, portanto, dependentes, económica e, por consequência, politicamente, das potências dos primeiro e segundo mundos”. Concorda?

 

R- Conheci  o professor Russel Hamilton na Appalachian State University e conversamos muitas vezes. É evidente que eu não tenho nenhuma posição ditirâmbica em relação à maioria esmagadora desses regimes. De resto não sou um caso isolado nas letras africanas. Em todas as conferências e congressos literários em que participei, encontrei homens de letras que tinham o mesmo ponto de vista de desencanto. Além disso, não são os que dizem “Amén” a tudo, quem dinamiza uma sociedade ou a faz progredir. Acontece que às vezes, os inconformistas têm razão cedo demais e, impiedosamente, são imolados no altar das conveniências. Creio que Russel Hamilton, tendo o mérito da inteligência e da lucidez, não podia descurar a prudência das conveniências!..

 

P- Por causa deste seu livro, muitos autores, escritores e críticos de literatura consideram-no como “um angolano politicamente desafeto”, que mesmo sendo um antigo militante anti-colonialista e membro dos Novos Intelectuais de Angola, viveu fora do seu país natal por três décadas. Por que é que a sua obra literária é associada a sua militância partidária?

 

R- Ter uma certa distância do que se observa e estuda não é necessariamente negativo. Frequentemente não se vê o que está demasiado próximo de nós, porque se cria o hábito de não ver o que nos entra pelos olhos adentro. Fui sempre independente e livre-pensador, avesso às talas partidárias, à irracionalidade dos slogans telecomandados. Naturalmente que isso não é bem visto nem tolerado nas fases ou situações em que primam as ideias de “massas” para aqui “massas” para acolá…

 

P- Por que razão a maior parte dos seus livros continua sendo pouco conhecidos no mercado angolano, sendo que romances como “Os Anões e os Mendigos” nunca foram reeditados?

 

R- Mistério dos mistérios.

 

P- Afirma pertencer à geração “independentista”. A que geração se refere, em concreto?

 

R- Refiro-me àqueles angolanos irreverentes dos anos cinquenta que aderiram, à ideia de autodeterminação para os povos submetidos.

 

 

P- Ao longo dos anos pôde conhecer alguns dos mais ilustres nacionalistas africanos: desde Agostinho Neto e Mário Pinto de Andrade a Amílcar Cabral, Marcelino dos Santos e António Assis Júnior. Como resumiria a relação que manteve com estes e outros intelectuais?

 

R- Todos eram, no mínimo, sete anos mais velhos do que eu e fui por eles adotado como uma espécie de irmão mais novo, porque era um “miúdo que gostava de política”. Ao fim e ao cabo foram eles os meus verdadeiros companheiros de geração e não os jovens da minha idade. O veterano António de Assis Júnior, meu vizinho, pai do Licínio e da Serafina, era como meu avô. Gostava muito de o ouvir falar do seu tempo e da sua experiência nacionalista. Falhámos uma viagem juntos, a Paris, em 1956, aquando do 1.º Congresso dos Escritores e Artistas Negros. Agostinho Neto, aureolado pelas suas prisões e ligações marxistas, era reservado e algo sombrio. A sua poesia nacionalista, reivindicativa e imbuída de saudade, era apreciada e recitada nas sessões culturais, mais ou menos clandestinas, dos estudantes africanos. Trabalhávamos muito, juntos, e estive com ele até a ruptura definitiva, no momento decisivo das escolhas inadiáveis, impostas pela luta de libertação e para as quais, continuo a pensar, que ele, pela sua índole, deixara de ter capacidade de resposta. As enfermidades do MPLA datam desse tempo e creio que as feridas nunca sararam verdadeiramente. Assumo essa opinião perante a História e os que deificam Agostinho Neto. Mário de Andrade era um grande senhor; nacionalista convicto, homem de cultura por excelência. Ele foi o diplomata ímpar que Angola, tão injustamente, desprezou. A política e a literatura estabeleceram entre nós, grande amizade e cumplicidade. Em 1990, salvo erro, ao ver-me entrar no seu quarto do Hospital Egas Moniz, para além do reconhecimento, teve uma reação de pânico e mandou-me embora, pois receava que a sua doença, ainda mal definida, fosse altamente contagiosa. Foi a última vez que lhe toquei nas mãos, ao despedir-me dele, para sempre.

 

P- Quanto ao líder histórico Marcelino dos Santos…

R- Marcelino dos Santos foi, como Pedro Pires, meu padrinho de casamento, em Rabat, com a futura mãe dos meus filhos. Foi sempre o fiel companheiro das conspirações anti-coloniais. A nossa última reunião de trabalho, em Lisboa, teve lugar no “galinheiro”, isto é, a geral do cinema Politeama, na véspera da sua saída, sorrateira, para Paris. Só nos voltaríamos a ver nove anos depois, quando este já era o número dois da FRELIMO e o responsável político da Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas, a célebre CONCP. Eu acabava de desertar e ele foi acolher-me ao aeroporto de Casablanca. Continuamos amigos e agora partilhando, não só lembranças como achaques da idade. Amílcar Cabral impressionou-me pela sua estatura política e intelectual porque além de pensador consistente era homem de ação. Considero-o grande líder dos movimentos de libertação das antigas colónias portuguesas. O seu fim trágico é uma mancha indelével na história dos povos pelos quais se bateu.

 

P- Tinha 21 anos quando participou no Congresso de Escritores e Artistas Negros, onde conheceu iminentes intelectuais africanos como Cheik Anta Diop, Léopold Senghor. Disse que este foi um dos momentos mais altos da sua vida. Por quê?

 

R- Durante esse congresso foi-me dado conhecer e conviver com alguns dos expoentes máximos da elite intelectual negra da época. Por causa disso, as autoridades fascistas decretaram a minha interdição de saída de Portugal. Motivo: “negro perigoso: inteligente culto e viajado”.

 

P- Li uma frase muito curta que se atribui a António Agostinho Neto na Sexta Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos, realizada em junho de 1979. O poeta disse que “criar a literatura em África é diferente de realizar o mesmo na Ásia ou noutro continente”. Como descreveria a importância que Neto teve na defesa da angolanidade da literatura e cultura angolanas em eventos internacionais?

 

R- Só vi Agostinho Neto atuar em escassos eventos internacionais como líder político. Ao conceito de “angolanidade” eu oponho o de angolanitude, isto a soma de direitos e deveres inerentes à condição de cidadão angolano. Não vejo por que razão o ato de criar  seria diferente em África, pois quanto a mim ele depende essencialmente da sensibilidade, imaginação e talento do artista. Quanto a mim esse ato é  universal e independente das origens e condicionalismos locais. Eu estou com François Mauriac que, referindo-se à criação literária, dizia que o escritor era um macaco de imitação de Deus.

 

P- Quando leio sobre o seu currículo noto que entre a década de 50, 60 e os anos seguintes, Manuel dos Santos Lima aparece primeiro a serviço do exército e do regime colonialista português, mais tarde ao serviço dos movimentos nacionalistas. Como explicar este percurso, na medida em que a sua obra literária também parece ser reflexo disso?

R- Que fique bem claro que nunca estive “ao serviço do exército e do regime colonialista português”. Naquele tempo o serviço militar era obrigatório para todos os mancebos normais de boa saúde física e mental e os refratários sofriam pesadas sanções.

 

P- Teve a cabeça a prémio por deserção do exército português, como já disse, mas como se referiam a si, por este fato?

R- Tive efetivamente a cabeça a prémio com os epítetos “desertor”, “traidor”, “terrorista” etc.

 

P- Assisti nos últimos anos a defesa de uma tese de mestrado sobre o primeiro exército angolano. Soube, porém, foi um dos mentores do aparelho militar do MPLA. Hoje, quando se recorda do seu contributo para a independência do seu país, que lhe ocorre dizer…

 

R- Criei, organizei inteiramente e chefiei o primeiro aparelho militar do MPLA, ao fundar o Exército Popular de Libertação de Angola (EPLA). Só os tais mabecos da História pretendem calar, apoucar ou negar esse fato, certificado em documento do MPLA, sobre a 1.ª Conferência Nacional, reunida em Léolpoldville, já sob a presidência de Agostinho Neto e com a presença de observadores estrangeiros. Curiosamente alguns responsáveis políticos atuais, mostraram-se surpreendidos e até indignados que eu jamais tivesse sido proposto para uma condecoração, alertando-me ainda de que eu teria certamente  direito ao posto de “General” e auferir da respectiva pensão, tal como acontecia com vários dos meus antigos subordinados e outras pessoas menos merecedoras. Isso  foi-me recusado pelo generalzito afeto a esse serviço.

 

 

P- Mantém a ideia de que “Uma obra literária é implicitamente, uma organização estética que age como suporte do seu conteúdo”.

 

R- Qualquer construção necessita de um esqueleto que a sustente.

 

P- Pode dizer-me se concorda se se disser que grande parte dos ganhos a nível intelectual obtidos pelas gerações que lhe antecederam e procederam se deveu à consciência social e a busca incessante pela leitura?

 

R- Concordo em absoluto.

 

P- Do ponto de vista literário, o que é para si o belo?

 

R- O belo é um conceito muito subjectivo e multiforme, variando segundo a cultura e a época analisadas.

 

P- De que forma era vista a literatura angolana, nos primeiros anos da independência do país, na medida em que era produzida maioritariamente por nacionalistas cujo percurso literário e político se tornaram, a dada altura, convergentes.

 

R- Nessa altura, os escritores africanos, enquanto intérpretes das aspirações nacionalistas dos seus povos, eram tidos como os seus porta-vozes. O tom mudou quando eles quiseram emprestar a sua voz às aspirações democráticas que se seguiram às independências. Aí os incautos escorregaram em muita casca de banana!..

 

P- No 1.º Encontro de Escritores Angolanos, em 2004, afirmou que em termos literários pôde escrever com liberdade, sem censura, e que passado em revista mais de meio século da sua vida considera que faria tudo de novo, porque valeu a pena bater-se pelos seus ideais. O que aconselha às mais jovens gerações de estudantes e escritores sobre o futuro do seu país?

 

R- Não acredito em conselhos para serem seguidos como receitas mágicas. Sugiro-lhes tão somente que tenham a coragem de ser autênticos e iguais a si próprios, porque é desonesto e indigno. Fazer batota só pode ser rentável em certas circunstâncias e a curto prazo.

 

P- “Não tenho rancor por ninguém e as opiniões que emito sobre o passado perante perguntas concretas que me fazem, são apenas testemunho para a contribuição da verdade histórica a que tem direito o Povo angolano” - disse certa vez. É esta a resposta que dá às várias questões que repetidamente lhe são colocadas?

R- Sem a menor dúvida.

 

Muitas questões ficaram certamente por se apresentar e muitos temas por se abordar. Deixo-lhe este espaço para que possa dirigir-se aos seus leitores.

 

R- Ler é aprender e quem puder que faça a experiência de reler as obras de que gostaram com intervalos de 15 ou 20 anos e verão que sempre acharão algo de novo que os enriquecerá espiritualmente porque, amadurecidos com a experiência da idade, farão descobertas surpreendentes.   

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