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"A Poesia é a Sublimação de Sentimentos e Emoções." Destaque

Escrito por  Aguinaldo Cristóvão

Os leitores sempre se podem perguntar como ocorre o processo de realização de um livro de poesia, desde o âmago do autor-escritor às palavras numa folha de papel, ou mais correntemente num laptop (computador portátil). Também suscita curiosidade a forma de inspiração de cada artista. A nossa convidada a esta conversa é essencialmente uma poetisa. Crítica, autocrítica, mas coerente. Chó do Guri faz parte de um mundo ainda diminuto mas em franca ascensão que é o das escritoras. Apesar de ter já meia dezena de livros, ser conhecida a premiação do livro Chiquinho da Camuxiba deu-lhe maior proeminência.

Quando fazemos algo bem, esperamos que isto seja reconhecido, diz a dada altura. Nem todos os escritores pensam assim. Este mesmo raciocínio é recuperado pela autora de O Cambulador quando fala da poesia: "Eu não faço poesia, como advogam alguns poetas que fazem a poesia por partes, podendo um poema ser escrito durante seis meses. Eu faço-o de uma só vez. Só não faço quando quero. É preciso que haja uma interferência do que chamamos génio". Entre outras revelações, Chó do Guri vem defender que a idade não define o escritor: "A diferença só existe em saber escrever ou não", diz.

P - Os seus primeiros passos na literatura dão-se, curiosamente, em Portugal, onde ainda na década de 80 viaja para se formar em Ciências Farmacêuticas. O que lhe despertou para as primeiras frases?

R - Não é bem assim. Os primeiros passos aconteceram quando ingressei na escola preparatória. Tinha eu nove anos e foi o amor que me despertou para os primeiros versos.

P - É verdade que, rebuscando na história, foi aos nove anos que tomou contacto mais sério com a literatura e daí terá surgido a ideia de um dia vir a ser escritora?

R − Como acabo de dizer, foi realmente aos nove anos. Foi fascinante, a minha professora de Língua Portuguesa levava sempre vários livros para a escola além do livro didáctico. Lia ela primeiro para exemplificar como se faz uma boa leitura. Depois dava a cada um dos alunos para lerem e interpretarem, mas nesta altura via as coisas tão difíceis que nunca me passou pela cabeça que um dia eu viria a publicar. Para mim o escritor era como um deus e o livro uma obra maravilhosa.

P - Apesar disso, sabe-se que foi na Kibala (Kwanza-sul), onde nasceu, e mais tarde no Bairro Operário em Luanda, onde recolhe uma grande quantidade de informação que até hoje usa na literatura. Gostaria que nos falasse deste seu percurso e das influências que sofreu para hoje ser escritora.

R - Nasci na Quibala, mas tenho poucas recordações dela, pois vim para Luanda com dois anos e fui parar ao Bairro Operário. Este bairro marcou-me muito. Naquela altura éramos como uma família. Tenho muito boas recordações do bairro e da gente que lá morava. Além do mais era um bairro muito carismático. E penso que o que fez a gente que lá morava afeiçoar-se ao bairro era a nossa maneira de viver. Éramos muitas vezes obrigados a defender o bairro para nos defendermos de certas conotações que gente de outros bairros fazia de nós. Com toda aquela diversidade de gente havia pessoas de vários estratos sociais, mas sabíamos conviver.

P - Até que ponto a solidão influenciou a sua literatura?

R - A solidão influenciou a minha literatura quando me vi ausente do país, quase como por uma obrigação. Ler e escrever era uma maneira de fazer passar o tempo, mas que me fazia entrar na ilusão. Ao princípio foi difícil viver na solidão. Mas penso que cresci bastante.

P - Que valor atribui à literatura oral, que tem sido ainda hoje uma fonte inestimável de informações para escritores?

R - A literatura oral é de facto uma fonte inestimável. Mas gosto muito de falar das minhas experiências e não dos outros e para mim o seu contributo têm sido todas as distorções que se fazem a partir de uma estória, que quase não se chega a saber quem foi o primeiro autor. É maravilhoso transcrevê-la no papel de forma diferente, talvez como uma versão diferente. Mas o que se recolhe dela é a nossa cultura, a nossa história. É simplesmente maravilhoso.

P - Temos Vivências como o seu primeiro livro. Porém, há registo de que escreveu Almas Penadas. Fale-nos deste livro e, já agora, da pertinência deste título.

R - Almas Penadas é uma estória um tanto ou quanto excepcional. Fala da relação de pessoas de um mesmo país, mas com culturas diferentes. Uns dão ênfase à religião e outros ao feiticismo. É tudo muito supersticioso. O título é pertinente porque, enquanto os religiosos procuram a cura, os feiticeiros só querem matar. Daí Almas penadas, porque foram mortas pessoas que como se diz "não tinha chegado a hora".

P - Como pode uma obra, como defende, definir um escritor a determinado momento?

R - Sabe que o que as pessoas às vezes demonstram nas suas convivências tem sido muito formal. Na escrita estamos sozinhos, ou seja, nós e as nossas personagens e fazemos delas o que quisermos e muitas vezes sem nos apercebermos sentimo-nos livres, que é por aí que nos damos a conhecer melhor aos outros. Falamos connosco sem vergonha e sem tabus, o que não faríamos publicamente.

P - Como encara a nova geração de escritores angolanos, já que não é costume distinguir os jovens escritores dos escritores jovens..

R - O escritor que tem de ser um escritor, de facto não obedece a idade. A idade aumenta os seus conhecimentos, mas não determina o escritor. Na nova geração de escritores há jovens e adultos. A diferença só existe em saber escrever ou não.

P - Como e em que época é escrito Morfeu?

R - Morfeu é uma compilação de poemas de antes e depois da morte de um ente querido. A primeira parte foi escrita em 1993 e a segunda foi assim de um ápice em 1999. Fiz do livro uma homenagem.

P - Na minha opinião, a sua visão da literatura assenta na clareza da linguagem e na capacidade do emissor de transmitir de forma peculiar factos ao alcance de todos. É a isto que procura levar o leitor nos seus livros?

R - Com certeza. Eu não escrevo só para mim. Os escritores, que formam e informam, devem ser o mais claros possível, à excepção dos escritores técnicos, que têm uma camada dirigida para a qual tem de se fazer recurso a termos técnicos.

P - Até que ponto os estudos de sociologia que vem desenvolvendo influenciaram o romance Chiquito da Camuxiba?

R - É curioso que escrevi Chiquito da Camuxiba muito antes de ter pensado em voltar a estudar.

P - Todavia, este livro ganhou o concurso de literatura promovido pelo Instituto Marquês de Vale de Flor. Que importância este prémio teve na sua literatura e no curso da sua carreira?

R - O prémio é uma forma de me afirmar cada vez mais. É natural que quando alguém faz publicamente algo de bom espere por um reconhecimento. Felizmente consegui obtê-lo. Foi bom para o meu ego e para fortalecer a minha auto-estima.

P - Um dos temas recorrentes deste livro é o trabalho infantil. Como encara este fenómeno em África, já que os direitos da criança são, aqui, mais flagrantemente violados?

R - Além do trabalho infantil, trata do abandono que é feito à nossa criança angolana, o que é muito pior, e consequentemente aos seus pais. Sinceramente este fenómeno em África não tinha que existir. Aqui apregoam-se as riquezas deste país, mas são só os governantes e os estrangeiros que dela se beneficiam. É triste! Parece-me do modelo africano e isso só mostra a inferioridade do africano em relação ao europeu. Queiramos ou não, o africano é egoísta quase na sua totalidade e tem muitas propensões para o mal dos compatriotas. Aqui são violados todos os direitos do cidadão.

P - Quando publicou Bairro Operário e Vivências, procurou retratar o quotidiano daquele bairro histórico de Luanda. Na sua opinião, cabe aos escritores este trabalho de resgatar as memórias das suas terras natal?

R - Foi realmente o que procurei fazer, trazer à estampa o Bairro Operário de outros tempos, com a sua gente. Isso contribui para a história. Claro que sim! Cabe aos escritores resgatar essas memórias. O que não quer dizer que outra pessoa não o possa fazer.

P - Quando se candidatou ao prémio Marquês Vale de Flor tinha, além de Chiquinho da Camuxiba, já escrito outro romance, A filha do Alemão. Fale-nos deste livro...

R - Engraçado essa de A Filha do Alemão, acho que comecei a escrever este livro na tentativa de uma autobiografia. Só para dizer que comecei a escrever este livro em Portugal. Escrevia um bocado e a meio interrompia e deixava-o ficar por muito tempo porque achava que queria apenas guardar a minha própria história, porque era a minha mãe que me contava. Às vezes, conversando com outras pessoas apercebi-me de que a minha história tinha muito em comum com histórias de outras pessoas por uma particularidade. Todas as pessoas com história igual ou semelhante à minha não tinham sido perfilhadas pelo pai. Eu sou a filha de um alemão que nunca conheci. Como a minha história retrata a dor de muitas mães, escrevi esta em homenagem à minha mãe que muito sofreu. O livro é também uma réplica sobre as divergências que acontecem entre famílias de culturas diferentes e retrata alguns problemas rácicos.

P - Sempre se dedicou à poesia. Como dá o salto para o romance?

R - A poesia está em mim. A poesia sou eu e está em mim. Sinto a necessidade de desabafar. Ela obriga-me a estar com ela. O romance foi uma opção.

P - Sei que teve poemas - muitos deles perdidos - que foi passando para amigos e eram utilizados até para versos no dia dos namorados. Chegou mesmo a dizer que, juntos, estes poemas dariam um livro. Em que circunstâncias escreve poesia e que destino dá aos seus poemas quando não os considerada suficientemente maduros?

R - Como disse, a poesia é a razão dos meus mais profundos sentimentos. Eu não faço poesia, como advogam alguns poetas que fazem a poesia por partes, podendo um poema ser escrito durante seis meses. Eu faço-o de uma só vez. Só não faço quando quero. É preciso que haja uma interferência do que chamamos génio. Quando ele está em mim, então sim! Normalmente faço-os e guardo-os. Depois de algum tempo revejo e muitas vezes surpreendo-me com aquilo que faço. E é aí que faço alguns retoques complementares se tiver que fazer. A poesia é o sentimento em extremos fortes que muitas vezes nos faz chorar de alegria ou de tristeza. Eu já escrevi um poema com o título «Teu Destino, Minha Mãe» a chorar de emoção. Não consigo deitar fora qualquer papel escrito. Guardo-os sempre. Há poemas que guardo que, depois de os rever, nem acredito que os tenha escrito. Normalmente gosto daquilo que faço e se depois de muito tempo me aperceber de que o poema não me convence, deito-o fora.

P - O seu livro O Cambulador apresenta a estória de um jovem que cria uma agência fictícia e presta serviços sexuais. Estamos em presença de uma mistura entre a comédia e o bizarro. Fale-nos mais do livro e da responsabilidade que sobre si recai, depois de galardoada.

R - O Cambulador é isso mesmo. É uma forma de apresentar atitudes correctas e incorrectas. Escrevo sempre com muita responsabilidade e é por isso que penso que a atribuição do prémio tenha sido devido a esta minha grande responsabilidade. No Cambulador procurei mostrar as consequências de comportamentos ignominiosos: aqui incido sobre a prostituição. A finalidade de qualquer um dos meus escritos é levar os autores a tirarem lições de moral.

P - Quando apresentou em Luanda Chiquito Camuxiba, fê-lo através de uma simbiose entre o teatro (pois a obra tem laivos de texto dramático) e a literatura, com um narrador e a autora. Esta tendência é comum em países como os Estados Unidos. Fale-nos desta experiência comparada

R - Tive a feliz sorte de ser convidada a participar no segundo congresso intitulado "A vez e a voz da mulher" em Berkeley - Califórnia, com o tema "a mulher e a escrita" ou "a mulher na escrita": seus anseios, seus receios, sua afirmação. Daí que tive também o privilégio de ter sido convidada para participar do lançamento do livro How We Are Hungry, do autor Dave Eggers, em São Francisco. Foi estupendo. Era um debate entre um jornalista e o autor da obra, de forma a criar expectativa aos leitores e faziam-no de uma forma peculiar. O autor respondia com sátiras e humor. Foi realmente uma experiência fascinante.

P - "A arte de escrever é fácil para os ignorantes, mas difícil para os que escrevem", disse certa vez numa entrevista. Como explica aos leitores este seu raciocínio?

R - Para ser mais simples vou explicar com um exemplo: Sabe como se comportam as pessoas a assistir a uma partida de futebol! Os espectadores ou telespectadores jogam sempre melhor do que qualquer jogador em campo. Se alguém falha leva nomes por cima: burro, molengas e coisas assim. Com os ignorantes na escrita acontece o mesmo. Oiço várias pessoas a criticar este ou aquele livro sem conhecimento de causa e afirmam: "Isto! Isto eu também faço". Santa ignorância!

P - Quais são os principais temas recorrentes na moderna poesia angolana?

R - Em todos os tempos a poesia fez referência à época do escritor. A poesia moderna angolana não foge à regra. Os temas estão relacionados com os sentimentos e com o dia-a- dia de cada um. Com grande referência à conjuntura do país, como fizeram Agostinho Neto, António Cardoso, António Jacinto e outros - ainda que muitos o façam com uma certa camuflagem -, faz parte da poesia.

P - O que é, para si, poesia?

R - A poesia é a sublimação de sentimentos e emoções.

P - Porque defende que o escritor não está sujeito aos cânones formais da literatura?

R - Quero com isso dizer que o escritor deve criar. A criação é livre e a liberdade não se compadece com os cânones formais da literatura. Mas mais uma vez apelo para a responsabilidade. Cada um deve estar apto para saber o que é literatura e o que não é literatura dentro da produção literária, porque a vida é cheia de regras que conduzem ao bem-estar. Cada um deve saber estar dentro de regras naturais que correspondam a crenças, ideias e opiniões onde só a consciência impõe barreiras pela própria dinâmica do que é a vida.

P - Mais de noventa por cento dos escritores em Angola são homens. Este facto é reflexo do interesse pela literatura?

R - São homens, em Angola, disse bem. A mulher angolana ainda não está emancipada, por isso não é livre a fazer opções. Hoje, se reparar, há muito mais mulheres que se arrojaram a fazer a escrita do que ontem. Quer dizer que elas devem ter esperado por uma mais arrojada e seguiram-se as outras. Por outro lado há outros factores de constrangimentos. O próprio homem ainda não se capacitou a julgar a mulher pelas suas capacidades.

P - Que análise faz da qualidade imanente na poesia escrita por mulheres?

R - É como tudo. Há homens que escrevem melhor no conjunto de escritores, o mesmo acontece com mulheres que escrevem melhor no mesmo conjunto de escritores. A análise nada tem a ver com o sexo, embora exista esta estigmatização.

P - Elfriede Jelinek, escritora austríaca, venceu uma das edições do prémio Nobel da Literatura. Ela é bastante crítica sobre o seu país e, poder-se-á mesmo dizer, cultiva o cepticismo. Estes valores também são cultivados por Chó do Guri, a julgar pelas crónicas que publica em jornais?

R - Olha, há muito deixei de acreditar no Homem. Acredito em Deus, mas duvido até de mim, por isso o meu cepticismo. Quando o Homem mostrar a si próprio que é capaz de ter equidade, então sim, talvez mude de opinião.

P - Foi convidada para dissertar sobre literatura angolana nos Estados Unidos da América. Abordou o tema "A voz e a vez da mulher igual". Para uma comunidade com pouco contacto com a literatura angolana, quais as principais dúvidas que ouviu da plateia e com que elementos caracterizou a sua dissertação?

R - Repare que não fui convidada a dissertar sobre a literatura angolana, mas sim sobre a mulher na literatura ou a mulher e a literatura e eu aproveitei a deixa para falar da mulher que escreve em Angola. Aproveitei a minha dissertação para falar da minha experiência como escritora - os meus intentos e os meus constrangimentos -, o que espantou a plateia porque julgar quem é a mulher em Angola é muito humilhante. Esta situação diferencia-nos de outras mulheres de outros mundos. Há falta de política de incentivo aos escritores e com isso o incentivo à mulher é muito mais diminuto que nos homens.

P - "A narrativa angolana tem vindo a desestabilizar os lugares reconhecíveis da identidade nacional, onde ler é aprender a conhecer novos lugares, com referentes que nos transportam para outros horizontes, perseguindo a nossa sociedade." Gostaria que comentasse esta ideia do poeta Abreu Paxe.

R - Tenho sido muito contestada nas afirmações que faço. Isso não me preocupa. Por isso não gostaria de tecer qualquer comentário. Respeito a opinião do poeta Abreu Paxe.

P - Que visão tem da dinâmica editorial em Angola, uma vez que o número de editoras cresceu mas as vendas de livros continuam abaixo das expectativas?

R - Penso que a dinâmica editorial não obedece aos melhores critérios. O primeiro defeito é que quem escreve não deve ser editor, contando que a vida literária é por si só cheia de conflito. Um escritor é capaz de criar uma batalha contra outro escritor. Cada um deve conservar-se permanentemente em guarda. Pois ninguém sabe se o seu confrade é amigo ou está a preparar-se para o anavalhar pelas costas. Já experimentei o azedume, o despeito, a deslealdade, a malícia e o ódio que a vida literária traz. As vendas continuam abaixo das expectativas porque alguns editores não conhecem o seu verdadeiro papel.

P - À margem desta conversa ficaram muitos temas por abordar. De entre eles quais julga mais pertinentes e que subsídio lhes pode dar?

R - Realmente há vários temas por abordar, mas abordar por abordar não faz o meu género. Os temas que julgo serem de interesse pressupõem critérios de ordem cívica de respeito pela propriedade intelectual de cada indivíduo, a julgar pela liberdade de expressão, o que não tem sido fácil enquanto houver corredores em benefício de alguns. Vou esperar que os escritores da velha e da nova geração possam ganhar consciência para uma melhor convivência, para que possamos discutir as nossas diferenças ou ambiguidades.

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