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Descobri na Poesia uma Forma de Erguer a Minha Voz

Escrito por  Décio Bettencourt Mateus

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

«O poeta nasce do ar que respira! E o ar que o poeta respira são as situações agradáveis, difíceis e tristes, quer de ordem material, social, emocional ou outra. A minha poesia começou a manifestar-se numa altura em que era professor e experimentava inúmeras dificuldades de ordem material pois o salário era simbólico! Então descobri na poesia uma forma de erguer a minha voz».

 

P: Como é que o poeta se apresenta perante um papel em branco?

R: Há várias formas de escrever um poema. Cada um escreve à sua maneira. Há quem escreve um verso hoje, outro amanhã e outro depois de um mês e assim vai escrevendo os seus poemas.

Os meus poemas são escritos de uma vez, depois de amadurecidos na cabeça. Vinte a quarenta minutos e o meu poema está pronto! Depois é aquilo a que chamo trabalho de laboratório, ir talhando, trabalhando o poema até atingir um nível satisfatório. Isso leva muito mais tempo e requer paciência e alguma habilidade. Mas os meus poemas saem de uma vez!

P: O seu livro de poesias A Fúria do Mar, quanto tempo levou a escrever?

R: Na altura em que escrevia o grosso dos poemas de A Fúria do Mar, Fevereiro a Abril de 1997, não planejava ainda lançar um livro. Estava em fase de descobrimento e afirmação da minha vocação poética. Escrevia porque era a forma que tinha de expressar os sentimentos e porque sentia um prazer imenso. A Fúria do Mar foi escrita em cerca de três meses. Mas levou muito tempo a amadurecer e a ser publicada.

P: A Fúria do Mar apresenta uma preocupação temática e estilística. Como descreve neste sentido a fase de laboratório?

R: Pois é, é o meu estilo! Gosto de poemas bonitos e bem apresentados. Acho que isso estimula a leitura. Normalmente as estrofes dos meus poemas são sextilhas. Sou rigoroso quanto à apresentação estilística dos meus poemas. Respeito a temática, presto especial atenção a questões sociais do momento, como a prostituição, meninos de rua, candongueiros, etc. e, claro, o romantismo faz igualmente parte da minha faceta poética!

P: Diz-se que os poetas nascem da tragédia ou da felicidade. Partiu de um desses pólos?

R: O poeta nasce do ar que respira! E o ar que o poeta respira são as situações agradáveis, difíceis e tristes, quer de ordem material, social, emocional ou outra. A minha poesia começou a manifestar-se numa altura em que era professor e experimentava inúmeras dificuldades de ordem material, pois o salário era simbólico! Então descobri na poesia uma forma de erguer a minha voz.

P: Como entender o facto de a poesia até à década de 70 estar voltada para o colonialismo e hoje lermos a maior parte dos poetas a exaltar a mulher?

R: Penso que tem muito a ver com a viragem política que aconteceu. Na década de setenta e outras anteriores, a grande aspiração dos angolanos era a independência. Daí que houve influências desta grande aspiração na cultura angolana e na poesia em particular. Depois da independência tivemos aquele período de orientação socialista pouco favorável à criatividade dos nossos artistas e especialmente a abordagem de questões sociais. Provavelmente terá sido uma das razões porque se recorreu um pouco mais à figura da mulher. Mas isto de se escrever sobre a mulher não é novo, sempre se escreveu sobre a mulher e sempre há-de se escrever. Então não foi no período pré- independência que Viriato da Cruz escreveu o famosíssimo «Namoro» e o grande Aires de Almeida escreveu o «Meu Amor da Rua Onze», dois grandes marcos da nossa poesia romântica?

P: A maior parte dos poetas que hoje despontam debruçam-se sobre questões lúdicas e, por norma, a mulher. Falta de criatividade?

R: Talvez não. É normal que se escreva sobre a mulher. Em todas as épocas se escreveu sobre a mulher. Agora é necessário ganharmos consciência de que há outras matérias sobre as quais devemos nos pronunciar. É necessário haver algum sentido de responsabilidade poética. Falo das inúmeras dificuldades sociais em que se encontra mergulhada a grande maioria dos angolanos. É necessário que os poetas não fechem os olhos a estas questões e debrucem-se sobre elas em jeito de chamada de atenção, contribuindo assim para a resolução de algumas destas questões.

P: Há cultores que defendem que a crítica literária impede o seu desenvolvimento, ao passo que muitos poetas são considerados imaturos. Qual a sua posição?

R: A crítica literária construtiva é um elemento positivo e impulsionador do desenvolvimento literário. Lamento bastante que haja muito poucos críticos literários entre nós e que a análise das obras se resuma à apresentação floreada que é feita no dia do lançamento da obra. Longe de impedir o desenvolvimento, o crítico ajuda o escritor a melhorar o seu trabalho, chamando a atenção para esta ou aquela insuficiência. Decididamente sou favorável à crítica literária e ao surgimento de novos críticos no nosso universo literário.

P: Atribui-se a maior parte das más obras à poesia. Esta é considerada pelos cultores como sendo mais difícil que a prosa. Há aqui algum paradoxo?

R: Acho que não há paradoxo se formos a nos orientar por este dizer que é discutível. Os prosadores não devem gostar de ouvir isso, de que a poesia é mais difícil. Eu diria que são géneros literários diferentes. Bem, mas se a poesia é um género mais difícil, então é normal que haja mais dificuldade em se produzir bons textos poéticos. Por outro lado, aqui produz-se muito mais poesia do que prosa. O problema é que para se fazer boa poesia é preciso ter-se além da dedicação exigida, um certo dom, um certo talento. Por isso diz-se comummente que o poeta nasce e o escritor cria-se. Um dos indicativos de que a poesia nos dias de hoje não anda muito bem é o divórcio notável entre os leitores e a poesia. Os leitores de hoje quase não querem saber de poesia e os livreiros torcem o nariz e queixam-se «isso não vende». É claro que existem factores de ordem social que fazem com que as obras poéticas e literárias no geral vendam muito pouco, mas não posso deixar de atribuir também alguma responsabilidade à qualidade de alguns textos literários que se produzem actualmente. E repare que no passado tivemos poetas que encantaram, poetas de renome que levaram a nossa boa poesia para além das nossas fronteiras. Penso que este distanciamento entre o leitor e a poesia deve servir de reflexão para todos nós.

P: Justifica com isso o facto de os lançamentos de prosa serem mais solicitados?

R: Não creio que seja esta a razão. A prosa actual também não vai muito bem. Salvo esta ou aquela excepção, as últimas décadas não produziram grandes prosadores. Continuam a ser os kotas os grandes representantes da nossa prosa. O pós-independência trouxe muito poucos prosadores e muito menos ainda, bons prosadores. Repito, salvo raríssimas excepções. Também aqui, razões sociais estão na origem desta problemática. Entretanto os lançamentos de prosa são mais solicitados porque a prosa é um estilo mais abrangente do que a poesia, é um estilo que se consome com relativa facilidade em relação à poesia, que apresenta algumas especificidades e às vezes é difícil ao leitor, especialmente se estiver carregadíssima de metáforas que tornam o texto quase que indecifrável, como acontece de forma geral, nos dias de hoje.

P: Há certa apatia entre os escritores. Nota-se mesmo que existem poucos fóruns de discussão e debates. Como encara esta situação?

R: No geral, os escritores não têm muito tempo para reflectir, promover e participar em actividades literárias de relevo. Têm outras ocupações profissionais e sociais que os distanciam dos grandes eventos literários que verdadeiramente falando acabam sendo escassos entre nós.

P: Abandonaria o seu emprego se o Ministério da Cultura lhe atribuísse uma bolsa literária?

R: Abandonaria! Eu tenho a escrita nas veias, no sangue. Abandonaria com muito prazer, contanto que a compensação financeira fosse satisfatória. Sou defensor de que se deve profissionalizar a escrita e criar condições para que o produto, o livro, chegue às casas, aos musseques, às bibliotecas (que quase não existem) e que as famílias de baixa renda tenham poder de o adquirir. Só assim teremos bons escritores. Só assim produziremos boas obras literárias. É necessário percebermos que é capital a criação de condições para o desenvolvimento da literatura. Claro que aceitaria ser um escritor profissional! Talvez um dia ainda seja. Porque não?

P: O que faz quando não está a escrever?

R: Sou Geofísico e trabalho numa empresa petrolífera. Durante o dia estou distante da poesia, mergulhado em questões profissionais. Ao fim do dia ou nos fins-de-semana, procuro algum tempo para criar ou trabalhar sobre trabalhos já escritos. Não é o ideal, mas é o possível e então vou-me ajeitando. De uma forma geral é assim que trabalham os escritores não profissionais.

P: O que faz quando precisa de escrever e não consegue?

R: Isto é normal, acontece. Acontece com todas pessoas que escrevem. Acontece quando o tema não está suficientemente maduro e/ou não estamos suficientemente inspirados. O melhor é evitar que estas situações aconteçam, ou seja, evitar escrever quando não estejam reunidos os pressupostos mínimos. Confesso que ultimamente vai-me acontecendo menos porque percebo melhor o momento em que devo escrever. Mas é normal. Se não se escreve hoje escreve-se amanhã. O importante é que se escreva algo interessante.

P: Deixo essa questão em aberto para que diga o que queira.

R: Volto a bater na tecla da qualidade, é necessário que quem escreve leve a sério o acto de escrever. Então deve procurar produzir obras com qualidade. É frustrante vermos obras de qualidade duvidosa serem publicadas. Volto a chamar a atenção sobre o papel dos críticos literários. Temos de estimular o aparecimento de mais críticos literários. Temos de dar espaço e incentivo aos críticos. Estes contribuem para a melhoria da qualidade literária. Quanto ao jovem escritor, já sabe, deve trabalhar muito, deve ler muito e fazer muitas consultas para brindar os leitores com obras de qualidade. Os nossos leitores merecem obras literárias de qualidade.

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