testeira-loja

"Para Mim, o que Conta Mais é Ter Leitores em Angola"

Escrito por  Aguinaldo Cristóvão

 

O conflito armado, que durou 30 anos, levou à emigração de vários angolanos. Das memórias deste tempo consta o nome de um jovem que viria a tornar-se jornalista e escritor. Sousa Jamba é natural do Huambo, tem o umbundo como língua materna, e fala com semelhante aptidão o inglês e o português. Não espanta que o livro africano que mais o marcou seja The Man of the People, de Chinua Achebe. Sousa Jamba fez todos os estudos em língua inglesa, na Zâmbia, em Londres e nos Estados Unidos. Porém, afirma que nunca se desligou do continente africano e que nem pode ser considerado um exilado. Este cronista fala da paixão pelo jornalismo e "O meu sonho é ter uma bolsa para ir a uma instituição portuguesa ou brasileira para estudar, seriamente, a literatura portuguesa. Infelizmente, eu não faço parte do establishment literário", revela.

 

P - Uma parte da sua infância foi marcada por um cenário de guerra. Que memórias, boas e más, guarda do período da sua infância que permaneceu em Angola?

R - Lembro-me do calor dos meus parentes próximos e amigos da infância. Lembro-me dos jogos de futebol (eu era o guarda-redes) com os meus amigos no Bom Pastor, no Huambo. Como criança, eu passeava por todo lado; de vez enquanto, eu levava a bicicleta (Ulysess 28) do meu pai e vagueava pelo o nosso bairro. No Natal, íamos, em comum, procurar musgo para enfeitar a árvore em casa. Havia, também, as aulas dominicais na igreja Protestante do Bom Pastor com a Tia Angelina Bangu. O início da guerra civil, com a incerteza que trouxe, resultou nas memórias mais amargas da minha infância. A nossa fuga de Angola para a Zâmbia, a pé, marcou-me bastante: conheci fome, sede, morte e medo muito cedo na minha vida.

P - Sei que emigrou para a Zâmbia por razões políticas. Como reagiu a esta mudança de uma província em que se falava o umbundo para um país em que o inglês é a língua vernacular?

R - Em casa, falávamos umbundu e português. Não me lembro de algum momento na minha vida em que não falasse português ou umbundu: aprendi as duas línguas simultaneamente. Lembro-me, porém, que havia uma certa pressão para falar o português correctamente, já que a influência do umbundu deveria ter sido predominante. Comecei a estudar em 1972 na Escola de Fátima, no Huambo, e falar umbundu era proibido. Entre nós, os alunos, havia bófias que iam queixar à directora (uma madre) se alguém falasse umbundu. Quando chegámos à Zâmbia, em 1976, falava-se inglês e bemba, já que eu estava a província de Copperbelt. Tive de aprender a falar inglês e bemba; eu adorava ler os romances em bemba. Claro que falava sempre com um sotaque angolano forte. Na escola, até me chamavam Angola. Depois de algum tempo, fiz tudo para ser zambiano; escutava sempre os serviços de inglês da BBC nas rádios de onda curta para aperfeiçoar o meu inglês. Sempre tive um sentimento profundo de ser um estranho; muita gente que cresceu na diáspora está profundamente marcada por este sentimento de diferença.

P - Nestas suas peripécias, que títulos se recorda de ter lido, daqueles títulos que lhe marcam uma fase da infância?...

R - Como já disse, eu lia contos (alguns que se passavam no meio urbano em que vivíamos). Naqueles tempos, na Zâmbia, havia bibliotecas itinerantes; camiões cheios de livros vinham para o nosso bairro. Eu lia tudo - enciclopédias (onde me lembro de ter lido sobre o Haiti e o voodoo); livros de biologia (lembro-me de ser fascinado pela anatomia do sistema reprodutivo feminino); e romances que me levavam à Austrália, Jamaica, Espanha, etc. Aquelas bibliotecas itinerantes eram, para min, uma espécie de Internet, uma janela para um outro mundo. O livro que mais marcou, talvez, foi O Triunfo dos Porcos, de George Orwell. Depois, como vários outros jovens na Zâmbia na altura, li os autores nigerianos (que depois vim a estudar no ensino secundário quando estudei literatura africana). O livro africano que mais me marcou foi The Man of the People, de Chinua Achebe, que satiriza a imponência absurda da elite política africana pós-colonial.

P - É irmão mais novo de Jaka Jamba, político e filósofo angolano, que exerceu funções ministeriais e parlamentares, e se encontra actualmente na vida diplomática. Gostaria que falasse desta cultura baseada na africanidade, que parece ser marca de família, e da educação que receberam neste sentido.

R - Nós somos um produto da igreja protestante. À excepção de um irmão - o nosso kassule -, nós todos nascemos na Missão do Dondi, que foi fundada em 1914 na municipalidade de Katchiungo. A elite que foi formada nesta instituição serviria para propagar o Evangelho, mas em termos muitos africanos: o domínio da língua umbundu e os valores culturais locais eram importantes para um entendimento com as massas. Nós não fazíamos parte, exactamente, do projecto de difundir a cultura lusa. Na missão do Dondi, havia até uma prensa que imprimia canções e provérbios em umbundu. Depois, suponho, fomos também expostos à história africana e apreciámos a sua riqueza.

P - O seu livro central é Patriotas. Aliás, muitos angolanos conhecem o título mas desconhecem o autor. Qual o ponto de partida para escrever este livro?

R - Patriotas é um bildungsroman; escrevi o livro com 22 anos. Havia muita coisa em min que eu só podia dizer através da ficção. Devo dizer, porém, que sempre escrevi contos e fui publicado pela primeira vez, por um jornal zambiano, The Zambia Daily Mail, quando tinha 12 anos.

P - Conversei com inúmeros escritores do MPLA e tive sempre o cuidado de lhes perguntar sobre a necessidade que tiveram de fazer uma literatura mais engajada aos ideais da independência. É militante da Unita o segundo maior partido político do país (o maior da oposição). Patriotas é literatura engajada ou "desengajada"?

R- Eu acho que é um romance engajado - eu tinha um ponto de vista firme sobre as coisas. Porém, isto não significa que não seja um romance que não tente retratar as ambiguidades da vida. Sim, sou militante da Unita; porém, a minha disposição intelectual não é somente determinada pelo partido que apoio em Angola.

P - Apesar de estar na fronteira entre a ficção e a realidade, Patriotas é reflexo do desencanto que já sentia pelo partido que abraçou?

R- Sim. Eu cresci na Unita. Havia certas práticas totalitárias com as quais eu não estava de acordo. Felizmente, estamos numa outra fase; há hoje, na Unita, muita democracia.

P - Falando sobre a língua inglesa, o seu segundo livro, Confissão Tropical, foi publicado com o título original de A Lonely Devil, o que, na minha tradução livre, seria Um Demónio Solitário. A mudança de título foi intencional?

R - A sua tradução talvez seja a melhor. Não sei dizer bem...

P - O enredo de Confissão Tropical dá certo ênfase a uma espécie de psicologia criminal e à recriação de vários estádios que a sociedade angolana atravessou. Há críticos de literatura que chamam ao seu livro "romance do absurdo". Não estaria o autor a reconduzir o leitor - ainda que implicitamente - a um cenário de neo-colonialismo ortodoxo?

R - O autor espera que, retratando aspectos da história de uma sociedade, as pessoas façam uma certa introspecção. O falhanço de uma sociedade não implica necessariamente que ela tenha que ser recolonizada - pode-se explorar várias outras formas de organizar a sociedade. No caso de África, o problema que temos é que os nossos líderes dão-se ares de sabichões e não aceitam a cultura da contestação de ideias.

P - O leitor pode encaixar algumas peças do puzzle que criou para ficcionar a realidade. Sente-se mais à vontade hoje para explicar porque criou todo este artifício, ou será apenas impressão minha?...

R - O que é mais importante é a obra que, como criação literária, é coesa. Neste caso, teríamos de considerar se as personagens são credíveis ou não.

P - Penso que, nos livros que até agora publicou, a sua matéria-prima é o cenário que testemunhou e do qual teve conhecimento, das zonas durante muito tempo ocupadas pela Unita. No seio do seu partido, há esta noção clara entre o militante e o escritor?

R - É difícil dizer. Há gente que me acha incómodo e há outros que simpatizam com os meus esforços.

P - Sousa Jamba é exemplo sempre que se queira citar escritores angolanos que escrevem em línguas estrangeiras. Porém, faz parte de um grupo que, estando no exterior do país, vive como uma espécie de auto-exilados. Concorda com esta visão?

R - Não sou exactamente um exilado. Faço parte da diáspora angolana. Nunca assentei em Angola. Vivi em Londres quase 20 anos. Agora tenho uma família - mulher e três filhas - nos Estados Unidos. Nunca me desliguei, porém, do continente africano.

P - Têm-lhe sido apontados vários méritos, sendo um deles o de, com a literatura, abrir novos espaços linguísticos e contestatários, e outro o ênfase dado à expressão cultural africana como artigo estético-ideológico. Que importância e espaço atribui na sua literatura à cultura africana e angolana?

R - A cultura africana é algo que está a sofrer influências permanentes. O que tenho tentado fazer é participar na cultura do mundo e, ao mesmo tempo, não esquecer a essência do que sou - um africano. Licenciei-me em Comunicação Social. Uma das coisas que aprendi foi a apreciar as manifestações culturais de várias sociedades...

P - Pode dizer-nos porque censurou a versão em português de Patriotas e, exactamente, que parte achou por bem suprimir e inserir na sua edição...

R - Porque a versão inglesa tinha resultado no aprisionamento dos meus parentes na Jamba. A minha própria mãe foi posta na cadeia! Se o meu gesto ofende algumas pessoas, então elas têm todo o direito de me considerar um cobarde e de não ler as minhas obras.

P - Em 1986, foi para Londres (Inglaterra) com o objectivo de estudar jornalismo. Fale-nos da sua formação e do contributo que deu para a rádio Vorgan, em Angola.

R - Nunca trabalhei para a Vorgan; eu trabalhei é para a Kup (Kwacha Unita Press), a agência de notícias da Unita. Escrevia para várias publicações da Unita no Ocidente. Como já disse, fiz Comunicação Social na Politécnica Central de Londres (que hoje é conhecida como University of Westminster). Foram momentos altamente interessantes; muitos dos meus colegas são hoje gente com peso no mundo da comunicação social. O Karl Bromley, director da conceituada editora The Nations Books, nos Estados Unidos, não só foi colega meu da mesma turma, mas, também, um grande amigo.

P - Sei que se apaixonou pelo jornalismo escrito. Aliás, chegou a trabalhar nalguns órgãos, como The Spectator, chegando a receber um prémio de jornalismo, o prémio Chiva Naipul. Conte-nos este período da sua vida.

R - Eu queria ser escritor. Porém, tinha de fazer dinheiro. Foi assim que passei a escrever para revistas como The Spectator e o jornal Independente, em Lisboa, na altura liderado pelo Paulo Portas. Foram momentos bastante interessantes. Fui altamente irresponsável (sobretudo com as finanças); nunca pensei no futuro. Tinha a ilusão de ser o grande génio angolano. As minhas namoradas tinham de ser as mais lindas - até acabei com uma modelo de origem somali com quem fui fazer banga em Lisboa. A um certo momento, até tinha uma mulata brasileira. Sim, havia o lado intelectual em mim; porém, eu era imaturo e altamente arrogante. O dinheiro desapareceu, assim como as modelos. Passei momentos muito difíceis em Londres. Uma das pessoas que me ajudou bastante foi o Isaías Samakuva, o actual presidente da Unita, que na altura estava na Europa.

P - Por força do seu trabalho, viajou muito por África, além de ter um conhecimento profundo da realidade dos países anglo-saxónicos. Que diferença nota nesta literatura relativamente à feita em português?

R - Depois de eu começar a ter filhas, passei, entre outras coisas, a fazer consultoria para negócios ocidentais que tentavam entender-se no mercado Africano. Isto fez com que eu viajasse por todo continente africano.

P - Sei que gostaria de estudar mais a literatura de expressão portuguesa. Que referências tem de escritores como Mia Couto, Luandino Vieira, José Saramago ou mesmo Ruben Fonseca, quase todos prémio Camões de Literatura?

R - O meu sonho é ter uma bolsa para ir a uma instituição portuguesa ou brasileira para estudar, seriamente, a literatura portuguesa. Infelizmente, eu não faço parte do establishment literário. Alguns anos atrás, para melhorar o meu português, fiz vários pedidos a fundações lusas. Claro que as respostas foram negativas. Tenciono um dia, quando tiver tempo, sentar-me e ler as grandes obras em português. Li o Luandino Viera há muitos anos; as suas obras não me cativaram assim tanto como as do Pepetela ou do José Eduardo Agualusa.

P - Escreve há alguns anos as "Epístolas do Ocidente", crónicas semanais num jornal privado angolano, que lhe vale mais popularidade como cronista do que como escritor. Como irá conciliar estes dois grupos de fiéis leitores?

R - Há muitos que gostam das minhas crónicas, que passaram a ter interesse nas minhas obras literárias. Para mim, o que conta mais é ter leitores em Angola. Tenciono, no futuro próximo, ver os meus livros publicados por uma editora angolana. Nada me dá tanto orgulho e prazer do que receber cartas dos leitores das "Epístolas do Ocidente". Em vários circuitos da literatura africana, debatia-se a questão da audiência/leitores do escritor africano; eu estou a resolver isto criando vários leitores em Angola.

P - Quando publicou uma crónica em que narrava como as jovens angolanas se comportavam no estrangeiro, teve uma chuva de reacções, muitas delas recebidas na sua caixa de correio. Que importância atribuiu a estas reacções e que papel deve ter um cronista numa sociedade como a angolana?

R - Bem, o cronista deve entreter, informar, provocar, estimular os seus leitores, etc. O cronista deve, também, dizer aquilo que muita gente pensa e que não diz por várias razões. O cronista tem, também, de respeitar a inteligência dos seus leitores; muitos dos meus leitores são estudantes universitários.

P - Daquilo que tem lido, que visão tem da evolução da literatura angolana? Há quem defenda que perde a qualidade, outros dizem que há uma lufada de ar fresco, já que o conceito de qualidade é subjectivo...

R - Não tenho lido muito a literatura angolana. Infelizmente, não tenho tido acesso aos livros.

P - Disse numa entrevista que os escritores que admira não estão filiados a associações literárias. Os Creative Writing (cursos para escritores e afins) nos Estados Unidos têm sucesso?

R - Este é um debate quente no mundo anglo-saxónico. Há uma ideia de que a produção literária tem que ser espontânea e altamente inspirada. O escritor deve ser um Kafka, atormentado e "tuberculoso". Argumenta-se que os grandes escritores em inglês do último século - Orwell, Evelyn Waugh, Maugham, Steinbeck, etc. - não foram produtos de cursos de Creative Writing. Há, por outro lado, o argumento que diz que esses cursos ajudam os alunos a saberem ver as suas obras de uma forma mais crítica e construtiva. É difícil, neste momento, ver o lado que tem mais razão.

P - "Se, no universo literário angolano, o autor não pode, talvez com rigor, ser considerado pioneiro na tematização da História, (...) a sua singularidade reside no questionamento do Presente (valores, comportamentos, ideias) a partir das mitificações (às vezes das falsificações) da História". Que reflexões lhe sugerem as palavras da Professora Inocência Mata, estudiosa de literaturas africanas de expressão portuguesa.

R - Estou de acordo com a Professora Mata. Há quem diga que o valor da literatura é como saber mentir para dizer a verdade mais profunda.

P - É muito frequente ler que Sousa Jamba e Manuel dos Santos Lima têm linhas de literatura próximas. Por um lado, cita-se Patriotas e Confissão Tropical e, por outro, Os Anões e os Mendigos. Uma espécie de verso e reverso de moeda. Quer comentar?

R - Eu li Os Anões e os Mendigos em Londres - na biblioteca da Escola de Estudos Africanos e Orientais. Seria bom se o Dr. Lima escrevesse mais. Ele é um homem muito sério.

P - Já que viveu a maior parte do tempo em países anglófonos, cito, para que comente, uma opinião de Russell Hamilton, professor americano que se dedica há anos à literatura de angolana e africana: "Re-escrever e re-mitificar o passado é, de certo modo, uma estratégica estético-ideológica visada a protestar contra as distorções, mistificações e exotismos executados pelos inventores colonialistas da África. Além do mais, a re-mitificaçao é componente do neo-tradicionalismo que caracteriza aspectos importantes da condição pós-colonial".

R - Eu acho que no mundo africano de expressão inglesa, o colonialismo já não pesa assim tanto. Os escritores estão a retratar temas como a corrupção, a má governação, direitos humanos, o genocídio no Rwanda, etc.

P - Hoje a televisão tem mudado mentes. Desde a necessidade de corpos magros à adopção de novos comportamentos sociais e ético-culturais. Que avaliação faz do impacto de fenómenos como a aculturação e a globalização em países como Angola, Estados Unidos, Zâmbia ou Londres?

R - O problema é que, por causa do seu subdesenvolvimento, os africanos adoptam o que vêem do Ocidente sem adoptar um espírito crítico. É pena, porque resulta numa alienação profunda.

P - À margem desta conversa ficaram muitos temas por abordar. De entre eles, quais julga mais pertinentes e que subsídios quer ainda aduzir?

R - Todas as perguntas foram pertinentes. Gostei bastante deste intercâmbio. Não sendo membro da União dos Escritores Angolanos, a minha aparição aqui pode ser estranha. Em Angola diz-se que os "patos" às vezes animam a festa. Muito obrigado.

Ler 5243 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips