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"Escrevo Quando Sinto Necessidade de Contar uma História Verdadeira"

Escrito por  Manuel Pedro Pacavira

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

Manuel Pedro Pacavira é um dos escritores angolanos cuja obra se centra num espaço peri-urbano, onde viveu e onde buscou influências literárias. Nesta conversa, o escritor revela-se como nacionalista e testemunha ocular do processo revolucionário que levou o seu país à independência. Com 14 anos e a quarta classe feita, foi preso sem qualquer motivo, tendo sido retirado da casa dos seus pais, na calada da noite, e levado para os calabouços do Posto Administrativo da vida. Nomes como António Jacinto, Luandino Vieira, António Cardoso ou o Cónego Joaquim Manuel das Neves fazem parte da memória de Manuel Pedro Pacavira.

 

O 4 de Fevereiro Pelos Próprios é um dos livros mais recentes do escritor, que traz as memórias da sua participação neste processo político. Aliás, foi este processo que o levou à prisão e a, nas celas da cadeia de S. Paulo, começar a escrever sobre a sua infância.

P - A sua infância foi marcada, como a de muitos dos seus contemporâneos, pelo jugo colonial, mais propriamente pela experiência pessoal do que foi o trabalho forçado infantil. Que apontamento faz dessa época?

R - Eu próprio fui vítima e objecto disso. Com a idade de 14 anos e já com a quarta classe feita, fui preso sem qualquer motivo, tendo sido retirado da casa dos meus pais, pela calada da noite, e levado para os calabouços do Posto Administrativo da vida, com a corda na mbunda. E no dia seguinte, também com a corda na mbunda, no meio de outros pretos, fomos obrigados a capinar e a plantar batatas nos arredores, a fim de alimentar outros presos. Nessa altura, corri ainda o risco de ser arrolado para o contrato de trabalho forçado, em plantações de café.

P - O que lhe disse o seu pai para que decidisse migrar do Golungo Alto para Luanda, para tentar a sorte de um futuro melhor?

R - Para fugir às perseguições dos colonos que me invejavam por ser um menino negro com apenas 14 anos de idade, de já ter feito a quarta classe e de verem em mim uma tendência de aglutinador de outros meninos. Foi por isso que o meu pai tratou com o professor Paulo João Mulundu da Escola Missionária Católica no Golungo Alto para me candidatar ao curso de professor rudimentar no Kuima. Mas tive de viajar primeiro a Luanda, a fim de me despedir das minhas irmãs e primas, que já não via há bastante tempo. Estas desencorajaram-me a seguir o desejo do meu pai, e assim permaneci em Luanda para fazer o curso liceal.

P - Hoje, quando pensa nessa altura e olha para si, o que lhe apetece dizer?

R - Que os tempos mudaram, o que se passou passou, apesar de ter deixado algumas marcas indeléveis.

P - Que importância atribui ao Cónego Manuel das Neves, com quem travou conhecimento no Colégio da Casa das Beiras, e a quem chama "bom padre"?

R - Conheci o Cónego Joaquim Manuel das Neves, natural do Golungo Alto, aos oito anos de idade, por altura do meu baptismo na Igreja Católica da Missão de S. Paulo, em que ele era pároco. Nos anos 50, mais precisamente entre 57-58, reencontrámo-nos na Sé Catedral, já eu com preocupações político-nacionalistas. Sempre o admirei e venerava-o pelas suas posições políticas e determinação. E ele, por isso, me acarinhava, me tratava como se fosse seu filho e discípulo. A sua contribuição para Angola e para os seus compatriotas foi de inestimável valor e de indescritível importância histórica. Mesmo na sua qualidade e na sua posição de respeitável clérigo, entregou-se à luta de libertação nacional de peito, sem medir consequências, dando conselhos e orientações a todos os patriotas que o procuravam deveras engajados. Só lhe faltou despir as vestes clericais, para ir às reuniões nos musseques, como o fazia o Padre Joaquim Pinto de Andrade, bem disfarçado de rapaz novo sem batina e de gorro ao lado, bem batido na cabeça.

P - Fale-nos da importância que a escolaridade teve na sua infância, comparando-a com a época dos seus filhos.

R - A escolaridade não tem época, os sistemas é que se estruturam e reestruturam, conforme os tempos e os regimes. A importância que a escolaridade teve no meu tempo é a mesma que tem neste tempo para os nossos filhos e sobrinhos. É sempre preciso estudar para se ser homem e se inserir na sociedade como sujeito e objecto dos processos que se requerem para os desenvolvimentos múltiplos de toda a sociedade. Uma pequena diferença se nos afigurava hoje, comparando com aquele tempo: estudávamos somente por estudar, sem consciência e perspectiva de nação, porque éramos colonizados, ainda não tínhamos idade de pensar numa pátria livre e independente. Estudava-se para se atingir um determinado nível de escolaridade, que nos permitisse, pelo menos, um estatuto susceptível de nos libertarmos do "imposto indígena" e subsequentemente do contrato, para o trabalho forçado nas roças do colono português.

P - É inevitável falar sobre as suas influências literárias...

R - António Jacinto e Luandino Vieira, António Cardoso, que me encorajaram a escrever e a escrever cada vez mais e melhor, sobre o que pensava da vida e o que tinha de experiência pessoal.

P - É evidente nos seus dois primeiros títulos (Nzinga Mbandi e Gentes do Mato) um pendor muito forte para a exaltação do nacionalismo e, em última instância, da negritude. Fale-nos das divisões e sub-divisões que dificultaram a unidade de Angola como nação face aos colonialistas.

R - São os grupos étnico-linguísticos que apareciam como nações, nomeadamente os kimbundos, kikongos, lundas, ovimbundos, nganguelas, mumuílas, etc., com estruturas muito débeis, devida e habilidosamente exploradas pelos colonialistas, sobretudo os sub-grupos étnicos, que eles chamavam de tribos, a fim de se juntarem no mesmo saco com os primeiros, obviamente para evitar o encontro de elementos que os unissem até para a luta comum contra a ocupação colonial e a colonização, o desenvolvimento da sua cultura e forças produtivas.

P - Ainda pensa que a edição de obras nos idiomas dos principais grupos etno-linguísticos do país (kikongo, kimbundo, umbundo, lunda-tchokwe, ngangela...) pode ser o principal contributo dos escritores para levar aí o seu imaginário e, simultaneamente, ajudar a sanar o analfabetismo?

R - Sim, acho que sim. E é tão urgente como a concretização das orientações existentes para a institucionalização das línguas nacionais nas escolas. Eu acredito que um dia possamos vir a encontrar um denominador comum que defina linhas pragmáticas e programáticas para um só idioma para os angolanos de Cabinda ao Cunene, conformando assim o pensamento de Agostinho Neto nesta matéria.

P - A linguagem que Boneca, a sua personagem mais importante em Gentes do Mato, usa é a popular. Até que ponto livros como este, em há desvios aos cânones da gramática portuguesa, devem ou podem ser estudados nas escolas em Angola e no estrangeiro?

R - Podem perfeitamente ser estudados nas escolas em Angola e no estrangeiro, sobretudo em países de expressão portuguesa. De resto, sempre pensei e ainda penso pôr o personagem falando como fala normalmente no seu meio.

P - Publicou, 15 anos depois da sua primeira edição, Mingota, um conto que surgiu em 1981 no livro Gentes do Mato. Gostaria que nos falasse da sua fonte de inspiração para este livro e esta estória, muito ligada à sua infância.

R - Eu publiquei Mingota juntamente com Gentes do Mato em 1975. A minha fonte de inspiração para os dois livros foi a vivência da minha infância, reconstituída durante os tempos de solidão numa cela da cadeia de S. Paulo.

P - Até que ponto o exercício de cargo de Governador Provincial, como foi o seu caso, ou de Embaixador, afasta Manuel Pedro Pacavira de personagens como Boneca (Gentes do Mato) ou Mingota?

R - De forma alguma. De resto, ainda há bem pouco tempo nos reencontrámos com Boneca em Joannesburg, na companhia de sua família; é professora, titular de um Colégio em Luanda.

P - Ao longo dos anos assumiu cargos públicos e, nos últimos anos, deixou praticamente de publicar contos novos. Que material tem reconhecido e que factos têm sido a sua maior fonte de inspiração para novas obras?

R - Factos políticos, da minha vivência como nacionalista e dirigente político e administrativo.

P - Na época na década de 80, o movimento literário foi bastante prolífico. E o debate de ideias era mais acirrado. Conte-nos que críticas recebeu depois da publicação de Nzinga Mbandi e Gentes do Mato?

R - Não conheço nenhuma crítica, mas tenho o maior interesse em conhecê-las.

P - A propósito de Nzinga Mbandi, romance histórico de que pouco temos tratado: foi fundador da biblioteca com o mesmo nome, publicou a referida obra pela editora que tem o nome da antiga rainha do Kongo, Ndongo e Matamba. Até que ponto a história dos heróis da resistência à ocupação colonial pode dizer-se subjectiva?

R - Não é de forma alguma subjectiva. É verdade, sim, que muitos dados históricos partem de fontes portuguesas, mas também poderiam ser de fontes holandesas, do Vaticano e/ou brasileiras, pois outras não temos senão as orais, as quais também foram objecto do meu recurso. De todo o modo, ao escrever, apoiei-me em relatórios autênticos (escritos em português arcaico), que naquela época eram enviados para o Reino, e não nos documentos que foram sendo escritos por diversos autores nos fins do século XIX até aos nossos dias, com fins tendenciosos e muita carga de imagens estereotipadas. Os nomes são verdadeiros e verdadeiras as situações que descreve, apesar de os recriar com uma certa fantasia, mercê das minhas emoções patrióticas.

P - Ndalatando em Chamas (edição do autor) é um livro que relata factos mais recentes - pelo menos relativamente aos demais. Adverte, no livro, que personagens e factos foram "puro" exercício de ficção. Há factos que reportam o leitor a momentos antes e após a independência e aos pré e pós eleitoral. O facto de os factos terem todos ocorrido em Ndalatando [Ndalatando é a capital do Kwanza-Norte, da qual Manuel Pedro Pacavira foi governador durante 15 anos] é mera coincidência?

R - Não, não é mera coincidência. Procurei recriar situações que tiveram lugar em Ndalatando, em Junho de 1994, num morro sobranceiro à cidade, denominado Tenga, em que me encontrava entrincheirado com as tropas do Regimento 45 e outros militares e paramilitares, sob o comando do general Neco. Procurei essa expressão, puro exercício de ficção, somente para acautelar casos de melindres e susceptibilidades.

P - O 4 de Fevereiro pelos Próprios, tal como título indica, é um testemunho histórico que procurou trazer, através dos seus protagonistas, a história da luta de libertação então iniciada em Angola. Faz parte deste grupo de históricos. Ouvi-o num documentário a abordar esta questão, realçando a figura de Agostinho Neto...

R - Neto não teve um papel directo no 4 de Fevereiro, como tiveram Paiva da Silva, Imperial Santana, Neves Bendinha, Pedro José Van-Dúnem, Lourenço Contreiras, Mukongo, Cadete e outros ainda vivos. Mas ele foi o líder de todos nós e, mesmo estando em Portugal, mantinha ligação com o grupo de patriotas, no qual se encontravam Adriano Sebastião, Cândido Fernandes da Costa, Bernardo Joaquim de Silas, Fernando Coelho da Cruz, Herbert Inglês, que tiveram influência directa, através do MINA (Movimento para a Independência Nacional de Angola), sobre os grupos de patriotas que passaram à acção directa no dia 4 de Fevereiro, tendo havido muitos que morreram e outros que foram parar às cadeias e campos de concentração.

P - "Todos os livros que escrevi e tudo o mais produzido foi para estarem no serviço do nacionalismo angolano, ou seja, do despertar da consciência nacionalista para a luta de libertação". Quer-nos contar como se forjou, desta forma, escritor, como tantos da sua geração?

R - Forjei-me na escola da vida, começando a escrever num jornal manuscrito do nosso Botafogo, nos anos 1958-59. Mais tarde, na Colónia Penal do Bié, onde nos encontrávamos enclausurados, em 1961, com Jaime Madaleno da Costa Carneiro, Rodolfo da Ressurreição Bernardo e David Bernardo de Eça de Queiroz, criámos também um jornal manuscrito, para nosso passatempo. Muito mais tarde, em 1967, para quebrar a solidão nas celas da Cadeia de S. Paulo, comecei a passar para o papel algumas ideias que me vinham sobre os tempos da minha infância. Daqui resultaram as novelas Mingota e Gentes do Mato. No Tarrafal, durante os anos 1969-73, produzi Nzinga Mbandi, sendo já acompanhado por mestres como António Jacinto e Luandino Vieira. Ndalatando em Chamas foi para procurar interpretar a experiência que vivi em Ndalatando numa trincheira militar durante cerca de 15 dias, com a cidade tomada e cercado o morro em que me encontrava entrincheirado com a rapaziada das FAA. O 4 de Fevereiro pelos Próprios é um livro de memórias, concebido e realizado em Ndalatando, combinando o labor do escriba, com o ofício político-administrativo de Primeiro Secretário do Partido e de Governador da Província.

P - Há outra nota que gostaria que fosse esclarecida. Parte dos seus livros, como os de outros, estava ao serviço de um ideal revolucionário, ao socialismo, numa só palavra. Estamos já no século XXI e o capitalismo (que tantas vezes se diz selvagem) impera. Como é que um escritor se pode adaptar a condições tão extremas?

R - Como escritor, adaptei-me às condições históricas concretas resultantes das transformações que se operaram e operam no mundo, às quais o meu país (Angola) não pode escapar. Por vontade própria, buscou outro modelo de vida para as nossas populações, mas que não satisfazem – precise-se - plenamente as suas necessidades cada vez mais crescentes.

P- "O escritor é um homem. E o político também. Que vivem as confrontações da sua época, que têm um maior ou menos peso sobre si". Como reinterpreta as suas palavras, à luz dos tempos modernos e face à actual situação literária?

R - O escritor é um homem e ao mesmo tempo um político, da mesma forma que o intelectual não se dissocia da política, sujeito aos fluxos e refluxos da vida em que se insere.

P - Em comum nos dois livros de que falámos está a nota do autor que intitulou "A modos de introdução", onde debitava, em linhas gerais, a visão do autor sobre a obra, a literatura e a sociedade. Porque parou este exercício?

R - Não parei, afrouxei apenas, confrontado pelo tempo e pelas tarefas político-administrativas ou político-diplomáticas inerentes às responsabilidades e aos cargos que venho ocupando sucessivamente.

P - Que análise faz dos seus livros ao relê-los?

R - Que devo melhorar os textos, revivendo as memórias que foram objecto do que escrevi.

P - Que mensagens recebe actualmente dos seus leitores?

R - De afecto, de carinho e gratidão, de encorajamento e apelo à reedição de alguns livros, como Mingota e Gentes do Mato, Nzinga Mbandi e O 4 de Fevereiro pelos Próprios.

P - É cavilosa e quase previsível a resposta a esta questão mas... aceitaria dedicar-se, com as condições que queira, inteiramente à literatura? Isto é, ser um escritor profissional?

R - Não. Escrevo apenas quando sinto necessidade de contar uma história verdadeira e/ou interpelar uma das passagens mais relevantes da minha vida.

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