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Nunca Tive Medo do Povo, Porque o Povo é o Nosso Padrinho"

Escrito por  Samuel de Sousa

Entrevista de: Aguinaldo Cristóvão

Encontrámo-nos na sede da União dos Escritores Angolanos. Trazia um chapéu e um saco que poisou a seu lado, enquanto tentava sentar. Samuel de Sousa é um nome que vale por si na literatura angolana. Com mais de 80 anos de idade, começa a padecer das sevícias da terceira idade. Tem um cancro na próstata por tratar e complicações fisiológicas. A memória já lhe vai falhando, e apenas a vitalidade de alguém que nunca bebeu e fumou lhe permite caminhar longas distância

 

Sozinho. Neste momento, a sua mais ardente vontade, por mais paradoxal que possa ser, é estar na cama de um hospital em Lisboa. Só assim ele terá sossego. Poderá pegar numa caneta e escrever. Deixar um livro na sua banca. Lê-lo e dormir, para depois voltar a lê-lo. Seja como for, o "Samuel da Administração" deixou saudade e ainda tem saudades de Malange, terra que adoptou, mas dela foi expulso. A idade que tem não lhe permite ilusões. É realista. E na sua ainda estrondosa voz, ri-se sempre que pronuncia a estrofe do seu livro de poesias em que dizia que é "extremamente africano". E é. Sobretudo malangino!

P - Samuel de Sousa é daqueles escritores que já não vimos com frequência. Aliás, a maior parte dos leitores conhece mais o escritor que a sua obra. Onde passa a maior parte do seu tempo livre?

R- Estou completamente parado por causa de uma doença. Aguardo que a Junta Nacional de Saúde me indique a data de embarque para Lisboa para sofrer uma operação. Tenho um cancro na próstata. Na próstata é o de menos, sofri um acidente de viação no pé direito que provocou uma ruptura e uma queda no intestino delgado, no intestino delgado como nos testículos. Isto provoca extraordinários problemas, porque a gente não faz a urina que quer. Está dependente da força que o intestino empurra.

P - E como tem lidado com as suas leituras?

R- Eu gostaria de fazer e dizer muitas coisas, mas estou numa fase de esquecimento de coisas. Eu tenho que ter uma vida mais calma, mais arrumada, para poder falar. Tenho que arrumar a vida para recomeçar a ler... Sabe que eu tenho os livros fechados numa mala, porque não os posso ter num armário? Não tenho armário! E preciso de determinadas condições.

P - E isso limita quase toda a produção do autor...

R - Limita tudo!

P - Esta é a razão desta longa "ausência literária"?

R- Sim. De tudo. De conhecimento. Não conheço certos autores. E não conheço porque não estou com eles, quando devia estar com eles. Vir todos os dias à União, ler e escrever, anotar, falar com as gentes todas... Eu comecei por vir falar com Jorge Macedo, mas acabei por não vir. Eu moro longe! Eu moro naqueles prédios que os cubanos fizeram, sem nada. Sem condições.

P - Não é daqueles escritores que dizem que esta vida atribulada é que gera a imaginação, é a fonte literária?

R- Eu não concordo com isso. Eu já tenho mais de 80 anos e estou numa idade em que os problemas de esquecimento começam a atacar. Então não posso ver mais no afogadilho das coisas. Tenho que ter uma mesa. Você notou logo que eu para poder ler tenho que estar encostado, ler com calma, pôr os óculos...

P - Apesar de todos estes percalços que enfrenta, não tem procurado escrever memórias, poesias ou contos?

R- Eu tenho três obras praticamente realizadas. Uma é uma série de histórias de Malange, aquilo que a gente viveu traduzido sob a forma de contos; depois tenho dois livros de poesia, estou a preparar tudo isso. Agora que vou a Portugal fazer uma operação, vou ter um período de paragem, deitado na cama. Nesta altura vou escrever.

P - Vamos recuar no tempo. Fale-nos da sua infância, apesar de este exercício remontar a há mais de 70 anos...

R- Eu fui gémeo. Nasci no Ambriz, mas não tenho nada do Ambriz. Aos 15 anos fui ao Tembo a Luma e, a partir daí, fiquei malangino.

P - É por esta razão que se diz que Samuel de Sousa é mais malangino...

R - Eu devo dizer que sou malangino, porque a partir daí toda a minha vida, todo o meu pensamento, toda a cultura que eu tenho é uma cultura de Malange. Quando cheguei a Malange, os portugueses mandaram uma força militar para lá. Disseram que estava lá eu, o padre Bento Sardinha mais um moço, e foi uma força militar logo atrás de nós. E nós tivemos que fugir. E a nossa sorte foi que viemos de barco pelo longo Kuango até mais ou menos a uma vila, para nos metermos a pé até uma pequena povoação. Ali já ninguém nos podia apanhar nem dizer quem éramos. Naquele tempo éramos considerados como bandidos e logo mortos. Eles não tinham contemplações.

P - E consegue fugir...

R - Por acaso conseguimos nos safar e vir para Malange. É ai que vou iniciar uma vida rica, forte. 1973 talvez seja a altura mais importante da minha vida, quando eu entro para a administração do Concelho de Malange, como escriturário, como contratado de terceira classe. A primeira coisa que eu fiz foi dizer ao Administrador que havia uma rusga aos miúdos de 17 e 18 anos de idade para mandá-los para o café. Eu conhecia mais ou menos a história do café do Uíge, aquele é morto, este morre; vi que os miúdos iriam morrer todos, fui falar com o Administrador e pedi-lhe para não fazer isso. Ele concordou comigo. Mas obrigou-me, e nós ficámos responsáveis, de cobrar o imposto geral indígena a todos e nós conseguimos cobrar. Mandámos chamar as mulheres e dissemos que "os filhos vão sair todos, mas vocês têm que pagar o imposto". E pagaram.

P - Deixou de ter receio das perseguições nesta fase áurea, ou ainda foi incomodado pela polícia colonial?

R- Sofri um pouco. Mais do filho de um administrador de um certo posto do Kainzudo, porque o filho queria o carro. Queria que ele é que andasse com o carro e não nós. E fomos perseguidos. Mas o administrador tinha muita força e continuámos a trabalhar. Eu fiquei conhecido em Malange como "Samuel da Administração". Todos chamavam-me assim. Daí todo o povo de Malange andava à volta de mim. Andavam comigo e chamavam-me "Samueleeé".

P - Como foi que o Samuel da Administração, um homem popular, começou a assumir-se, a desenhar a sua trajectória literária?

R- Naquela altura não estava preparado para ligar o percurso que estava a viver com a literatura. Quer dizer, só agora, nesta fase, é que estou a ligar estes momentos todos para escrever contos.

P - Passou muito tempo em Malange, mas nos últimos anos tem residido em Luanda. Fale-nos desta sua passagem pelas províncias do país.

R- Eu comecei a ter muita popularidade em Malange. Por isso o Governo não me via bem. Diziam que eu era um adversário perigoso, que tinha que sair de Malange. Eles diziam isso. Passei a ser vigiado, mas eles tinham medo de me agarrar. Então tinham que me agarrar indirectamente. Quando a DISA acabou, ficou em Malange uma força, desmobilizada mas com armas. Eles matavam. E eu fui indigitado para ser morto. Simplesmente as mães disseram aos filhos: "Ele não é o vosso pai, mas é mais do que o vosso pai. Deu comida, deu roupa...". Eu fiz várias acções, dei-lhes tudo, portanto eles iriam me defender. Eu vivi em frente da escola da sexta classe em Malange. Um dia acordo de manhã, vejo a casa toda dominada pelos homens. Crianças dos 14 aos 18 anos. Eu não tinha espaço para descer nem para sair. Eles diziam: "Vai para casa. Não saia". Depois ouço tiros. Os homens da DISA estavam à frente do carro e furaram os pneus. Depois, empurrei-os para baixo. A partir daí eu fui considerado mau. O governador que lá estava, agora não recordo o nome, que tinha tentado ocupar a minha casa, aproveita-se da situação para mandar vir um avião da Sonangol que vai a Malange, que vai buscar duas pessoas, comigo três, consideradas "malditas". Metidos no avião viemos parar ao aeroporto aqui de Luanda sozinhos. Sem malas e sem pessoas para nos receber, sem casa para estar. Eu conhecia pouco Luanda. Não sabia onde estava. A minha sorte foi que no aeroporto encontrei uma tia minha e essa senhora indicou-me o caminho. Ela disse: "Nós vamos almoçar em casa - porque nós chegámos de manhã cedo -, depois à tarde eu vou levar-te a casa dos teus filhos".

P - Em que altura é que isso aconteceu?

R- Isto foi em 1992, mais ou menos nesta altura do ano (Novembro), em que havia muita humidade. Porque quando chegámos aqui o aeroporto estava húmido.

P - E ficou desde esta data a viver na casa dos seus filhos?

R - Sim, dos meus filhos. Depois eles foram-se embora do país. E fiquei a viver aqui em Luanda. Eu por acaso tenho tudo isso apontado e também vou traduzir em literatura.

P - Sei que neste período de Malange e Luanda foi escrevendo alguma coisa para a imprensa, que hoje diremos que foram os seus primeiros passos na literatura?

R- Praticamente no fim do meu período em Malange escrevi um pequeno livro de poesia que foi publicado. Foi a única coisa que escrevi. Eu falo que sou "tremendamente africano". Essa expressão alarmou muita gente. Os "tugas" não gostaram muito desse "tremendamente africano". Pensaram que estavam escondidas ideias nesta expressão "tremendamente africano".

P - Acabou por não responder sobre o material que veio a publicar no jornal diário.

R - O número em que mais publiquei não existe aqui, é o número especial do Jornal de Angola. Estes jornais já desapareceram todos da biblioteca. Só em Lisboa. Só o Jorge Macedo tem alguns poemas que encontrou na biblioteca de Lisboa. Porque aqui esta parte até foi recortada. Eu passei a ser figura não grata. O Jornal de Angola publicou uma série de poemas meus. Eu ganhei dois ou três jogos florais de Portugal, em que naquela altura o júri para concursos de Angola era [constituído por] portugueses; os meus poemas desapareceram da Câmara Municipal, porque depois rasgaram tudo o que viram com o nome de Samuel de Sousa. Até um jornal político monárquico português que publicou os meus poemas.

P - Quanto ao seu livro de poesias, como foi que ele surgiu?

R- O livro surgiu num período de luta. Nós tínhamos em Malange organizações nossas onde toda a gente podia fazer poesias, poemas, etc. Foi aí que decidi fazer também os meus poemas. E surge aí o "tremendamente africano".

P - É curioso que tenha escrito apenas poesia, e pouca, pois até 1992 já tinha material e potencial para escrever os primeiros contos. O que houve?

R - Sim. Eu não escrevi porque eu senti uma depressão. Posto aqui de Malange à toa, sem malas, sem roupas. Fiquei horrivelmente angustiado. Apesar de que eu passei a frequentar a União dos Escritores, desde a sua fundação. Eu morava aqui na zona do Jumbo e então saltava o muro da escola Ngola Nzinga e ia todos os dias à União. Mas a produção foi pouca, realmente.

P - Fale-nos um pouco da sua perspectiva de factos tão marcantes para o país como a independência ou a constituição da UEA.

R- Primeiro veio a independência. Eu estava em Malange. Depois da independência mandaram-me para aqui (Luanda) de castigo, em 1992, e vivi aqui a União com o António Jacinto, que era a minha figura principal.

P - Qual foi a sua posterior ligação com a UEA?

R- Foi boa. Aberta.

P - Conte-nos o que viu naquele dia histórico que foi a constituição da União dos Escritores, sobretudo se concordou com os critérios para ser membro.

R- Eu posso dizer que gostei muito pouco dos critérios. Eu tinha medo de entrar, mas havia outros que não entravam na União dos Escritores. Eu, talvez por educação, tinha aquela mania de que ninguém me vai impedir. Eu partia do princípio de que como homem tinha o direito de estar em todo o sítio.

P - Novamente deixou-nos sem uma imagem do dia da fundação da UEA.

R- Eu não me recordo. Eu não bebo e não fumo. Mas neste dia eu bebi um bocadito, como não bebia, basta beber um tragozito e fico meio zonzo. E bebi um bocado de whisky. Então as coisas todas passam-me "às bonitas".

P - Travou contacto directo com Pires Laranjeira, um estudioso português de literatura . Que imagem tem dele?

R- Eu concordei com a nomeação de Pires Laranjeira para membro da União. Ele estava aqui, deu o seu contributo. Mas eu tive poucas relações com Pires Laranjeira. Mas realizou muitos trabalhos de valor. Mais do que a palavra valor, de interesse.

P - Tenho uma colectânea de poesias em disco de autoria do poeta Carlos Ferreira "Cassé". Entre eles está o seu. O que pensa deste tipo de iniciativas?

R- Eu não conheço este disco. Eu gostaria de ouvir...

P - Ao longo da sua carreira escreveu pouco. O que lhe faltou ao longo destes anos para que tivesse uma produção mais pujante?

R- Mais calma. Eu tenho uma vida agitada. Eu estou sempre a pensar. Onde vou buscar dinheiro para ir a casa. Para pagar o candongueiro. Eu tenho um problema tremendo de vida. Eu preciso de ter mais calma. E penso que agora vamos conquistar esta calma com a ajuda da União. O novo Secretário-Geral está na disposição de me arrumar, para eu acalmar e publicar coisas em livro.

P - Concorda que uma ajuda financeira ou pensão pecuniária para alguns escritores seria o ideal?

R- Eu concordo, não com uma pensão mas com uma ajuda. A União dos Escritores ainda não alcançou o ponto mas pode dar uma coisa simples. Portanto algo que fizesse com que os escritores pudessem estar "safos".

P - Com o seu percurso, que opinião tem da poesia que é feita nas gerações que lhe sucederam?

R- Infelizmente, por exemplo, só agora vi o livro do Cristóvão Neto. E gostei dele. Quer dizer, da nova poesia eu não tenho conhecimento. Eu só tenho conhecimento da poesia até determinada altura. Mas desta geração nova eu leio aqui um poema, ali um poema, sem ter os livros em casa para poder lê-los com calma e anotar como faço. Eu gosto de escrever, de tomar apontamentos...

P - Imagino que tenha sólida opinião sobre a poesia dos seus contemporâneos. Penso que foi o período mais pujante de poesia que tivemos e com nomes de grande respeito. Tivemos o Alexandre Dáskalos, Cochat Osório, Aires de Almeida Santos, o próprio António Jacinto, Viriato da Cruz, Alda Lara e Ernesto Lara Filho. Fale-nos desta época áurea.

R- O António Jacinto e os poetas desta altura - com o meu livro que saiu pela União, onde dizia que sou "tremendamente africano" - estávamos muito avançados para uma Angola, Angola. Não só uma Angola independente, mas arrumada. Com os seus valores. Eu tenho combatido porque este largo que se chama "Largo das Escolas" devia chamar-se "Largo da União dos Escritores". Eu penso que nós ainda não chegamos até aí. Vou-lhe dizer que a rua que liga o largo do Aeroporto e o monumento do Agostinho Neto devia chamar-se "Avenida Agostinho Neto" e não avenida Ho Chi Min. E esta é a altura de se dar este nome.

P - Está a dizer indirectamente que o País deve, também, prestar o seu tributo aos escritores que também deram muito pelo país?

R - Evidentemente. O Agostinho Neto não deve ser só encarado como Presidente de Angola, que fez a independência e tem um monumento no largo. Mas devia ser encarado também como um poeta, um escritor.

P - Diz-se que é um bom contador de estórias...

R- Sou. Quer dizer, tenho realizado agora uma acção junto da nossa juventude estudante. Eu tenho falado com os jovens para estudar. Fazer pelo menos a oitava classe.

P - Fale-nos das suas fontes de leitura...

R- Sabe que uma das coisas que fiz e que consegui, logo que cheguei a Malange, foi falar com o então presidente da Câmara de Malange, Alexandre Relvas, [para] que me autorizasse a ler a parte histórica da Câmara. Depois de se concluir esta parte histórica consegui viagens. Fui à Cotonang e eles autorizaram as suas viaturas para ir ao mato. Quando Agostinho Neto foi a Malange - eu não me apercebi na primeira volta - o soba falou com ele. Ele disse: "Você traz tantos soldados para tomar conta de ti para vir falar comigo?". Agostinho Neto teve de mandar afastar a tropa. E isto são motivos que eu tenho anotado para escrever.

P - Que mais gosta de recordar do seu passado?

R - O povo. O povo simples. Aqueles encontros que eu fazia. Estava só com o povo a conversar. São os momentos que mais recordo. E tenho recordado sempre. Quando toco no meu filho mais novo, que tem 15 anos, recordo-me sempre disso. Nunca tive medo do povo. Porque o povo é o nosso padrinho. O povo somos nós.

P - Para fechar esta conversa é capaz de contar-nos uma pequena estória que ouviu à volta de uma fogueira?

R- Nesta altura não tenho. Desculpe.

P - Neste caso deixo-lhe o espaço aberto para falar sobre o que queira...

R - Quero fazer uma referência ao actual Secretário-Geral da União dos Escritores Angolanos, pela modernização que está a impor. Em tudo. É dar aos escritores o mínimo de acolhimento.

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