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"A Realização Literária é um Exercício de Liberdade." Destaque

Escrito por  Aguinaldo Cristóvão

O escritor vive intensamente a sua vida. Esta lógica guia o contista e cronista angolano Carmo Neto e serve para justificar a sua ligação com as letras. É que o que distingue o escritor dos outros profissionais liberais é a possibilidade de poder expiar as suas frustrações sobre o teclado de um computador.

Às vezes nem sequer come. O escritor justifica tudo isso como um período de "obsessão activa". MaisPorém, nesta entrevista percebe-se que há mais para além do cronista. Surgiu antes disto o jornalista, o militar. Posteriormente, o jurista, o advogado e, por fim, o funcionário público. Todas as vivências que teve estão agora a ser preparadas para que o escritor as use. É desta maneira que Carmo Neto pretende viver na velhice. Apenas a escrever. Por enquanto, procura o silêncio, toma cafés, desliga os telemóveis, viaja ou isola-se para pensar e escrever propriamente uma forma de sacerdócio.

P - A infância de um escritor, diz-se, é o único local onde podemos recolher as sementes do génio criador. Como afoga as saudades da sua terra natal, Malange?

R - Quem lê o que tenho escrito identifica, inclusive, o meu local de nascimento. Em regra, a infância é um mundo fantástico. É aquilo que fica impregnado na nossa mente e no nosso imaginário. E é o nosso primeiro laboratório para todo o nosso universo literário, depois de mais adultos. Porque o mundo verdadeiro é um mundo da perfeição, da justiça, da igualdade, onde tudo se partilha e, diríamos, da ingenuidade, em que tudo é cor-de-rosa. E deixa muitas saudades porque quando começamos a engatinhar, aprendemos a cair, aprendemos a desconfiar quando adultos, o que não aprendemos na infância. A infância existe sempre quando escrevemos porque o escritor, por essência, idealiza um mundo melhor, um mundo de partilha igualitária.

P - Com que livros mais esteve em contacto, sendo certo que na língua kimbundu são incontáveis as narrativas contadas nos jangos...?

R - Eu diria que fui privilegiado neste sentido, porque a minha primeira professora primária foi a minha avó. A minha avó dominava bem o kimbundu e o português e apesar de ter a fama de rigorosa, as avós são mais amáveis para com os seus netinhos. Daí a vantagem. Eram narrativas nos horários de serão, havia contos. No domínio da literatura escrita, ainda sou daquele tempo do colonialismo. Não havia a literatura dos quadradinhos, as fotonovelas ou os romances. Embora existissem já matérias literárias escritas para crianças, poucos escritores angolanos eram conhecidos naquela altura, pelo facto de existir a literatura infantil de origem portuguesa que nós assimilámos. Mas tive uma grande assimilação via oral que marcou-me bastante e acho que tudo quanto tenho ainda é futuro, porque praticamente ainda não está publicado aquilo que guardo, porque infelizmente o tempo de trabalho hoje aprisionou o escritor. O meu sonho é terminar a escrever e a exercer a advocacia. Penso que o exercício da literatura rouba muito tempo e não se pode brincar com ela, por ser uma actividade muito séria e que exige muito de nós. E tudo tem muito a ver com este facto: a intimidade fundamentalmente com a minha avó. O meu pai era já um cultor de literatura e eu, naquela altura, recordo-me de que, na Juventude Protestante, já editava revistas e livros que nos eram dados a ler. Recordo-me com muita saudade das últimas edições da revista Notícia. Tudo começou por aí, o meu pai incentivou-nos a ler e inocentemente criámos este "bicho" da escrita. E quero lembrar que foi nesta fase que descobri o Jorge Macedo, que já escrevia nesta altura.

P - Pôde assistir a alguns dos mais importantes momentos da história recente de Angola, desde o período colonial, a independência, o multipartidarismo, o recrudescimento da guerra e finalmente a paz. Qual o que mais lhe marcou e como isso o afecta quando escreve?

R - Há vários momentos que acho que vão ficar para sempre marcos. Primeiro desde ouvir os contos bonitos da minha avó, de como era o cenário do exercício do sobado pelo meu avó. Por causa da guerra, ele desapareceu em 1971 sem conhecermos o cemitério. Ele foi morto pelos colonialistas em função da sua intervenção política. Eu ainda não era nascido mas as histórias são marcantes. Também marcou-me a fase de independência, quando vi o meu pai desaparecido. Mas momento de delírio, de ressurreição patriótica, penso que foi o de 1991, 1992, períodos em que os angolanos começam a reconhecer os erros cometidos e, finalmente, em 2002, com o adeus, no sentido bélico propriamente dito. Portanto são três marcos importantes na minha vida, e que são coisas que às vezes os leitores, quando tomarem contacto com as obras que tenho em gavetão, vão descobrir isso. Claro que no sentido literário, porque a literatura, embora não seja realidade, há elementos que nos permitem identificar algo que nos tenha feito sonhar mais, ou chorar menos, mas sempre na perspectiva positiva.

P - Relativamente ao período em que iniciou-se nas letras, como o seu conceito de "escritor" foi mudando ao longo destes anos e como encara a sua actividade?

R - Sempre tive em mente que escrever é uma coisa bem mais séria do que muita gente julga, sobre os iniciantes em literatura. Achei que para melhor domínio devesse lavrar bem a escrita. Fui influenciado também por familiares e por exercer jornalismo, o jornalismo que levou-me a fundador do Jornal Desportivo Militar, um jornal de referência, embora às vezes pouco citado. Depois porque tive de cumprir o serviço militar obrigatório. A partir daí é que surgiu o primeiro parto, completamente aceitável para adolescente escritor. Agora reconheço que, do ponto de vista literário, só pode ser tido como o começo.

P - Uma parte da sua vida está marcada, como já referiu, pela vida militar que cumpriu, devido à guerra que Angola enfrentou. Que memórias guarda deste período e da revista militar?

R - Foi um grande período de descobertas, porque uma das grandes mais-valias que este período de guerra trouxe foi o poder conviver com as diferentes culturas do país, de que cada um de nós era portador. Mas acabávamos em uníssono num projecto comum. O incentivo do amor à pátria e a defesa do solo pátrio foi uma escola bonita, porque na altura cultivava-se muito, lia-se muito, havia nacionalismo e o sonho de ver a pátria unida, liberta. Tudo isso marcou-me muito positivamente, também porque aprendemos a conhecer o país, não só na sua beleza, como na sua cultura.

P - Pelo menos duas gerações de escritores emergiram na literatura graças às suas memórias da guerrilha e à sua capacidade para ficcionar, enquanto presos políticos. Porquê que isto não acontece com a nova geração?

R - Eu penso que muitos autores vivem encarcerados pelas múltiplas tarefas que lhes estão atribuídas hoje. Até porque alguns deles, entre os quais gostaria de enquadrar-me, entendem que este escrever e fazer literatura não é um mero exercício menos sério. Ele dever ser exercido com alguma criatividade, conhecimento sobre arte literária e descoberta de memórias. Até porque de memórias existem várias referências, a nível do país e fora dele. É sempre bom que, quando se queira fazer algo de novo, haja uma investigação, o que obriga-nos a ter tempo suficiente, sem a preocupação não só dos engarrafamentos rodoviários, mas da própria subsistência. A razão deste engavetamento de obras está também relacionada com o facto de estarmos todos apertados, sem tempo de recreio. Escrever enquanto arte requer tempo de sobra, e sabe que o tempo que nos resta é o tempo para a luta pela subsistência. O país ainda não está organizado socialmente para fazer os artistas criar. Por isto é de aplaudir a ideia, que está em fase embrionária, da bolsa de criação literária, que iria atenuar alguns obstáculos e permitir que efectivamente algumas potencialidades emergissem com maior facilidade.

P - "Há escritores que têm o complexo de Fernando Pessoa." Concorda com esta afirmação de Francisco Soares?

R - Eu tenho um princípio que é de não me imiscuir naquilo que os estudiosos de literatura dizem. Porque sempre teria de descodificar, no sentido literário ou literal, "o complexo de Fernando Pessoa" e provavelmente não seria bem sucedido na interpretação. Deixo isso ao critério dele. Espero que seja ele a responder. Quanto a mim, gosto de ser capaz de transmitir a mensagem no sentido de fazer com que os leitores sintam que alguma coisa, daquilo que escrevo, lhes diz respeito. Não só enquanto angolanos como enquanto cidadãos do mundo.

P - Tem obras engavetadas. Na qualidade de autor, em que posição prefere posicionar-se sobre os factos que narra?

R - Para mim é indiferente escrever na terceira pessoa do singular ou no presente do indicativo. O que para mim conta são os factos sobre os quais eu preciso abordar. O que tem muito a ver com o estado de espírito. Porque posso escrever de forma diferente o mesmo assunto em Malange, terra onde nasci e cresci, e um local que é ou foi cenário de algum conto, romance ou novela, do que se estiver a narrá-lo de fora do país. Não gosto de ser escravo dos preconceitos dos analistas literários. Gosto é de ser escravo daquilo que alguns já designam como hermenêutica literária. Que são as regras literárias. Mas as imposições dos críticos deixo os leitores comentarem.

P - Quando escreve, prevê o final da história ou segue o rumo dos acontecimentos, para descobrir o final, tal como o leitor?

R - Nem sempre. Isto varia. Por exemplo, até agora desconheço o final de uma novela que tenho praticamente acabada. Porque todos os finais que encenei não me agradam. Mas há quem já tenha lido a novela e ache que é boa. Eu gosto de ser a primeira pessoa satisfeita com aquilo que escrevo. Sobretudo para a crónica, para a qual escrevo muito. A crónica entendida como um romance inacabado, porque a sede de desabafo sai apenas em crónica, que é uma prosa minúscula. E já é, diríamos, um cenário pré-concebido na nossa mente. De tal forma que, sentados diante de um computador, ela sai naturalmente. É um parto, diríamos, suave. Mas há aqueles partos mais difíceis que mesmo com cesariana conseguem sobreviver, porque escrevemos e depois o final não nos agrada. Há o aborto. Há escritores que optam por matar o personagem, pondo fim à história, outros engavetam, como é o meu caso. Vou aguardar por melhor dias. Talvez seja o processo de crescimento do personagem que esteja um bocadinho complicado, na minha mente, no meu dia-a-dia e provavelmente na visita do local real de inspiração para a elaboração da tal obra. É esta a fronteira que às vezes fica difícil diluir entre a ficção e a realidade. Porque é a realidade que sustenta a ficção. Mas às vezes ficcionar a realidade fica muito difícil porque temos que revisitar os locais de inspiração.

P - Em Joana Maluca (Chá de Caxinde, conto, 2005), Carmo Neto utiliza uma linguagem demasiado corrente para narrar factos ocorridos num espaço rural. Penso que a estória pedia novos desenvolvimentos. Que elementos aduziria se a quisesse levar para o plano do romance?

R - Joana Maluca não termina. É um texto aberto. Porque o critério do conclusivo, em matéria de interpretação que lhe quiser dar, dá-lhe esta insatisfação que o escritor deu. Poderia transformar a Joana Maluca em freira, em primeira governadora de uma das províncias de Angola, por exemplo. Isto levaria outros capítulos até que ela se despisse das vestes de freira. E toda aquela descrição teria um final de exaltação do valor da mulher, cabível no ramo ficcional. Da mesma forma como podia escolher para ela uma amante mal sucedida, ou empresária mal ou bem sucedida. Tudo depende às vezes do tempo, dos contextos e do estado de espírito. Há contos por mim não divulgados por estas razões. E há crónicas que transformei-as em contos.

P - Como encara a crítica que é feita sobre os seus livros: usa-a para melhorar no próximo trabalho ou procura manter-se fiel, no estilo, aos seus leitores?

R - Sou uma pessoa bastante jovem na escrita para definir o meu estilo como acabado. A realização literária é um exercício de liberdade. E esta liberdade é ilimitada nos termos das regras literárias e acredito que ela pode ainda assim escalar outros rumo estilísticos desde que melhores que os anteriores escalados. Porque qualquer artista sonha sempre mais, fazendo o maior uso dos mecanismos artísticos. Usando melhor, por exemplo, as figuras de estilo e também reinventando textos. A corporização da ficção pode ser feita de diferentes formas. Por exemplo, nós ainda não temos um caso de prosa poética propriamente dita. É uma proposta por explorar. Há vários experimentalismos que já vou notando nas pessoas. Há o realismo mágico. Há outros caminhos como o estilo de romance inglês que os outros começam já a explorar, sem nunca menosprezar o valor literário da obra.

P - Este valor é, geralmente, apreciado pela tal crítica...

R - Às vezes fico sem saber que exercício crítico se faz no nosso país. Noto que textos elaborados por renomados autores passam com elogios. E obras artisticamente bem elaboradas passam à deriva, sem o aplauso dos críticos. Fico receoso em dar alguma valorização à crítica literária. Mas penso que ela irá emergir através do estudo. A nossa crítica literária hoje existe com base no autodidactismo. Não que seja mau. Até porque não existem faculdades de literatura para escritores. Isto tem a ver com o exercício criativo, o talento das pessoas. Claro que, em princípio, a crítica deve ser feita por pessoas que leiam muito, e saibam ler. Mas é preciso estudo. Com a abertura da Faculdade de Letras, uma nova fase na literatura vai abrir-se.

P - O que é para si um bom livro de literatura?

R - É ao mesmo tempo algo que diverte, que nos faz sonhar e que nos desperta. Por exemplo, um poema de Agostinho Neto, no passado, exaltava o patriotismo, a liberdade a partir do texto literário - que é algo distante da realidade. Há textos que nos podem marcar e dizer que, a partir deles, podemos fazer textos históricos, como foi o caso de Mayombe de Pepetela, ou um livro que pouco se divulga de Manoel dos Santos Lima, Os Anões e os Mendigos. A mensagem que estes livros nos dá é de reflexão e ao mesmo tempo um gozo da leitura.

P - Escreve crónicas para jornais. Como concilia a advocacia, o jornalismo, as suas funções públicas? Dito de outro modo, como emerge daí o escritor?

R - O escritor é um ser vivente, que vive intensamente a vida. Absorve intensamente os factos e só daí consegue a sensibilidade que tem para descrevê-la. A partilha de funções, desde que compatíveis, é fácil. Porque o advogado não está muito distanciado do jornalista. São coisas que se associam completamente. O Polícia é o mero exercício de função pública mas que, na área em que estou, casa com todas as outras funções. Embora de momento o advogado esteja praticamente de férias. O escritor está em reflexão, na clandestinidade a escrever. O jornalista também está na mesma condição e o Polícia continua vigilante.

P - Escreve de madrugada?

R - Não tenho horário. Eu gosto de me isolar quando pretendo escrever. Odeio os telemóveis, os telefonemas, a luz excessiva, o calor. Apenas adoro o silêncio e o café. Sou um grande amigo do café. É mentira quando se defende que o álcool seja criador. Fico aliás longos períodos sem comer. Que é, diria, um período de obsessão activa, em que a escrita é uma forma de sacerdócio.

P - Nos seus textos a fronteira entre os géneros é cada vez mais difícil. Nas crónicas, notam-se laivos de poesia, nesta uma componente social e na literatura uma mistura das duas coisas. É desta forma "prosaica" que escreve?

R - Eu sou uma mistura de coisas. O poeta é praticamente pouco conhecido. Vou-lhe revelar uma coisa. Eu fui uma das primeiras pessoas de quem o Américo Gonçalves [jornalista angolano, director do jornal Angolense] publicou um poema quando resolveu editar o «Vida & Cultura» [suplemento cultural publicado agora aos sábados no matutino Jornal de Angola]. Tenho algumas coisas de poesia guardadas, incluindo este poema. Este casamento artístico é normal. Porque pretendo vingar na prosa poética. A fronteira entre a ficção e a realidade é causa de muitos debates, tal como o é a fronteira entre a crónica e o conto. Mas a densidade do texto literário leva-nos à poesia inevitavelmente. E estaria satisfeito se tivesse efectivamente conseguido a prosa poética. É este o caminho que eu quero para mim, no género prosa. A poesia vou deixar para depois.

P - Neste caso, concluo que concorda com Francisco Soares ao dizer que quando "uma prosa está bem escrita é como poema lírico: a gente pode pegar em qualquer frase dela, juntar imagens mais ou menos aleatoriamente, e o resultado é sempre poético".

R - Agora mesmo poderia desmontar uma crónica para lê-la como um poema. O que ele diz nada mais é do que descobriu nalgumas das minhas prosas. Acho que é, diríamos, uma frase feliz de quem conhece de arte literária.

P - A propósito do livro Mahézu, livro de crónicas, a qualidade das palavras de Carmo Neto faz com que sejam classificadas como o trabalho de um exímio DJ. Não resisti a recortar esta passagem para questioná-lo.

R - Às vezes, quando escrevo canto. Gosto de escrever com música. Gosto do Barceló de Carvalho, "Bonga", e do Paulo Flores. Sou bastante ecléctico quanto a gostos musicais. Gosto também do Teta Lando. Há também citação, nas minhas crónicas, de artistas nacionais como o Mito Gaspar, o Carlos Burity e o Bonga, Paulo flores, Elias Dya Kimuezo. Ouço também música sentimental. Há um conto que comecei a escrever com a música do Roberto Carlos e terminei com o Teta Lando. Isto devido ao meu local de vivência e da igreja protestante. A única coisa de que não gostei porque o meu pai não fez - que a terra lhe seja leve - foi não ter adquirido uma viola depois de eu ter assistido a uma sessão na igreja. Eu tinha, na altura, 11 anos.

P - Existem escritores que fazem da ficção o seu mundo. Porém noto que Carmo Neto utiliza o seu mundo para ficcionar. Nalguns textos seus, o leitor percebe que mais do que das personagens o autor a fala de si. Concorda?

R - O autor não está desligado do seu próprio mundo. Dos locais maravilhosos e infinitamente inacabados por que passei fica sempre algum incentivo para a escrita. Tem imenso de inspiração, pode ir para a tela, o cinema, através deste mundo fantástico que é a arte. Embora haja este casamento entre a ficção e a realidade, o escritor projecta a sua realidade no mundo de fantasia que é a arte literária. Não pode haver confusão, é mera coincidência literária.

P - Gostaria ainda de falar de dois textos que formam o início da sua carreira literária. Refiro-me aos livros A forja (1985) e O meu Colarinho Branco (1988)...

R - A Forja foi mais um milagre gráfico. Surgiu naquele período experimental em que a vontade de emergir era grande. Na altura tudo se editava fora do país. Hoje, mais maduro, preocupo-me mais com os arranjos literários. Este livro é um marco para a história, mas não é, diríamos, ainda aquilo que eu gostaria de fazer enquanto material literário. Estou, portanto, a ser autocrítico. O meu Colarinho Branco já me satisfaz, apesar da opinião de algumas pessoas que leram a obra, mas quem escreve e delimita a obra é o escritor. A amplitude da obra é um acabamento do autor, e não ao gosto e prazer do leitor. Porque o leitor exigente gostaria eventualmente de ler O meu Colarinho Branco com outro enredo, mas tem que esperar porque, na altura em que escrevi, não tinha a disponibilidade actual. Hoje tenho convites de editoras, estou a conseguir gerir o meu tempo, tenho maturidade e muitos O meu Colarinho Branco irão surgir, para satisfação dos meus leitores.

P - "As pessoas continuam a tentar inventar uma linguagem que dizem popular, mas ninguém sabe transcrever bem a linguagem popular (...). Mas só porque dizem "pretoguês" ou qualquer coisa assim do género pensam que estão a dignificar as línguas nacionais. Acho que há falta de criatividade, mas principalmente de modéstia." Concorda com esta crítica de Gabriela Antunes aos novos escritores angolanos?

R - Seria preciso que esta crítica fosse feita de forma mais lata. Porque se analisarmos, o Estado, que está obrigado a dar educação aos seus cidadãos, tem de fazer o seu papel. Hoje a qualidade do ensino do português em todo o país é sofrível. Não será só no mundo literário que se vêem estes problemas. Às vezes a vontade das pessoas nas escolas é mesmo de aprender, mas não encontram professores que consigam ensiná-las. Mas têm um imaginário e talento fantásticos. Antes desta crítica deveríamos atacar as causas, que são bem maiores que os efeitos, isto é efeito de um mau investimento. Por outro lado não se devem isolar os factos, porque nem tudo o que se publicou neste contexto [época colonial e pós-independência] é literário. A nova geração deve-se pautar pelo uso estético da palavra de forma elevada e nobre. E há uma diferença abismal entre os recursos estilísticos e estéticos desta nova geração relativamente às anteriores. Há mais-valia para acrescentar a este contexto em todos os aspectos, a poesia e a prosa. Naturalmente deve sobrar de nós o respeito dos mais velhos, os fundadores da casa-mãe, a União dos Escritores Angolanos; mas é também obrigação deles encaminhar-nos para o local certo. Porque pretendemos aprender.

P - Pode-se dizer que a BJLA, de que fez parte, evoluiu ao longo destes anos em que tem contacto com a literatura?

R - Sempre tive a noção de que criar é um exercício de liberdade. E eu não tenho de criar perfilado num estilo militar, a receber ordens do chefe. Que devo escrever no sentido direito ou esquerdo, ou na intermédia. Eu tenho de exercer esta minha vocação sem ter para o efeito de marchar, cambalhotar ou correr. Ou a receber ordens precisas. Eu acho que o exercício criativo não tem nada a ver com brigadas, nem com uniões. Embora tenha a ver com a escola. Estas instituições servem mais para discutir problemas inerentes ao exercício da actividade criativa, em áreas específicas como a literatura ou a música; mas nunca para dizer que o escritor agora deve escrever poesia, exaltar palavras de ordem ou dizer "abaixo" ou "viva". Por acaso não sou contra os brigadistas, nunca estive filiado na Brigada, apesar de ter publicado a convite da Brigada. Respeito quem lá está e lá esteve, mas no respeito do direito à diferença e pelo facto de ser membro da União dos Escritores enquanto associação cultural, porque eu não recebo ordens da União para escrever crónicas ou contos. Recebo convites. E os trabalhos são avaliados com base em critérios literários, dentro da liberdade dos sensores, de forma a manter a qualidade. Assim como eu me posso recusar que me seja feita a censura.

P - Quando termina de escrever um livro submete-o à análise de algum escritor ou relê o texto e entrega-o ao Editor?

R - Releio sempre o que escrevo. Porque às vezes reconheço que o que escrevi não tem nada de literário. Faço isso comigo e com os outros. Da mesma forma que a doutora Gabriela Antunes dizia que nem tudo é literatura, também há muita coisa que se publicou que é literatura. Fazemos vénia aos mais velhos, que são os nossos expoentes, como Mendes de Carvalho, Pepetela, Manuel Rui, Agostinho Neto, que é a nossa grande referência, entre outros. Mas também tenhamos a coragem e a hombridade de reconhecer e de dizer que muitos de nós somos efeito de um sistema de educação deficiente, sobretudo no diz respeito ao ensino das línguas. Há países, como a África do Sul, em que, para evitar estes erros, já se educa através das línguas nacionais. Há jornais em línguas nacionais. Isso para permitir o maior domínio da própria língua. Aqui há estudantes universitários que cometem erros ortográficos, mas que se tiverem vocação para a escrita não vão deixar de o fazer. Mas também há escritores renomados que têm revisores. Nem sempre o facto de se possuir talento dá-nos a obrigação de saber absolutamente tudo. Eu tenho a felicidade de dizer que, se tiver dúvidas em relação a alguma coisa, vou a um tio que dá aulas na universidade deste país, que é o único doutor em língua portuguesa. Eu já dei alguns contos a uma pessoa ligada à literatura. Ele fez caretas. Antes dei os mesmos contos a este professor, doutor em língua portuguesa, é o único neste país - e é tido como rigoroso. Mas quando a pessoa que torceu o nariz viu estes mesmos contos publicados num jornal literário de Portugal, mudou de posicionamento.

P - Imagino, por isso, que concorde com Jorge Macedo quando diz que "não basta ser bom escritor, é preciso cuidar da própria imagem. A literatura, enquanto obra que se deve divulgar, não é, digamos assim, uma arte despreocupada, não é só arte, é tudo o que está à sua volta, os críticos, as indústrias, os editores, as feiras, os best-sellers, tudo isso".

R - Isso responde a muita coisa. Há livros que se editam em determinados países e que volta e meia, é o que se diz, acha-se que é mais da promoção da imprensa do que pelo valor literário. Há livros de escritores já renomados no mundo que não têm o valor de um escritor best-seller, mas o nome às vezes faz caminho. É também por causa da ausência de uma crítica literária corajosa. Não só corajosa como imparcial, porque seria importante para definir os critérios que nos possam ajudar a fazer e acreditar, também, que literatura é uso estético da cabeça e, a partir daí, tudo pode acontecer. Hoje as editoras estão preocupadas em publicar qualidade. Neste sentido concordo plenamente em tudo o que ele [Jorge Macedo] diz.

P - A sua geração encontra um mercado mais aberto à edição, mas mais sedento de boas obras literárias. Deixo-lhe em aberto este espaço para as considerações que julgue úteis, à margem desta conversa.

R - Esta geração também é mais culta. É lógico que os produtores de arte cresceram muito. Hoje o mundo é mais aberto. Hoje temos internet, há edições mundiais, há mais circulação de informações. O conhecimento sobre o que é a arte de escrever cresceu. Temos hoje uma Faculdade de Letras. Naturalmente que temos leitores mais exigentes, porque a própria rejeição do leitor também já é notável. Os leitores já não lêem tudo ou qualquer coisa. Preferem ler sempre aquilo que se chama literatura. A vontade criativa é maior, mas as livrarias também escasseiam. Temos que pensar na educação no sentido multifacético. O domínio da leitura dá-nos também o domínio da ferramenta científica do desenvolvimento do país. Parte de algumas livrarias serve para venda de mobiliário. Em parte porque não se valorizou o investimento no livro. O livro é caro. Temos que resolver esta questão do livro para que haja acesso a ele enquanto fonte de conhecimento. Porque o que acontece aqui é que são poucas as inovações estéticas. À excepção do livro do Lopito Feijó, Haikais. Digam o que quiserem em relação ao conteúdo, mas do ponto de vista formal é uma inovação. O que é que se faz hoje a nível da prosa ou da crónica? Muitos vão pelo tamanho do texto. Há contos do Drumond, que eu já li, que são pequenos. Às vezes de quatro parágrafos. O problema está na definição do conto. Estas tendências são saudáveis porque são acumuladas e recriadas a nível local.

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