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O Debate É Mil Vezes Mais Estimulante

Escrito por  Adriano Botelho de Vasconcelos

O Semanário Angolense, no pretérito mês de Março, entrevistou o poeta Adriano Botelho de Vasconcelos, Secretário-geral da União dos Escritores Angolanos. Com a devida autorização do S.A, publicamos na íntegra a referida entrevista para que os nossos visitantes conheçam a natureza do debate e polémicas que surgiram depois da entrevista do poeta e romancista Agualusa.

Ilídio Manuel - O ambiente entre os escritores está «muito quente», como se diz na gíria popular. Quer identificar as causas?

R - Todos reconhecem que os escritores devem ser bons na arquitectura das suas peças de ficção ou de poesia para que tenham o tal único leitor que justifique a publicação da obra e enriqueça o imaginário mesmo que seja de um só leitor. Acontece que no nosso país, entre as suas carências no domínio do saber, infelizmente, são ainda deficitárias as ciências que tratam os processos de análise das nossas obras. Mais sedimentados estão os Centros de Estudos das Faculdades de Letras do Brasil e Portugal que têm o domínio ensaístico sobre o «corpus» literário angolano, são eles que através de teses de mestrado e doutoramento definem o alcance das nossas rupturas estilísticas, falam das temáticas e tentam explicar com muita dialéctica o que se tornara inexplicável até por parte dos autores.

Devido ao vazio em causa, muitos escritores querem ser «ensaístas» por via do saber adquirido através de leituras de títulos de consulta obrigatória indicados pelos grandes ensaístas. São designados de simples autodidactas e apesar de alguns reconhecerem as suas limitações, outros não querem ter uma posição conciliatória com a ética já que muitas vezes por deformação e outros males, usam e abusam das adjectivações depreciativas para denegrirem os seus confrades, na verdade, seus iguais ou usam ainda esses supostos dotes analíticos para tentarem enaltecer, como figuras ímpares da literatura angolana, os seus melhores amigos.

O escritor Agualusa, membro da UEA, pode confessar os seus gostos, as suas opções de leituras e pode até dizer que «a poesia de Agostinho Neto e de António Jacinto não fazem parte das suas preferências». Enquanto membro da direcção da UEA, como posição colegial, quero aqui realçar que apesar de duas ou três pressões para que tomássemos medidas sancionatórias, não é nossa intenção animar ou deixar espaço para as posições mais «musculadas». Realcemos as ilações. Ao pretender «qualificar» a obras desses escritores, certamente, seria de bom-tom que o confrade apresentasse argumentos críticos baseados no saber ensaístico que quando confrontado com as autorizadas vozes e estudos dos catedráticos que escreveram centenas de páginas sobre «Sagrada Esperança» e «Sobreviver em Tarrafal de Sãtiago» e «Poemas de circunstâncias», essa última obra de António Cardoso, apesar de pouco comentada não deixa de ser importante e assim, através da sua visão crítica, pudéssemos reconhecer o seu esforço de teorização. Essas afirmações foram feitas sem a necessária base reflexiva e foram muito mais longe ao qualificar de ignorantes todos aqueles que apreciem a poesia desses escritores que contribuíram com as suas obras para que hoje se fale na construção do nosso cânone literário. O desrespeito ao «outro» e a falta de rigor, têm um mesmo fim, não provocam um debate sério. Não era de esperar nada de novo, um gesto de moderação e humildade, uma atitude de estudo e de profunda reflexão, conhecemos a sua visão corrosiva sobre os escritores. Disse o que disse sobre Saramago, sem qualquer noção de humildade e ética. Com a devida sinceridade sugiro que deixe os críticos fazerem os seus trabalhos de análise das obras.

Quero deixar claro que não sou apologista de uma certa crítica publicada em certos órgãos que usaram expressões nada polidas e até sugeriam que por causa dessas declarações todos nós, principalmente o João Melo e o Mena Abrantes, o considerássemos como um «homem» sarnento. Onde existem laços de amizade devem sempre florir os gestos de solidariedade, porque é nos momentos «infelizes» que devemos contar com os ombros do próximo. Num dos textos deixaram passar respostas que utilizaram a maledicência para atingirem com pedras o confrade. Por essa via viciada, teríamos que usar mais pedras porque alguns confrades gostam desse exercício de escárnio e de falta de rigor e ética quando escrevem ou comentam os títulos dos seus confrades cujas obras sempre concorrerão para o enriquecimento da nossa literatura.

Ilídio Manuel - Logo depois dessa polémica, Carlos Ferreira (Cassé), poeta, é peremptório ao afirma que o «desenrascanço habitual, que começa no Roque Santeiro, acaba no edifício sede da UEA» e de forma sarcástica, apesar de atenuar ao afirmar que existe algum esforço da actual direcção, conclui que a UEA tem publicado muitos «disparates de todo o tipo mascarados de literatura». Quer comentar essa linguagem que coloca num lugar sem qualquer prestígio a mais antiga associação criada depois da independência de Angola?

R - Existe um certo masoquismo, melhor, o gosto doentio pela saturado método da auto-destruição quando por falta de modéstia e visão corporativa alguns escritores tentam colocar sobre si os holofotes da imprensa através de afirmações muito pomposas e que ofendem muitos membros. Perdem o peso e perfume das suas palavras apesar de todos os dias usarem-na para criar o belo e harmonia. O meu amigo Cassé tem várias «vidas» associativas e deveria ter escolhido uma das associações, a que mais guarda no lado esquerdo do seu coração, para através dela simbolizar o lugar onde terminaria o percurso da ignorância que diz partir do Roque.

O escritor sabe que no domínio da aldeia global, a UEA tem um site visitado por mais de 115 mil internautas e os visitantes que mais procuram os nossos conteúdos são estudantes do ensino superior de Portugal e Brasil, professores universitários, naturalmente, esse fenómeno não pode ser provocados pela falta de qualidade dos conteúdos disponíveis e actualizados quotidianamente pelos serviços internos da nossa Instituição. Estive na Academia de Letras do Brasil, no Rio de Janeiro, soubessem vocês como fiquei deveras feliz quando os seus responsáveis constataram que o nosso site, em relação ao mundo digital da Academia de Letras, tem um maior potencial em conteúdos: Seis antologias em formato PDF, 65 entrevistas de escritores e ensaístas, mais de duzentos ensaios. No domínio dos livros, se o meu confrade tivesse olhado para o catálogo de títulos dos últimos sete anos, reconheceria que os nossos títulos e seus autores somam o maior número de prémios de literatura. Os livros têm sido elogiados, quer no aspecto de desenho de capa e qualidade de papel. A qualidade dos escritores que publicam com a chancela da UEA nunca poderá ser medido pela bitola crítica dos escritores que tenham como máscara das suas angústias existenciais uma simples camisa de críticos, não é ético. O chamado «tribunal das letras» terá que ser constituído pelas opiniões dos leitores e com mais valor ainda pelas reflexões dos críticos. Nenhum outro escritor deve colocar em causa as obras publicadas com a chancela da UEA, refiro-me aos livros de Jorge Macedo, Manuel Rui, João Tala, Trajanno Nankova, Azzevas, Abreu Paxe, Carmo Neto, Kunduma, Conceição Cristóvão, Cristóvão Neto, Kanguimbo Ananaz, Akiz Neto, Luís Mendonça, Aguinaldo Cristovão, Celestina Fernandes, Cremilda de Lima, Marcolino Moco, António Pompílio, Kudijimbe, Amélia Dolomba, Rosa Lopes, Garcia Bires, Jimmy Rufino, Kafuqueno, Kakueji, Sónia Gomes, Roderick Nehone, Ismael Mateus, Ntyamba, Uanhenga Xitu, Cremilda de Lima, John Bella, Nok Nogueira, José Luís Mendonça, Leila dos Anjos, Décio Mateus e eu próprio e no domínio ensaístico obras de Ana de Sá, Inocência Mata, Jurema de Oliveira, Rita Chaves, Tânia Macedo, Arlindo Barbeitos e de Maria Karaje. Nos últimos anos foram esses escritores e ensaístas que ao escolherem fazer parte do nosso plano editorial, de forma exemplar e voluntariosa, entregaram os seus conteúdos para que no plano das publicações pudéssemos tirar a UEA da inércia editorial, mas, infelizmente, muitos gostariam que essa incapacidade fosse crónica.

Na diplomacia, saiba que o prestígio da UEA, pelos dados que temos, está num nível desejado, não envergonha os seus membros. Vou ser breve e não enumerarei o encontro que acontecera há dois anos com o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, o estadista angolano que mais fez pela cultura do humanismo como património da nossa civilização, um encontro que ofereceu à Instituição uma nova visibilidade. Vou falar de algo mais recente. Ainda na semana passada fui surpreendido pela visita do Cardeal Alexandre do Nascimento, a décima, será? Conversou demoradamente com os alunos que estavam a pesquisar na net, depois procurou ainda títulos que o interessavam e que poderiam estar na biblioteca, falamos de literatura e da sociedade de ontem e de hoje. São momentos únicos, fico a conhecer um pouco mais a verdadeira dimensão da sua espiritualidade feita de valores que vão marcar a minha vida, uma experiência incomensurável. Recentemente, antes do caso TAAG, o Presidente da CEE, Durão Barroso, aquando da preparação diplomática da sua viagem ao País, manifestara interesse em visitar pela segunda vez a nossa Instituição e na agenda acertada com o Governo de Angola constava essa segunda visita à casa onde melhor se pode promover o belo. Prestígio existe, só os de casa, uns poucos e que não chegam ao número dos dedos de uma mão, por mera rabugice, gostam de destilar essas «palavras» que afastam os afectos e cumplicidades.

Ilídio Manuel: Existem vozes que dizem que pouco faz pela promoção dessas questões e até apelidam-no de «radical» por não ser muito maleável às pressões políticas? Acha que tem feito o suficiente para promover a literatura angolana?

R - Eu já fui confrontado com dois telefonemas de um membro fundador que punha em causa a realização de uma Maka à 4 feira, já que um dos sobrinhos do poeta Viriato da Cruz, professor universitário do ISCED, foi convidado para fazer uma comunicação sobre o período cultural vivido pelo tio. Tive que responder com grande firmeza que o Secretário-geral da UEA não aceitava esse tipo de pressão e muito menos vinda de quem de forma petulante achava que lhe assistia o direito à fazer censura cultural, uma atitude que contrariava até os actuais paradigmas do nosso estatuto e uma certa cultura de debate. Se falam desse radicalismo, entenderá que é saudável, temos que ter verticalidade e princípios.

A UEA, no dia 7 de Dezembro de 2005, organizou o « Iº Encontro Sobre Literatura Angolana» e o programa contou com dissertações de Jorge Macedo, «Escrever é difícil» foi o título da sua comunicação, Inocência Mata, Laura Padilha, Manuel Muanza, o Manuel Rui que apresentou o texto intitulado «O exercício sobre um texto de ficção», Ana de Sá, Maria Nazareth, Almeida Panzo e o poeta Luís Mendonça que falou do «Realismo feitichista em Óscar Ribas». Há um ano, organizamos um grande encontro sobre a poesia angolana de todos os tempos, o principal orador foi o Abreu Paxe, docente do ISCED, recebemos contributos do Professor Petelo Fidel e tantos outros docentes. Não estou muito preocupado com as ausências de alguns escritores, tivemos os estudantes universitários e os especialistas que devem tratar dessas matérias com grandes resultados académicos.

No link «Criticas & Ensaio», do site da UEA, qualquer internauta encontrará mais de 231 textos sobre diversos períodos da nossa literatura e o aluno do ensino superior ou médio pode usar os excertos que falem dos autores que forem objecto da sua tese e os tais críticos, se souberem usar esse meio portentoso, certamente, encontrarão ensaios sobre Agostinho Neto, António Jacinto e tantos outros poetas do período de 1945 a 1975. Muitos textos que são publicados no Jornal de Angola são tirados do nosso site, é essa estratégia de construção de um acervo pluralista que vai valorizar a nossa presença na aldeia global, pois deixamos de ser uma instituição info-excluída. O livro «A Voz Igual: Ensaios sobre Agostinho Neto», reúne mais de uma vintena de textos, debatidos durante o Congresso de Literatura Angola que organizei no Porto há mais de vinte anos e até hoje não existe melhor acervo sobre o poeta em causa.

O nosso princípio é claro, não somos defensores de uma acção baseada em comunicados. A sociedade angolana tem mais tempo para se perder em novas polémicas ou críticas, naturalmente porque temos um nível cultural maior, o país cresce, a cultura e o ensino começam a fazer parte desse xadrez estatístico, aumenta o número de leitores de livros no domínio da ciência, da liderança, da auto-ajuda, da literatura, da filosofia, existem novos leitores de economia e de antropologia. Tem sido vertiginoso o aumento do número de utilizadores de telemóvel, surgem os novos consumidores de notícias através dos sinais da «Multichoice» e da «TV cabo». Quem participa nas tertúlias, reconhece que existem novos discursos poéticos e fenómenos culturais oriundos das ditas zonas periféricas que exigem um Estado mais social e que olhe para o seu micro-mundo. Os bancos obtêm grandes lucros com as poupanças e oferecem crédito fácil para compra da primeira viatura. Interessa acrescentar que os angolanos começam a ter mais horas de pesquisa e vão continuar a surgir uma nova geração de títulos biográficos, confessionais e até históricos: toda essa dinâmica, sem a crónica depressão política ou económica que tivemos num passado recente, vão marcar a nossa sociedade. O encontro de poetas, letristas, kuduristas e rappers, num momento de grande tensão, foi demonstrativo, é mil vezes mais importante abrir a nossa casa para o exercício do debate, trazer à luz do dia as valências, como meio de aprendizagem e entreajuda. Falamos do direito da personalidade, falamos das formas plásticas, do livre exercício da crítica e todos partilharam saberes e por unanimidade assinamos uma moção que deve orientar todos os criadores e os políticos porque queremos uma sociedade de brandos costumes.

«A Construção do Cânone na Literatura Angolana: 1945-1975», será o mote do próximo encontro e terá como subtítulo: «A Vez e Voz dos Especialistas», está aprazado para o próximo trimestre. Essa hipótese ainda em laboratório, tem animado as nossas conversas com os professores universitários das faculdades de letras; Petelo Fidel, Fátima Fernandes, João Mbondu, Lina Ferreira, e distantes do país as professoras universitárias Inocência Mata, Jurema Oliveira e Maria Nazareth, até para que de forma envolvente se avance para um debate com suficientes possibilidades de elaboração de textos ensaísticos com qualidade e nível. Esse deverá ser o nosso caminho: usarmos o potencial da palavra para fazer crescer o sentido de cidadania.

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