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Entrevista ao Novo Jornal Viver a Literatura com os Olhos cheios de África Destaque

Escrito por  BRUNA PEREIRA

Fotos de BRUNO BARATA

Nasceu em São Tomé e Príncipe, fez os estudos secundários em Angola e vive em Portugal desde o início dos anos 80. Doutorada em Letras pela Universidade de Lisboa na área das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e autora de várias obras aclamadas pela comunidade académica internacional, Inocência Mata é actualmente um dos nomes de referência na área dos estudos literários e culturais lusófonos.

 

Sobre o que de melhor se escreve em Angola e quais as principais barreiras que impedem a cultura angolana de chegar ao resto do mundo, esta ensaísta considera que o país experimenta um período de grande diversidade e maturidade na escrita. No entanto, além-fronteiras, Angola continua a ter "uma literatura periférica que se inscreve numa língua periférica que é o português”.

Quando é que se pode falar efectivamente do início de uma literatura angolana?

A literatura angolana, enquanto sistema, ou seja, enquanto representação do imaginário geocultural de Angola, existe a partir de meados do século XIX, há aproximadamente 150 anos. Esta é uma ideia consensual mas não é uma ideia unânime, porque há quem julgue que a literatura angolana tem os seus inícios no século XVII. Considerar que a literatura angolana vem do século XVII é, quanto a mim, um equívoco, pois julgo que a literatura angolana, enquanto sistema, apenas se estruturou a partir de meados do século XIX, quando se foi configurando uma comunidade imaginada marcada territorialmente. Somente a partir de 1850 é que se começou a escrever em direcção a uma convergência temática e com uma regularidade na escrita. Pode dizer-se que o marco dessa regularidade e dessa convergência em Angola é José da Silva Maia Ferreira, autor do livro "Espontaneidades da minha alma - Às senhoras africanas!."

Que fase atravessa actualmente a identidade da literatura angolana?

Durante o tempo colonial descortinavam-se basicamente duas modalidades de escrita: uma que escrevia a "nação angolana" e outra que escrevia a "portugalidade" e a ideia de que Portugal ia do Minho a Timor, passando por Angola. Essa literatura colonial fazia a apologia do colonialismo e de Angola como uma região de Portugal. A outra literatura era a que dizia que Angola não era uma região de Portugal, mas sim uma nação, no sentido simbólico do termo e no sentido de uma comu estamos numa fase não de consolidação, porque a literatura angolana, enquanto sistema, está completamente consolidada, mas numa fase de grande produtividade divergente. Assiste-se hoje, em Angola, a uma multiplicidade de géneros, de formas de escrever, de temáticas, de preocupações e de construções simbólicas, o que demonstra a maturidade da literatura. Hoje em dia cada escritor é uma corrente e são inclusivamente vários os escritores que se debruçam sobre a temática do pós-guerra, sendo que o primeiro romance nitidamente sobre o pósguerra é "O manequim e o piano", de Manuel Rui. Há ainda um outro escritor, João Tala, que tem vindo a escrever contos sobre esse mesmo tema do pós-guerra angolano, a partir de 2002. Podemos ainda citar "Predadores", de Pepetela, que é um romance que assenta num grande flash-back até ao tempo colonial, mas cuja acção nuclear se centra no pós-2002.

Possui a literatura angolana características próprias que a distingam das suas congéneres lusófonas africanas?

Reivindicar a diferença na literatura angolana é hoje uma questão ultrapassada, já que o escritor não precisa de continuar a gritar que é diferente, porque ele já é diferente pela constituição política e ideológica e pela própria marcha da história. A literatura angolana poderá distinguir-se da literatura moçambicana, por exemplo, pelas preocupações evidentes na enunciação, pela linguagem política, pelos espaços (não apenas os espaço físicos), pela geografia e pela forma como se perspectiva a relação entre os vários agentes sociais em Angola. A diferença da literatura angolana é uma diferença inata, em termos de horizontes e em termos de expectativas. Por exemplo, o último livro de Pepetela que eu li, "O terrorista de Berkeley, Califórnia", é um livro cuja cena se passa nos EUA, um espaço que não é de todo angolano, mas qualquer pessoa que lê aquele livro diz com toda a certeza que se trata de um livro escrito por um angolano, por causa da linguagem, por causa da ironia tão caracteristicamente luandense e por causa da sua ambiência linguística.

Quem são os maiores embaixadores da literatura angolana?

Pepetela é um embaixador da literatura angolana, por causa da sua qualidade e por causa da representatividade da sua obra, que percorre vários nichos temáticos e várias segmentações ideológicas e históricas. Luandino Vieira é também um embaixador, apesar de ser um escritor que passou 30 anos sem escrever nada de novo, entre muitos outros. Boaventura Cardoso deveria ser mais publicitado do que é, mas isso é outra história. Por variadas razões há ainda outros que não são conhecidos - quando eu trabalho alguns escritores nas minhas aulas, por exemplo, tenho de recorrer a fotocópias, porque não há outra forma de ter acesso a esses autores.

Qual é então o grande desafio que a literatura angolana enfrenta para sair deste impasse? Ou será que não depende tanto de Angola?

Sim, depende de Angola também. Primeiro, porque as barreiras alfandegárias e as taxas sobre as matérias-primas são um empecilho, e depois porque, por causa disso, os livros em Angola são caríssimos. Para além da pura especulação sobre todos os produtos: tudo é caríssimo. Os livros são a minha matéria-prima mas se eu chego a Angola e se houver cinco livros novos, não posso, literalmente, comprá-los porque não tenho dinheiro. Porque, malgré tout, não vivo só de livros, vivo de outras coisas que precisam de ser compradas.Claro que Angola é responsável por isto, porque tem de haver uma política cultural que considere esses bens materiais quase como bens de primeira necessidade. Neste aspecto, Angola tem a sua parte de responsabilidade. A não circulação de bens culturais nos países de língua portuguesa faz com que os livros publicados em Portugal não cheguem a Angola por causa dessas barreiras. Há igualmente belíssimos escritores como João Maimona, José Luís Mendonça ou Adriano Botelho de Vasconcelos que não são conhecidos em Portugal porque publicam as suas obras no país de origem. Se não forem eles a oferecer os seus livros, ninguém os pode comprar, pois eles não chegam a parte nenhuma. Por exemplo, não estão disponíveis no Amazon...

Sobre os novos talentos angolanos, como por exemplo Ondjaki. Há, de facto, uma nova geração de escritores angolanos que começa a ser reconhecida?

Há uma nova geração de escritores que aparece com novas ideias e com sangue novo. Há, porém, um handicap nesses escritores: lêem pouco e alguns são um pouco convencidos. E se há uma coisa que eu aprendi ao conversar com velhos é que nós temos que ser humildes em tudo o que fazemos. E quando digo humildade, não digo humildade perante o outro, digo humildade perante aquilo que nós próprios fazemos, no caso, que eles próprios escreveram. Os escritores mais novos escrevem hoje e já querem publicar amanhã e eu penso que isso é falta de humildade. O problema de muitos desses jovens é que não são humildes. Têm potencial mas não possuem ainda o domínio da técnica. E isso ganha-se não apenas com génio, mas com prática, com leitura, muita leitura e com experimentação. Há um livro que eu aconselho aos jovens que querem ser escritores, que é um livro de um escritor romântico do século XIX, Percy Bysshe Shelley, intitulado "Defesa da poesia". É um livro de fácil compreensão para os jovens que querem ser escritores perceberem que, se querem ser alguém, têm de ver para além daquilo que nós vemos e têm de conhecer muitos mundos, e conhecer muitos mundos não significa apanhar o avião e viajar dez horas, significa ler muito. Para se ser escritor também é preciso ter génio, porque como eu costumo dizer aos meus alunos, se as leituras bastassem, os professores de literatura seriam todos escritores. Não basta só ler. Mas a leitura é fundamental para a construção de um escritor.

Em entrevista a um órgão de comunicação angolano, José Eduardo Agualusa afirmou que "a poesia de Agostinho Neto é medíocre" e que "uma pessoa que ache que Agostinho Neto foi um extraordinário Poeta é porque não conhece rigorosamente nada de poesia... o mesmo se podendo dizer de António Cardoso ou de António Jacinto". Que comentário lhe merecem estas afirmações?

Quem afirma que "uma pessoa que ache que Agostinho Neto foi um extraordinário Poeta é porque não conhece rigorosamente nada de poesia... o mesmo se podendo dizer de António Cardoso ou de António Jacinto", é um perfeito ignorante sobre o que é a literatura. Deve achar que pode falar sobre tudo e que sabe de tudo. Na realidade, deveria era ler um pouco mais para além de informação.

São vários os escritores angolanos que foram simultaneamente grandes intervenientes no processo de reconstrução e desenvolvimento político, histórico e social do país. A literatura angolana é uma ferramenta poderosa que extravasa o campo puramente literário?

A literatura angolana foi fundamental para a libertação do país. Angola não se libertou apenas com recurso à Kalashnikov. O país libertou-se também através do processo de consciencialização e da construção da ideia de "nação angolana". Não é por acaso que quando se dá o 25 de Abril de 1974 muitos poemas foram musicados. Esses poemas diziam ao povo aquilo que possivelmente as palavras dos políticos não eram capazes de dizer. Uma pessoa lê ou ouve um poema como o "Monangamba" (António Jacinto), ouve um poema como o "Adeus à hora da largada" (Agostinho Neto) e sente que para além das palavras há um universo, uma nação, uma comunidade. A literatura foi um instrumento subsidiário da luta, da guerrilha, e ajudou na libertação e na reconstrução do país. A literatura angolana antecipou inclusivamente algumas reflexões científicas e muitas das questões que hoje as ciências sociais estão a abordar, como a questão da corrupção, do neoliberatlismo, do capitalismo selvagem, do racismo e das diferenças étnicas e de classe. A literatura angolana aborda algumas destas questões desde os anos 80, o que é extraordinário e deve ser dos poucos países onde isto acontece.

Essa função da literatura não acontece apenas em períodos conturbados? É uma função continuada?

Sim, é uma função contínua que é capaz de acontecer mais em países como Angola, em que as instituições do saber, como as universidades, não estavam ainda consolidadas. Não sei se é algo que vá voltar a acontecer mas o que é certo é que aconteceu. Em todos os países que emergem de uma guerra há assuntos tabu e o 27 de Maio, em Angola, era um assunto tabu. Hoje toda a gente fala do assunto. Ora o primeiro livro que trouxe para a cena literária a questão do 27 de Maio, e interessantemente sem nunca nomear o 27 de Maio, foi Boaventura Cardoso, com o livro "Maio, mês de Maria", uma obra que recorda todo esse período de medo que se seguiu ao 27 de Maio.

Seguiram-se, na poesia, Adriano Botelho de Vasconcelos e Bonavena. Este é apenas um exemplo de como a literatura em Angola é extraordinariamente multifacetada, "doce" e "útil", como deve ser toda a literatura.

Que autores angolanos é que lecciona em Portugal?

Pepetela, Luandino Vieira, Paula Tavares, Manuel Rui, Ruy Duarte de Carvalho, Boaventura Cardoso, João Maimona, Adriano Botelho de Vasconcelos, José Luís Mendonça, João Melo e tantos outros. Eu gosto de mudar o programa todos os anos.

In: Novo Jornal, 4 de Abril de 2008, entrevista gentilmente oferecida pela Ensaísta.

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