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Angola Precisa de Literatura de Resistência Destaque

Escrito por  Aguinaldo Cristóvão

No seu bilhete de identidade, encontramos o nome de Carlos Sérgio Monteiro Ferreira. Autor de incontáveis crónicas, poesias e mérito na composição de canções, Cassé, como é também conhecido nas lides literárias e jornalísticas, fala da frustração e marco que teve a Brigada de Literatura Angolana, bem como do seu percurso literário.

 

P: A primeira questão é inevitável. Porquê Cassé?

R: Cassé é um nome de criança que me foi dado pelo meu irmão. Vem das duas primeiras sílabas dos primeiros nomes: Carlos Sérgio. Foi só por isso. Comecei a ser tratado por Cassé em casa, depois no colégio, depois na escola, depois no liceu, depois na rádio e pronto, ficou.

P: Adoptou o nome para a literatura?

R: Não. As pessoas é que têm usado. Este é um nome familiar, não é um nome para ser usado pelo público. Mas também não posso evitar isso.

P: O seu pai era advogado e crítico literário. Terá herdado dele a sua veia literária?

R: Não é bem herança. Tem mais a ver com a formação que tu tens a partir de criança em casa. O meu pai foi director da Cultura, foi director do A Província de Angola durante alguns anos; foi presidente da Sociedade Cultural de Angola; a minha mãe era professora e ao mesmo tempo tocava piano. Acho que todo esse ambiente em que cresci desde miúdo deve ter ajudado a cimentar o que já podia ter alguma coisa de genético. O facto de ser filho de dois intelectuais, e ter sido criado num ambiente sempre muito ligado à cultura, ajudou. Desde criança que um tipo se habitua a ler muito, a ver muitos filmes, a ir a concertos, a ouvir muita música quer angolana quer estrangeira; portanto, eu acredito que todo esse ambiente familiar deve ter ajudado de alguma forma a consolidar essa vertente cultural.

P: A base cultural, sobretudo literária, influencia sempre decisivamente na maturidade artística?

R: Acho que sim. Não só sob o ponto de vista literário. Tudo o que és como homem adulto é fruto de um longo caminho que tu percorres desde a infância. É evidente que o filho de um advogado não tem que ser necessariamente um advogado. Eu sou jornalista, por exemplo. Acredito que haja condições genéticas que possam empurrar a pessoa para esta ou aquela área, mas depois é o ambiente que te conduz, que te cria desde pequenininho, que faz consolidar em ti determinadas opções à idade madura. Agora, acredito que é tudo condicionado – basta ver o estado em que o país está – os problemas gravíssimos de educação que nós temos, a começar pela educação familiar, para perceber isso. Portanto, é tudo fruto de ter ou não ter educação a partir de criança

P: Como surgiu a vontade de escrever literatura?

R: O interesse literário surge através da rádio. Eu entrei para a rádio com 17 anos. Era redactor, escrevia basicamente programas, crónicas, coisas assim. Por aí começou o interesse de ir mais além disso.

P: Iniciou-se nas lides literárias na década de 80. Como encara a literatura da época?

R: O fenómeno da geração de 80 tem a ver com algumas coisas que as pessoas se esquecem ou não estão interessadas em lembrar, que é o seguinte. A Brigada, que é o núcleo que junta cinco ou seis pessoas que se iniciavam nas lides literárias, surge fundamentalmente por um desagrado já existente e nós tínhamos já 20, 21 anos. Tínhamos sido todos militantes da JMPLA e estávamos todos descontentes com a forma como a JMPLA era dirigida e com a prática da JMPLA. Descobrimos que tínhamos uma coisa em comum, que era o gosto pela literatura. A Brigada acabou por ser o primeiro escape que a gente encontrou para não deixar de estar juntos, e afastar-se da política directa, da política activa. E nós todos ficámos curados. Não há mais nenhum de nós que tenha voltado à actividade política directa ou activa.

P: Pode encarar-se o surgimento da Brigada como uma inovação do momento que o país vivia?

R: O nosso surgimento como geração literária vem do surgimento de uma geração que está profundamente influenciada pela geração de 50, e de 40; exactamente porque temos uma carga política muito grade aí. E começam a surgir os primeiros sinais de um desencanto muito grande em relação à situação, em relação à forma como a gente olhava para antigos guerrilheiros, presos políticos, gente que nós considerávamos heróis e que, de repente, a gente contacta e começamos a dar por conta que são seres humanos como nós, com defeitos, com virtudes, que não eram deuses. Nós não surgimos para ir para o choque. Nenhum de nós estava preparado nem política, nem intelectualmente para isso. A gente sentia um mal estar, e esse mal estar era esvaziado nos debates e nas discussões que nós fizemos na Brigada e nas revistas que a gente ainda fez. Eu creio que o surgimento da Brigada deve ter sido a primeira manifestação democrática verdadeira em Angola, depois do 27 de Maio. Originou alguns mal entendidos, alguns sectores do poder não gostaram, mas de uma forma geral a gente conseguiu cumprir o papel. Realmente a partir de um certo momento começaram a surgir algumas divisões, não no núcleo que fundou a Brigada, mas creio que isso foi alimentado pela JMPLA e a prova disso é que acabaram por tomar conta da Brigada. Está aí a Brigada Jovem de Literatura de Angola, que não tem rigorosamente nada a ver com o espírito da Brigada Jovem de Literatura. De maneira que essa carga política vem desde miúdos tinha 15 anos quando houve a independência. A maior parte dos meus companheiros e companheiras também tinham a mesma idade. Por uns foi ficando para trás aquele exercício da actividade literária. No meu caso concreto, não continuo a ter uma escrita que para mim, é assumidamente e essencialmente política. Tem objectivos políticos. Para mim, não há dúvidas nenhumas.

P: Que comparação pode ser feita entre a literatura produzida antes e depois da década de 80?

R: Depois da criação da Brigada, cada um acabou por seguir o seu caminho. E eu sou digamos o bicho feio desta história, porque de toda a geração da brigada sou o único que mantenho toda essa tendência social e quase política ao nível da literatura. Os outros escrevem das mais diversas formas; o Lopito escreve de uma maneira, o Kandjimbo escreve de outra, o Joaquim Boavida, o Bucas, escreve de outra, a Irene (Guerra Marques) escreve de outra. Eu assumo isso, com muito orgulho. Eu acredito que hoje, mesmo sendo taxado como sendo da geração de 80, aquilo que eu fui defendendo ao longo da minha carreira literária tem muito a ver com o que foi feito em 50, em 60, em 70; ou seja, Angola volta a precisar de novo, até por causa da instalação de um capitalismo muito mais selvagem que se calhar já nem é capitalismo é neoliberalismo, o que é mais grave ainda, eu acho que Angola volta a precisar de literatura de resistência. Volta a precisar de literatura de intervenção para combater essa situação de neoliberalismo, capitalismo selvagem. Eu procuro escrever, num tempo e espaço diferentes é evidente que eu não posso escrever como António Jacinto escrevia. Mas, no fundo, a luta é mesma. Já não será contra um colonizador. Será contra milhares de colonizadores, será contra uma sociedade neoliberal que está a ser instalada em Angola e que prejudica os mais pobres e os mais desfavorecidos.

P: Os escritores têm estado atentos a este fenómeno, cumprindo o seu papel de intelectuais?

R: Eu creio que, de uma determinada forma, os escritores estão atentos, o que não quer dizer que depois, ao nível da produção literária, reflictam isso de forma tão manifesta, tão directa. Há várias correntes, há escritores que preferem outras formas, depois de observar, analisar e expor em termos literários aquilo que disserem. Eu preferia ter mais colegas empenhados no papel político, cívico e social que a literatura deve ter, como fruto da consciência do ser humano.

P: Há pouco falou das gerações. Concorda com esta divisão da literatura por décadas?

R: Eu nunca fui muito adepto de dividir a literatura por gerações. Porque há casos de escritores que já estavam adiantados no tempo, e que a gente não pode classificar como sendo da geração do ano «x» da década «x». Eu prefiro analisar as coisas dentro da perspectiva do tempo, ou seja, o António Jacinto viveu no ano «x», morreu no ano «x» e, durante a sua vida, o tipo de literatura que António Jacinto produziu foi esta, aquela ou foi aqueloutra. E juntá-lo depois a outros escritores de outras gerações, digamos, que adoptaram a mesma corrente literária. Eu preferiria talvez ir por aí. Nunca fui muito adepto de dividir as coisas por gerações, porque há gerações que não existem em termos práticos, ou seja, que não sei que diferença há entre o princípio da minha geração e a geração de 60, por exemplo. Não há grandes diferenças em termos de forma e conteúdo. Eu não concordo muito com esta divisão geracional. Só porque eu tenho 40 anos sou assim. Às vezes, o que tem 20 tem mais ligação comigo do que outro de 40.

P: Fala-se, ainda a este respeito, da «geração das incertezas». Que lhe sugere?

R: Eu não faço parte seguramente desta geração. Acho que na minha geração e aí não é apenas sobre o ponto de vista literário é geral. A geração que apanhou a independência com 15 anos e pouco é uma geração perdida. Não de incertezas. O problema é que as certezas desapareceram completamente. E nem sequer ficaram as incertezas, quer dizer, ficou é a certeza de um pessimismo muito grande, há uma descrença muito grande, e que é preciso ter muita coragem e muita força para manter uma certa linha de orientação que a gente traçou desde os 20 anos.

P: Esta geração das incertezas pode se confundir ou diferenciar da geração de utopia que Pepetela fala?

R: Não creio. Porque as utopias são as mesmas, não mudaram. O que mudou foi a capacidade de acreditar se era ou não utopia e passar a ser realidade. Ora, está claro que não vai ser possível passar para a realidade. Logo, eu acho que constituímos todos logo depois da geração de 40 que tudo faça parte da geração da utopia pelo menos até à geração de 80.

P: Acha que os escritores angolanos já exercem de forma activa o seu papel, nomeadamente a actuação activa, e a formação de opinião sobre os assuntos mais actuais?

R: Eu creio que ainda não haverá condições para isso. Mas acho que é possível a curto e médio prazo se conseguir, na medida em que a sociedade se for estruturando, na forma como está a ser estruturada. Acho que os escritores vão ter que sentir a obrigação de exercer esse papel, porque, digamos mesmo que Angola vai se organizar num determinado sentido; é uma organização baseada no sentido que vai manter a luta de classes, que mais que manter a divisão entre as classes e aí obrigatoriamente os escritores e intelectuais, de uma forma geral, acho que vão ter a consciência que é necessário voltar a exercer esse papel, porque se não for a classe dos intelectuais, não é a classe política que vai lutar de espécie nenhuma, com partido nenhum, pela igualdade e por aqueles valores que levaram as outras gerações a lutar pela independência e os sonhos que poderiam vir da independência.

P: Para além de escritor e jornalista, também se dedica à composição de canções. É difícil encontrar em Angola gente que compõe música?

R: Não é difícil encontrar. É difícil encontrar gente que tenha capacidade para fazer isso com uma certa qualidade. Ou seja, uma coisa é tu fazeres uma canção como há milhares de compositores por aí; outra coisa é tu escreveres propositadamente para a música e que tenha alguém que tenha a capacidade de entender o texto e de o musicar ou vice versa. Podem dar-te a melodia, como acontece muitas vezes, e tu pões a letra em cima da melodia. Isso acaba depois por ser uma técnica que a pessoa ganha com o tempo. Eu já escrevo para a música desde os 22 anos e são raros os músicos com quem tenho trabalhado. É caso do Eduardo Paím, do Don Kikas, do Paulo Flores principalmente, do Manborró, do Joseca – uma geração que já praticamente acabou mas não é fácil porque não há... O povo angolano é um povo basicamente musical, mas é preciso depois tu dares formação a isso. Lapidares aquilo que é potencial nas pessoas, mas que não está trabalhado. E desses milhares de pessoas que gostam e tentam entrar no mundo da música, depois salvam-se cinco ou dez que levam aquilo a sério e começam a penetrar noutras fases do amadurecimento. É um bocado complicado.

P: O que mais lhe encanta: ver os seus livros depois de publicados lidos e comentados pela crítica, ou ver as suas letras premiadas e cantadas?

R: Eu, quando acabo um livro, tenho a sensação que cumpri com um dever que eu me impus. Não deixa de ser um prazer, mas é também uma dor. Mas é o cumprimento de um dever que eu me impus a mim próprio e em relação à sociedade onde eu vivo e onde me insiro. Depois do livro estar pronto já não me incomoda muito, porque já é uma coisa passada e já nem sequer nos primeiros dois anos a seguir volto a abrir o livro. Em relação à música, talvez seja mais fácil, porque é giro tu sentires a canção que tu fizeste na boca das pessoas, e as pessoas a cantarem a canção. Dá um certo prazer. Qualquer das duas coisas, quando eu acabo de fazer, só volto a rever ou a reouvir uns anos mais tarde, mas não me interesso mais por aquilo que fiz. Está feito para o julgamento por parte das outras pessoas, mas começo mais tarde a pensar noutra coisa. E só vou pegar naquilo uns tempos mais tarde.

P: Quer seja nas crónicas como nos seus livros de poesia há uma nota que é característica: a visão crítica e propositada da nossa realidade.

R: É evidente. É propositado e é assumido. E ninguém no seu bom senso pode estar satisfeito com o que vê à volta. Não vamos é discutir as condições objectivas ou subjectivas que levaram a que essa realidade existisse. Isso deve ser discutido a outros níveis. Acho que o papel do escritor é esse: despertar a consciência das pessoas. É acordar as pessoas e levá-las a perceber porque é que as coisas não estão de determinada forma e estão de outra.

P: Nos seus livros, cada título reflecte um estado, uma opinião consolidada ou condensada sobre determinadas matérias, a dada época...

R: Eu tenho tentado, porque a trajectória de vida é só uma. Mas tenho tentado que cada livro que eu publico corresponda a um determinado estágio de desenvolvimento em que eu me encontro, quer individualmente, quer integrado na sociedade. Se reparar todos os livros desde o primeiro, têm uma sequência lógica: Projecto Comum, Sabor a Sal, Começar de Novo, Voz à Solta, Namoro ao Mar, Marginal, Angústia do Fim, Ressaca, Quase Exílio. Portanto, há uma sequência mais ou menos lógica que tem a ver com a própria forma como a sociedade angolana foi evoluindo ou desevoluindo, e a forma como a tenho encarado até agora.

P: Um dos comentários que se fez acerca do livro Quase Exílio foi que o escritor estava decepcionado com a realidade angolana. Chegou-me mesmo a falar que preferia radicar-se no estrangeiro. Corresponde isso à verdade?

R: Eu fui explicando que o termo exílio não tem uma conotação geográfica. Tu podes estar exilado aqui dentro e há realmente uma mágoa, uma tristeza, uma zanga muito grande principalmente e voltamos à história da Brigada para com aquela geração que nos prometeu tanta coisa, que nos fez acreditar em tanta coisa e que nos enganou completamente. E eu, quando estou a falar disso, não estou a falar do MPLA. Estou a falar de uma geração ou duas gerações que nos fez acreditar em valores que nem eles próprios tinham. E com isso deram cabo de duas ou três gerações que acreditaram, foram para a frente de combate. E a prova está aqui, há quatro anos eram marxistas leninistas hoje são sociais democratas, a cara é a mesma, o fato é o mesmo, a roupa não mudou, os hábitos são os mesmos e afinal de marxistas leninistas não tinham nada. Tudo era falso, e é contra isso que a pessoa, porque acredita na verdade e na trajectória dos homens, e porque aprendeu a beber alguma coisa de um Agostinho Neto, de um Lúcio Lara... um indivíduo como era o meu pai. É claro que pelo menos não serve de muito, mas ao nível literário estou a exigir que me paguem esta factura. Pelo menos vão ter que saber que temos consciência que fomos enganados.

P: Apresente uma visão analítica aos novos escritores e livros que vão surgindo na nossa quitanda das letras.

R: Tenho lido muito pouco. E o que tenho lido já ouvi falar de geração de 90 é muito mau. Gostei muito pouco. Não conheço a maior parte dos autores. Os que eu conheço, e não vou dizer os nomes por uma questão de respeito, não gosto. Acho que é muito má. Acho que a União dos Escritores Angolanos pode fazer um esforço muito grande aí. É preciso convencer as pessoas que para tu escreveres muito para além do talento, da inspiração, como as pessoas gostam de dizer, tu tens que dominar a língua que tu usas, e nós hoje não dominamos a língua que nós usamos. Nenhum indivíduo pode ser escritor se não domina o português, se não domina o umbundu, se quiser escrever umbundu. E há um problema muito grave nessa geração que é não sabe manejar a língua portuguesa. Ninguém no seu perfeito juízo pode ser escritor sem saber manejar o português.

P: Para encerrar esta conversa, acha que é possível, num país como o nosso o artista viver dos proventos do seu trabalho?

R: Nem o Pepetela, que é escritor que mais livros vende e tem que dar aulas na faculdade, senão não vivia da literatura. Não é possível viver da literatura aqui com os direitos de autor que recebes. Tu vendes dois mil livros e recebes USD 200 de direitos de autor. De maneira nenhuma. Acredito que ao nível da música, aí sim, já é possível viver-se da música. Acredito porque o Paulo (Flores) vive da música, o (Don) Kikas vive da música, o (Carlos) Burity vive da música...

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