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"O Trabalho com os Acervos Literários é Importantíssimo" Destaque

Escrito por  Claúdio Fortuna
Somente no acto do lançamento de Boaventura Cardoso, a escrita em processo, notei que o “autógrafo” era o pretexto que faltava para convidar a Prof. Dra. Tânia Macedo a falar sobre literatura angolana e os seus "fazedores". Investigadora e docente da Universidade de São Paulo (USP), Tânia Macedo tem um currículo intrinsecamente ligado à literatura e à Angola.

Quando "ajustamos" esta entrevista, estava em debate a anciã discussão sobre o acordo ortográfico, razão pela qual não alterei a grafia brasileira com que se comunica a nossa entrevistada. Entre as referências incontornáveis de Guimarães Rosa e Luandino Vieira, a entrevista discorre pelas leituras e sugestões da professora, que defende a constituição de um fundo de acervos literários em Angola para ajudar a traçar a história da literatura.

P - Ao longo dos anos e cada vez mais, têm sido identificados elementos comuns entre Brasil e Angola. Queria que, neste início de conversa, a professora nos levasse à sua infância, mostrando os lugares de memória e os principais títulos que lhe marcaram.

R - A minha infância foi passada em um bairro suburbano de São Paulo, à época, uma cidade em que a vida corria mais devagar: havia ainda brincadeiras nas calçadas, ia-se a pé para a escola e os índices de violência urbana eram muito menores. Talvez, lembrando um pouco o trecho que inicia um conto de Luandino Vieira, A cidade e a infância, poderia dizer que "era o tempo de paz à sombra" das árvores. Era também o tempo de descobertas de leituras e hoje, retrospectivamente, posso dizer que talvez tenha havido um livro que me marcou muito, quando eu tinha cerca de 12 anos de idade (e não se trata de nenhum título muito conhecido, não). Refiro-me a O país da espuma, do escritor russo Iván Antónovitch Efrémov, que me mostrou, pela primeira vez, um continente que eu desconhecia: a África. Mais tarde, vim a saber um pouco mais sobre o autor e sobre a coleção a que o livro pertencia, chamada Jovens do Mundo Todo, cujo objetivo era estimular, nos jovens leitores, os valores da solidariedade e o conhecimento de povos de todo o mundo. Se me permite, transcrevo a epígrafe do livro a que me referi, pois creio que, dessa maneira, fica bem preciso o rumo da coleção: "Os anos da vida não ocorreram em vão;/ clara me surge a última lição de sabedoria;/só merece a liberdade e a vida,/ quem faz por conquistá-la dia a dia!" (Goethe)

P - Nesta senda, penso que existem sempre os livros que nos marcam pela novidade ou pela qualidade e aqueles que nos servem de guia para a vida. Ao longo dos seus estudos, das centenas de livros que leu, que títulos recomenda, por lhe terem revelado a Literatura?

R - O universo da leitura é sempre fascinante e só lamento não ter o tempo suficiente de vida para conhecer mais livros. Permito-me, a respeito de seu questionamento, citar uma frase do escritor argentino Jorge Luis Borges: "Clássico não é um livro (repito-o) que possui necessariamente tais ou tais méritos. É um livro que as gerações dos homens, motivadas por razões diversas, lêem com prévio fervor e com uma misteriosa lealdade". Nesse sentido, creio que as peças de Shakespeare, sobretudo Hamlet e Macbeth, nos permitem sondar os desvãos das dúvidas, medos e pecados humanos. Já Balzac, em As ilusões perdidas, e Stendhal, com O vermelho e o negro, nos fazem refletir sobre a contemporaneidade, sobre os caminhos do poder e os das instituições. Mas creio que não se pode também deixar, à margem, Bocaccio e o seu Decameron, fonte de histórias e História. Mas há, ainda, o Brasil trazido por títulos como: São Bernardo, de Graciliano Ramos; Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, e Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Estes são alguns títulos, ainda que o próprio Borges, assim como Julio Cortazar, também tenha escrito livros que possibilitam que o mundo seja iluminado por outra luz, após a leitura de seus textos.

P - Fale-nos em especial das principais etapas da sua vida académica - de vertente investigativa permanente -e, de modo geral, da sua opção pelas letras.

R - Sou uma leitora. Gostaria de ter mais tempo para ler, mas minha profissão, por incrível que pareça, tem restringido isso. Tendo em vista as grandes demandas, hoje, da Universidade (participação em congressos, organização de livros, orientação de alunos e administração da vida universitária), é pouco o tempo que sobra para vivenciar a leitura. Inicio por aqui, pois a minha opção pelo curso de Letras deu-se exatamente em razão do meu gosto pela leitura. Com o decorrer do tempo, houve uma "afinação do gosto", graças aos instrumentos da teoria da Literatura e da história literária. Ao final do curso, tomei conhecimento da literatura angolana. Caiu-me às mãos o Velhas estórias, de José Luandino Vieira, e, a partir desse livro, definiu-se a minha vida acadêmica, pois realizei todas as etapas sobre a produção letrada em Angola: o Mestrado, sobre a obra de José Luandino Vieira; o Doutorado, sobre o papel do musseque na literatura angolana contemporânea e a Livre-Docência, a respeito da relação entre Luanda e a literatura angolana. Como se pode ver, a literatura angolana "fisgou-me" a partir da primeira leitura e não mais abandonei-a!

P - Em Angola, tem-se discutido ainda a experiência de países como o Brasil, onde o secular exercício literário permitiu a existência de uma Academia de Letras. Gostaria que explicasse, enquanto académica, acerca dos benefícios e constrangimentos que uma academia poderia constituir para Angola.

R - A Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897 e presidida inicialmente pelo escritor Machado de Assis, teve, como modelo, a Academia Francesa. Sob esse aspecto, o próprio prédio em que ela está hoje situada lembra essa vinculação, já que o mesmo é uma réplica do Petit Trianon de Versailles. A Academia faz parte da instituição literária, mas o seu papel é muitas vezes normativo e/ou cerceador e nem sempre contribui, de fato, para a implementação dos melhores produtos literários. Veja-se, por exemplo, que políticos sem obra literária de fato e escritores de valor questionável fizeram parte também da Academia, ao lado de nomes como o de Guimarães Rosa. Nesse sentido, a Academia Brasileira de Letras, pelo seu perfil de perpetuadora da tradição, não contempla os jovens valores e passa ao largo de autores que trazem um novo alento à nossa literatura. As associações de jovens autores e as cooperativas talvez sejam os melhores caminhos. Quanto aos Cursos de Letras, eles são muito importantes, pois constroem um repertório de leituras, o domínio da metalinguagem, a atualização de enfoques, bem como a preocupação com o ensino e com a pesquisa. Nesse sentido, a Faculdade de Letras incentiva a crítica literária e, assim, a discussão do fato literário, de uma forma mais abrangente e não apenas a partir de questões de gosto.

P - Não resisto em perguntar-lhe se é possível estabelecer uma relação dialéctica entre a literatura africana em geral e a brasileira, uma vez que a primeira também funda-se essencialmente na oralidade e terá sido transmitida geracionalmente pelos povos que, na senda do tráfico de escravos, foram para as Américas?

R - Sem dúvida, há um repertório e um imaginário comuns entre o continente africano e as Américas, de tal forma que Paul Gilroy fala de um "Atlântico Negro". Há, no entanto, de se levar em conta que se, por um lado, a oralidade está no centro do fazer artístico de autores brasileiros, como Guimarães Rosa, por exemplo; por outro lado, a experiência urbana e letrada é fundamental para a literatura contemporânea no país. Dessa forma, creio que talvez pudéssemos falar na existência de "africanidades", para marcar a presença de traços em um imaginário muitas vezes mais mítico do que real sobre a África, que se consubstancia em obras como Luanda, Beira Bahia, de Adonias Filho.

P - Li com alguma atenção, a propósito do tráfico de escravos, o repto lançado em Luanda, para que estudiosos estrangeiros se debrucem, de forma séria, sobre esta matéria. Parece-me que a literatura é um óptimo ponto de partida. Este tema é recorrente na literatura brasileira?

R - A escravidão foi um tema bastante presente em obras do romantismo brasileiro. E aqui estou a pensar, por exemplo, em Castro Alves, também conhecido como "o poeta dos escravos", e em A escrava Isaura, romance de Bernardo Guimarães que se tornaria a base para uma das telenovelas brasileiras de maior sucesso. Posteriormente, esse tema ainda visitou a literatura brasileira, por exemplo, na obra Os tambores de São Luís (1975), de Josué Montello, ou em Corpo Vivo (1962), de Adonias Filho, devendo ser citada, ainda, Viva o povo brasileiro (1984), de João Ubaldo Ribeiro. A escravidão também se tornou presente na chamada literatura afro-brasileira, mas com uma forma de tratamento algo diversa da maioria dos textos em que o escravo é focalizado como vítima digna de compaixão. Exemplo dessa focalização contemporânea, encontramos em poetas e prosadores, para quem a escravidão não é mostrada mais como lamento, mas com uma espécie de alavanca, na luta pelos direitos seqüestrados em uma sociedade que ainda tem fortes traços racistas, como a brasileira. Lembremos dos versos de Solano Trindade, no poema Navio negreiro, de 1962: "Lá vem o navio negreiro/ Cheio de melancolia/ Lá vem o navio negreiro/ Cheinho de poesia.../Lá vem o navio negreiro/Com carga de resistência/ Lá vem o navio negreiro/Cheinho de inteligência", ou, ainda, do poema de Cuti, intitulado Ferro: "Primeiro o ferro marca/a violência nas costas/depois o ferro alisa/ a vergonha nos cabelos/ Na verdade o que se precisa/é jogar o ferro fora/e quebrar todos os elos/dessa corrente de desesperos."

P - Uma geração importante de escritores angolanos inspirou-se na obra de Guimarães Rosa, para "mergulhar" na literatura. Que outros autores aponta como referência?

R - Se levarmos em conta os depoimentos dos autores angolanos, veremos que a literatura brasileira, sobretudo aquela produzida nos anos 40 e 50, foi bastante lida por eles. E dentre os autores desponta, sem dúvida, o prosador Jorge Amado. Seus livros e personagens freqüentaram as estantes e o imaginário dos jovens escritores angolanos de então, deixando algumas marcas em seus textos.

P - Que autores angolanos são mais referenciados pelos seus alunos e quais as principais fontes bibliográficas sobre a literatura angolana em geral?

R - De forma geral, a literatura angolana tem uma excelente aceitação dos alunos. Os poemas, romances e contos são lidos com interesse e atenção e, não raro, os alunos prosseguem as suas leituras, independentemente das demandas escolares. Como é de se esperar, os autores publicados no Brasil são os mais lidos, na medida em que os seus livros são mais facilmente encontrados. Pepetela, Ruy Duarte, Ondjaki, Agualusa, Manuel Rui e Luandino Vieira são alguns desses. Mas, obviamente, o Programa de Literatura Angolana da USP também contempla autores paradigmáticos, como: Agostinho Neto, Antonio Jacinto, Viriato da Cruz, Paula Tavares, José Luís Mendonça, João Maimona, para falarmos de alguns poetas. Relativamente à bibliografia crítica, deve-se mencionar que a Universidade de São Paulo tem efetuado esforços no sentido de publicar e fazer conhecida uma bibliografia sobre a literatura produzida nos países africanos de língua oficial portuguesa. Dentre os títulos, vale enfatizar o livro A kinda e a misanga – Encontros brasileiros com a literatura angolana (Editora Cultura Acadêmica e Nzila), que congrega artigos de praticamente todos os professores das universidades brasileiras dedicados ao estudo da literatura de Angola. Organizado pelas professoras Rita Chaves, Rejane Vecchia e eu, o trabalho focaliza momentos importantes do processo literário do país, bem como os seus autores e/ou textos paradigmáticos. Temos ainda: Portanto... Pepetela; Boaventura Cardoso, a escrita em processo; Marcas da diferença, entre outros títulos. O mais recente lançamento é a coleção Literaturas de língua portuguesa - Marcos e Marcas (Editora Arte e Ciência), dedicada ao ensino básico e com um volume especial sobre Angola.

P - Li, durante muitos anos, referências suas, por serem escassos os estudiosos de literatura angolana, sobretudo na América. Retive, da mesma forma, Xosé Luís García e Russel Hamilton. Gostaria que se referisse a estes professores - freqüentadores assíduos de vários encontros internacionais de literatura - e aos seus trabalhos, que vêm sendo importantes para escritores e estudantes de letras.

R - Felizmente, o número de estudiosos da literatura angolana cresceu bastante ao longo dos últimos anos. No Brasil, em razão da Lei 10639 - promulgada pelo presidente Lula da Silva em 2003 e que prevê a inclusão de tópicos de literatura e de culturas africana e afro-brasileira nas escolas-, houve um crescente interesse dos professores e do público em geral pela literatura produzida nos países africanos. Dessa forma, cresceu o número de inscritos nos cursos de graduação em que a disciplina Literaturas Africanas é ministrada, bem como nos cursos de pós-graduação. Felizmente "o fio da vida" não se parte e, dessa forma, mantemos o contato e a colaboração com os iniciadores dos estudos, como é o caso de Xosé Lois Garcia e Russell Hamilton, que estiveram no Brasil recentemente por ocasião do III Encontro de Professores de Literaturas Africanas. Xosé Lois tem um trabalho de divulgação da literatura angolana incansável. Suas antologias talvez tenham sido a porta de entrada da boa literatura produzida em Angola, para muitos leitores europeus. Já o Professor Hamilton, nosso "mais-velho", tem um papel importantíssimo na difusão e na reflexão sobre essa literatura nos Estados Unidos e não só. Mas há outros nomes que merecem ser lembrados: Maria Aparecida Santilli, Benjamin Abdala Júnior, Laura Padilha, Rita Chaves, Carmen Tindó, Maria Nazareth Fonseca (apenas para citar alguns dos professores brasileiros mais destacados).

P - Sei que o seu primeiro trabalho formalmente publicado sobre a literatura angolana foi Angola/Brasil: estudos comparados. Gostaria que nos situasse sobre o contexto e o conteúdo deste trabalho.

R - O livro Angola/Brasil: estudos comparados é uma reunião de artigos que fui realizando, ao longo dos últimos anos, sobre as relações literárias entre os dois países. Um dos textos ali presentes, Sementes em chão de exílio, é o resultado parcial de uma pesquisa que realizei no Arquivo Histórico de Angola, sobre os degredados brasileiros que, durante o século XVIII, foram enviados para os presídios de Cambambe, Muxima e outros e acabaram por se tornar pessoas de relevo na sociedade local. É um texto que vai além da literatura, pois examina o contexto do Império, buscando reconstruir a história não só de soldados condenados pelo Santo Ofício, criminosos, mas também a de cientistas, comerciantes e "réus de consciência", como hoje chamamos, isto é, homens que se levantaram contra os desmandos da coroa e viveram em Angola. Os demais textos focalizam as relações literárias entre os dois países, dando ênfase a personagens (como os malandros que habitam as páginas de contos e romances de textos de Angola e do Brasil) ou a espaços (como os rios presentes em textos de Luandino Vieira, Mia Couto e Guimarães Rosa). Gostaria, ainda, de lembrar o texto A revista Sul e o diálogo literário Brasil-Angola, pois trata de um estudo pioneiro sobre o papel desta revista que, a partir do contato com Antonio Jacinto e com outros autores de Angola, publicou seus contos e poemas.

P - Anos depois, a obra Brasil/África: como se o mar fosse mentira é publicada. Gostaria que, neste aspecto, enfatizasse a literatura dos países de expressão portuguesa, na medida em que, por exemplo, a literatura moçambicana deu um salto qualitativo assinalável...

R - Concordo que a literatura moçambicana tem apresentado novos e excelentes produtos. Veja-se a prosa urbana de João Paulo Borges Coelho (apenas para citar um dos nomes mais interessantes dentre os novos escritores do país), que se demarca da forma de escrita de Mia Couto e de Ungulani Ba Ka Khosa, por exemplo, demonstrando uma dinâmica interessante da produção literária de Moçambique. Pode-se verificar que surgem projetos literários diferenciados que apontam para a maturidade do sistema literário. É lógico que há nomes que se impõem, quando falamos dessa literatura e, dessa maneira, um poeta como Craveirinha é incontornável aos novos autores. Mas esse é o papel da tradição literária, conforme nos ensina o crítico Antonio Candido: "espécie de transmissão da tocha entre corredores, que assegura no tempo o movimento conjunto, definindo os lineamentos de um todo. É uma tradição, no sentido completo do termo, isto é, transmissão de algo entre os homens, e o conjunto de elementos transmitidos, formando padrões que se impõem ao pensamento ou ao comportamento, e aos quais somos obrigados a nos referir, para aceitar ou rejeitar."

P - Conheci a professora há relativamente poucos anos, no lançamento de Boaventura Cardoso - a escrita em processo. Antes deste título, integrou um projecto biobibliográfico sobre Pepetela, igualmente com Rita Chaves e Inocência Mata. PORTANTO... Pepetela (Editora Chá de Caxinde) deve ser considerado como um resumo biobibliográfico? Porquê Pepetela?

R - A Universidade de São Paulo, através do Centro de Estudos Portugueses e da Área de Pós-Graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, vem se empenhando na publicação de material bibliográfico voltado ao repertório das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Assim surgiu a idéia de Portanto.... Pepetela, autor de grande interesse dos leitores brasileiros e que tem, inclusive, livros indicados como leitura obrigatória para vários vestibulares no nosso país. O projeto, no entanto, acabou por ter o propósito de homenagem ao autor e redundou em um livro um pouco mais requintado. Estamos no momento, a Professora Rita Chaves e eu, atualizando o livro para lançá-lo no Brasil em uma versão mais acessível aos nossos estudantes. O livro Boaventura Cardoso - a escrita em processo trilhou a mesma direção de contribuir para o maior conhecimento de autores importantes da literatura angolana e teve uma boa receptividade. Há, ainda, outros projetos em andamento, que se juntarão a esse esforço da USP em contribuir para a leitura e o conhecimento dos países africanos de língua portuguesa, nas escolas brasileiras e entre o público em geral.

P - Já que falamos em Pepetela, um dos autores angolanos de maior visibilidade mundial, gostaria que a ele se referisse, em particular às obras que considero, enquanto leitor, os eixos da sua bibliografia. São elas: As Aventuras de Ngunga; Lueji; Yaka; Jaime Bunda; Mayombe e A Gloriosa Família.

R - As marcas da história nas trilhas da ficção de Pepetela, bem como a presença de um questionamento corajoso a aspectos da conjuntura sociopolítica de seu país, podem ser acompanhadas ao longo de toda a sua produção literária, de forma recorrente e desde os seus primeiros textos. Veja-se, por exemplo, As aventuras de Ngunga que, escrito "nas manhãs de 10 dias, debaixo de uma árvore, numa clareira da mata, na Frente Leste" da guerrilha do MPLA, onde o autor era comandante, em 1972, realiza, em linguagem simples, uma crítica, quer a certos aspectos da vida tradicional angolana, como o "alembamento"; quer a alguns dirigentes do Movimento, como o velho Kafuxi, que nega comida aos guerrilheiros. Esses questionamentos, de certa maneira, estão presentes também no romance Mayombe, escrito em 1971, em que as reflexões da personagem Sem Medo, a respeito da maneira como o Partido enfrentaria as crises na construção da nação, deixam entrever uma visão bastante aguda das questões do Estado recém-criado. Já em Lueji, o nascimento de um império, o exame das relações de poder, assim como a reflexão sobre a tradição e as forças de sua renovação/ultrapassagem, é magnificamente exposto no par Lu e Lueji. Talvez, a narrativa de Pepetela em que a História mais se faça presente, construindo um romance histórico contemporâneo cuja linguagem exibe uma ironia que corrói mitos e "verdades", seja A gloriosa família, cuja ação decorre durante os sete anos de hegemonia holandesa (1642-1648) em Luanda. Lembre-se de que, logo no Prólogo, um excerto da História Geral das Guerras Angolanas (1680), de António de Oliveira Cadornega, - que serve como ponto de partida e justificação para a narração da história que se segue - situa o leitor espacio-temporalmente, ao mesmo tempo em que apresenta-lhe o texto que, durante grande parte da narrativa, será referido e parodiado. No que concerne a Jaime Bunda, novamente a paródia está presente, desde o título, que satiriza o famoso agente secreto da Scotland Yard, James Bond. Mas é importante frisar que o humor e a ironia servem, aqui, ao propósito de discutir, de forma bastante séria, o poder e seus descaminhos.

P - Tal como dizia antes, a professora Tânia Macedo participou na organização do livro Boaventura Cardoso - escrita em processo já com a chancela da União dos Escritores Angolanos. Gostaria que nos falasse primeiro da pertinência da obra, do escritor e do processo de investigação e de edição do trabalho.

R - Boaventura Cardoso, que é igualmente Ministro da Cultura de Angola, foi galardoado entre outros com o prêmio Nacional de Cultura e Artes edição 2001, pelo livro "Mãe, Materno Mar".

P - Gostaria que se referisse ao tratamento estilístico do autor e, sobretudo, à presença, nalguns dos seus títulos de ficção (principalmente os mais recentes), de uma abordagem sobre a religião, as línguas nacionais e aquilo a que chamaria de um "retracto das mutações sociais".

R - Boaventura Cardoso é um daqueles autores que produzem uma literatura densa e que exigem um leitor atento. Desde o seu primeiro livro, Dizanga dia Muenhu, é possível verificar que se trata de uma prosa que segue a direção dos empreendimentos literários de nosso tempo: avança com cuidado, exigindo um leitor atento que dê conta de uma linguagem densa e perturbadora e de uma trama cujos fios se compõem de matéria vária: a religiosidade popular, as relações sociais, a política. E, não raro, deve-se falar ainda do fantástico, que permeia os relatos. Entretanto, é interessante notar que, apesar do grau de complexidade dos textos, encontramos, nos contos e romances de Boaventura Cardoso, uma comunicabilidade que nos aproxima das personagens e das situações retratadas. Talvez porque esses aspectos da sua ficção tragam a vivência de todos nós, ou seja, os textos do autor realizam a delicada operação de passarem do complexo ao legível; do particular, angolano, para o universal. Em razão da qualidade do trabalho artístico de Boaventura Cardoso e de que o crescente interesse pela sua narrativa não se fez acompanhar da sistematização de trabalhos críticos a seu respeito, isto é, de que não contávamos ainda com uma bibliografia reunida e publicada em livro, Rita Chaves, Inocência Mata e eu decidimos realizar o livro Boaventura Cardoso, uma escrita em processo. Foi um projeto que contou, desde o início, com a adesão imediata dos convidados, de forma que tivemos a colaboração de professores, críticos e autores de Angola, de Portugal e de várias universidades brasileiras. É importante também assinalar que o livro conta com uma pequena antologia de textos, o que visa a disponibilizar, ao público brasileiro, um pouco da rica narrativa do autor.

P - Apesar da pujança demonstrada nos últimos anos, a literatura angolana, e africana em geral, continua a ter tímidos espaços nos fóruns internacionais, incluído, nesse caso, o capítulo vendas. Gostaria que, na sua condição de académica, a professora apresentasse alguns pontos que têm dificultado a "normal expansão" da literatura africana, que ocorre no contraponto da chamada "literatura ocidental"?

R - Creio que a forma como se encara o continente africano é uma das razões de uma marginalização da literatura ali produzida. Apesar das lutas de libertação, dos heróis africanos, ou, recuando mais no tempo, do continente ser o berço da humanidade, a infame história do tráfico de escravos deixou um legado de preconceito. Some-se a isso as questões econômicas, pois muitos dos países enfrentam dificuldades enormes e, dessa maneira, a literatura - que requer uma dose de "ócio criativo" - não tem muito espaço para medrar. No que concerne à distribuição de livros, há taxas aduaneiras que encarecem o livro e, dessa forma, o produto cultural não chega aos leitores com facilidade. Veja, por exemplo, o caso dos países da CPLP: apesar de todos os esforços de seus Ministros da Cultura, mantêm-se as taxas para os livros e, dessa forma, o produto é caro. Lembre-se, ainda, de que a distribuição é precária, de tal forma que os textos publicados somente em África não conseguem chegar a leitores americanos, por exemplo. Dessa maneira, há um grande número de livros publicados em Angola que são totalmente desconhecidos no Brasil e vice-versa.

P - Ainda que, em Angola, Henrique Abranches, José Eduardo Agualusa e Pepetela sejam exemplos de autores que procuram trazer romances históricos, Russel Hamilton (in: A literatura dos PALOP e a teoria pós-colonial) considera haver uma crescente tendência a remitificar a história dos Cinco. "Alguns dos melhores exemplos desta re-mitificação", diz, "verificam-se nos romances dos moçambicanos Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khosa". A professora concorda?

R - Concordo em termos. A revisão da História, com destruição de mitos e revisão dos valores veiculados por uma versão "oficial" dos fatos, é uma seara que a literatura contemporânea vem trilhando com afinco. Dessa forma, pode-se dizer que uma parte interessante da produção literária de nossos dias se orienta para uma luta contra o esquecimento e o silêncio aos desmandos do poder, buscando fazer legíveis e audíveis aspectos do passado que haviam sido silenciados pelas representações oficiais; ao mesmo tempo em que lança um olhar crítico ao presente. Creio que nesse movimento de negação (de valores oficiais) e de afirmação (de uma utopia) é ainda a história que sai engrandecida; mas uma outra história que, uma vez resgatada, traz consigo um potencial utópico e faz falarem as vozes silenciadas.

P - Numa entrevista, o poeta Adriano Botelho de Vasconcelos considerou fundamental a produção e a recolha de acervo sobre a literatura. Temos vários exemplos. Só no capítulo de entrevistas a escritores lusófonos, entre outros, temos autores como Pires Laranjeira, Michel Laban e Helena Riáuzova. Do Brasil, temos o caso exemplar de Clarice Lispector. Que tratamento os departamentos de letras das universidades têm dado a este material, partindo do princípio que a ele têm acesso?

R - O trabalho com os acervos literários é importantíssimo, pois resgata a trajetória não apenas de textos, de um autor ou de um período literário, mas também de um país, na medida em que os originais das obras ou a correspondência do autor, por exemplo, acabam por documentar a participação do escritor na cultura de seu país e os laços que o uniram a outros autores, de outros países. Cito, como exemplo, o acervo do escritor brasileiro João Antônio: a partir da correspondência do autor foi possível verificar que ele manteve contato com jovens escritores angolanos nos anos 1980, como, por exemplo, João Maimona e esse fato pode iluminar um pouco mais as relações literárias que se estabeleceram contemporaneamente entre Angola e Brasil. No caso da literatura angolana, a constituição de um fundo de acervos literários iria ajudar a traçar a história da literatura do país e iluminar momentos importantes, quer das relações literárias, quer da forma de produção dos autores.

P - A professora diz frequentemente que a dinâmica da sua vida académica e investigativa nem sempre lhe permite visitar Angola com a regularidade necessária. Em 2002 apresentou em Luanda "Um Anel na Areia" de Manuel Rui. Na altura disse que "As várias facetas da escrita de Manuel Rui, a poesia, o conto, o romance, o ensaio e a música, talvez pudessem ser comparadas aos afluentes de um rio que felizmente vai se tornando mais caudaloso com novos textos como este onde o mar e o amor estão presentes de forma persistente". O que diz frequentemente aos seus alunos quando se refere ao escritor Manuel Rui?

R - Angola é, para mim, uma espécie de segunda casa: tenho ali amigos muito queridos, sinto-me à vontade, enfim, é um lugar onde gosto de estar. Por conta de uma pesquisa, permaneci um período mais longo em Luanda (entre 1992 e 1993) e é sempre com alegria que volto ao país. Em termos de trabalho acadêmico, é necessário também estar presente no país, pois o mercado de livros e discos é bastante dinâmico e tento acompanhar, da forma a mais completa possível, o movimento editorial do país. Manuel Rui é um dos autores angolanos cuja obra venho acompanhando e sobre o qual escrevi algumas vezes. Em uma dessas oportunidades afirmei que falar da escrita de Manuel Rui (1945) é também fazer referência a uma das manifestações mais pujantes da cultura de Angola, a sua literatura, pois a escrita desse autor está profundamente vincada e marca definitivamente os caminhos da produção artística de seu país. Há textos, na trajetória artística de Manuel Rui, que constituem verdadeiros marcos na literatura de Angola. Veja-se, por exemplo, o seu novo livro, Ombela, uma das mais lúcidas produções poéticas, em que o movimento das águas transforma-se no próprio movimento das palavras e da poesia com suas várias faces e discursos.

P - Que temas mais lhe agradam escrever no domínio das artes e da literatura em particular?

R - Sem dúvida, o que me agrada sobremaneira é pensar e escrever sobre a literatura angolana contemporânea. Ela é bastante diversificada e rica e, dessa maneira, refletir sobre o processo literário do país é instigante.

P - Que escritores da geração contemporânea de Angola tem lido ou estudado? Aponto-lhe, a título indicativo, nomes como José Luís Mendonça, João Tala e Jacinto de Lemos.

R - Leio, na medida do possível, os que vem sendo publicados em Angola, tentando acompanhar os lançamentos. Dos três nomes indicados - uma boa seleção de escritores da nova literatura do país -, José Luís Mendonça é o que publica há mais tempo e desde o seu Chuva novembrina, de 1981, pode-se verificar que estávamos frente a uma voz de alta qualidade da poesia angolana cujo verbo, preciso e trabalhado, traduz um conhecimento de seu ofício poético. João Tala, que nasce como poeta já premiado (lembre-se que seu título A forma dos desejos foi agraciado com prêmio da União das Escritores) e, mais tarde, recebe também prêmio, no início de sua trajetória pela prosa, apresenta-se como um autor cujo nome já é figura de destaque na literatura angolana. O mesmo se pode dizer de Jacinto de Lemos, cuja prosa segura e bem articulada (também premiada) nos traz a paisagem de Luanda, iluminada com uma luz em que não faltam a crítica e principalmente o humor.

P - Quais são os seus livros de cabeceira?

R - Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa é o livro ao qual eu sempre retorno, assim como ao As cidades invisíveis, de Ítalo Calvino.

P - A literatura é um tema sempre vasto. Quais aspectos gostaria de realçar, que terão passado à margem desta entrevista?

R - Aguinaldo Cristóvão, não tenho mais nada a acrescentar, pois as suas perguntas, bastante abrangentes e inteligentes, que demonstram o seu conhecimento do ofício de escrever e sobre quem o faz, permitiram uma abordagem bastante ampla.

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