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"O Momento Comanda o Sentimento e a Capacidade para Intervenção"

Escrito por  Garcia Bires
Apesar de não usar uma metodologia rígida no seu processo de criação poética, o escritor angolano Garcia Bires apresenta aos seus leitores vários estágios de maturação literária. É de se aconselhar ler as suas obras do início para o fim e não o contrário. Garcia Bires assume-se como um poeta que canta o amor e a vida e, sobretudo, as suas raízes.

Nesta conversa, conhecemos as suas crenças e a sua visão do país, da literatura e dos homens. Na sua obra, o retracto mais profundo do "lado mais sensível do homem da pena" vem no prefácio Duas Palavras, de Costa Andrade, a propósito de Dia de Calendário. "Um aspecto meramente preferência pessoal, é ser livre por considerar mais abrangente e próximo do que me vai na alma", diz.

P - O primeiro momento que devo assinalar da sua biografia é a formação académica: primeiro, evangélica; depois, católica, na Escola Evangélica de Luanda (ensino primário) e no Colégio da Casa das Beiras (ensino secundário), respectivamente. É possível descrever o contributo dessas missões na formação académica de tantas centenas de angolanos?

R - As escolas ligadas às Igrejas, embora rudimentares, como eram classificadas em muitos casos, se apresentavam como única porta aberta para a aprendizagem e para o início da instrução. Depois delas, iniciava-se a luta por um lugar numa das escolas oficiais. Essas escolas não participavam somente na formação escolar. Abriam horizontes para outros conhecimentos e comportamentos. Participaram no regaste da dignidade do angolano e na procura daquilo que, um dia, o Poeta-mor chamou de "Voz do igual". A Bíblia e os outros textos utilizados pelas Igrejas facilitavam a compreensão do mundo que nos rodeava e, assim, sonhamos com a libertação do nosso país.

P - A sua actual crença religiosa terá sido influenciada por uma das escolas em que estudou?

R - Não. Teve início no lar, porque a família é tradicionalmente metodista.

P - O seu percurso foi sempre influenciado pelas "viragens" (parafraseando Castro Soromenho) emergentes da luta de libertação, da independência e do regime socialista que Angola atravessou. Quer comentar?

R - Meu percurso viveu e vive o seu tempo. A participação em várias frentes influenciou a percepção dos fenómenos que rodeavam o mundo e deixou as suas marcas. No país independente, acompanho a dinâmica por ser meu dever. Na qualidade de escritor, sinto-me um combatente. Devo criar riqueza moral e espiritual. Por defeito de formação, entendo que o país nunca conheceu um período que lhe desse o timbre de socialista. Terá passado por uma fase que se queria popular, com o povo a participar activamente nos destinos da Nação. Como sabe, esse período foi efémero. Surgiram outras prioridades: defender a integridade territorial, a independência e a paz. A morte prematura do Chefe do Estado alterava os caminhos para uma Angola que se queria popular. Assim, não dá para aferir se Angola atravessou ou não o estágio do socialismo.

P - Gostaria de destacar a sua passagem pelo Congo-Léopoldville. Li que se refugiou nesse país, tal como muitos outros nacionalistas. Quer-nos contar mais pormenores desse período de 1960?

R - O período de 1960 foi o de realização do sonho. Com a independência do Congo-Léopoldville, hoje República Democrática do Congo, tinha chegado o momento de participar, de maneira diferente, na luta de libertação nacional. As prisões e o "julgamento" dos mais velhos foram o mote da decisão de procurarmos outras formas de luta. Postos no território congolês, nossa estada naquele país não foi muito fácil. A PIDE tinha os seus informadores e esses "faziam o ponto da nossa situação" aos agentes que ali se encontravam. Com a eclosão da luta de libertação, para lá refugiaram-se colegas e companheiros de alguns grupos clandestinos que actuavam em muitas zonas do país e não só.

P - A sua geração é referência para muitos jovens. Como avalia os novos escritores, particularmente os poetas, tendo em conta aquilo que lhe tem chegado às mãos?

R - Os novos escritores têm o seu espaço. É necessário que se criem condições para que haja uma produção regular dos trabalhos. As autoridades competentes, em estreita colaboração com a União dos Escritores, deverão criar facilidades, de forma a aliciar mais jovens, porque a literatura produzida tem qualidade.

P - Em Luanda, por exemplo, o Colégio da Casa das Beiras tem sido revalorizado. É possível, além deste, apontar alguns dos locais mais representativos da sua infância e do seu percurso como nacionalista?

R - Para além da Escola da Missão Evangélica, apontaria o Colégio da Casa das Beiras, a Escola Industrial de Luanda, o Liceu ex-Salvador Correia, os bairros da nossa velha Luanda, muitos já desaparecidos.

P - Não podia falar da sua obra sem dizer aos leitores a curiosidade e, às vezes, a confusão gerada à volta do seu nome. Em que período surge o pseudónimo Bireslav Wolker, na medida em que também assina as suas obras com o nome Garcia Bires?

R - Surgiu na primeira década dos anos sessenta, em memória ao poeta checo Irgi Wolker. Depois da nossa independência, achei por bem subscrever as obras com o meu próprio nome.

P - Consta da sua "biografia autorizada" que publicou poemas no Boletim Informativo do MPLA e nos Jornais e Revistas da Juventude das antigas Repúblicas Socialistas da Checoslováquia e da URSS. Estes poemas perderam-se ou foram mais tarde publicados nalgumas das suas obras?

R - A maioria desapareceu. Um ou outro foi recuperado e publicado na colectânea O Silêncio Acordado e em Poesia Diversa.

P - Alguns desses poemas, que no fundo terão sido publicados na década de 60, reapareceram na obra Poesia Dispersa (UEA, Guaches da Vida, 2004, Luanda) de que mais tarde falaremos, não é?

R - Exactamente.

P - Li numa só noite Dia de Calendário (Luanda: UEA, Lavra & Oficina, 1989). Um dia antes, havia lido apenas o prefácio de Costa Andrade. Fale-nos dessa sua relação com Costa Andrade e com os outros confrades cujas trajectorias políticas e literárias acabaram por convergir...

R - O meu relacionamento vem de há muitos anos. Conheci Ndunduma, ou Costa Andrade, em 1965, em Brazzaville, aquando da realização do Congresso Constitutivo da União dos Estudantes Angolanos. Voltamos a estar juntos em Belgrado, outras vezes em Moscovo, quando este ia em missão de serviço e eu, como Representante do MPLA na URSS - finalmente na Frente Leste. Dentre outros confrades, que de uma maneira ou de outra "intervieram no meu gosto", destaco Nicolau Spencer, Emmanuel Corgo, Gasmin, Ndunduma, Lourenço Casimiro, Maurício Spielle, Aleixo Palma, Jorge Lucas "Zengo", porque, para além das preocupações que a luta nos trazia, encontrávamos, na pena, outra forma de estar, de compreender o nosso dever, de mobilizar outras vontades e forças no exterior.

P - Em Duas palavras Costa Andrade retractou Garcia Bires não apenas como poeta, mas como homem. Devo dizer que é o perfil mais profundo, curto e acabado que já li até hoje sobre si e sobre o âmago da sua obra. O que representa para si a poesia?

R - Representa a parte oculta do escritor. O lado mais sensível do homem da pena.

P - Que importância atribui à sua vida e particularmente à génese desta obra poética, Dia de Calendário, a figura de Ana Paula Bastos Ferreira do Carmo Bires?

R - A obra foi especialmente dedicada à figura e à postura da Ana Paula. É um livro aberto. Ele diz tudo.

P - Quer-nos falar, se é que será necessário, do significado de mês de Fevereiro na sua vida e como este mês marcou a sua poesia?

R - Cada homem elege algo que lhe marca ou marcou durante muito tempo ou para sempre. Elegi o mês de Fevereiro como poderia buscar outro, ou qualquer outro motivo. O mês de Fevereiro, para além de ser o mais curto do ano, tem para mim algo que a pena, de facto, não pode fielmente representar ou traduzir, porque a alma não deixa.

P - Parece-me que, nessa obra, o poeta se expõe aos seus leitores e compartilha com eles a sua tristeza, num misto de angústia existencial que se entrelaça com uma visão necessariamente filosófica da vida. E, com isso, deixa muito poucas razões para ser questionado. Costa Andrade tem razão: "este não é um livro igual aos outros. (...) É um livro para ser escutado em silêncio, com a estima e respeito que nos sugerem as palavras de um homem que fala de algo unicamente seu: a dimensão do amor". Concorda?

R - Ndunduma me conheceu em várias situações. Compartilhamos muitos momentos alegres e tristes, de vitórias e derrotas, na presença ou na ausência dos camaradas e amigos comuns. E isso marca. Não me é absolutamente fácil dizer para que lado pende o meu estado.

P - Anotei vários poemas desta obra para que, a eles, o escritor se referisse. Além dos queira fala, gostaria em particular de ressaltar um poema que revela a beleza e a força poética. Refiro-me ao poema Ainda o mesmo amor (III), de onde recorto as seguintes passagens: "A poesia tem o seu canto/ o poeta tem o seu ritmo/ eu sou a convergência da poesia/ do poema/ da pena/ do tempo/ e da palavra"... Poderia comentar?

R - Como me referi, qualquer escrito tem seu o motivo específico e cada motivo tem o seu espaço. O espaço cria o momento. O momento comanda o sentimento e a capacidade para intervenção.

P - O Silêncio Acordado é o título do seu segundo livro de poesia, já esgotado no mercado literário. Tal como muitos dos seus leitores e estudiosos da sua obra não o li nem tive acesso a qualquer estudo sobre ele. Penso ser importante dar-nos mais elementos sobre o mesmo, sublinhando o período em que foi escrito, as motivações, os principais poemas, a correspondência histórica e pessoal e a necessidade de reedição deste livro.

R - O Silêncio Acordado é parte do espólio que escrevi em vários momentos, quando "visitava" o meu-nosso passado. Há muita carga de recordação dos tempos que marcaram o ego da minha geração. Abarcou o tempo de 1960 a 1973/74. 11.

P - Olhadelando representa uma rotura da estética até então apresentada por Garcia Bires. Eu diria mesmo que há, na obra, uma maior preocupação metafórica e de desconstrução dos ortodoxos modelos poéticos. Concorda?

R - Talvez. No Olhadelando - aliás, o título é per si algo novo - tentei mudar o que havia até lá praticado. Não sei se fui feliz na experiência. Foi o modelo que melhor me convinha no momento, o que me movia. Se foi também este o seu entendimento, concordo.

P - Lendo estrofes de Olhadelando, como: "Desapareceste/ Do canto do meu olho/ Talmentemente como do canto da rua/ Onde tinhamos o encontro marcado/ Deixando no ar quente da noite/ Cheiro inconfundível do teu perfume/ E no chão/ As marcas dos teus passos de bambi", fico com a sensação de que o poeta deslocou o seu discurso dos céus para a terra, da noite para o dia, do passado para o presente e, sobretudo, para o futuro. Principalmente neste livro, o poeta não está isolado. Vê-se e exprime-se para uma sociedade. É uma ode à memória e à vida! O poeta consegue olhar para dentro da sua própria poesia e traduzi-la?

R - Existem tais momentos. Depende do estado do espírito. Olhadelando foi outra forma de encarar o mundo que me cercava e de espreitar o que ia no interior. É uma mescla de "O Silêncio Acordado com Dia do Calendário".

P - Editou, pela União dos Escritores Angolanos, Poesia Dispersa, o primeiro de vários exercícios em que propõe reconstruir a sua poesia numa colectânea. Poesia Dispersa traz, fundamentalmente, outro momento da sua vida, que foi o seu percurso político. Quer-nos contar como, onde e porquê foi escrevendo poemas?

R - O título indica, teve vários períodos. Os poemas Teu Nome e Ubeka, por exemplo, escrevi-os nos primeiros meses da minha chegada a Matadi: o exílio e o sonho; Aquele Rosto, em Dolisie e, finalmente, Aonde Estarás, em Maputo. Tempos diferentes.

P - Que escritores angolanos, lusófonos ou africanos mais lê?

R - Quase todos os clássicos angolanos: Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Alda Lara, Lopito Feijó, Luís Mendonça, João Mayomona e outros. Não tenho preferências. Não conheço nenhum lusófono. Conheço os da língua portuguesa: Noémia de Sousa, Marcelino dos Santos, José Craveirinha, Alda do Espírito Santo, Onésenio da Silveira, Jorge Amado, Drumond de Andrade e outros. Não olvido Pablo Neruda, Nicolas Guilém, Bernard Dadie e outros da Europa, com predominância para os de Portugal, Espanha, França e Ásia.

P - Como tem organizado, hoje, a sua biblioteca, discos e, de um modo geral, a agenda cultural?

R - Tenho muitos livros e "outros utensílios" dispersos. Não me é fácil ter uma biblioteca organizada, porque a minha actividade me obriga a ser "caracol". O livro, para além de pesado, é muito sensível. Tenho comigo alguns discos. Felizmente, hoje, com a internet, é fácil ouvir música de toda espécie.

P - Porque não é comum ver poetas afirmarem-se assíduos leitores de outros?

R - Não colaboro com a sua opinião. Parece-me ser apenas uma questão de gosto.

P - A sua carreira diplomática tem servido para mais e profusas leituras de autores de todo o mundo ou acaba retendo o poeta?

R - As obrigações profissionais acabam por limitar os meus desejos, porque nem sempre facilitam a leitura conveniente de uma obra. Mas, na verdade, não dispenso um bom romance.

P - Que opinião tem dos prémios literários? Aos poucos, vão se multiplicando os prémios, desde os de âmbito internacional (Nobel da Literatura) aos de âmbito comunitário (Prémio Camões) e aos de âmbito nacional (Prémio Nacional de Cultura e Artes)...

R - Em relação aos dois primeiros prémios, minha opinião é crítica. Tenho a impressão de haver uma selecção antecipada. Em relação ao último, é de louvar a iniciativa. Meu desejo é que dure. Entretanto, sou de parecer de que, tendo em conta o nosso passado, seria bom pensarmos em atribuir prémios póstumos. Há confrades que bem o merecem.

P - Após 30 anos de Literatura e a par de entrevistas e estudos que têm sido feitos sobre a sua obra, parece-me que uma autobiografia seria importante. Que elementos consideraria indispensáveis na sua autobiografia ou antologia comemorativa de 30 anos de literatura?

R - Deixaria ao critério dos organizadores. Caso seja contemplado, poderei, na devida altura, dizer o que acharia indispensável.

P - Na nota prévia de Poesia Dispersa, interroga-se sobre os desafios que o livro lhe traz. Já se passou muito tempo desde que a formulou, por isso reproduzo, em discurso indirecto, esta questão: Terá tempo para arrumar e editar, num livro, o seu acervo literário, como o poeta e como a memória colectiva da sua geração exigem ou considerará que a vida é, cada vez mais, um livro por se abrir e por se deleitar?

R - Minha intenção se mantém. Necessito de tempo para a sua execução, porque a vida continua a ser um livro por se abrir, onde cada um de nós é apenas uma página, senão parte dela.

P - De que forma o leitor poderá entender a organização do livro que, do ponto de vista temático e espácio-temporal, é aparentemente transversal ?

R - O livro pode abarcar as duas formas. Em princípio, a forma preferida é a temática.

P - Li Poesia Dispersa antes mesmo de ter entrado em contacto com as suas obras anteriores. Penso que os seus leitores terão a mesma dificuldade em codificar as suas "poesias dispersas". A par do que referiu há pouco, gostaria de ouvi-lo mais sobre a metodologia que adopta (ou não) para o processo de criação poética.

R - Não utilizo metodologia rígida. Minha tendência, um aspecto de preferência meramente pessoal, é ser livre, por considerar mais abrangente e próximo o que me vai na alma.

P - Por defeito, pergunto aos escritores-poetas o porquê de não escreverem prosas. Por conta das respostas serem convergentes, pergunto-lhe: quais poemas poderiam transformar-se em excelentes contos ou romances?...

R - Não sei se os poemas dariam um excelente romance. Pessoalmente, elegeria o PRIMEIRO CÍCLO - OS BELOS TEMPOS do título O Silêncio Acordado e TRÊS ACTOS E CINCO CANTOS P'RA XIMINHA do Poesia Dispersa.

P - Os escritores são uma franja da sociedade com responsabilidade acrescida, no que concerne ao esclarecimento social e até político dos seus leitores. Os livros de José Saramago e Isabel Allende refectem-se nos seus países e ainda servem de exemplo para outros. Que títulos e autores angolanos com semelhante realce destacaria?

R - Exemplo feliz. Os escritos marcam períodos especiais. Acompanham o estado moral, psíquico e social do tempo. No nosso caso, começaria com os da Geração Mensagem. Mas, antes dessa geração, tivemos os nossos ousados; na nova, existem outros tantos. Prefiro não indicar um único nome e, consequentemente, o título porque corro o risco de, involuntariamente, esquecer uns tantos.

P - Os escritores angolanos serviram, antes da independência, de suporte intelectual dos movimentos de libertação, ao que Inocência Mata, professora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, chamou de "vasos comunicantes". O que dizer desta "fase de criação literária"? Dir-se-á mesmo literária?

R - Foi uma fase suis generis. Não sei se foi de criação, de facto, ou para marcar a nossa presença ou, ainda, o casamento com a luta. Felizmente, no nosso caso, tivemos apoio da Direcção do MPLA. Embora tenha sido num período difícil, de várias mutacões e de situações permanentemente imprevisíveis, foi uma das mais belas escolas. O Vitória ou Morte publicava os nossos trabalhos. Muito mais tarde, a esse esforço associou-se o Faulha, jornal quinzenal do African Affaires Bureau em Accra, coordenado por Hugo de Menezes. Por se ter tratado de um período especial, posso enquadrar também que foi de criação, porque surgiram outros e novos valores.

P - Há quem considere precária a publicação de livros que tratam do jugo colonial, por causa das circunstâncias, hoje, inspirarem uma nova postura dos escritores. Poder-se-á dizer que o escritor reflecte sempre, directa ou indirectamente, a sua vivência nos seus livros?

R - Não tenho a mesma opinião. A imaginação não tem tempo nem espaço próprios. O que pode acontecer é uma certa acomodação. Embora tudo tenha o seu tempo, transportamos, na bagagem, o nosso passado, a nossa vivência. Essa vivência é tão pessoal, que não é possível repartir o que sentimos. Por essa razão, é necessário que se veja, no escritor ou no fazedor de arte, o seu tempo. Falar do passado colonial faz parte da nossa história. Entre nós, já há gerações com o passado totalmente diferente. É necessário respeitar o período em que a produção é levada a cabo e verá que, entre os novos, há quem vá buscar e por, na escrita ou em qualquer arte, parte do passado não vivido, mas ouvido, e o faz muito bem. Por outro lado, existem pesquisadores e aqueles que, de acordo com o interesse ou tema, recriam ou dissertam sobre qualquer período. O importante é congregar vontades, capacidades e saber utilizá-las, no seu devido tempo e espaço.

P - António Panguila, poeta angolano, numa das makas de Quarta-feira da UEA, afirmou que "muitos poetas choram em vez de cantarem", sustentando que a lamúria não interessa para a construção do mundo novo. "Por uma razão simples: ela atrai energias negativas que atrapalham o progresso das nações", diz o confrade. Quer comentar esta afirmação?

R - Meu confrade Panguila terá as suas razões. Pelo respeito e admiração que nutro pelo autor, prefiro "no comment".

P - Li um interessante comentário do escritor Henrique Guerra, proferido durante o Primeiro Encontro de Escritores Angolanos, realizado na Província da Huila. Ele abordou a questão da construção da Nação. Queria, igualmente, que desse um contributo a este debate, tendo, como base, a seguinte frase daquele escritor: "muitas vezes, andando pelas ruas da capital (de Angola) e apanhando farrapos de disputas caídos das conversações populares, fico com a ideia de que o conceito de Nação ainda não está devidamente interiorizado no subconsciente imaginário da maior parte da população (...)

R - O que podemos esperar, se o país se reencontrou há menos de cinco anos? O escritor deve participar na construção dessa consciência. Este conceito não se fará em trinta anos. Não serão os outros - refiro-me aos estrangeiros - que ensinarão os nossos filhos, netos e outros familiares como nos comportar enquanto membros de uma só Nação, ou como construí-la. Fazer de Angola um país, para dele fazermos uma Nação, não deverá ser uma palavra de ordem emergida do vazio. Deverá ser a nossa divisa. Deverá ser um acto, um comportamento constante.

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