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Urge a Necessidade da Existência de uma Nova Consciência Literária em Angola

Escrito por  Carlos Pimentel

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

Se falarmos de António Carlos Frota Tendinha de Pimentel Teixeira, o leitor levará algum tempo para inferir que, frente a este extenso nome, estamos abreviadamente em presença de Carlos Pimentel, escritor angolano, reconhecido poeta e contista, que revela-nos um interessante perfil literário, iniciado curiosamente numa sala de aulas, onde não conseguiu desenhar um elefante e ultrapassou a barreira que separa o autor do escritor. A atribuição do prémio Noma de Literatura para a obra Tijolo a tijolo, que deveria ser reeditada, é apenas um exemplo. Mas, do autor, sobressaem outras facetas, sendo relevante a de cronista do Jornal de Angola, com a conhecida coluna Crónicas com Pimenta. Propositadamente, esta conversa tem o título de uma interrogação que se impõe entre os escritores. Foi igualmente por provocação que perguntamos ao poeta o que fazer, para que o mesmo volte a escrever. Estes ingredientes já são suplentes para convidar o leitor a viver momentos de Literatura!

 

 

 

P - Dividiu a infância e a adolescência entre Mossamedes (Namibe), onde nasceu, e Huíla, que fez parte dos estudos liceais. Pode descrever-nos o trilho que seguiria, se pudesse revisitar estes locais?

R - Nasci em Mossamedes, assim se chamava na altura, mas entrei para a escola primária em Porto Alexandre. Meu pai, funcionário da Fazenda, era sempre transferido de Mossamedes para Porto Alexandre, de Porto Alexandre para Mossamedes e muitos anos mais tarde, quando o transferiram para Uíje ou Malange, tratou da reforma. Tinha eu cinco anos e completaria seis naquele mesmo ano (época de transição escolar). Foi terrível o primeiro dia. A professora, talvez para ambientar os caçulas, mandou-nos desenhar um animal e calhou-me um elefante, salvo erro. Mas, para meu desespero, por mais que tentasse, o meu desenho não era, na minha cabeça, igual ao próprio. Fugi, escapuli da escola no primeiro dia. É claro que me levaram de volta, mas o elefante nunca saiu…

Entretanto, o que mais me marcou, nessa época, foi o facto dessa escola pública primária não aceitar negros. Mas, devido às lutas de meu pai e de outros, penso, ganhou-se essa batalha e o ensino estendeu-se a quase todos, desde, é claro, que se observassem certas normas. Assim, entraram as crianças de famílias como Espírito Santo e outras.

De Mossamedes, lembro da imponente Escola Primária, na rua próxima à Rua das Hortas; da Escola Portugal; dos colegas; das alfarrobas; das tâmaras; dos tamarindos; dos melões e das melancias; do peixe; da pesca e de correr de pés descalços por entre as casuarinas. Penso no pão quente da padaria do Esteves, lá pela madrugada. Lembro-me, ainda, da fisga feita por nós mesmos; da primeira pressão de ar (chumbo 4.5), com a qual trazíamos os passarinhos para a frigideira - isto, depois da utilização do fisco - e, mais tarde, dos tiros com a 22 cano longo do pai, na caça às gazelas, e da caçadeira de canos sobrepostos, de calibre 12...

Penso no Desporto, na Mocidade Portuguesa e, principalmente, na Vela, primeiramente em Sharps velhinhos como o mar e todos remendados por nós; depois, nas velas, pelas mamãs. Lembro dos sustos com as baleias, no meio da baía, e das miúdas, namoradas e amigas, a nos incentivarem no morro da Fortaleza e nós... todos heróis.

Depois, os Snipes novos e garbosos, feito golfinhos, sulcando os mares e ares com a força do vento, a genica e o guzo dos velejadores, vencedores das maratonas da difícil e imprevisível Baía do Lobito, onde baicaram os melhores de Luanda, diante dos miúdos de Mossamedes. Iniciámos o hóquei em patins, no Sporting, apreciando, é claro, a Escola de Ballet da Madame Sibleirra e suas meninas bem…

Recordo-me dos passeios de bicicleta pelas hortas, ao longo do rio Bero; dos primeiros namoros; das idas à praia Amélia, na chegada, para as fábricas, das traineiras de carapau; da praia das miragens e até do próprio cemitério, onde, desde jovem, acompanhei muitos amigos e amigas das gentes maravilhosas de Mossamedes, local onde ainda fiz uma peregrinação, no ano passado, acompanhado de minha mulher.

P - Fale-nos mais sobre as impressões que teve da Huíla, por onde passou e estudou…

R - A Huíla (Sá da Bandeira) fez parte, até o segundo ano, dos meus estudos liceais, concluídos em ensino particular, nos anos 55. Em 1956/57, entrei como caloiro para o Liceu Diogo Cão e, em Julho de 1963, terminei o 3º Ciclo, com 16 valores em Matemática e em Filosofia, 15 em Geografia e entre 10 e 12 no restante. Essa missão foi cumprida, conforme havia prometido, dois anos antes, ao meu pai, no escritório em que os mandantes de Mossamedes mandaram colocar uma bomba na cave. A bomba explodiu na noite em que meu pai trabalhava, como Procurador Extra Judicial, para ultimar processos que levariam muita gente aos tribunais, enquanto a minha mãe, grávida de quase nove meses, o aguardava em casa, dando à luz a uma menina, três dias depois.

P - Que lembranças tem desse tempo da então cidade de Sá da Bandeira?

R - Umas, maravilhosas; outras, nem tanto, como a vida de qualquer jovem, embora eu tenha sido privilegiado, porque meu pai, já o disse, era funcionário de Fazenda. Lembranças do Liceu, das praxes, dos colegas e professores - uns, fora de série; outros, agressivos. Lembranças do Bint´Óito, do Prof Vieira e do Mendonças das Forças (de raiz madeirense), cuja filha namorei e ele soube… muitos professores na memória, da qual me escapam nomes e nomes. E as makas com a malta do Tchivinguiro, por um lado e, por outro, com a malta da Escola Comercial e Industrial. Eram makas saudáveis, embora doessem e magoassem mesmo. Eram basicamente originadas por uns roubarem as miúdas dos outros. Havia coisas boas. Lembro-me de ter chefiado a organização do Centro Estudantil de Serviço Social. Com muito apoio, organizávamos peditórios, sob o slogan: "Dar um escudo não custa a ninguém, mas muitos ajudam a alguém"”. E, através da venda de um pequeno bilhete do Centro Social, ajudávamos muitos estudantes e muitas famílias carentes.

Também pratiquei desporto na Académica da Huíla: hóquei em patins, andebol, basquetebol, futebol, etc. Em Julho de 1963, terminou a minha fase de estudante, porque a bolsa de estudo da Mocidade Portuguesa nunca me foi comunicada. O Chefe da MP era o pai da moça que eu namorava na altura e não queria deixar-me seguir para a Metrópole. Assim, adeus aos estudos na Universidade em Portugal. E, depois, com a minha mãe sozinha e uma filha pequenina nos braços; com o irmão mais novo no Tchivinguiro, a estudar, e o mais velho em Moçambique, que deveria fazer eu, senão procurar emprego?

Ganhei o concurso para o Instituto das Indústrias de Pesca de Angola e fui colocado em Mossamedes, como Agente de Fiscalização de 2ª. Classe. Iniciou-se, assim, uma nova fase, com trabalhos em todo o litoral, da Baía dos Tigres até ao Rio Bengo, Distrito de Luanda. Revisitei quase todos os lugares possíveis em Dezembro e em Janeiro de 2005/2006.

P - Tal como vários angolanos, o escritor prestou o serviço militar, tendo conhecido, por esta via, as cidades do planalto central e do sul do país. Hoje, tem-se escrito muito sobre esses períodos. O que guarda em termos de objectos, até hoje, desse tempo?

R - A boina verde de fitas preta e amarela, do tempo da L.C.B. (Tropa Especial de Luta Contra Bandidos); um crachá das FAPLA e dos COMANDOS FAPLA; uma patente, apenas uma, de Segundo Tenente e uma muito pequena almofada negra, com um alfinete também negro que se usava, camuflado, na altura do coração, em sinal de luto profundo, pela morte do Presidente António Agostinho Neto. São estes, em termos de objectos, que guardo, até hoje, desse tempo.

P - Que aspectos dessa sua etapa de vida poderiam ser incluídos num livro de memórias, se quisesse ou se já estivesse a escrevê-lo?

R - Meus diários e muitas recordações, por exemplo, a história duma menina que, recuperada nas matas do Kuando Kubango, nunca tinha visto um homem branco e que, desnutrida e vestida de casca de árvores batidas com a pedra, aproximou-se de mim para me tocar com suas mãozinhas pequenas e suaves, acariciando meus braços peludos, como se não acreditasse poder existir um homem assim.

P - Que obras lidas guiaram a sua trajectória literária e que livros encontram-se há mais meses na sua mesa-de-cabeceira?

R - Comecei a ler muito novo, mesmo antes da escola primária. Nossa casa tinha muitos livros, já desde o tempo de meu avô que, além de farmacêutico, foi jornalista e muito estudioso. E, também, foi pelo meu pai, que estudou não sei quê em Coimbra.

Tínhamos muitos jornais e revistas infanto-juvenis. Li "A Mãe" ainda miúdo. Depois, foi apenas continuar e continuar. Lia tudo o que apanhava à mão. Quando tinha de ir ao cemitério, lia as lápides. Lia também os anúncios dos filmes e as cartas dos bares e restaurantes: "Há caranguejo de Mossamedes". Mais tarde, vieram os livros obrigatórios da Escola e do Liceu. Esses eram chatos.

Li muitos clássicos. Eram a minha predisposição interior. Os livros que tenho, há mais tempo, em minha mesa-de-cabeceira são: Sakalumbu, o contador de estórias e Tatchi, de Artur Arriscado, e Zorba , o bom demónio, de Nikos Kazantzaki.

P - Sei que teve uma trajectória bastante marcada pela sua passagem como Director Geral da ENDIPU- Empresa Nacional do Disco e do Livro, então afecta à Secretaria de Estado da Cultura, assim como pela sua saída, para ingressar numa empresa petrolífera. Com base na experiência acumulada enquanto lá esteve, diga-nos o que falta para que Angola seja auto-suficiente na produção de livros?

R - Já não temos indústria de papel, embora tenha existido, em Angola, um dos maiores pólos de eucalipto do mundo, ao longo de todo o caminho de ferro de Benguela, indo do mar à fronteira do Moxico, hoje Zâmbia. Não há mais eucaliptos (matéria-prima para a produção de papel). A Celulose foi o que se viu, já não existe mais fábrica. As máquinas, as tintas, o papel, as chapas, os produtos químicos, tudo é importado. Compete ao Estado a protecção fiscal, com a isenção ou diminuição efectiva dos valores dos impostos - auxílio verdadeiro para as tipografias que trabalham, de facto, como tal - e outras medidas pertinentes, quem sabe, até pagando antecipadamente pelas suas encomendas. Por outro lado, ainda se ensina aos jovens as áreas desses profissionais das tipografias??? Ou aprendem sozinhos? Como? Havia escolas próprias das igrejas, salvo erro. E, hoje, existem? Não sei responder.

P - Julga ter sido a melhor decisão, na altura, deixar o sector da cultura, ao qual afinal, acabou por regressar?

R - Estive, sim, no sector da Cultura. Fui nomeado Director Geral da ENDIPU e tomei posse. Criou-se, então, a empresa que, como tal e após alguns anos, deu lucros ao Estado. Foi quando decidi me desligar, porque me sentia sem apoios reais. Pedi, ao Ministério das Finanças, uma auditoria na contabilidade da empresa e no seu património, o que foi feito, e dei um tchau, como sempre, tranquilo. Foi um terrível divórcio o que vivi, pois fui das Fapla e das matas directamente para ali. Deixei para trás o meu suor, sangue e amor. O que acontecesse depois, não seria de minha responsabilidade, apesar do meu grande afecto pelos trabalhadores. Foi grande o meu pesar pelos trabalhadores, mas não tinha jeito.

P - Li no seu currículo que começou a escrever para jornais na década de 60, depois de ter exercido as funções de tipógrafo e de compositor. Gostaria de nos contar como tudo isso ocorreu?

R - Em Mossamedes, trabalhei no jornal O Namibe, com o mais velho Caricôco. Ali, comecei a sentir o cheiro das tintas, as letras de chumbo nas mãos e a compor as palavras na placa própria, dando valor às minúsculas letras que formavam as palavras; às palavras que formavam as frases; às frases que completavam os parágrafos e os parágrafos que se uniam para fazer artigos com sentido, intenção e clareza.

Se eu sabia escrever e escrevia, porque não publicaria? Tentei e consegui publicar as primeiras crónicas que, às vezes, eu próprio compunha. Belo, não? Eu achava e ainda acho.

P - É membro fundador da UEA, título que, segundo alguns membros, é um sonho para muitos dos "jovens escritores". Vários deles colocam o ofício de "escritor" nos seus cartões de visita. Que dimensão social espera que a UEA alcance?

R - Já vi, em Luanda, cartões de visita que pareciam verdadeiros jornais, tantos eram os títulos que ostentavam. Um sonho de estupidez e de "santa" ignorância. Eu coloco a minha profissão, digo, a minha competência, apenas essa. Sou reformado, mas, talvez, pusesse no meu cartão de visita: "Tenente-Coronel das FAA e Escritor", nunca diria: "na Reforma".

A UEA já alcançou, por mérito próprio, a sua dimensão social em Angola e no mundo. Apenas lhe compete seguir em frente.

P - Carlos Pimentel tem publicado menos. Aliás, penso que tem se dedicado mais ao jornalismo do que à poesia. Como poderemos incentivá-lo a publicar mais títulos?

R - Provocando-me. Alguém, um dia, sugeriu-me pedir uma bolsa, ou lá o que isso seja, a uma grande organização portuguesa. Não aceitei e fim de papo. Apenas digo que é possível. Mas, antes, gostaria de ver publicadas, em livro, as crónicas dos difíceis anos 90, saídas no Jornal de Angola, "Crónicas com Pimenta ou Pimenta na Língua", o que não pôde acontecer até hoje, embora as mesmas já estejam compiladas e na posse do Jorge Antunes, filho da saudosa Gabi, Gabriela Antunes. Tenho tempo e sei fazê-lo, que tal um empurrão merecido?

P - Enquanto preparava esta entrevista, fiquei entretido com a poesia de António Jacinto. Analisava a força das suas palavras, que ecoam na mente de qualquer angolano. Falo do poema de alienação, publicado no livro Sobreviver em Tarrafal de Santiago. Que referências gostaria de fazer a esse escritor que, como tantos outros, constituem os melhores nomes da poesia angolana.

R - Homem. Um dos nossos maiores poetas. Grande amigo, companheiro e camarada. Imortal, embora eu tenha varado a noite na câmara ardente, dizendo e dizendo poesias perante o seu caixão, ininterruptamente, numa homenagem apenas de amigo.

P - Não poderia deixar de comentar o facto do seu primeiro livro de poesia, intitulado Tijolo a Tijolo, ter sido galardoado com o Prémio Noma, um prémio de origem japonesa atribuído a poucos angolanos, dentre eles António Jacinto, de quem acabamos de falar. Gostaria que situasse os leitores no tempo relativo a esta obra, publicada em 1980.

R - Dizer apenas que tudo foi escrito no tempo militar, principalmente e na maior parte das vezes, nas matas, nos acampamentos, ou onde estivesse, e em folhas de papel dispersas, fosse em que papel fosse.

P - É possível dizer, então, que perfilhou nessa fase da chamada "literatura engajada"?

R - Da Literatura engajada, assim como da juventude engajada.

P - Pano barato, o seu segundo livro de poesias, foi publicado pela União dos Escritores Angolanos. Este livro esgotou cedo nas bancas e, hoje, existe apenas em algumas bibliotecas privadas. Aliás, eu também não o encontrei. Aproveito esta oportunidade para ouvir mais sobre essa sua produção poética...

R - Só tenho um exemplar. Mas, prometo que, se me deixar acompanhá-lo, comigo a seu lado, poderá fotocopiá-lo. Sobre esta minha produção poética, talvez dizer que, nela, há mais poesia, pois a poesia flui, apenas flui...

P - Não me esqueci de que o escritor é igualmente contista. Tenho registado apenas um título seu na prosa. O conto chama-se O Rio só termina na foz, que ainda não foi publicado. Conte-nos esta história pois, dizem que os poetas costumam tornar-se grandes ficcionistas...

R - Também tenho uma cópia ao seu dispor, para reproduzir, desde que ao meu lado. Conforme disse no início, a ideia surgiu-me, então escrevi e guardei-a. Depois, enviei-a para o Concurso Literário 1º de Maio de 1977 da UNTA, no qual obtive uma menção honrosa. Na poesia também há ficção. A poesia não é incompatível com a poesia, talvez até se completem ou se entrecruzem.

P - Tem alguma poesia, preferencialmente sua, que queira declamar?

R - alfabetizando / pedreiros/ pra o amanhã/ de tijolo a tijolo/ mamãe, me faz uma flor/ de pano barato.

P - Muitos dos homens das letras, como é o seu caso, iniciaram-se nas revistas militares. Carmo Neto é outro nome que, agora, me assalta a mente. Entre o militar e o jornalista, havia alguma previsão para a existência futura do escritor?

R - Julgo que sim, mas não me iniciei em Revistas Militares. Eu criei a Revista Militar, por ORDEM do Camarada IKO CARREIRA. Deu-me uma ordem porque sabia que eu era capaz de cumpri-la. Ele conhecia-me e bem. Eu já era escritor, não um escritor com direito a cartão de visita impresso, mas o era intrinsecamente. Já escrevia e bem, sabia como fazer e lidar, era amigo da gente das Letras, como se dizia.

P- Conviveu, nesse período em que era militar, com uma figura relevante e, de certa forma, controversa da história de Angola: o comandante Iko Carreira. Leu o livro de memórias desse nacionalista, escrito por ele antes da sua morte?

R - Não li o livro do comandante. Ainda.

P - Certa vez, um diplomata interrogou-me sobre a geração contemporânea que, ao contrário daquelas das décadas de 20 a 70, que possuíam grande consciência política, possui apenas uns poucos escritores mais "jovens" que abordam, nas suas obras, questões que afectam a nossa cultura, como: globalização, diversidade cultural, direito de falar apenas a língua nacional, etc. Na sua opinião, a guerra provocou efectivamente este efeito sobre a nova geração?

R - Que idade tem esta nova geração? É gente nova mesmo. Não encontraram um mundo novo, mas não conheceram o outro e não o cultivam. Interessa-lhes? Penso que não.

P - "No pós-independência, há na literatura um discurso ideológico do poder e outro do contra-poder. O discurso do poder procura legitimá-lo pelo poder do enraizamento e da nacionalidade. O discurso do contra-poder não discute a nacionalidade, mas pode discutir o modo como ela se legitimou, recuando às origens, ou pode simplesmente silenciá-la enquanto tema, ou secundarizá-la". Como membro fundador da UEA que comentário faz sobre esta apreciação do Prof. Pires Laranjeira no seu livro Literaturas Africanas de expressão Portuguesa.

R - Aprecio o comentário pela justeza da sua apresentação. Compreendo-o plenamente.

P- Há, apesar de ténue, um movimento que vem defendendo a exaltação da angolanidade. Este elemento, na sua opinião, já é visível nas letras em Angola?

R - Para mim, não. Nas letras angolanas, embora não me tenha como "expert", não é visível.

P - Muito se tem discutido, hoje, até que ponto os escritores podem contribuir para o sucesso da sua classe, porém, sem grandes novidades. Tem alguma opinião sobre o assunto?

R - É bom que se discuta, mas que sucesso da classe de escritor é que se pretende? Disso, eu não entendo. Quais os objectivos e quais as metas do tal sucesso?

P - Há escritores como Norberto Costa, que defendem que os primeiros exercícios de escrita são postos à prova na juventude, sustentando que "os grandes literatos da época contemporânea da literatura universal experimentaram a arte literária na juventude". Nisso, coloca-se uma questão: urge ou não necessidade da existência de uma nova consciência literária em Angola?

R - "Urge ou não a necessidade da existência de uma nova consciência literária em Angola?." Sinceramente, gostei muito desta questão e, desde já, proponho que a mesma seja apresentada oportunamente, para uma MAKA de 4ª. Feira, com convidados escolhidos pela UEA e segundo os critérios que a mesma conhece bem.

P - O escritor esteve na Expo 2005 realizada em Achi, no Japão, e dissertou sobre identidade cultural. Deu ênfase 'a unidade nacional hoje existente e, dentro dos elementos que nos distinguem de outros povos, apontou a língua portuguesa após os ganhos político-militares, desde a independência, como um dos factores que atestam a nossa identidade nacional. Que importância atribui, hoje, à língua portuguesa no mundo?

R - A importância que a língua portuguesa tem no mundo é considerável. "O português é a quinta língua mais falada no mundo, com cerca de 200 milhões de falantes". Pode acontecer, conforme certos estudiosos, "que no espaço de duas gerações, se tanto, o português desapareça como língua viva entre os milhões de cidadãos de origem portuguesa residentes, por exemplo, na França, na Alemanha e no Luxemburgo. Isso, segundo Isabel Hub Faria (Coordenadora do Ano Europeu das Línguas - 2001, em Portugal, e Presidente da AILP), se considerarmos o espaço actual do "EU". No nosso caso, a diferença é grande. Basta que lembremos das campanhas de alfabetização desde a independência e que, ainda hoje, são fortes e continuam cada vez mais fortes. É uma necessidade nacional indiscutível".

P - A crescente tendência para o bilinguismo não irá retirar o interesse por aprender as línguas nacionais, já que são as línguas francas inglês e francês que garantem efectivamente emprego? Por outro lado, na Literatura, são poucos os autores que traduzem nas línguas locais, ao contrário, tendem a traduzir em línguas estrangeiras. O que dizer deste "fenómeno"?

R - O inglês e o francês são importantes para determinadas camadas da sociedade, sem dúvida. Os livros técnicos não aparecem, nas universidades, habitualmente em português, mas, sim, em inglês e/ou francês. Daí, por exemplo, a necessidade de determinadas camadas da sociedade terem que conhecer essas línguas. Assim, também nas áreas do petróleo, das máquinas, dos electrodomésticos e por aí afora.

São poucos os autores que traduzem os seus trabalhos para as línguas nacionais - não digo locais -, é verdade. É pouco realista e deveriam fazê-lo. Mas, custos obrigam a retornos. Parece-me complicado. Será que os governos provinciais terão verbas para encarar essa possibilidade, considerando as regiões também culturais? Definitivamente, acho que não. A quem, então, encaminha-se essa tarefa? Para o bolso do editor ou do escritor? Impossível. Os escritores traduzidos em línguas estrangeiras têm mercado garantido, apenas isso.

P - O jornalismo cultural de hoje, em Angola e um pouco pela África, parece perder paradoxalmente a influência que deveria ter de um continente rico em valores culturais e sedento por títulos e sugestões de leituras. Que apreciação faz do mercado angolano, uma vez que parece imperar mais a perspectiva das artes, do que propriamente da cultura, que é um campo mais vasto…

R - Vejo e leio muito pouco sobre o jornalismo cultural também em Angola. Não leio porque não vejo e, se não vejo, logo, não leio. Como apreciar algo quase inexistente? Impossível. Quem poderia financiar o jornalismo cultural em Angola? O Governo, através do Ministério da Cultura, é claro. E porque não o faz? Irá algum privado meter-se nessa? Duvido, porque, dinheiro, custa-se a ganhar. Mas, o Governo deveria ter essa obrigação, ou mesmo a UEA, se, para tal, o Governo lhe desse os meios financeiros e não apenas para essa missão.

P - Tenho acompanhado algumas realizações ligadas à Literatura. Chamou-me particular atenção o I Encontro de Escritores Angolanos, realizado em 2004, no Lubango. Neste evento, Gabriel Cabuço (da Associação dos Editores e Livreiros de Angola) fez a seguinte afirmação: "O papel do crítico literário é importante porque o seu público leitor, embora não numeroso, representa a categoria dos compradores mais habituais. O crítico pode promover a venda de um livro nessa faia de mercado, mas a sua contribuição à conquista de novos leitores parece duvidosa". Quer comentar esta frase?

R - É duvidosa, porque duvido que o crítico compre. Geralmente, os editores e os escritores se adiantam nessas ofertas, penso. Acredito que o papel do crítico na promoção de venda de livros para novos leitores não é valioso, ele não contribui para acrescentar novos leitores. Estes surgem, talvez, espontaneamente, ou por influência de amigos e conhecidos, não pelo papel dos críticos. Aliás, quem lê os críticos? Os autores e os editores, pois as críticas são publicadas aonde? Na página cultural do Jornal de Angola e/ou em revistas. Se não há dinheiro para comprar, às vezes, um pão, como pagar Kz 500.00 por uma revista, por exemplo, semanal? É difícil.

P - À margem desta conversa, ficaram muitos temas por abordar, dentre eles, os subsídios. Quais julga mais pertinentes e quer aduzir?

R - Como prioridade, gostaria de ver realizada, em livro e em edição conjunta, Tijolo a Tijolo e Pano Barato, pela UEA e com autorização do INALD, numa verdadeira manifestação de cooperação entre dois importantíssimos sectores da vida cultural angolana. O primeiro, pelo grau de premiação alcançado e o segundo, pelo que invoca em relação às mamãs, papás e crianças que, ainda hoje, sofrem pela perda de seus filhos.

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