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A Busca Permanente do Outro

Escrito por  Adriano Botelho de Vasconcelos
Adriano Botelho de Vasconcelos é o Secretário-Geral da União dos Escritores Angolanos e tem recebido aplausos por parte dos membros fundadores e não fundadores pela actividade desenvolvida.

Está disponível para um terceiro mandato, se essa for a vontade dos membros da instituição (está já no seu último mandato, o terceiro). É do signo Virgem, nascido a 8 de Setembro de 1945, na cidade de Malange. É divorciado, tem uma nova família, e toda primeira família vive no exterior do país. "Quer dizer que sou um homem com metade de exílio e metade de interioridade." Fez o curso de Administração e Comércio e o Politécnico de Gestão e esteve ligado a várias actividades de desenvolvimento comunitário no exterior do país. Tem dez títulos publicados. Começou a escrever na 4ª classe, com uma proposta considerada pela família como surrealista, uma escrita que não tinha ainda em conta o drama da colonização. A maior qualidade da mulher angolana é acima de tudo o ser amável, solidária e compreensiva. Esse lado afectivo é que a distingue dos outros seres. Quanto aos seus gostos pessoais, na alimentação come de tudo e nas cores o azul, que transmite mais tranquilidade. A Talentos foi saber mais sobre o homem, o escritor e o Secretário-Geral da União dos Escritores Angolanos.

Talentos - A sua família ajudou-o a encontrar essa veia de escritor, essa consciencialização ausente dos primeiros escritos?

Botelho de Vasconcelos - Em termos de consciencialização, o primeiro contacto com a noção de que as palavras tinham que ter uma função foi através de uma ligação muito íntima com o meu irmão Aires, que foi fuzilado em 1977, e na verdade muito de mim hoje corresponde a essa transmissão de conhecimentos. Transmissão do que eram naquela altura as imagens do mundo, do que eram na verdade os princípios que deveriam nortear, em termos éticos, o meu comportamento. É quase como uma herança que não posso negar em termos familiares, primeiro porque correspondia a uma atitude não só de irmão mais-velho, mas que era também ao mesmo tempo de um pai. Vivi num núcleo familiar feito de partilhas.

Talentos - Como foi a mudança de Malange para Luanda e depois para o exterior?

Botelho de Vasconcelos - O meu primeiro contacto com Luanda acontece nas férias escolares, estava a fazer a 4ª classe. Estive cerca de 30 dias acampado na floresta da ilha de Luanda. Foi o meu primeiro contacto com o mar e creio que essa experiência visual, de olfactos e tactos, está marcada em mim como determinante naquilo que tem a ver com os meus horizontes espirituais, porque o mar tem uma grande influência no meu dia-a-dia, tem uma influência fundamental no exercício da minha escrita; na criação das metáforas o mar aparece sempre de forma dominante e esta é a experiência vivida quando tinha 9 anos de idade e... quando olhei para o prédio do BPC, o maior prédio da época, pensei que por aí Deus desceria à Terra para julgar-nos e até, mesmo hoje, quando passo pelo prédio tenho a impressão que é por aí que deverá descer o meu Deus.

Talentos - Professa alguma religião?

Botelho de Vasconcelos - Sou católico. A dimensão do catolicismo faz parte também da minha vida, não só de valores éticos mas até de valores de criação literária. Vai encontrar palavras que fazem parte de textos bíblicos e utilizo também esses mesmos vocábulos como parte importante da minha escrita, das minhas alegorias e também encontro nesses ensinamentos bíblicos a complexidade das nossas existências. Princípios, máximas que hoje norteiam em parte a minha vida. Sem essa religião não seria hoje o que sou. Fui católico praticante, fiz homilias que foram os meus primeiros discursos, uma vez que a igreja de Malange permitia que preparássemos discursos que espelhassem as nossas inquietações e que pudéssemos, nesses momentos de homilia, ter uma leitura que estava desprovida da atitude coerciva dos poderes, porque eles permitiam a liberdade de escrita e a liberdade de pensamento. De facto foi uma das minhas primeiras escolas de escrita para o outro, do discurso sem ser cristalizado em função daquilo que estava configurado em termos de valores da civilização portuguesa.

Talentos - ... e o primeiro livro?

Botelho de Vasconcelos - O primeiro livro significou acima de tudo o seguir a tradição de Malange que diz que um homem só é homem quando escreve um livro, planta uma árvore e tem os seus filhos. Completei esse ciclo e espero que outros cidadãos que não tenham o interesse de estar no domínio da escrita elaborada, com grandes rasgos plásticos, possam também de alguma maneira libertar a sua escrita para fixarem as suas memórias, factos que podem ser determinantes para que se conheça através de novos prismas a evolução do nosso país.

Talentos - Tem uma escrita baseada em «novas» metáforas e parábolas, de onde vem essa inspiração?

Botelho de Vasconcelos - Talvez porque na minha formação a filosofia tenha estado sempre presente e por outro lado as tertúlias que vivi em Malange também me ligavam a essa especulação da interioridade humana e hoje não vejo como não potenciar mais essa interioridade humana no sentido de aquilo que sai para a escrita significar acima de tudo algo que deixo como peso e rosto de mim nessas mesmas palavras. Algo que, se alguém estiver a ler e descodificar essa escrita, encontre um homem e não a teatralização desse mesmo homem, no sentido de busca de alguma coisa que nos está próxima e que faz parte da nossa expressão material, mas que por vezes não olhamos para ela com a devida atenção, no sentido de depois poder transcrevê-la e torná-la num meio do nosso quotidiano.

Talentos - Como é que escreve?

Botelho de Vasconcelos - Hoje escrevo de forma diferente da do passado. No passado havia a preocupação de transmitir para o papel todos aqueles conhecimentos que nos são transmitidos pelas disciplinas de literatura e pela língua portuguesa, então era o domínio das técnicas de metáforas, de alegorias, que permitia que jogasse com as palavras introduzindo depois no meio dessas palavras aquilo que significasse os meus sentimentos. Hoje, quando olho para aquilo que escrevo acho que há dois elementos fundamentais: um, a noção de que há alguma coisa que tenho que dizer e dois, que esse dizer não seja idêntico ao dizer do outro, que seja diferente e marcado, acima de tudo, pela visão que tenho da música, das artes plásticas, da visão que tenho de tudo aquilo que faz parte do meu imaginário desde que me reconheço, desde figuras que têm a ver com pessoas que de alguma forma foram importantes no meu crescimento espiritual - falo de protagonistas populares que tivemos em Malange, como o Tiba, que era um maluco mas que conhecia extractos significativos de filósofos da antiguidade, falo do Bissopas que foi o tio avô de Caetano de Sousa, Presidente da CNE e que era só, naquele tempo, a pessoa que mais escrevia petições a favor dos pobres, aqueles que não tinham recursos e que precisavam de defender os seus interesses em Tribunal e ele estava sempre disponível para os defender sem nada cobrar e tinha uma grande visão, pois como homem de cidade pequena tinha uma visão cosmopolita do mundo. Esses quotidianos permitem-me trazer os elementos imagéticos para a literatura de hoje. Também trago os efeitos das partituras, a música que cria idiossincrasias culturais, falo da música africana que é determinante quando tenho que fazer a fixação e revisão dos meus textos. Fico cerca de 6 meses só a ouvir o mesmo tipo de música, para que essa mesma música que está perto do meu ego possa contribuir com novas imagens e tensões para a minha poesia.

Talentos - Lia os escritores angolanos do antigamente?

Botelho de Vasconcelos - Há algo no meu percurso que se vai depois demarcando dessa literatura. Nós tivemos uma literatura muito ligada à dimensão do nosso nacionalismo e que depois esteve ligada (e esse é um dos problemas do nosso país) a uma dimensão ideológica em que o outro deixou de fazer parte da nossa literatura, em que o ser humano tinha que ser relegado para segundo plano, se não mesmo sonegado para dar espaço a um homem que se pode traduzir como herói. Na verdade fui-me educando numa cultura do anti-herói, fui constatando que os homens que eram heróis não passavam, às vezes, de verdadeiros verdugos, tinham a sua pele de cordeiro mas quando se lhes tirasse essa pele, eram piores do que qualquer um de nós, tinham erros piores que os nossos. Portanto a minha escrita foi sempre contra esse herói que as sociedades precisam de criar e alimentar. Esse mito de que há um homem superior a cada um de nós não tem que existir nas nossas sociedades, até para que elas, através de várias referências positivas e negativas, superem constantemente, num determinado momento, aquilo que possa ser o estereótipo do homem ideal. Não há homens ideais. Não se pode olhar para Lenine e dizer que é um homem ideal, até porque atrás de Lenine há cadáveres, não se pode olhar para outros heróis, porque atrás desses heróis existirão sempre cadáveres; terão tido atitudes que não foram as melhores. Então nós, enquanto seres humanos, devemos procurar é outra dimensão da nossa universalidade, é fazer o bem permanentemente, estar sempre numa atitude que nos permita lavar os pés dos mais fracos, porque afinal é quando estamos na posição de fortes que devemos destruir esse lado avesso de nós próprios.

Talentos - Como se define ideologicamente?

Botelho de Vasconcelos - Eu fugi de uma esquerda extremista, aquela que não reconhecia a existência do outro, a identidade do outro, a pluralidade da sociedade, para uma sociedade onde temos de olhar para essa diversidade ideológica, política, cultural... e nesse quadro posso dizer que de forma moderada olho para as coisas, mas com alguma paixão em relação àquelas coisas que estão erradas, na forma em que estão putrefactas e que poderiam ser modificadas. E a sua modificação não significa sacrifício de alguma coisa, não significa purga de alguma coisa, significa só termos a mestria dos artesãos, no sentido de esculpirmos essas mesmas coisas para que elas deixem espaço para outras felicidades, outras espiritualidades, outra dimensão da riqueza material humana, porque também as sociedades não são feitas só de cultura, de filosofia, a bandeira, mas têm de ter o seu complemento de trigo, de milho, ter um complemento de enxada.

Talentos - Como se dá como Secretário-Geral da União dos Escritores Angolanos?

Botelho de Vasconcelos - Eu direi que a minha passagem por essa função de Secretário-Geral só surpreende alguns que não conheçam a história da nossa literatura. Voz da Terra, que é o meu primeiro livro, foi publicado pela Lello ainda no regime colonial, estamos a falar de antes do 25 de Abril, e portanto estou na condição de dizer que tenho um pouco da herança de tudo aquilo que nós fomos em termos do nacionalismo virado para a literatura angolana, então aqueles que duvidam têm de aceitar os dados históricos.

Talentos - Os escritores têm espaço na UEA, nesses encontros que se realizam regularmente.

Botelho de Vasconcelos - Os escritores deveriam utilizar mais vezes o nosso espaço. Nós estamos numa sociedade onde é necessário descristalizar o discurso. Há muitos discursos cristalizados em relação a muitas coisas que têm a ver com o nosso país, com o desenvolvimento do país. Por exemplo, nós temos hoje um desenvolvimento do Produto Interno Bruto à volta de 17%. Poucos países do mundo se podem dar ao luxo de ter esse crescimento. Mas se olharmos profundamente para a nossa sociedade temos de reconhecer que esses 17% não significam ainda aquele salto qualitativo que as nossas comunidades necessitam, até para que tenhamos uma melhor sociedade. Então creio que o discurso literário aponta esses problemas. A sua temática passa pela fome da criança, pela fome da mãe, pelo desemprego, pela atitude repressiva das polícias que se vai criando em relação às nossas mães, que eram cantadas na poesia de Agostinho Neto, António Jacinto, como mães sofredoras que vendiam o peixe para a partir daí educarem os seus filhos. Então creio que em termos temáticos as nossas substâncias são actuais. Mas em termos do discurso é necessário que mais escritores utilizem os espaços de debate, até para poderem contribuir para que as grandes decisões que o país vai tomando se encostem um bocado àquela dimensão utópica dos escritores e que tem a ver com uma sociedade diferente e se é verdade que não é possível criá-la, tentemos de alguma forma no nosso país fazer algum esforço para que a maior parte da riqueza nacional possa estar a favor dos mais desprotegidos. Falta, por parte dos nossos membros, uma maior acutilância discursiva nos espaços que nós temos. Ou seja, maior participação no sentido de os nossos membros serem os primeiros a preencher a agenda das makas à 4ª feira. Somos 120 escritores e seria bom que durante o ano tivéssemos 120 intervenções de escritores que abordassem diversos temas, no domínio da cultura, da literatura, sociedade, da educação e teríamos um painel de discursos que seriam depois relidos pelos que têm poder político e que tomam as grandes decisões.

Talentos - Angola no Campeonato do Mundo e o Mantorras, sim ou não?

Botelho de Vasconcelos - O Mantorras é bom jogador. Pode estar a viver um momento infeliz, mas mesmo nesses momentos nós podemos ter uma atitude de solidariedade e essa atitude corresponder também, pela sua virtude, à criação no seio da equipa nacional de uma outra dimensão de sentimentos em relação à sua obrigatoriedade de vencer as partidas que temos pela frente, principalmente frente a Portugal.

Talentos - E o prognóstico?

Botelho de Vasconcelos - Eu espero que no dia do jogo com a selecção portuguesa pensemos, acima de tudo, cada um de nós, que Portugal nunca teve nada connosco. Que nós nunca tivemos nada com Portugal. Temos que pôr de lado os 500 anos. Temos que olhar Portugal como se fosse um país novo e não pensar nas contas do passado. E só nessa dimensão psicológica é que nós poderemos encontrar muita energia para vencermos essa nova nação que é Portugal. E se formos todos com essa convicção, os passes serão certeiros, os remates não vão bater à trave, mas vão corresponder a golos. Porque um dos grandes problemas que as nações descolonizadas têm é a relação difícil com a antiga potência colonizadora. Psicologicamente estará sempre presente, ainda nas futuras gerações. Mas agora, por favor, jogadores, esqueçam-se. Portugal é uma nova nação.

Talentos - As mulheres na União dos Escritores Angolanos estão, infelizmente, pouco representadas. Temos no país três mulheres romancistas, seis poetas e três contistas, na verdade são poucas as escritoras que participam no enriquecimento dos acervos literários. Quer comentar?

Botelho de Vasconcelos - Não é possível uma decisão administrativa para termos mais mulheres na União ou na nossa literatura. O que se faz é um incentivo às mulheres para que peguem nos seus textos e os publiquem. Todas as palavras serão úteis na nossa sociedade. Não é possível querermos só o perfeito, o conseguido, o profundamente estilizado. É necessário que haja espaço, também, para aqueles momentos de puras experiências oficinais de escrita.

Fonte/Revista Talentos

Arquivo/UEA

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