testeira-loja

"Sou um Poeta de Circunstância"

Escrito por  António Fonseca

Declara-se como "um economista na área da cultura". O escritor António Fonseca apresenta nesta entrevista um roteiro da sua bibliografia, ressaltando os aspectos culturais da realidade angolana. Quadro do Ministério da Cultura, já exerceu inúmeros cargos directivos, desde o INALD à ENDIPU. Voltando às letras, diz que o termo recorrente nas suas obras está nas raízes culturais. "As pessoas às vezes não percebem muito bem o que um economista faz na cultura, mas devo dizer que é algo fundamental, porque a cultura tem o seu lado de ligação com a economia." Poeta de obra solitária, tem-se revelado como ficcionista e investigador da cultura angolana. Sobre o assunto admite: "Não escrevo sempre poesia. Há épocas em que escrevo muito e outras em que não escrevo nada. Isso tem muito a ver com o estado de espírito, observância ou vivência de circunstâncias; umas vezes sou nostálgico, outras expansivo e às vezes também melancólico. Isso para dizer que não há um elemento que de uma maneira particular me sirva de inspiração na escrita poética". Prova disso está em qualquer dos livros que tem lançado.

 

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

 

P - O que se pode saber sobre a sua infância?

R - Nasci no Ambriz, província do Bengo. E, miúdo ainda, estudei em Sanza-Pombo e Kangola. Vim para Luanda sensivelmente com os meus doze anos, mas na verdade nunca perdi as relações afectivas com a minha terra natal e com o meio-ambiente que fizeram parte da minha infância.

P - Ainda conserva alguma recordação em especial da sua infância, namoradas, amigos...

R - Namoradas não! Porque na altura era mesmo miúdo, mas tive muitos amigos. E felizmente tenho ido com certa regularidade à minha terra natal, sobretudo ao sítio onde nasci.

P - Disse que veio para Luanda aos doze anos. Veio com os seus pais?

R - Vim apenas com a minha mãe. Sou órfão de pai desde os oito anos, razão pela qual fui estudar para a Missão Católica de São José, em Sanza-Pombo, tendo, mais tarde, ido para o Seminário Capuchinho, em Kangola.

P - Houve alguma razão em especial para que se fixassem em Luanda, na altura?

R - Fixámo-nos em Luanda precisamente porque a minha mãe achou que era a única forma que tinha para poder viabilizar algum progresso social.

P - Surge no mundo literário por intermédio das chamadas brigadas, escrevendo poesia. Quer comentar um pouco esta afirmação?

R - Eu não surjo exactamente por intermédio das brigadas. Surjo em 1973, na Escola Comercial de Luanda - na altura chamada Vicente Ferreira -, com um poema que nunca cheguei a publicar, intitulado «Fartura ou Miséria?». Era uma prosa poética. O movimento brigadista surge mais tarde, com ele consolidei um percurso que mais ou menos de maneira isolada ia fazendo aqui e acolá.

P - Fale um pouco mais sobre esse movimento brigadista.

R - O movimento brigadista, em 1980, acabou por ser a reunião de pessoas, uns pretendiam escrever, enquanto outros se preocupavam mais com a educação para a leitura. Nem todos eram necessariamente candidatos a escritores. Por isso é que se diziam "jovens escritores e amantes da literatura". Não é certo dizer-se que a brigada trabalhou com jovens escritores. Muitos deles eram candidatos.

P - Essa brigada a que se refere foi fundada em Luanda?

R - Sim! E não se chamava Brigada Jovem de Literatura de Luanda. Quem assim a chamou pela primeira vez, no sentido de a distinguir das demais que iam surgindo, foi o escritor Luandino Vieira, num texto na gazeta da UEA Lavra e Oficina. É preciso referir que a primeira brigada, como tal, nunca se auto-intitulou como sendo de Luanda ou de Angola.

P - António Fonseca é co-fundador dessa brigada a que se referiu ou da Brigada Jovem de Literatura de Angola?

R - Ao contrário do que muita gente diz, eu não sou co-fundador da Brigada Jovem de Literatura de Angola! Sou co-fundador da Brigada Jovem de Literatura.

P - Por uma questão de periodização é possível falar-se de datas de surgimento desses movimentos brigadistas?

R - A Brigada Jovem de Literatura foi proclamada, salvo erro, a 8 de Julho de 1980. Nasceu como um movimento sem grandes pretensões de organização administrativa. Era um núcleo de debates, tertúlias e escrita, que se foi espalhando um pouco por todo o país. Já a Brigada Jovem de Literatura de Angola surge mais tarde. Portanto, são duas situações perfeitamente identificadas no tempo e nas circunstâncias.

P - Poemas de Raiz e Voz, editado pela UEA, terá sido a sua única obra poética. É verdade?

R - Em termos de poesia, este livro foi o único que publiquei.

P - Neste mesmo livro, no primeiro poema há um pormenor que ressalta ao leitor, quando diz: "companheiro, cavemos rápido". Existirá nisso algo que tenha a ver com o seu passado?

R - Não! Este poema é que abre o meu livro Sobre os Kikongos de Angola. É um poema de 1974 que apela ao retorno às raízes, para nutrir a alma angolana e sermos nós mesmos, isto porque eu sou da opinião de que o espírito da angolanidade é construído a partir dos nossos fundamentos culturais.

P - Não respondeu à minha pergunta...

R - Portanto, este poema não é autobiográfico, mas é apelativo à minha geração e à sociedade, no sentido de se buscar nas tradições ancestrais elementos culturais que possam ser transformados para a contemporaneidade dos angolanos.

P - Escreve com base nas suas vivências ou tem uma outra fonte de inspiração?

R - Isso é um pouco tudo. Sou um poeta circunstancial. Não escrevo sempre poesia. Há épocas em que escrevo muito e outras em que não escrevo nada. Isso tem muito a ver com o estado de espírito, observância ou vivência de circunstâncias; umas vezes sou nostálgico, outras expansivo e às vezes também melancólico. Isso para dizer que não há um elemento que de uma maneira particular me sirva de inspiração na escrita poética. Uma coisa que é fundamental dizer é o facto de que em toda a minha poesia está presente a nossa realidade cultural e também a de intervenção social.

P - Qual é a afinidade que possui com Octaviano Correia, a quem, inclusive, dedicou o poema «Para uma sociologia do Kissonde»?

R - Conheci Octaviano Correia aqui em Luanda, como escritor. Cultivei-me politicamente num pensamento de esquerda, isso para dizer que bebi muito de pessoas como Octaviano Correia. Daí a razão de lhe ter dedicado um poema.

P - Na sua poesia, nota-se também muito o recurso aos nossos dialectos

R - Um dos elementos muito presentes nos meus textos é, de facto, o recurso aos neologismos, palavras, expressões, frases e estilos que vêm das nossas línguas nacionais. É uma linha que continuo a cultivar, porque, de facto, faz parte do nosso dia-a-dia. Todos os dias encontramos palavras novas que não sabemos como surgiram. Não é uma questão de inventar, mas de consagrar na literatura aquilo que foi criado pela via popular. O que se regista é a consagração de uma evolução visível da língua.

P - No livro Poemas de Raiz e Voz, no poema «Aurora» fala do "kissanji", da melodia, enfim... Será esta uma forma de expressar a sua paixão pela música?

R - Aqui a figura do kissanji não deve ser vista muito nessa perspectiva, mas daquilo que o kissanji representa em termos de comunidade cultural em Angola. É preciso referir que quando eu digo melodias do kissanji refiro-me ao sentido estético da melodia dali retirado. Não tem nada a ver com a maior ou menor afinidade que eu tenha com a música.

P - Em Poemas de Raiz e Voz ressalta outra curiosidade, que tem a ver com um anexo que traz uma versão da "história do jacaré que foi pagar imposto"

R - Como se tratava de um livro de poemas e como em muitos casos faço recurso da oralidade e de textos orais, creio que, por haver uma referência a uma situação idêntica, decidi então incluir este texto para, por um lado, dar pistas a quem quisesse investigar o assunto e, por outro, em termos de antropologia social, haver sempre uma tentação de não deixar escapar esses temas. Foi o caso, por exemplo, do Kapalandanda, que está também nesse livro e que é uma reescrita de uma poesia oral que se referia a Kapalandanda.

P - Depois da poesia, experimenta-se no ensaio etno-histórico, área onde, inclusive, experimentou o seu punho literário com a obra Sobre os Kikongos de Angola. Poderia comentar um pouco sobre essa sua experiência?

R - É preciso esclarecer o seguinte: Sobre os Kikongos de Angola é anterior a Poemas de Raiz e Voz. No entanto, é um livro breve e muito procurado hoje, que tem um ou dois capítulos em que com alguma profundidade abordo a questão do sistema de parentesco, [que] mesmo assim não é um tema esgotado. Este é um livro em que tive a oportunidade de ser prefaciado pelo escritor Henrique Abranches, que o considerou uma contribuição importante para o estudo da antropologia social angolana. O livro teve, na altura, um propósito fundamental. Como sabe, o nosso país conheceu um conflito durante muito tempo, particularmente no período anterior e posterior à independência, em que havia uma certa confusão na cabeça das pessoas, que confundiam as comunidades dos kikongos como sendo zairenses. O meu contributo à nação foi, precisamente, trazer à luz este tema para clarificar este assunto e assim podermos caminhar em harmonia.

P - Já agora poderia falar um pouco sobre a verdadeira origem dos Kikongos?

R - Esta é uma história longa que não acabaria com o tempo de que dispomos.

P - Sabe-se também que possui uma grande inclinação para a crónica. Aliás, o seu livro Crónica dum tempo de silêncio justifica essa afirmação

R - É um estilo de que muito gosto, talvez pela economia da linguagem. Permite de maneira breve tratar de muitos assuntos dentro de um certo estilo narrativo. É um género que de algum modo marca toda a minha escrita. Aliás, no livro Histórias e memórias desancoradas, que tem mais de cem páginas, retrato cenas que vão desde 1960 aos nossos dias.

P - Crónica dum tempo de silêncio mais parece uma autobiografia do autor, apesar de, no fundo, haver sempre um sabor antropológico

R - Não é tanto assim. O que se passa é que, pelos temas que o livro encerra, tem muito a ver com o meio onde vivi e com histórias que ouvi e outras que inventei, evidentemente, dentro daquele contexto e daquele estilo. É evidente que tendo vivido nesse meio é natural que o autor esteja presente, mas não se trata de nenhuma autobiografia. Talvez no conto «Como é que pessoa come pessoa» possa haver uma referência concreta ao que aconteceu com um amigo meu de infância. O resto é imaginado dentro daquele ambiente característico das terras pequenas onde, na altura, se falava muito em feitiço, alma do outro mundo, maiombola, etc...

P - Há também, nesta obra, referências a práticas de bruxaria. Acredita no feitiço?

R - Para ser sincero, respeito essas coisas. Já ouvi muitas histórias e às vezes até fico na fronteira entre o crer e o não crer; entre o que é fantasia e o que é real. Mas devo dizer que é algo que não me preocupa. Como católico tenho noção do bem e do mal

P - Este é também um assunto que muito impera na nossa sociedade actualmente

R - É evidente que hoje a nossa sociedade enferma de muito dessas crenças e os reflexos sociais são graves. Às vezes encontramos feitiços e feiticeiros em todos os cantos apenas para justificar esta ou aquela situação. E é aqui que está o perigo da questão.

P - Como pessoa que está muito ligada à antropologia social, como é que acha que a nossa sociedade pode, ao menos, minimizar essa questão?

R - A coisa não é tão simples quanto parece. Olha que em países desenvolvidos também existem essas crenças. A questão está em educar as pessoas no sentido de pensarem de uma maneira positiva, com perspectiva de modernidade e não numa perspectiva de retrocesso, o que não ajuda em nada o desenvolvimento das pessoas e da sociedade em si.

P - No conto «Como é que pessoa come pessoa», fica uma dúvida no ar, se Maneco terá ou não morrido por feitiço...

R - É evidente, como dizia atrás, que num ambiente como o do Ambriz, o cenário do conto, o facto de um miúdo morrer afogado ou o facto de uma pessoa ser apanhada por um jacaré na boca do rio não é tido como algo natural, mas como a prática de alguém que por feitiço comeu, como se diz, essa pessoa. É dentro desse ambiente que ocorre este conto e é assim que deve ser interpretado.

P - Em Crónica dum tempo de Silêncio, no conto «A Voz do Sangue», que dá título ao livro, fica-se na dúvida se "Nungui", uma das personagens, terá sentido surpresa ou indignação quando os rapazes foram em sua busca, a mando do soba

R - Isso curiosamente tem a sua localização espacial na zona sul de Angola. O Nungui já era um reincidente. Sabia que, de facto, tinha tirado o boi. Aquilo, digamos, foi uma reacção para não dizer logo de primeira que foi ele quem roubara o boi. Aquilo, portanto, é uma simulação de aparente surpresa e indignação.

P - Possui ainda outros livros, bastante raros nas livrarias de Luanda, como Raízes (contos tradicionais) e Contribuição ao Estudo da Literatura Oral Angolana (ensaio), ambos editados pelo INALD. Quer falar um pouco sobre eles?

R - Raízes é um livro breve. Foi o primeiro livro que publiquei. Eu mesmo já não tenho qualquer exemplar. Tenho apenas algumas cópias, que me servem de arquivo e que poderão futuramente incorporar outras colectâneas. Mas o livro Raízes, como tal, não penso reeditá-lo. Contribuição ao Estudo da Literatura Oral Angolana é o livro porventura mais acabado que tenho do ponto de vista do ensaio. Foi publicado em 1996 e neste momento está esgotado. Mas esta edição não foi tão feliz como se esperava, porquanto foi publicado com muitas gralhas. A editora, ao invés da correcção, imprimiu as provas.

P - O que os leitores podem encontrar no seu livro Contribuição ao Estudo da Literatura Oral Angolana?

R - Esta obra é um estudo comparado da literatura oral angolana ao nível nacional. Trata de todos os temas que se prendem com esta matéria, desde o género à classificação. Há variações nas designações genéricas. Ou seja, aquilo que tem um significado em kimbundu tem outro nas demais línguas nacionais. Portanto, esta é uma questão que é preciso ponderar.

P - Ressalta muito a palavra "raiz" nos seus escritos. Porque será?

R - Para lhe ser sincero isto acabou por se constituir, para mim, como uma marca, uma opção que caracteriza toda a minha vida quotidiana, pública e profissional. As questões ligadas à cultura, aquilo que constitui fundamento da nossa existência, como povo, como país, acabaram por ser uma opção pela qual me tenho batido ao longo destes anos todos.

P - "Os seus livros seguintes são reflexo do que já referi: os contos são o género preferido de António Fonseca." À luz desta afirmação gostaria que apresentasse aos seus leitores os livros Histórias e Memórias Desancoradas (Kilombelombe) e Contos de Antologia I (INALD).

R - Histórias e Memórias Desancoradas é uma história de ficção, num país concreto: Angola. Porém, qualquer leitura histórica desse livro não constitui responsabilidade do autor. É um livro que passa da realidade à ficção e vai do percurso dos anos 60 aos nossos dias, retratando, dentre outras, as nossas preocupações sociais, políticas e culturais.

P - Terá sido por este facto que o intitulou Histórias e Memórias Desancoradas?

R - Sim! Porque são coisas que estavam um bocado perdidas na memória e sobre as quais nunca tinha reflectido e que, em certo momento, decidi trabalhar do ponto de vista literário, daí que tenha optado por este nome. Foi talvez o livro mais difícil de ter título. Andava às voltas para encontrar um título para este trabalho, que desse uma pista aos leitores sobre o conteúdo que poderia encontrar, porque é um período demasiado longo - 1960 a 2005. É um livro que me deixou particularmente satisfeito, sobretudo por ter merecido uma avaliação positiva preliminar de algumas pessoas que sabem dessa matéria. Tive a oportunidade de ter o prefácio da professora Ana Mafalda Leite da Faculdade de Letras de Lisboa, que me surpreendeu, mas que felizmente conseguiu entrar no espírito e na letra da obra. Houve outros pareceres como o do Maimona, do Luís Kandijimbo, do Jorge Macedo e do próprio editor. Em relação ao livro Contos de Antologia I, conforme a promessa que fiz no 25º aniversário do programa que eu realizo na rádio - aos sábados às 18h03 no canal A da RNA -, este livro resulta de contos que ao longo dos anos fui passando na rádio - uns recolhidos directamente, outros recolhidos dos ouvintes, mas mantendo sempre o mesmo perfil de escrita deles -, para permitir aos estudiosos da língua portuguesa em Angola ver a evolução e as transgressões ao português padrão. Em termos de espaço, situo-me de uma forma abrangente ao longo de todo o território nacional. São contos que pela sua qualidade merecem figurar em qualquer antologia.

P - Como é que faz a recolha desses contos?

R - Eu sou daqueles responsáveis do Ministério da Cultura que, ao longo desses anos todos, sempre viajou muito para as províncias do nosso país. Portanto, estabelecendo pontes, contactos com as populações locais. Assim, fui constituindo um espólio de material que ainda hoje me é muito útil; por outro lado, muitos dos ouvintes têm-se correspondido comigo e, inclusive, tenho alguns amigos escritores cujos primeiros livros foram inspirados pelo programa que faço na rádio. Estou a falar por exemplo do livro Contos ao Luar de Augusto Francisco Manuel e Viximo de José Sambwila Kakweji.

P - No primeiro seminário sobre literatura angolana, aliás, o único realizado pela UEA, apresentou um painel sobre a literatura oral. Tem-se dito que é dos pesquisadores mais fiéis desta matéria no país. É verdade?

R - É uma apreciação que muito me honra, mas também sejamos realistas: se eu tenho na rádio um dos programas mais antigos, que vem desde 1978, ininterruptamente, é natural que ao longo desses anos todos tenha feito bastante investigação. Tenho um livro, Contribuição ao Estudo da Literatura Oral, que é um bocado resultado disso. É evidente que há outros estudos. É preciso dizer que para mim a pesquisa não é uma actividade pontual, é uma actividade constante, permanente, onde estou, com quem estou, estou sempre a pesquisar.

P - Em que medida estes conhecimentos são utilizados na literatura ou ensaios?

R - Na medida total! Porque se observou, em todos os meus livros a marca da oralidade está presente, seja na poesia seja na prosa.

P - É jornalista antigo da RNA, onde apresenta o programa eminentemente cultural a que já fez referência. Aliás, é dos mais antigos da estação emissora. Gostaria que nos falasse da importância da existência de espaços em rádios, televisão e jornais, dedicados à cultura angolana.

R - A importância é vital e é lamentável que a questão cultural não seja frequentemente visível nas programações das estações emissoras. E mais do que haver espaços propriamente ditos sobre esta matéria, a vida cultural deveria estar expressa nos diversos programas de rádio e televisão. Sabe que a cultura, como eu dizia no princípio, é para nós um dos fundamentos da nossa existência como povo, e portanto, se nos assumirmos convenientemente, se nos nutrirmos dela e com ela agirmos nos processos de globalização, sendo com ela agentes culturais activos desses processos, passaremos a ser cidadãos com outros fundamentos culturais.

P - Quer dizer com isto que tem havido poucos incentivos?

R - Creio que ao longo dos anos não foi suficientemente desenvolvida ou estudada essa matéria para que houvesse políticas correctas de acção cultural pela via dos meios de comunicação social. Hoje a tendência, felizmente, começa a ser diferente e isso é bom. Mas, de facto, creio que não foi dada a atenção devida ao uso desses potentíssimos meios para a consolidação da nossa identidade cultural.

P - Só para elucidar os leitores, qual é a designação do programa que faz na rádio?

R - «Antologia, recolha, análise e a divulgação», fundado em 1978.

P - Fale-nos um pouco sobre a sua passagem pela Endipu.

R - Esta é daquelas coisas que não gosto de abordar, porque a Endipu é uma página virada do livro da minha vida. Julgo ter cumprido o meu papel, nas diversas circunstâncias que o país viveu, com os meios que existiram ou não. Mas posso dizer que o que mais me marca em todo este percurso é o facto de ter sido a partir dali que penso ter influenciado decisivamente a recuperação do espaço da música angolana. Posso dizer que nos anos 1994/95 não se ouvia música angolana em Angola e nós, devagar, começámos um processo de reversão. Houve outras sinergias. Foi a partir daí que a música angolana reganhou o seu espaço natural e hoje está aí, como se diz na gíria, a bater.

P - ...e no INALD?

R - Acumulei a direcção do INALD por cerca de dez anos. É preciso lembrar que sou um economista que trabalha na área da cultura. As pessoas às vezes não percebem muito bem o que um economista faz na cultura, mas devo dizer que é algo fundamental, porque a cultura tem o seu lado de ligação com a economia. Quando falamos de indústrias culturais, estamos a falar de indústrias complexas, porque são produtos em que intervêm vários elementos. Desde o autor ao consumidor há uma longa cadeia de variáveis e que têm expressão económica. Eu sou um economista graduado em políticas culturais.

P - Que opinião tem do facto de o sector cultural angolano estar bastante atrasado em matéria de legislação actualizada? De que forma isso contribui negativamente para o desenvolvimento do sector?

R - Esta matéria constitui uma das nossas maiores preocupações, mas esta situação está sendo ultrapassada. Mas devemos assumir também que este facto já vai além das nossas competências. Nós preparámos diplomas, foram discutidos e aprovados. Agora só falta serem publicados no Diário da República. Portanto, devo dizer que o pacote legislativo necessário está em marcha. Já temos a Lei de Património Cultural. Temos vários decretos aprovados que aguardam publicação, há tempo de mais, na minha opinião; temos o decreto sobre espectáculos em centros públicos; temos o decreto que aprova a selagem de fonogramas e videogramas; temos o decreto que cria e aprova os diversos institutos públicos dependentes do Ministério da Cultura; temos o decreto sobre a cópia privada; temos o projecto-lei do estatuto das línguas nacionais; o decreto sobre cobranças de direitos autorais. Está em discussão o decreto conjunto que vai actualizar a tabela de cobranças pela autorização pública de obras. Também temos a nova lei dos direitos de autor.

P - Em que pé está a questão do anteprojecto-lei sobre o mecenato cultural?

R - Esse é um projecto de iniciativa do Ministério da Cultura e numa das reuniões ordinárias do Conselho de Ministros foi decidido que se deveria alargar o âmbito desse projecto-lei, transformando-se assim em Lei do Mecenato, abrangendo várias áreas. Foi criada uma comissão coordenada pelo Ministério da Justiça, que é agora a responsável pela aprovação dessa lei.

P - Também já foi várias vezes indicado como presidente de júri de vários concursos

R - Já várias vezes tive a oportunidade de estar à frente do corpo de júri de concursos como o Prémio "António Jacinto", "Sagrada Esperança", "Prémio Nacional de Cultura e Artes" e também várias vezes o "Prémio Maboque" de Jornalismo. No fundo, quando somos chamados a estas actividades, sentimo-nos de algum modo gratos, porque isso constitui uma espécie de conhecimento social. São gestos que estimulam e incentivam.

P - Já enfrentou muitas situações embaraçosas como presidente de júri?

R - (Risos) Há situações às vezes embaraçosas. Portanto, o júri é membro do júri porque lhe é reconhecida esta qualidade de poder decidir, digamos, bem, com isenção, sem subjectivismos. O mais difícil normalmente para o júri é quando há duas obras que podem ser vencedoras e os organizadores não querem atribuir prémios em ex-aequo (a mais de duas pessoas). Mas há situações em que isto é inevitável, e o fazer-se isso não constitui prejuízo para alguém. São obras, muitas vezes, com os mesmos valores, e não atribuindo em ex-aequo acaba por se deixar em conflito o interior do júri.

P - Que apreciação faz, de uma forma geral, ao actual momento da literatura angolana?

R - Temos de ver o seguinte: há um movimento editorial que começa a ser importante, mas que tem de crescer e ampliar-se; os indicadores do movimento editorial expressam, de algum modo, o estado de desenvolvimento da produção dos autores. Também é verdade que há quem diga: "eu escrevo, mas não tenho quem edite". Neste caso, devemos continuar a seguir em frente e depois o tempo dirá. Mas creio que deveria haver mais iniciativas no domínio das letras. Às vezes fica a impressão de que as pessoas estão muito dispersas e, como consequência, há poucos debates e tertúlias. O movimento editorial, embora exista, fica muito a dever aos tempos idos. Hoje, por exemplo, há pessoas que editam um livro e acham-se já escritores. Não basta isso. É preciso que haja o reconhecimento social da obra que publicamos.

P - Vários assuntos teríamos para conversar, porém, deixo-lhe o habitual espaço em branco para que expresse as suas opiniões sobre temas igualmente importantes como os aqui tratados...

R - Penso que não tenho nada em particular, até porque normalmente respondo àquilo que me propõem.

Ler 4550 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips