testeira-loja

"Empenhámo-nos Sempre para o Bem de Angola"

Escrito por  Antonio Cardoso

Entrevista de: Isaquiel Cori

António Dias Cardoso é pessoalmente testemunha e vítima das sevícias impostas pelo regime colonial-fascista português aos angolanos. Preso durante 14 anos, foi torturado e desterrado para o campo prisional do Tarrafal de Santiago, em Cabo Verde.

 

 

 

Libertado em 1974, foi presidente do Movimento Democrático de Angola (MDA), tendo logo depois ingressado no MPLA, onde desempenhou vários cargos, dentre os quais o de director do Centro de Documentação e Investigação Histórica do Comité Central. Foi fundador e director do extinto jornal Progresso, antecessor imediato do Jornal ÉME. Como escritor publicou vários livros de poesia e de prosa, sendo a sua obra parte integrante das mais representativas antologias de literatura angolana. Nascido aos 8 de Abril de 1933, em Luanda, António Cardoso, como resultado não só da idade mas também das sequelas da tortura que sofreu na cadeia, hoje encontra-se extremamente debilitado pela doença. Na entrevista que a seguir publicamos, António Cardoso debruça-se sobre aspectos da sua trajectória biográfica e política e espelha o seu comentário a respeito de detalhes da vida política e cultural do país. "A preparação das eleições deve ser muitíssimo cuidada, porque isso é que vai dar uma dimensão real ao fenómeno. Se as coisas forem feitas apressadamente e sob pressão, quem vive da confusão vai querer tirar proveito", afirma o nosso entrevistado.

P - Sabemos que o camarada António Cardoso é uma pessoa bastante atenta aos factos políticos e sociais. Pode dizer-nos o que pensa do contexto político actual do país, à luz das próximas eleições gerais?

R - Estou cá há poucos dias, e ainda por cima doente. Mas já falei com algumas pessoas e já li algumas coisas. O ambiente sócio-político actual não difere muito assim do de há dois anos. Mas há uma evidência que me é dada a constatar, que é o facto de a cidade de Luanda estar mais mexida, no sentido positivo. Não há tanto lixo, há mais organização e parece que há uma febre, digamos assim, de limpar e de organizar. E de dar um salto qualitativo. Permitam-me que sublinhe o empenhamento pessoal que tivemos eu e a minha geração para que nós fôssemos sempre para o melhor e nunca para o pior. Mas eu estou apenas a ver Luanda, e Luanda muitas vezes é redutora em relação ao país de Cabinda ao Cunene. Mas creio que esta febre está a acontecer no resto do país. Era óptimo que os centros urbanos ficassem aliviados do excesso de gente e de mão de obra inútil, que cai muitas vezes na marginalidade e nem sequer produz para o muito pouco que come diariamente. É um absurdo. Foi ontem que li num jornal, não sei se o Jornal de Angola ou outro, que já éramos auto-suficientes em milho. Creio que na mandioca já somos auto-suficientes e na água sempre o fomos, falta é levá-la técnica e higienicamente ao maior número possível de habitantes. Isto tudo joga a favor do nosso Partido, porque é o nosso Partido que comanda o Governo. Passe a expressão "comandar", mas tem cabimento dizer assim, à luz da Constituição e das outras leis. O dramatismo terrível dos últimos trinta anos fez com que as populações se dispersassem de uma maneira inacreditável e hoje as pessoas ainda procuram o seu sítio e deambulam para o antigamente e não sei se nós temos uma máquina tão afinada e em condições ideais (e reais) para poder fazer o recenseamento e cartões disto e daquilo. Hoje as estatísticas parece que comandam as pessoas. Em países como Portugal ou o Brasil fazer o censo é algo fácil. Cá em Angola realizar um censo é realmente difícil. Certos sectores internos muito reaccionários, apoiados como sempre por sectores muito reaccionários externos, querem que se façam as eleições a correr, de qualquer maneira. A preparação das eleições deve ser muitíssimo cuidada, porque isso é que vai dar uma dimensão real ao fenómeno. Se as coisas forem feitas apressadamente e sob pressão, quem vive da confusão vai querer tirar proveito.

P - Numa entrevista que concedeu ao Jornal ÉME, publicada em Novembro de 1997, o camarada António Cardoso prometia que iria contar mais tarde, com mais detalhes, as circunstâncias da sua prisão em 1961, que resultou no seu julgamento em 1963 e posterior deportação para o Tarrafal, em Cabo Verde. Pode contar-nos agora esses detalhes?

R - Eu fui preso três vezes, a última foi em Novembro de 1961. Quem me prendeu foi o inspector Lontrão, que levava, escondida, uma pistola na mão, talvez porque eu estupidamente tenha gabarolado que da próxima vez eu abateria quem me viesse prender. Tratou-se de uma afirmação gratuita. Naquela altura já tinha acontecido o levantamento dos camponeses da Baixa de Cassanje e o 4 de Fevereiro.

P - No julgamento beneficiou de advogado de defesa?

R - Aí a história é rocambolesca. Eu tinha um advogado, Gabriel de Lemos Salta, que era um indivíduo timorato, sem a coragem suficiente para as circunstâncias. Foram pessoas cá fora, bem intencionadas, que me arranjaram este advogado. Na primeira conversa que tive com ele, numa sala lá no pavilhão da PIDE, no S.Paulo, ele ia começar a falar e eu fiz-lhe um sinal, levantei-me e fui até um armário grande, de arquivo. Lá estava, escondido, um indivíduo. O advogado ficou todo espantado. O tal indivíduo escondido, que era da PIDE, saiu e foi-se embora sem dizer nada. O advogado não ficou nada animado em defender um "turra". Seja como for toda a contestação que ele fez durante toda a instrução preparatória não correspondia à posição que eu entendia demarcar naquelas circunstâncias, já que tinha sido preso e surrado a sério. Eu queria demarcar a minha posição ideológica de nacionalista. Ele pretendia dirimir aquilo tudo e nos pontos principais queria como se eu não quisesse a independência de Angola, que não podia trair a "mãe pátria", etc., etc. Essa estratégia, naquela altura, politicamente já não jogava comigo. Em 1961 eu já tinha posto em causa a ida apressada de alguns angolanos de "cor" para a então já colorida Assembleia Nacional portuguesa, no pós-levantamento de Fevereiro. Eu já tinha denunciado essa manobra. Isso no fundo foi o que levou a prenderem-me. Logo, não fazia sentido que eu em pleno julgamento tivesse um comportamento contrário. O julgamento estava para uma segunda-feira e o advogado dá-me o documento da defesa apenas no sábado. Risquei aquilo com que não concordava e escrevi outras coisas. Ele ficou muito indignado. Quando começou o julgamento houve um momento em que o advogado disse que tinha que embarcar urgentemente, por motivo de saúde, para Portugal. Logo, fiquei sem defesa. O julgamento foi então adiado e arranjaram-me um outro advogado. Indicaram-me um capitão que tinha o papel de advogado de defesa de todos os soldados indígenas. Uma pseudodefesa, diga-se. Ele tinha a alcunha de Mundo Ri. Esse advogado tinha um comportamento muito diferente do da Dra. (Maria do Carmo) Medina, que é digna de todas as homenagens pela sua coragem e pela sua dignidade.

P - Ao longo da sua prisão no Tarrafal, tinha contactos com activistas do MPLA? Acompanhava o decorrer da Luta Armada de Libertação Nacional?

R - O Tarrafal era um deserto. Mas nós conseguimos, através do camarada Mendes de Carvalho, que neste aspecto era um indivíduo muito "furão" Pois quando estivéssemos doentes, o médico, naquilo que era raro, mandava-nos ao hospital da Praia. Aí o Mendes de Carvalho conseguiu relacionamento com várias pessoas, uma senhora D. Maria, que era chefe do pessoal menor, uma senhora chamada Mimenta, havia também uma moça epiléptica - Essa rede, digamos assim, de solidariedade clandestina, eu só a conheci porque uma vez fui indicado para ir a uma consulta ao hospital da Praia. Essa rede de solidariedade teve na base uma série de cabo-verdianos que foram solidários connosco, arriscando empregos e até a serem torturados. Um pequeno episódio ilustra isso. Uma senhora deixou um copo de leite numa janela, tocou-me com o dedo e saiu. O guarda ia de um lado ao outro e numa aberta bebi o copo de leite. Isto parece que não é nada mas comporta muito, quando a gente fala em bestas que nos cortam, em cavalos-marinhos. É preciso ver que felizmente, no meio das bestas, dentro de nós há pequeninos actos como aqueles e que nos permitiam arranjar alento para continuar a lutar. No hospital da Praia faziam-se consultas ao indigentes, aqueles que não tinham como pagar a um médico. Nós, do Tarrafal, esperávamos a consulta com os indigentes. Essa moça epiléptica sentava-se junto a nós e ia dizendo: "O aeroporto de Bissau foi bombardeado" E assim ficávamos a saber que o aeroporto de Bissau tinha sido bombardeado... Ou então, havia uma publicação dos serviços nacionais portugueses, em papel-bíblia - Lembro-me de que uma vez consegui rasgar uma página onde vinha a notícia de actividades militares em Nambuangongo. E dizia a notícia que tinham sido mortos tantos terroristas, presos outros tantos e que não havia baixas nas forças portuguesas... Assim a gente, que fazia a ideia de que não havia nada, que estava tudo morto, atrasado e que a luta não continuava, só por aquela notícia, pela quantidade de mortos nas nossas forças e pela ausência de mortos entre os portugueses, estranhávamos muito a falta de pontaria das nossas forças... Agora já podemos rir disso, isso já se transformou em anedota... Bom, que eu saiba nunca chegaram instruções da direcção do ÉME dentro de Angola ou no exterior.

P - A comunicação era muito difícil?

R - Era tremendamente difícil. Além dos guardas e daquilo ser uma área semidesértica, tínhamos os tubarões todos à volta. Tubarões mesmo, concretos. Uma ou duas vezes deixaram-nos ir à praia e a gente olhava e só via as barbatanas - Mas, enfim, íamos sabendo do "andar da carruagem" cá fora.

P - Consta que o camarada António Cardoso foi dos últimos prisioneiros, ou terá sido mesmo o último, a ser libertado do Tarrafal. Até que ponto isso é verdade?

R - Não fui o último a ser libertado, nem fui o último a regressar a Luanda. Lá ficaram dois angolanos, que resolveram viver em Cabo Verde. Um deles era o César Teixeira, o "Cambilhosa". Ambos chegaram a fazer lá filhos. O outro regressou a Angola uns oito ou dez anos depois e vivia lá para os lados da Funda; espero que ainda esteja vivo. O "Cambilhosa" faleceu em Cabo Verde. Deixou filhos lá e cá. Eu fiquei uns dois meses mais em Cabo Verde para poder vir já com a minha mulher, Odeth, e o meu filho Jó. Há um indivíduo em Lisboa, que soube não sei como que eu já estava em Lisboa (onde fiquei dois meses: foi difícil saltar de Cabo Verde para Lisboa e depois para Angola. Este é um episódio que vou contar numa outra oportunidade).

P - Lá está o camarada António Cardoso a adiar a narração das suas histórias

R - É. Mas não posso fazer de outra maneira, se não ficava só neste episódio. Conheci o Costa Gomes nessa altura. Quando tiveram conhecimento de que um ex-preso do Tarrafal, angolano, estava no aeroporto sem documentos, e para poder ir para Angola estavam a pôr entraves, levaram-me à presença do general Costa Gomes, que então era o chefe do Estado-Maior. Regressei ao aeroporto e subi no avião para Luanda com todas as honras. Hoje nem o Costa Gomes nem ninguém se lembra daquele pequeno nada no meio daquele sururu todo. Cá em Luanda tive gente muito boa à minha espera.

P - Chega a Luanda precisamente quando?

R - Em Junho ou Julho de 1974.

P - Voltando ao tal indivíduo, em Lisboa

R - Esse indivíduo, de que eu não quero dizer o nome, foi da direcção da Associação dos Naturais de Angola, e há uma altura em que ele foge e eu fui conivente na fuga dele, porque dois de nós podiam assinar o cheque para levantar a gorjeta, uns trocos que o governador-geral dava, quer à Liga Nacional Africana, quer à Associação dos Naturais de Angola, para o orçamento das suas actividades sociais. Os dois assinámos um cheque falso. O dinheiro levantado era suposto que ele entregaria lá fora ao ÉME. Ele afinal fugiu e não entregou o dinheiro ao ÉME. E protagonizou outras peripécias. Ele, em 1974, quando me pede uma entrevista, afinal já estava marginalizado e eu não sabia. O título da entrevista, «O último preso a sair do Tarrafal», é da responsabilidade dele.

P - Quem é esse jornalista?

R - Não interessa. Esse é um comportamento de há trinta anos. Não sei quem ele é hoje em termos morais.

P - Quando chega a Luanda integra o Comité Director do MPLA?

R - Aí acontece o seguinte: há um sector progressista de portugueses e de angolanos, que no tempo colonial já fazia alguma coisa, já olhava de esguelha para o colonialismo, para os governadores-gerais, para a estrutura toda. Era a chamada oposição antiga. Havia por exemplo o Eugénio Ferreira, que os angolanos devem conhecer a sua personalidade e o seu exemplo. E havia outros: o Dr. Antero Abreu e um dentista que depois deixou o Futungo e um iate ao Camarada Agostinho Neto... Julgo que pelo meu comportamento na cadeia e pelo tempo todo de resistência recebi recados da 1.ª Região de que estavam muito interessados em receber-me, conversar comigo e me conhecerem. Naturalmente naquele tempo, em 1974, eu estava assoberbado de situações, como irão compreender, e não foi possível naquela altura eu ir à 1.ª Região. Eles queriam conhecer-me, suponho eu que será porque o meu nome seria referido no Angola Combatente em Brazzaville várias vezes ou porque havia testemunhos de pessoas da 1.ª Região, que estavam muito ligadas a Luanda. Entretanto tinha-se fundado o Movimento Democrático de Angola (MDA) e fizeram uma reunião em que decidiram várias coisas, entre elas que ficasse eu o presidente do MDA. E passámos a reunir depois ali no Largo Simão Kimbango, numa residência que hoje pertence à minha primeira mulher, a Odeth. Era aí que se faziam os panfletos e as reuniões do MDA. É aí que também organizei o primeiro comício no S. Paulo, ainda sem acordos nenhuns. Será por isso que se deve sublinhar este episódio como a parte mais chã daquilo que nós podemos dizer como pessoas inseridas na sociedade colonial e que não concordavam com o colonialismo, com a exploração que era feita através do contrato, que não era mais do que uma nova escravatura, nas áreas de exploração de monocultura. Essas pessoas eram uma minoria, evidentemente. O MDA tinha umas pequenas raízes até no Uíje, e lá eram tão poucos que até foram agredidos pelos reaccionários, pelos colonos enfurecidos. A verdade é esta: a propriedade e a riqueza assentavam na monocultura, com uma rentabilidade grande e com dezenas de milhares de indivíduos a viverem paupérrimos, como os poemas do (António) Jacinto bem ilustram e o nosso povo cantarola sem ter até a mais profunda noção do que eram os contratados naquele tempo. Ora, o MPLA absorveu o que havia de não podre da sociedade antiga. O MDA dissolve-se, porque já não tinha razão de ser, e os seus integrantes passam a fazer parte do MPLA. Isso é importante sublinhar: o pouco do bom que havia, do pouquíssimo muito bom, integrou-se pacificamente no MPLA. Mas houve aqueles que se mantiveram sempre numa posição de Ian Smith, de reaccionarismo, acabaram por ser até expulsos, porque chegaram até a assassinar crianças às portas da cubatas. Isto, naquela altura, esteve à beira de um banho de sangue tremendo. Indivíduos muito desclassificados de motoristas ou de taxistas ou de comerciantes (aquilo que eram chamados de fubeiros). E também do nosso lado, é preciso repararmos, aconteciam muitas vezes provocações. Era uma sociedade muito injusta, muito envenenada - em que o branco sempre, à partida, tinha um estatuto privilegiado e o negro sempre, também à partida, tinha um estatuto inferior - tirando um ou outro caso de pessoas integradas na sociedade colonial e que não tinham comportamento colonialista e que com mais ou menos coragem não aceitavam aquele tipo de comportamento de superioridade baseada na cor da pele e na quantidade de dinheiro. Eu não vi da parte da UNITA e da FNLA, naquela altura, que eles tentassem conquistar essa franja de pessoas que viviam numa sociedade colonial mas não eram colonialistas.

P - Essas pessoas eram fundamentalmente brancas?

R - Está visto que sim. Tinha brancos e mestiços. E também tinha pretos. Tratava-se de indivíduos que não aceitavam a sociedade colonial. Alguns eram nascidos já em Angola, outros não, e outros até que nem pensavam em continuar cá, mas que adoptaram uma posição anti-colonialista, com cautela, evidentemente. As franjas muito negativas, que as extremas-direitas sempre utilizam, vêm às vezes de profissões de pessoas com muito pouca cultura e que convivem também em condições sociais que não favorecem a bondade natural que o ser humano possa eventualmente ter. Isso da luta de classes não é figura de retórica dos manuais, e acabar com a exploração do homem pelo homem também não é figura para discursos.

P - Naquele período de transição tinha relações com elementos do MFA (Movimento da Forças Armadas)?

R - Tive com o Zé Emílio da Silva. Era da Junta de Salvação de Angola ou qualquer coisa assim, a cúpula que ia substituir o governador-geral. Uma semana antes deles tomarem posse eu fui a uma reunião ali na Sagrada Família. Ele veio à fala comigo e disse que queria ter um contacto com o MPLA. Eu disse que não representava o MPLA e que ia meditar sobre o assunto. Falei com o Pacavira, que suponho que terá consultado Brazzaville, onde ainda estava a direcção do MPLA. O Zé Emílio da Silva, a seguir ao Rosa Coutinho, era o elemento mais progressista da Junta, no meu entender.

P - Como é que vai a sua criatividade literária? Tem alguma coisa de novo?

R - Eu há muito tempo que não crio nada, estou muito deprimido. Por causa das drogas que sou forçado a tomar, para além da idade, tenho tido amnésias. Isso não é desculpa de mau pagador. Tenho meia dúzia de coisas inéditas, mas muitíssimo fracas, nem sequer atingi o meu nível de poesia. O tipo de medicação que venho tomando é muito agressivo e mexe brutalmente com o meu cérebro, com os meus neurónios. Eu esqueço-me imenso das coisas, mas é fatal, para poder viver tenho de continuar a tomar essas drogas.

P - Nem tem podido ler?

R - Leio, mas já não tenho a resistência de estar quatro ou cinco horas a ler. Às vezes nem consigo ler durante cinco minutos, às vezes consigo ler durante mais tempo. Evidentemente ainda vou inteligindo algumas coisas e arrisco dar entrevistas, como está a acontecer agora.

P - Tem alguma opinião sobre o panorama actual da literatura angolana?

R - Leio muito pouco e não era justo avançar com juízos de valor. O que tenho de positivo para mim é isto: as pessoas escrevem, ainda escrevem, pressupõe-se que aprenderam a ler e a escrever e leram mais coisas; porquê que sendo nós milhões é aquele que escreve um livro? - E há aquela subjectividade que aparece - poderá até haver uma luta de tracção, pequenos umbigos, que também nas outras literaturas acontecem. Haver vaidades feridas ou um pouco de pinhões faz parte da vida social: ao nível do futebol, para fazer carreira - e ao nível da literatura, por que não? Somos todos iguais. Todos nós temos as nossas fragilidades. Isso naturalmente com um certo limite para não ser ridículo e indigno. Faltam-nos mais tertúlias e muito mais jovens a ler, a escrever e a publicar. Dessa quantidade fatalmente surgirá muito mais qualidade. A minha geração, a geração de Agostinho Neto, leu muito. Eu sou autodidacta e lia os livros que o Jacinto me emprestava. Lembro-me dos livros dos neo-realistas portugueses, dos norte-americanos, do Faulkner, do Steinbeck, etc. Esses livros não fazem mal a ninguém. E os mais novos tiveram a grande vantagem de o INALD, quando o Jacinto era responsável e o Boaventura (Cardoso) estava lá, ter publicado as feras todas da literatura africana, às quais nós não tínhamos acesso. Há uma coisa que eu tenho dito aos jovens: à partida vocês têm uma desvantagem tremenda ao nível global; qualquer escritor medíocre que escreve em inglês ou em francês, da África do Sul, da Costa do Marfim ou do Senegal, tem um suporte a nível mundial grande, pode ter reedições, e pode vir a ser considerado um mestre, com um peso global que nunca vocês vão ter. Até ver um desses escritores mais novos em Angola com um prémio Nobel, terão que suar muito. Quem escrever em francês e em inglês tem logo à partida uma vantagem terrível.

P - Na sua opinião o fenómeno da globalização dá vantagens ou desvantagens a países como o nosso?

R - Eu não sei se a globalização é um fenómeno novo. Só sei que aquilo a que nós chamámos imperialismo, a evolução científica e sócio-económica através do capitalismo tem de qualquer maneira conseguido sobreviver. Quer dizer, há aviões mais rápidos mas antes viajava-se a pé, de bengala, com trenós, com canoas... Mas o mercado existiu sempre. A questão é saber se o mercado existe para libertar ou só para produzir dinheiro. A globalização já existe há muito tempo, começou desde que começámos a trocar coisas.

P - Só que agora a globalização vem com a Internet...

R - Acho que temos que ter uma ética. No mínimo temos que saber para que estamos vivos. Essa realidade própria de estarmos vivos obriga-nos a que nos organizemos desta ou daquela maneira, socialmente. Muitas vezes ficamos distraídos e caímos em armadilhas tremendas nessa da globalização. O comércio internacional continua a crescer muito mas sempre injustamente. É possível organizarem-se as sociedades de maneira a acabar com a exploração do homem pelo homem? O capitalismo ainda não respondeu a isso. Nós não estamos a assistir ao jogo, eu não estou a assistir ao jogo, mas não sei como é que se vai agarrar o Bin Laden e o Bush Laden pelos cornos... É que está muita gente a morrer e muita gente ainda vai morrer, sempre em nome de Deus. Eu realmente sou ateu, mas não estou a fazer proselitismo disso. Vejo os muçulmanos daquela maneira... aquilo é um fanatismo que é uma coisa inacreditável... ele próprio já é bomba... Os cristãos também fizeram coisas inacreditáveis durante séculos. Aqui nas portas do mar desta cidade de Luanda o bispo ia benzer os escravos com a real peida em cima de uma tipóia de mármore pesadíssima carregada por escravos. E quando os escravos morressem ele dizia que assim a alma deles ia p'ro céu e já não era pagã. Esses fenómenos mentais são terríveis. Eu acredito que um dia o sonho do mais velho Agostinho Neto e da geração dele, de uma sociedade comunista, cientificamente comunista, seja possível, sem a exploração do homem pelo homem. Quando me dizem que isto é uma utopia, eu digo que é uma utopia porque por enquanto estamos organizados assim.

P - Do alto da sua experiência e da sua idade, qual é o seu legado para as novas gerações?

R - Isso é um bom lugar-comum. A vida é a obra de todos nós, quer dos que fazem sapatos, quer dos que fazem livros... Mas deixe-me declamar este poema: «É inútil chorar / "Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar" / por todos os que tombam pela verdade / ou que julgam tombar / O importante neles é já sentir a vontade / de lutar por ela. / Por isso é inútil chorar. // Ao menos se as lágrimas / dessem pão, / já não haveria fome. / Ao menos se o desespero vazio / das nossas vidas / desse campos de trigo... / Mas o que importa é não chorar. / "Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar." / Mesmo quando já não se sinta calor / É bom pensar que há fogueiras / e que a dor também ilumina. // Que cada um de nós / lance a lenha que tiver, / mas que não chore / embora tenha frio. / "Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar."» Este poema, com outros, foi editado em livro em 1961, pela Casa dos Estudantes do Império. Os poemas foram escritos antes do Massacre da Baixa de Cassanje e do 4 de Fevereiro de 1961.

(Esta entrevista foi publicada originariamente em Fevereiro de 2006, no Jornal ÉME, alguns meses antes do falecimento do escritor e político António Cardoso.)

Ler 4677 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips