testeira-loja

"A Minha Religião é a Poesia Mas Acima Dela Está Deus."

Escrito por  António Domingos Gonçalves

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

A conversa com um dos grandes poetas angolanos implica sempre um exercício anímico atípico. Revolucionário das suas próprias ideias, António Gonçalves permanece com uma produção literária pujante, cuja qualidade tem sido cada vez mais referenciada. Mas se lhe perguntássemos se tal posição corresponde à verdade diria que não. Tal qual homem que olha para a floresta deixando a árvore solitária de lado, o poeta com que temos a oportunidade de conversar tem analisado de forma positiva a evolução da literatura angolana. Além da sua história e patamar a nível das literaturas africanas, tem entendido que os prémios literários que vêm recaindo são um sinal de que a qualidade literária já é visível além fronteiras. Tudo isso é fruto de muita entrega, de muito sacrifício e horas de pesquisa ou "oficina". Daí que não poderia fazer outro prognóstico: "Tenho a plena convicção de que a literatura angolana continuará a surpreender o mundo".

 

António Gonçalves nasceu em 1960, num período marcado pelas independências políticas em África e pela continuação das resistências contra o colonialismo, através da luta armada. De que forma este ambiente marcou a sua trajectória de vida, sobretudo a infância?

R - A minha infância foi muito marcada pelo processo revolucionário angolano. Até antes do Golpe de Estado em Portugal vivia no bairro popular Nº 1, hoje Neves Bendinha; em 25 de Abril de 1974, tinha então treze anos e havia terminado o chamado 2º ano do ensino preparatório, estudava na escola General Geraldo António Víctor, hoje Ché Guevara. Devo recordar que esta escola, na altura, situava-se por detrás da fábrica "Macambira", na Vila-Alice. Anos depois é que foi transferida para o bairro Neves Bendinha, onde se mantém até agora. Eu tinha uma educação cristã, já havia feito o baptismo e a comunhão pela igreja católica, [na igreja] "Santa Ana", situada no bairro popular; aliás, esta igreja ainda hoje aí se encontra, ao lado do cine Neves Bendinha. Devo recordar também que vivia por detrás do antigo IASA, onde actualmente está o hospital de queimados. A esta parte do bairro popular chamava-se também "Cemitério Novo", por causa do cemitério da estrada de Catete. Quando se dá o Golpe de Estado em Portugal, o meu irmão mais velho, "Ima", encontra-se preso em São Nicolau, assim como um tio que se chama Manuel Vicente. A ideia negativa da existência de angolanos presos em seu próprio país pelo regime português de alguma forma já tomava conta das minhas inquietações. Naquele período também já tinha ouvido falar de Agostinho Neto como libertador de Angola, através do meu pai, que um dia mostrou-me a mãe de Neto quando se dirigia num domingo à igreja de Icolo e Bengo, situada precisamente na rua onde morava. Julgo ser importante, como criador, referir ter escrito, neste período de infância, poemas de cariz religioso, aos treze anos ter lido já na altura os livros de Jorge Amado como Jubiaba, Gabriela, Cravo e Canela, Capitães de Areia, etc. Depois do Golpe em Portugal, em função do processo político tomei contacto com a literatura russa, o primeiro livro que li creio que foi Mãe, de Máximo Gorky. De Angola li Agostinho Neto, Sagrada Esperança, e conhecia alguns poemas de Aires e Almeida Santos, António Jacinto, Mário António e Viriato da Cruz.

P - O primeiro livro publicado de António Gonçalves, Gemido da Pedra, data de 1994. Isso quer dizer que terá começado a sua carreira literária relativamente tarde em relação a muitos escritores da sua época, sobretudo os ligados à chamada geração literária de 80...

R - É certo. Comecei a minha carreira literária com Gemido da Pedra em 1994, mas este livro já havia sido uma selecção de poemas de três livros anteriores. É importante esclarecer que em 1981 publiquei através da Brigada Jovem de Literatura o poema «Reflexões», dedicado a Agostinho Neto. Este poema fez parte de uma antologia de jovens poetas que se chamou O Caminho das Estrelas - um canto para A. Neto. Na antologia a que me refiro encontram-se textos de São Vicente, Carlos Ferreira e outros. Eu pertenci a esta primeira brigada mas não aparecia publicamente porque era militar e estava então colocado fora de Luanda. Mas o primeiro livro escrito foi Cenas que o museke conhece, em 1978. Respondendo à pergunta, sim, é certo, creio que eu e o poeta João Tala fomos dos últimos a publicar dentro da geração de 80.

P - Começou a escrever aos treze anos e em 1978 escreveu a sua primeira narrativa, Cenas que o museke conhece, que se mantém ainda inédita. Sei que esta novela foi publicada em 2003. Que alterações terá sofrido a obra desde o seu original ao produto que chegou à mão dos leitores, quase trinta anos depois?

R - Comecei a escrever poesia aos treze anos, infelizmente não conservo os textos dessa idade, no entanto, a novela a que se refere, escrita em 1978, foi publicada em Cuba em língua portuguesa, em 2003, pela Editora José Martí. A versão original, comparada com a que foi publicada, não sofreu alterações de fundo. Basicamente tratei de melhorar algumas descrições. Quanto à forma de falar dos personagens, não sofreu alteração. Por isso devo aclarar que esta novela não revela o meu potencial como ficcionista ou narrador. Tive a ousadia de publicá-la para que não caísse no esquecimento e preferi não alterar o seu conteúdo e forma para manter-me fiel às minhas origens.

P - Gemido da Pedra (poesia, 1994), pelo que os registos dizem, é o seu primeiro livro editado em Angola?

R- É certo, Gemido da Pedra é o primeiro livro publicado por mim em Angola e foi uma edição do autor. Na altura trabalhava para uma empresa portuguesa, era, como sabem, Sub-Director do Hotel Trópico, e na qualidade de escritor essa empresa publicou o primeiro livro e o segundo, também de poesia, que se chama Versos Libertinos.

P - Nessa altura particularmente, em que se torna mais conhecido do público como poeta, o que lhe serve de veia inspiradora para os seus escritos?

R - Eu sou uma pessoa muito atenta ao que me rodeia. Impressiona-me tudo o que vejo, sobretudo se são acções por mim consideradas anormais. E para mim a guerra que persistia em Angola me parecia injusta para o povo, então tratei de reflectir este meu pensamento nos textos que escrevia. Recordo-me por exemplo do poema «Gemido da Pedra», que da título ao 1º livro, e de «Letras de sangue», um dos textos do 2º livro.

P - Entre o Gemido da Pedra e Versos Libertinos (poesia, 1995), a sua segunda obra editada, parece não haver grandes rupturas, quer no plano da expressão quer no do conteúdo. Por exemplo, há quem defenda que há nestes livros uma identidade de temáticas e de estilos...

R - Eu diria que os três primeiros poemários, incluindo Adobe Vermelho da Terra, têm as mesmas características estéticas. A única diferença talvez seja o facto de no terceiro poemário dar uma maior ênfase aos aspectos endógenos da nossa cultura. Penso que foi uma necessidade da qual não me arrependo.

P - António Panguila, numa breve análise que faz a Versos Libertinos, refere haver uma forte motivação nacionalista nos textos que constituem o primeiro sector da obra. Concorda?

R - Concordo plenamente com o critério do poeta António Panguila. Para além de meu amigo é um grande conhecedor da minha poesia. A motivação nacionalista a que ele se refere foi a resposta que encontrei para não sufocar ante tanta dor e tanto ódio. O povo estava a pagar um preço muito alto devido ao desentendimento dos políticos. Na qualidade de artista tentei transmitir essa angústia que se notava na face de qualquer cidadão anónimo.

P - Entretanto, este mesmo autor sublinha ainda que o lirismo ora doce, ora decantado, corporiza o tecido estético do segundo compartimento do livro Versos Libertinos...

R - É verdade, para além da poesia épica, sempre cultivei a poesia lírica, aliás continuo a cultivá-la, quer a lírica de forma geral quer a lírica amorosa.

P - Nesta mesma obra, no poema «Xingu», em que faz recurso do kimbundu, António Gonçalves usa uma técnica pouco comum nos poetas de hoje: assinala os versos em kimbundu e cede a respectiva tradução em português...

R - Foi uma opção. "Xingu" é uma palavra da língua autóctone Kimbundu. O poema em si, pela sua construção, enquadra-se dentro da poesia concreta, uma corrente poética que nasceu na Alemanha e se desenvolveu em Portugal e no Brasil. Dentro dos cultores da poesia concreta em Angola temos o poeta João Melo, Lopito Feijóo, José Luís Mendonça, entre outros; António Jacinto também era cultor deste tipo de poesia.

P - Há uma técnica muito parecida a uma equação algébrica e que é muito frequente na sua poesia. Existirá alguma explicação que queira dar aos leitores relativamente a este facto?

R - Há um poema que se chama «Equação Algébrica Linear». Este poema tem influência da disciplina de Álgebra Linear que estudei enquanto aluno do curso de Ciências Matemáticas na Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto. Eu tento encontrar a solução de uma equação algébrica linear, só que em vez de usar números, uso palavras, é tudo.

P - Ressalta a técnica que usa, por exemplo, no poema «Geopoesia», do livro Versos Libertinos, cuja estrutura obedece à sequência dos pontos cardeais…

R - «Geopoesia» é um poema concreto ou, se quiseres, poesia experimental que não se trata de "experimentos" poéticos como algumas pessoas pensam. Poesia experimental é uma variante da poesia concreta, na minha modesta opinião.

P - António Gonçalves é autor ainda de Adobe Vermelho da Terra (poesia, 1996); Buscando o Homem (Selecção de poemas, 2000); Cenas que o Museke Conhece (novela, 2003); Transparências (poesia, 2004); A Linguagem dos Pássaros e dos Sonhos (selecção de poemas de amor, 2005); As Vozes do Caminho (poesia, 2005), e outros tantos livros. Que obra prefere abordar, para apresentar aos seus leitores?

R- Como qualquer pai, não tenho preferência por nenhum livro em concreto. No entanto, espero com muita ansiedade a reunião dos três mais recentes num só (trata-se portanto de uma trilogia), que se chamará Umbral de Transmutações, que do ponto de vista da madureza intelectual e artística enche-me mais de júbilo que a antologia anterior que se denomina Buscando o Homem.

P - Por outro lado, possui também uma obra no prelo: A Quinta Estação do Tempo, uma antologia poética...

R - Exacto, A Quinta Estação do Tempo é uma antologia poética que também aguardo com alguma curiosidade; trata-se de uma antologia a ser publicada na Venezuela, bilingue (Português-Espanhol), que percorre toda a produção poética desde a primeira fase até à segunda, em que me encontro neste momento. Este livro incluirá textos do poemário mais recente, O Sétimo Caminho, que foi apresentado em Cuba e Angola em 2006 e tem o prefácio de Xosé Lois Garcia.

P - O que exactamente António Gonçalves retrata no plaquet bilingue Português-Francês, uma co-autoria que faz com os poetas João Maimona, Amélia Dalomba e o francês Emmanuel Tugni?

R - Neste plaquet, publiquei poemas já conhecidos, sobretudo do livro Adobe Vermelho da Terra. Foi uma experiência interessante, já que o projecto esteve a cargo da Aliança Francesa, que movimentou a ida a Angola de um poeta daquele país, Emmanuel Tugni.

P - Também faz parte, com mais 41 poetas de Angola, da Antologia do Mar na Poesia Africana de Língua Portuguesa do século XX, organizada pela investigadora brasileira Cármen Lúcia Tindó Ribeiro Secco, o que curiosamente ocorre muitos anos após a inserção dos seus primeiros textos poéticos na Antologia Caminho das Estrelas, em homenagem a Agostinho Neto...

R - A Antologia do Mar na Poesia Africana de Língua Portuguesa do Século XX, organizada pela brasileira Lúcia Tindó Ribeiro Secco, o seu tomo I, dedicado a Angola, é um livro volumoso que editou a Editora Kilombelombe. Creio que aí estão os poetas mais representativos de Angola que abordaram o Mar como temática nas suas poesias. Tenho a sorte de figurar nesta antologia ao lado de nomes importantes como Agostinho Neto, João Maimona, entre outros.

P - O seu livro O Sétimo Caminho, pelo que se constatou é uma obra que vem completar uma trilogia (Metamorfoses da Alma) que António Gonçalves iniciou com Transparências, editado em 2004...

R - O poemário O Sétimo Caminho encerra uma trilogia iniciada com Transparências em 2004 e continuada em 2005 com As Vozes do Caminho. Digamos que foi um trabalho árduo de dez anos, se tivermos em conta que o poemário Adobe Vermelho da Terra foi publicado em 1996. A crítica considera que através do poemário Transparências se cria uma ruptura estética dentro da minha obra. Me tenho esforçado para voltar a criar a segunda ruptura, mas que em relação às temáticas acabará sendo sempre a continuação do que tenho escrito. Passarei agora para um período de reflexão e divulgação do que já está publicado e só voltarei a publicar um livro novo de poesia talvez daqui a cinco ou sete anos, aliás quero voltar a dedicar-me à narrativa e também ao ensaio. A minha obra, graças a Deus, está a ter uma grande aceitação na América Latina. Em 2007 viajarei a Nicarágua, Colômbia e talvez Venezuela na qualidade de poeta, a convite de instituições literárias destes países. Penso que o período de Cuba tem sido bom para o meu crescimento como escritor e como homem.

P - Quem lê com alguma atenção as páginas deste livro depara-se várias vezes com poesia de combate, poesia que canta sobre a injustiça e sobre a necessidade de se melhorar a vida, a sociedade, o mundo...

R - Creio que o que acaba de afirmar são nuances da poesia que escrevo. Sou um ser sumamente espiritual mas de uma espiritualidade concreta que tem a ver com o homem real. E o que sinto é que este homem real tem mais qualidades negativas do que positivas e ele vive numa sociedade, logo, a sociedade é negativa. A poesia ou os poetas não resolvem qualquer problema social, esta tarefa está encomendada aos políticos, mas os artistas, neste caso os poetas, têm a obrigação de ajudar o homem a crescer em todos os sentidos, onde o humano, ou seja, o espiritual, é predominante, porque o homem é um ser espiritual e não apenas material.

P - Norberto Costa defendeu certa vez que "o tema da paz, ou melhor, da superação da guerra, através da instauração da paz, é um tema recorrente nos três títulos por si já publicados". Concorda?

R - Sim. Norberto Costa é um jornalista que conhece bem a geração de 80 e logicamente a minha obra.

P - Qual é a sensação pelo facto de ter sido o primeiro escritor africano a ser escolhido para inaugurar a colecção "Cunyaye", do Centro Cultural Africano "Fernando Ortiz" de Cuba?

R - Penso que foi consequência de estar a trabalhar temporariamente naquele país. Antes de ser Adido ou Conselheiro Cultural, primeiro sou poeta, e seja qual for a função que ocupe nunca deixarei de ser o poeta que de quando em vez escreve narrativa ou ensaio, cumprindo naturalmente com as tarefas que o governo angolano me orientar.

P - Para além de poeta, António Gonçalves já proferiu igualmente várias conferências sobre cultura, arte e política, das quais algumas já estão publicadas em jornais e revistas de Angola e Cuba...

R - É certo. Para além da poesia dedico-me ao ensaio e à narrativa.

P - António Gonçalves é dos intelectuais angolanos que também já tiveram o privilégio de ocupar o cargo de Secretário-Geral da União dos Escritores Angolanos (UEA). O que isso significou para si?

R - Ser Secretário-Geral da UEA foi para mim um grande desafio. Assumi essa função com trinta e cinco anos e creio ter sido até agora o mais jovem Secretário-Geral que passou pela UEA. Era o representante da minha geração mas fiz o possível por aglutinar as três gerações que na altura representavam a UEA: os mais velhos Uanhenga Xitu, Domingos Van-Dúnem, entre outros; a geração intermédia, de Manuel Rui, Arnaldo Santos, Enrique Arranches, entre outros; e a geração dos novíssimos a que pertencia. Era, portanto, uma pessoa de equilíbrio entre as três gerações literárias. Dá-me muito gosto saber que autores na altura desconhecidos apareceram publicados durante o meu mandato e que outros que apoiei hoje são referências inquestionáveis da nossa literatura, prefiro não citar nomes.

P - E como é que descreve a trajectória do seu consulado? Terá sido bastante conturbada?

R - Não creio que o meu consulado na UEA tenha sido conturbado. Foi, sim, um período importante para a UEA em si, mas também para a cultura e a sociedade angolanas. Foi um período de definições e algumas dessas definições eram "ensaiadas" na UEA. Naturalmente que o debate ideológico da sociedade angolana, na altura, tinha na UEA uma tribuna privilegiada, e fui testemunha de acontecimentos importantes positivos que sucederam dentro da sociedade civil angolana, que tiveram o respaldo ou o apadrinhamento dos escritores vanguardistas. Intelectuais de grande valia como Luís Kandjimbo, João Melo ou Dartanhã Fragoso animavam regularmente o debate público no âmbito das actividades da UEA. Agora, reconheço que após a minha saída a UEA viveu momentos conturbados, dos quais os que aqui ficaram estão em melhores condições para se pronunciarem.

P - Estudou também gerência hoteleira, aliás, especialidade com a qual chegou a exercer funções como as de Director de distintas unidades hoteleiras em Angola...

R - Certo, fui Sub-Director do Hotel Trópico e do Complexo Hoteleiro Barracuda. Aí aprendi a dirigir homens e a gerir conflitos. Essa aprendizagem foi-me de grande valia durante o período em que estive à frente da UEA.

P - António Gonçalves exerce actualmente o cargo de Adido Cultural da Embaixada de Angola em Cuba. Gostaria que tecesse alguns comentários sobre as diferenças entre o estatuto dos adidos e conselheiros culturais.

R - Nós somos adidos do ponto de vista do MIREX, mas temos o salário de Conselheiros, enquanto que dentro do Ministério da Cultura, em princípio, somos designados Conselheiros Culturais. Quanto ao conteúdo de trabalho de um Adido Cultural ou Conselheiro Cultural, na minha óptica é o mesmo. O que foi reivindicado no IIIº Simpósio sobre Cultura Nacional tem a ver com a inserção diplomática do artista que como agente cultural exerce as funções de Adido ou Conselheiro. O painel em que participei defendeu a designação única de Conselheiro Cultural e reivindicou um melhor enquadramento dentro do MIREX, que os mesmos tenham a possibilidade de competir em pé de igualdade com os quadros do MIREX no que se refere a uma ascensão profissional. É imperdoável que um quadro que trabalhe cinco ou seis anos quando termine a missão por vezes regresse com um status abaixo do que já havia conseguido. É um assunto sensível a que o Sr. Ministro da Cultura está a prestar a maior atenção.

P - Hoje fala-se em marketing cultural, tema aliás que levou o Ministério da Cultura a promover um workshop internacional. Até que ponto a cultura angolana pode ou estará implantada na cultura cubana, país de que hoje tem maior conhecimento?

R - A cultura angolana está a ser divulgada em Cuba desde 1985, quando foi inaugurada a Casa da Cultura de Angola. Desde então a função do Adido Cultural foi exercida pelos seguintes agentes diplomáticos: Sr. Tony Narciso, Sr. Sampaio, Sr. Francisco Lisboa Santos e eu. O que temos estado a fazer é nada mais que dar continuidade ao trabalho anteriormente desenvolvido e aprimorar algumas tarefas que também fazem parte do trabalho cultural. Há no entanto limitações no que concerne ao orçamento deste sector no exterior. Por outro lado, penso que dentro do MIREX ou na Presidência da República devia haver um órgão que, para além de definir conjuntamente com o Ministério da Cultura as prioridades em matéria de divulgação da cultura angolana no exterior, deveria também coordenar de forma directa o funcionamento dos sectores culturais das missões diplomáticas. Esse órgão seria, depois de consultado o Mincult, responsável pela designação dos agentes diplomáticos que respondem pela cultura. Naturalmente que o Mincult neste caso também deveria propor quadros ou artistas para o exercício desta função, pessoas cuja trajectória seja inquestionável ou que tenham "feitos" notórios em prol da expansão da cultura angolana.

P - Ouvi a musicalização de Rui Mingas à poesia de Viriato da Cruz. Diz-se "continuador" da poesia de Viriato e Neto. Imagino que se refira aos pontos de convergência das suas poesias...

R - Sim, considero que Viriato, Jacinto e Neto fizeram parte da minha aprendizagem primária como poeta. Hoje tenho um estilo próprio, inconfundível, não sou eu que digo, são os estudiosos da minha obra que o dizem.

P - "A nossa mente é um laboratório de experiências que podem ser ou não projectadas no papel em diferentes formas de arte." Além da literatura em que outra categoria de arte as suas ideias são projectadas?

R - Sou compositor. Algumas canções compostas por mim aparecerão em público em algum momento.

P - "É milimétrica a distância entre a loucura e a genialidade, quanto mais geniais mais loucos somos para a sociedade." Gostaria que comentasse esta sua frase enquadrando-a no panorama literário onde, julgo, os génios darão bons escritores ou investigadores.

R- Prefiro não comentar. É que a mente humana é tão rica que se parece mesmo a um laboratório, mais do que isso prefiro não comentar.

P - Gostaria ainda que reflectisse comigo sobre um assunto que tem levantado celeumas quer entre os escritores quer entre os críticos. Formulando-lhe uma questão de forma directa: por que critério se pode aferir a qualidade da obra poética?

R - Uma obra literária, na minha modesta opinião, deveria ser aferida a partir de três critérios: inovação da linguagem, temática e qualidade estética. O autor que consegue reunir estes três critérios certamente não passará despercebido do grande público leitor, quer seja poeta ou ficcionista.

P - Por exemplo, na sua poesia, refere que a "Poesia/ não se aprende/ na escola/ o poeta é/ a escola/ a escol(h)a/ do poeta/ é uma sacola/ sem pega/ que se apega/como cola/des colando/palavra da sacola/escola/que o poeta doa". Esta posição que assume vem sedimentar a convicção de que o génio poético é uma qualidade que nasce com o homem?

R - Não. O homem nasce com algumas possibilidades, mas para desenvolver o génio criador há que trabalhar aturadamente, ser humilde e ter fé no seu ofício. No meu caso concreto, a poesia para mim é um sacerdócio. A minha religião é a poesia, mas acima dela está Deus.

P - Manda a praxe que deixemos este espaço em branco para que os escritores possam abordar um tema que julguem importante e que não foi suficientemente tratado ou que foi omitido nesta entrevista.

R - Agradeço de todo coração a gentileza da UEA, mais propriamente dos organizadores desta entrevista, que confesso é a maior e creio que a mais completa que me fizeram até ao momento. A literatura angolana é uma das mais fortes da África de Língua Portuguesa e a prova convincente é o facto de o Prémio Camões ter sido atribuído até ao momento a dois angolanos, Pepetela e Luandino Vieira, contra um moçambicano, o falecido poeta José Craveirinha. Isto é o resultado de muita entrega, de muito sacrifício e horas de pesquisa ou "oficina". Tenho a plena convicção de que a literatura angolana continuará a surpreender o mundo. Mando um forte abraço a todos os criadores angolanos, em especial aos poetas e ficcionistas. Muito obrigado.

Ler 5924 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips