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"A Escrita é para Mim um Meio de Passar a Minha Maneira de ver as Coisas"

Escrito por  Sónia Gomes

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

Quando foi divulgado o facto de a vencedora do Prémio Nobel da Literatura 2004 Elfriede Jelinek ficou na coca do mundo, como nunca tivera sido até então. A literatura feita por mulheres vem ganhando uma grande pujança na Europa, sendo que a América latina têm saído boas referências. Em Angola - e aqui finalmente chamaremos a nossa entrevistada - as mulheres têm evoluído e utilizado cada vez mais a caneta para desabafar ou, como o faz Sónia Gomes, chamar a atenção da sociedade. A literatura voltadas a temas tão específicos como a saúde pode-se dizer que é uma novidade por a maior parte dos escritores dedicarem-se a narrativas, romances e, sobretudo a poesia. De Sónia Gomes não se conhece textos poéticos publicados, pelo que não abordámos esta questão na entrevista que se segue. Dedicada ao aprimoramento do estilo, com um histórico familiar e cultural rico para a prosa, a nossa contista conta como uma estudante evolui na arte de bem escrever...

 

P - Sónia Gomes nasceu no Moxico, sendo conterrânea de vários escritores entre os quais José Sambwila Kakweji. Que recordações guarda da sua terra natal, cuja rica cultura inspira poesia e dezenas de estórias para contos?

R - Lembro-me sempre do espírito de camaradagem e ajuda mútua que existia entre os vizinhos naquele tempo de guerra e de muitas privações e, principalmente, dos serões na cubata do meu avó Santos, onde ouvíamos contar muitas estórias.

P - Que ambiente familiar serviu-lhe de base para o gosto pelo ramo da saúde e, mais recentemente pela literatura?

R - A minha mãe é parteira tradicional. Só no bairro Sinai onde viveu mais de trinta anos, ela ajudou a trazer ao mundo centenas de crianças. Por outro, fui uma criança propensa a doenças. A atenção constante dos meus pais e a frequência de hospitais fizeram nascer dentro de mim o gosto de cuidar dos outros. O gosto pela literatura deveu-se ao facto de ter crescido num ambiente muito privativo, pelo que durante muito tempo, toda a adolescência e grande parte da minha juventude, os livros foram os meus únicos companheiros e a leitura o meu único modo de diversão. Li tanto dos outros, que certo dia resolvi começar a escrever também.

P - Geralmente os escritores seleccionam um grupo de obras ou escritores nacionais ou estrangeiros de quem seguem de perto as linhas mestras até atingir a autonomia estilística. NO caso como este fenómeno ocorreu?

R - Aprendi a ler e a escrever já na adolescência. Por sorte, fui logo viver num meio onde os livros eram uma presença constante. Tinha à minha disposição os livros do meu irmão mais velho e dos emprestados pelos seus amigos. Lembro-me ainda dos quatro primeiros que li: "As aventuras de Ngunga", de Pepetela, "A escrava Isaura", de Bernardo Guimarães, "As aventuras de Tom Sower", de Mark Twain e "As auroras nascem tranquilas", um romance de guerra russo. Na adolescência, a minha leitura, como a de muitas moças da minha geração, foi mais de romances cor-de-rosa da série Sabrina, Júlia, Bárbara e Bianca. Alguns anos mais tarde, com o objectivo de amadurecer espiritualmente passei a me dedicar mais a leitura de livros religiosos, sobretudo os de testemunho. Marcaram-me muito "Solitário, mas nunca sozinho" de Nick Cruz, "O refúgio secreto" de Corrie Ten Boom e "Um passo mais" uma autobiografia de Joni Earikson, a tetraplégica que no meio do sofrimento encontrou motivos para exaltar o nome de Deus. Os romances evangélicos "Marcadas pela Diferença", de Janete Oke e "Till" de E. Peretti influenciaram bastante o meu romance "Encontro com o passado". Reconheço também ter sido muito influenciada por Anton Tchecov e Katherine Mansfield.

P - Hoje nas escolas temos uma formação deficiente em língua portuguesa, associado ao facto de não haver como ta uma disciplina de literatura angolana. Que educação a este nível dá (rá) aos seus filhos de forma a forjar uma nova vaga de escribas?

R - A maioria dos pais quer o melhor para os seus filhos. Fiz a sétima classe sem a disciplina de língua portuguesa por falta de professor. No final do ano lectivo atribuíram-nos uma nota colectiva. Lembro-me ter feito mais uma classe em que não tivemos mais de dez aulas de língua portuguesa durante todo o ano lectivo. No final, a direcção da escola teve que recorrer ao mesmo processo de atribuição de uma nota colectiva. O hábito de leitura veio, de certa maneira, preencher algumas das muitas lacunas resultantes da minha deficiente formação na língua portuguesa e não só. Tenho esperança de que quando tiver filhos e chegar o momento de os mandar à escola a realidade do ensino em Angola já tenha alterado de modo positivo. Contudo, pretendo incentivá-los ao gosto pela leitura, não apenas no propósito de forjar uma nova vaga de escritores - para mim os escritores não se fazem, eles nascem - mas para formá-los como homens.

P - Sei que exerceu funções de jornalista. Gostaria que partilhasse connosco estes momentos em que escreveu para a revista evangélica "O Intermediário"?

R - Trabalhei para a revista evangélica "O Intermediário" durante três anos, à convite do então director do Departamento de Comunicação e Publicações (DCP) da Aliança Evangélica de Angola (AEA) e também pastor da minha igreja local, Sr. José Neto. O meu trabalho resumia-se em reportar os acontecimentos de vulto à nível das igrejas membros da AEA e de outras evangélicas. Foi no intermediário onde publiquei os meus primeiros dois escritos, artigos de reflexão ligados a questões da juventude.

P - Gostaria, se me permitir, de me referir primeiro a um dos seus mais recentes livros alterando a cronologia das suas obras. "E das faltas cometidos resultaram consequências graves" é, penso, um título muito grande para uma obra centrada num tema. A que reflexão procura levar os leitores com o título?

R - O livro conta a história de um grupo de pessoas que durante determinado período de suas vidas agiram dum modo que veio mais tarde resultar em consequências graves. Eu pretendo mostrar, claro com algumas falhas, que tudo quanto fazemos hoje vai, duma ou de outra maneira, interferir na nossa vida amanhã.

P - Após a leitura de parte da obra, fiquei já com opinião formada sobre ela. A autora pretende levar os leitores a "por a mão à cabeça" e fazê-los recordar que dos seus actos de hoje, resultarão repercussões amanhã. Concorda?

R- "..."

P - A abordagem de um tema tão "candente" quanto o HIV/Sida em livro acarreta sempre uma componente científica e pedagógica. Pensa que, salvaguardada esta, aquela foi facilitada pela sua formação académica?

R - Com certeza. Se não tivesse a formação que tenho e vivido as experiências que vivi como estagiária a nível de várias unidades sanitárias de Luanda, dificilmente teria me ocorrido e conseguido fazer "E das faltas cometidas resultaram consequências graves".

P - Situa a sua obra num espaço real, em Luanda, mas traz personagens fictícios para retractar situações e fenómenos igualmente reais. Neste caso, em que situação retractada deverá advertir ao leitor, que "mera semelhança com o caso é pura coincidência"?

R - "..."

P - Talvez seja altura de regredirmos no tempo. Quando escreveu o romance "Por pena morreu Mulemba", entretanto avaliada pela crítica, primeiro deixou sinais de que tinha uma veia artística promissora; por outro lado, deixou um rastro temático para a obra seguinte. É propositado este movimento de continuidade e ruptura?

R - Sim é. Todas as histórias em "Por pena morreu Mulemba e outros contos" foram retratadas de modo resumido, logo não podem ser vistas como temas esgotáveis num volume tão pequeno, podendo vir evoluir para novela ou para romance.

P - Falamos até aqui da autora e da obra, sem nos referir à figura do narrador. Parece-me que o narrador assume um compromisso social, que o leva a confundir-se com o sentimento das personagens, com especial evidência em "E das faltas cometidos resultaram consequências graves". Como define o narrador, na sua relação com as personagens que cria e - complicando a questão - relativamente à autora?

R - A escrita é para mim um meio de, sem querer ser moralista, passar a minha maneira de ver as coisas. Concretamente no livro "E das faltas cometidas resultaram consequências graves", o narrador não é distinto da autora. Eu utilizo o narrador para fazer conhecer as minhas ideias e sentimentos. Já em relação as personagens, algumas têm o mesmo ponto de vista com o narrador (-autora) e as outras vêm apenas confrontar as ideias das primeiras para que no fim estás possam prevalecer.

P - Poucos leitores tiveram acesso ao seu primeiro livro "Encontro com o passado" pode falar-nos dele nos seus aspectos mais essenciais como personagens, limites espaciais e temporais utilizados?

R - "Encontro com o passado" é o meu livro mais velho e mais conhecido. É um romance com uma mensagem essencialmente evangélica. Conta a história de Aldira, uma rapariga tímida e muito dedicada à igreja, e de Malaquias, um jovem com uma profunda formação espiritual, que contraem o matrimónio, ambos escondendo um passado triste. Passado esse que viria, meses depois, à superfície, sendo nessa altura os dois confrontados com a necessidade de perdoar um ao outro. A história passa-se em Luanda, entre os anos de 1993 e 1994, mas com alguns recuos no tempo.

P - uitos escritores iniciaram-se na literatura através dos concursos literários. No seu caso, apesar de não ter sido laureada com prémios literários continuou firme na publicação de livros. A que se deve esta sua convicção para a causa literária e social?

R - Como acontece com todo o escritor, ao lançar a minha primeira obra, fiquei com medo de não poder corresponder às expectativas dos leitores. Graças a Deus, um grande número deles reagiu de forma positiva. A partir dai, passei a acreditar mais no meu trabalho.

P - Em 1975 quase uma trintena de escritores subscrevia o acto de proclamação da União dos escritores Angolanos. Passados 30 anos, Sónia Gomes é admitida para esta casa passando a confrade de Pepetela, Manuel Rui, Manuel dos Santos Lima ou Lopito Feijoó. Explique-nos como foi esta trajectória até ser admitida à casa das letras.

R - Queria antes dizer que constitui uma grande satisfação para mim, integrar uma instituição da dimensão da UEA. Penso que essa trajectória tem início no momento em que peguei numa folha de papel branca e numa esferográfica e comecei a escrever o meu primeiro romance até ao dia em que, depois de ter lançado a minha terceira obra, um feliz acaso fê-la chegar às mãos do Sr. Secretário da UEA, tendo dali surgido um convite.

P - Avaliação faz do tratamento dado à sua obra, atendendo ao facto de que em muitos casos apenas os escritores mais conhecidos merecem maiores destaques?

R - O meu primeiro livro foi publicado há um ano e meio e os outros têm menos de oito meses. Tenho recebido alguns louvores e críticas, quer da parte do leitor comum como da parte de algumas pessoas autorizadas. As críticas poderão ajudar a melhorar os meus próximos trabalhos.

P - Li, no Jornal de Angola, no caderno Vida Cultural, um texto da jornalista Yara Simão que se referiu às personagens e ao espaço escolhido pela autora. Pensa que as matérias culturais já têm o desejado espaço nos jornais, rádios e televisão?

R - De há algum tempo para cá tem-se vindo a dar um maior espaço as matérias culturais, mas ainda não é satisfatório. Noto que em alguns meios não existe uma distribuição equitativa dos espaços às diferentes formas de arte. Um exemplo, existem dois programas televisivos, um de divulgação da música e outro de artes plásticas. No entanto não existe nenhum programa que se dedique única e exclusivamente as letras.

P - A formação religiosa que teve influiu na sua decisão de estudar enfermagem e de através da literatura chamar alertar a consciência social?

R - Eu nasci num lar cristão e durante muito tempo frequentei a igreja simplesmente porque era o que todo o mundo fazia lá em casa. Quando me tornei cristã ou crente - segundo a doutrina da minha Igreja isto acontece quando uma pessoa toma consciência e se reconhece como pecador (por herança de Adão) e aceita Jesus Cristo como seu senhor e único salvador - eu já me tinha decidido pela enfermagem. O mesmo aconteceu com a literatura. A formação religiosa veio apenas dar uma maior dinâmica à essas decisões.

P - Manda a praxe que deixemos este espaço em branco para que os escritores possam abordar sobre um tema que julgasse importante e que não foi suficientemente tratado ou omitido neta entrevista.

R - As instituições de direito deveriam promover um maior número de concursos literários virados essencialmente para a juventude para incentivar o surgimento de novos valores nesta área.

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