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"As Literaturas Provenientes dos Países Ricos Têm Maior Aceitação" Destaque

Escrito por  Aguinaldo Cristóvão

A literatura africana tem sido objecto de estudo em universidades europeias e americanas. Além dos países de expressão portuguesa que se têm debruçado sobre ela, países como França, Estados Unidos ou Cuba hoje conhecem mais a literatura angolana do que há cinco anos atrás. Entre os escritores e estudiosos de literaturas africanas de expressão portuguesa com que viemos conversando, Michel Laban é dos mais destacáveis.

 

Publicou oito volumes de entrevistas a escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Tem ainda um acervo sobre literatura que lhe permitiria publicar outros livros. Célebre foi a sua entrevista com o nacionalista angolano Mário Pinto de Andrade, um dos fundadores do MPLA. Para Laban, professor universitário que se tem dedicado também a traduzir livros de escritores angolanos, "fica-me a recordação de uma pessoa extremamente simples, que vivia em condições modestas". A conversa discorre sobre a sua visão panorâmica de aspectos que interessam à literatura angolana.

P - Quando o contactei, fi-lo em inglês. Qual tem sido a sua actual ligação com os escritores africanos e os angolanos em particular, com que há alguns anos teve a oportunidade de conversar?

R - O facto de ter escolhido a língua inglesa para entrar em contacto comigo deixou-me um pouco perplexo... No que diz respeito aos escritores africanos com quem trabalhei no passado - os angolanos em particular -, mantenho contacto com alguns deles, ou por amizade ou por questões de estudo.

P - É praxe nestas conversas procurar saber mais sobre a infância dos escritores. O que leu e ainda lê que tenha influenciado decisivamente a sua vida?

R - Em primeiro lugar, não me considero escritor. No princípio dos anos 80, li um livro que foi determinante para a minha pesquisa no campo linguístico: Linguística e colonialismo, de Louis-Jean Calvet. Dei-me conta da importância de muitos fenómenos que até aí me pareciam inofensivos - por exemplo, a conotação negativa de certas palavras como crioulo, dialecto, etc.

P - É verdade que, pela sua reconhecida tarimba nas lides literárias, consegue avaliar a personalidade de um escritor pela leitura da sua obra?

R - Não é regra geral, mas, muitas vezes, da leitura ressalta a personalidade do autor. No entanto, será que se trata da sua verdadeira personalidade ou daquela que ele quer deixar transparecer? Num sentido inverso, o facto de conhecer pessoalmente um escritor faz com que se leiam as suas obras de uma maneira diferente, sendo óbvia a influência da sua personalidade.

P - A este propósito, tem-se discutido de forma inusitada sobre a inexistência de críticos literários em Angola e também nalguns países africanos de expressão portuguesa. Um escritor com grande experiência está habilitado a exercer este papel?

R - E por que não? A meu ver, qualquer pessoa que se interesse realmente por literatura e que tenha espírito crítico (possua ou não uma obra literária) poderá desempenhar tal papel, sobretudo se tiver o privilégio de abordar estes temas com outros aficionados - penso nas antigas tertúlias... É evidente que uma formação universitária poderá também facilitar esta actividade analítica.

P - Como se forma como homem e intelectual um crítico literário?

R - Acho que não existe receita... No entanto, aquele que tiver seguido estudos literários, para quem a literatura for uma fonte de prazer, terá, à partida, condições para o ser... Mas, em contrapartida, deverá resistir à má tentação de empregar conceitos e termos que, na maior parte das vezes, o leitor não entenderá e que terão o efeito contrário: afastar o público da obra literária. Para mim, um bom crítico escreve de uma maneira clara e precisa.

P - Ao longo da sua carreira, pude notar uma série de trabalhos que desenvolveu à volta da literatura. Gostaria que nos falasse, primeiro, do âmbito e repercussões da sua célebre entrevista com Mário Pinto de Andrade.

R - A possibilidade que me surgiu de entrevistar Mário Pinto de Andrade foi um grande desafio pois, do ponto de vista histórico, não me sentia suficientemente competente. O encontro foi possível graças à intervenção de uma amiga comum, Maria Padez Kotsky, que vive actualmente em Luanda. A minha primeira preocupação foi tornar-me completamente disponível: lembro-me de ter passado várias noites sem dormir para poder preparar os encontros e, ao mesmo tempo, entregar rapidamente a transcrição da entrevista anterior... A propósito de Mário Pinto de Andrade, fica-me a recordação de uma pessoa extremamente simples, que vivia em condições modestas. Lembro-me de que ele preparava com antecedência os temas que iríamos desenvolver, por vezes consultando livros que escolhia para ilustrar aquilo que me explicava.

P - Li em vários sítios da Internet referências às suas traduções para francês de livros e textos sobre literatura africana e lusófona. Qual tem sido a sua actividade na universidade de Sorbonne?

R - Sou lá professor e tenho a responsabilidade do sector das literaturas africanas de língua portuguesa. Durante muitos anos ocupei-me também das aulas de tradução.

P - Realizaram-se em França alguns fóruns sobre a cultura angolana. Que impressão tem do desenvolvimento da literatura angolana nos últimos anos?

R - No que diz respeito a França, infelizmente Angola não tem muito relevo no plano cultural... É um facto que, em geral, a literatura de língua estrangeira não encontra grande eco, excepto a que vem do mundo anglo-saxão...

P - Há alguns estudiosos que tiveram presença marcante em Angola. Além do Professor, cito Pires Laranjeira e, mais tarde, Russel Hamilton. Que perspectiva de investigação cada um de vocês recolheu?

R - Trabalhamos essencialmente no mesmo domínio, mas cada um de nós tem uma abordagem diferente e ainda bem! No que me diz respeito, insisti na recolha de testemunhos e, desde há uns quinze anos, dedico-me à organização de um vasto estudo destas literaturas do ponto de vista linguístico.

P - Sei que conhece Luís Kandjimbo, diplomata e crítico literário angolano, que é também membro da APELA, a associação francesa de críticos, professores e investigadores. Porquê que a literatura angolana é, ainda assim, tão pouco conhecida na França?

R - As literaturas estrangeiras provenientes dos países "ricos" têm maior aceitação... No entanto, alguns escritores angolanos foram traduzidos nestes últimos dez anos, e conseguiram encontrar um caminho nesta parte da Europa - Pepetela, Manuel Rui, Agualusa ou Luandino Vieira...

P - Que escritores angolanos julga de maior visibilidade na Europa, e qual poderia apontar como candidato luso-africano ao Nobel da Literatura?

R - Os que acabo de citar, porque tiveram a possibilidade de ser traduzidos e, em particular, Luandino Vieira que tem já cinco títulos publicados em França. No entanto, tenho que lhe dizer que não aprecio muito essa corrida ao prémio Nobel... Vê-se claramente que os critérios não são "puramente" literários. A componente política tem bastante peso...

P - Falando em Nobel de Literatura, por que será que os mais recentes laureados são críticos dos seus regimes, escritores inconformados com a realidade dos seus habitats e alguns mesmo exilados dos seus países?

R - Talvez tenha a ver com a preocupação política a que acabo de me referir. Tenho a impressão de que, para o júri do Nobel, a literatura funciona como uma maneira de se dar boa consciência: a Europa do Norte julga o resto do mundo, querendo mostrar-se equitativa...

P - Nos encontros de críticos literários de que participa, também tem a impressão de que a literatura africana de expressão inglesa tem maior aceitação na Europa?

R - Se considerarmos o problema do ponto de vista da língua, é óbvio que estas literaturas têm um avanço considerável... Depois, há o peso que certos escritores como Wole Soyinka, Chinua Achebe, Coetzee, Nadine Gordimer, etc. têm internacionalmente...

P - Apesar da constante investigação que vem realizando, que aspectos julga pertinente serem abordados acerca da evolução e futuro da literatura angolana?

R - Parece-me pertinente orientar a pesquisa a partir da temática e da forma ou estilo - por exemplo, estudar a evolução do tratamento do tema da mulher na literatura angolana, ou a história, a visão da natureza, ou o lirismo...

P - Durante as suas conversas com escritores leu, como é natural, obras de escritores angolanos. Que "artifícios" utilizou para entender a linguagem peri-urbana de muitos autores?

R - O único "artifício" foi a leitura, mas uma leitura "dinâmica", sabendo que os obstáculos linguísticos iriam desaparecendo... A partir de certa altura, compreendi que esta linguagem seria um tema importante de pesquisa e, portanto, introduzi no computador todos esses "desvios"... Organizei questionários que apresentei aos autores e, com as respostas de cada um que fui gravando, compus um léxico de milhares de entradas que espero um dia vir a publicar.

P - Muitos escritores angolanos tiveram como ponto de partida para a vida literária a obra de Guimarães Rosa. Hoje, é cada vez mais frequente a omnipresença de Luandino Vieira. Que análise faz deste grande nome da literatura angolana?

R - De facto, soube inspirar-se de Guimarães Rosa sem por isso perder de vista o contexto angolano. Por outro lado, numa entrevista de 1977, declarou que não queria, enquanto escritor, ter a preocupação de "escrever para o povo": "um escritor não deve embarcar na ideia de que a literatura tem que «descer a»". A literatura não podia portanto confundir-se com as indispensáveis e urgentes tarefas de alfabetização, domínio da actividade cívica e não da literatura... A liberdade de criação artística devia ser preservada.

P - Debateu-se, durante certo tempo, a questão da "nacionalidade literária". Será, na sua opinião, literatura angolana aquela que é escrita com a gíria local, ou o critério é a nacionalidade do escritor?

R - Entendo que o problema da nacionalidade literária possa ter a sua importância num país novo. No entanto, penso que não é uma noção crucial. Ao longo da história da literatura encontram-se muitos escritores transnacionais, como por exemplo, Kafka, Joseph Conrad ou Beckett... A obra de um escritor pode pertencer a vários países, não é muito relevante.

P - José Eduardo Agualusa, escritor angolano, considera-se luso-afro-brasileiro, porque escreve com base nestas três realidades, apresentando-as cumulativamente na sua obra. Estamos em presença de "escritores itinerantes" ou de uma nova categoria de escritores de escala "global"?

R - Agualusa inscreve-se precisamente na categoria de que acabo de falar, dos escritores que poderiam ser considerados transnacionais. Será por isso menos angolano?

P - Sei que defende, a propósito do que é obra angolana ou não, o estudo da obra de Cadornega, historiador do século XVII, no seu As guerras angolanas. Outros historiadores, como David Birmingan, também debruçam-se sobre Angola. Devem os escritores buscar estes subsídios para os seus livros?

R - Claro, é muito interessante conhecer os documentos do passado, mas, para dizer a verdade, não gosto muito de dizer que um escritor deve... Cada um envereda pelo seu próprio caminho.

P - Está em curso a preparação para a redacção da História da Literatura Angolana. Que apontamentos deixa para aqueles que terão esta nobre e importante tarefa?

R - Só posso esperar que esta seja suficientemente crítica.

P - Que relatório pode fazer, passada mais de uma década, das traduções a obras de escritores angolanos?

R - Aqui vão os escritores angolanos já traduzidos em França. Para a prosa: Castro Soromenho (Terra morta); Manuel Rui (Quem me dera ser onda); Pepetela (Yaka; O desejo de Kianda; Jaime Bunda, agente secreto); Luandino Vieira (A vida verdadeira de Domingos Xavier; No antigamente, na vida; Nós, os do Makulusu; João Vêncio: os seus amores; Estória da galinha e do ovo); José Eduardo Agualusa (Nação crioula; O vendedor de passados); Arnaldo Santos («O morro de Salalé»). Para a poesia: Agostinho Neto (Sagrada esperança); e, em antologias: Arlindo Barbeitos, Ruy Duarte de Carvalho, Jofre Rocha, Ana Paula Tavares... É claro que esta lista deveria ser maior; seria necessário preparar, em particular, uma antologia tanto do conto como da poesia.

P - Por outro lado, é autor de várias entrevistas a escritores moçambicanos. Aliás, parte do acervo disponível sobre eles em parte deve-se a si. Que razões levaram-lhe a desenvolver este trabalho quase sem fim pelos países africanos de expressão portuguesa?

R - Até agora publiquei oito volumes de entrevistas com escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, todos eles editados pela Fundação Engenheiro António de Almeida, do Porto. O que me motivou foi, em primeiro lugar, a minha curiosidade pessoal. Dei-me conta, depois, de que as primeiras entrevistas que fiz (com Luandino Vieira) foram várias vezes citadas - o que me encorajou a continuar. No fundo, sentia que era preciso não perder tempo, pois estávamos numa época decisiva para a formação destas literaturas africanas.

P - África tem uma forte tradição na literatura oral. De que forma a cultura africana tem penetrado no universo europeu, ao nível das suas literaturas?

R - A literatura africana entrou em França a partir do romance Batouala, escrito paradoxalmente por um guianês, René Marant, e que obteve em 1921 o prémio Goncourt. Mais tarde, o movimento da negritude voltou a acordar as consciências. É preciso acrescentar que a editora Présence Africaine primeiro, e depois as editoras l'Harmattan e Karthala, tiveram um papel importante na divulgação dessas literaturas e de algumas traduções orais de África.

P - Os poemas de amor, diz-se, têm outro cariz quando ditos em francês. Concorda?

R - Penso que é uma ideia feita!

P - Fala com igual fluência o português e o inglês. A literatura inglesa, sobretudo a prosa, mais apreciada tende a ser a de viagem, composta por ficções fantásticas ou aventuras. Como a avalia?

R - Aqui engana-se! Não domino suficientemente o inglês.

P - Já é sabido que a literatura angolana é a mais pujante de entre os PALOP. O que contribui para este êxito?

R - Em primeiro lugar, Angola foi a colónia em que a presença colonial foi mais forte, o que certamente levou à criação de mais escolas. Em segundo lugar, vários nacionalistas foram também escritores. Por fim, cabe salientar a política dinâmica da UEA, que facilitou os primeiros passos de muitos escritores.

P - Que dizer da obra de Mia Couto, um escritor cuja presença em Portugal deu-lhe maior visibilidade?

R - É indiscutível que Mia Couto tem um grande poder criativo ao nível da língua, mas também tem o mérito de pôr essa capacidade ao serviço da crítica de vários aspectos da sociedade de Moçambique. Construiu uma obra densa.

P - Que importância atribui às bolsas de criação literária no desenvolvimento da literatura de dado país?

R - Como em qualquer domínio, a abertura e o contacto com outros horizontes são sempre positivos.

P - Uma última palavra sobre a cultura e a literatura africanas...

R - Mesmo se me limitasse àqueles que desapareceram, a lista dos pesquisadores (Cordeiro da Matta, Carlos Estermann, Óscar Ribas, Henri Junod, Elsie Parsons, António Carreira, Manuel Ferreira, etc.) e dos escritores (Viriato da Cruz, António Jacinto, Agostinho Neto, Castro Soromenho, José Craveirinha, Rui Knopfli, Francisco Tenreiro, Baltasar Lopes, Manuel Lopes, Teixeira de Sousa, etc.) que admirei e que contribuíram para a minha formação seria bem comprida. Para resumir, lembrarei um provérbio que encontrei no Missosso (vol. 1) de Óscar Ribas: «Njila ia kiiadi, kiaibê. // Caminho andado por dois, desagradável não é. // A companhia é proveitosa».

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