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"Sou um Homem do Mato"

Escrito por  Jacinto de Lemos

Entrevista de: Isaquiel Cori

Autor de três romances, Jacinto de Lemos é sempre ansiosamente aguardado pelo público. Dono de uma escrita versátil, popular, os seus temas giram em torno da infância e dos conflitos gerados pela crença no feitiço. Undengue (UEA) mereceu, em 1986, menção honrosa no concurso Sonangol. O Pano Preto da Velha Mabunda (INALD, 1999) foi adaptado ao teatro e esgotou-se rapidamente, tornando-se numa raridade bibliográfica. O seu mais recente livro é A Dívida da Peixeira, prémio Sonangol em 2002. Conceição Cristóvão, poeta e ensaísta, escrevendo sobre Jacinto de Lemos disse que «entre os escritores da nova geração temos um verdadeiro «operário» da palavra, um «griot», um prosador de palavra simples, límpida, fluindo como a água da fonte». Jacinto de Lemos, nascido no Bengo aos 21 de Janeiro de 1961, fala, aqui, de si mesmo («sou um homem do mato») e do feiticismo, a sua temática preferencial. Refere-se, igualmente, à sua condição de escritor profissional.

 

P - Quem é o cidadão e escritor Jacinto de Lemos? Como é que se auto-recomenda aos leitores?

R - Jacinto de Lemos é um cidadão que veio do mato, da área de Catete, duma sanzala chamada Guimbe. Lá fez a 4.ª classe e veio a Luanda para continuar os seus estudos. Nós, que já tínhamos uma certa visão das coisas, da importância dos estudos, não nos inclinávamos muito aos trabalhos do campo. Queríamos ser profissionais nas oficinas, escriturários ou funcionários públicos. Isso é o que nos levava a sair do mato para a cidade de Luanda.

P - A vida no mato era muito dura?

R - Tão dura que os nossos próprios pais não nos aconselhavam a continuar no mato. Era uma vida retardada. Não havia escolas senão as primárias, nem profissões que garantissem o futuro. Os nossos pais sabiam que a vida que levavam era muito diferente da da cidade. Daí que eles lutassem e incentivassem mesmo os filhos a partirem para a cidade.

P - Com que idade vem a Luanda?

R - Que eu me lembre, tinha 15/16 anos.

P - Instalou-se em que bairro?

R - Morei na comissão do Cariango (hoje Tala Hady) em casa de uma irmã. Fiz a 4.ª classe numa escola particular no bairro Anangola. Mas acontece que as escolas particulares não eram reconhecidas. Tive de voltar ao Guimbe, onde então já tinham sido criadas escolas oficiais. Recomecei os meus estudos primários a partir do zero. Quando volto a completar a 4.ª classe, regresso a Luanda.

P - Como era o ambiente no bairro em que vivia, em Luanda? Será que o seu livro Undengue é o retrato fiel daquela época?

R - De certo modo, é. Só não retrata na totalidade porque sendo o primeiro livro, como sabe, o autor ainda não tem a experiência suficiente e nem todos os pormenores estão lá. Porque senão teria feito muito mais e melhor e o livro estaria muito mais rico. Muita coisa que eu pus de lado, por pensar, na altura, que não valia a pena, hoje penso que deveria estar lá no livro.

P - A vida, no musseque, como era? Iam muitas vezes ao centro da cidade?

R - Nós íamos à praia, sobretudo no tempo das mabangas. Quando se conseguia dinheiro tinha de se comprar calçado, porque os brancos não permitiam que nenhum preto andasse nos machimbombos e na cidade descalço.

P - Na sociedade angolana actual, o feitiço, ou melhor, o feiticismo, tende a ganhar contornos alarmantes, com todas as suas consequências funestas. Acredita que no tempo colonial essa questão era mais presente do que agora?

R - Naquele tempo era mais presente. As cenas que ouvia, naquele tempo, sobre feitiço e feiticeiros, hoje já não se ouvem. E mais ainda, para além de ouvir contar, assisti a muitas cenas que envolviam feiticeiros. Hoje já não oiço nem vejo cenas como aquelas. Alguém me disse que isso se deverá ao facto de eu hoje ter alcançado um certo nível, uma outra visão das coisas. Talvez.

P - Crê que o nível de educação das pessoas tem muita influência na crença ou não no feiticismo?

R - Não é pela educação. As questões de feitiço, batuques, os rituais dos óbitos, etc., fazem parte do fundo da nossa cultura, da nossa identidade, da nossa civilização. A educação só obedece às regras dessa cultura. Com o fim da guerra, acredito que todas essas questões virão ainda mais ao de cima, com todas as suas consequências.

P - Sei que tem um tio kimbandeiro. Como tem sido a sua relação com ele? Ele tem vindo a influenciar a temática dos seus livros?

R - Não muito, porque os meus trabalhos já atingiram um nível muito superior aos dele. Aliás ele fica pasmado com muitas das estórias que eu conto. Ele tem me ajudado, tanto que em tempos atrás falei-lhe de "matite", feitiço de lutar e título de um dos meus livros inéditos. Ele revelou-me que "matite" também é o nome de uma planta medicinal que existe em Malange.

P - No tempo colonial, nos musseques, as pessoas brigavam muito e havia até os que recorriam ao feitiço para aumentar as suas forças. Esse é o tema do seu livro?

R - Sim, naquele tempo era raro as pessoas segurarem em armas de fogo nas suas brigas. Estavam muito divulgados os feitiços para lutar e para conquistar os corações femininos. Tenho um livro, também inédito, Maria Nogueira, cujo tema gira à volta do feitiço do namoro. Havia jovens que já estavam no Liceu e que também recorriam ao feitiço. O uso do feitiço estava na moda, era uma forma de se alcançar a fama.

P - Pessoalmente, acredita que a crença no feitiço pode realmente modificar a vida das pessoas?

R - Nunca se faz algo sem uma crença. Quando não se acredita é difícil fazer as coisas positivamente. É preciso acreditar para que as coisas resultem. Os mais velhos diziam que "o feitiço é o coração que a pessoa traz". O que se vai buscar ao kimbandeiro é simplesmente um complemento.

P - Os personagens dos seus romances são normalmente figuras do povo, pobres. Isso tem a ver com as suas próprias origens?

R - As histórias, como são reais, os personagens também são reais. Como não mudo nada, os personagens são como são.

P - As histórias dos romances que até aqui publicou desenrolam-se todas no tempo colonial. Quando é que teremos um livro seu com uma história do nosso tempo?

R - É só uma questão de publicação. Por exemplo, o livro, inédito, Muá Rangel é um romance que conta uma história recente, que se passa no ano em que se assinaram os Acordos de Bicesse (1992). Há uma outra obra, Maka Vai, Maka Vem, que tem a ver com a remoção da praça da Calemba. E outras.

P - Outro aspecto que domina a sua obra é a linguagem dos musseques. Vai continuar na mesma senda?

R - Penso continuar. É o estilo que me cativou e tem muito a ver com o tipo de personagens das minhas histórias. Tenho uma grande simpatia por esse tipo de linguagem e vou defendê-la a cem por cento. Daqueles que também assim escreviam, Luandino Vieira, Jofre Rocha e Jorge Macedo, há muito que não publicam e Boaventura Cardoso mudou sensivelmente o tipo de linguagem. Estou a preparar um dicionário com o título Mussequeiro, que vai reunir os termos típicos dos musseques de Luanda de ontem e hoje. Esse dicionário poderá vir a público no próximo ano.

P - Nos seus livros, há muitas cenas hilariantes, de um humor quase anedótico. Isso chega a parecer paradoxal, se considerarmos que você é uma pessoa pouco expansiva.

R - Eu quando escrevo sou outra pessoa. Há duas pessoas dentro de mim. Uma age como escritor e a outra como cidadão comum. No momento de escrever, transporto-me para locais que nunca pisei. Tenho consciência de que devo aproveitar esses momentos, por isso escrevo muito, muito. Se um dia esses momentos estranhos não me acontecerem, será um fracasso para mim, enquanto escritor. Por exemplo, quando escrevi A Dívida da Peixeira, os meus filhos são testemunhas, eu às vezes parava, metia as mãos na cabeça e punha-me a chorar, com gestos da Maria Simão ou da Rosa. Depois voltava a escrever.

P - Você encara o acto de escrever, de criar, numa perspectiva mística, divina? O acto de criar arrebata-o completamente?

R - Sim. Em pleno acto de criação transformo-me no personagem, vivo o personagem. Convivo com eles muito tempo porque levo muito tempo a amadurecer as minhas histórias.

P - Chega a fazer um esquema da história no papel?

R - Não. Quando tenho a história bem amadurecida na cabeça conto-a a confrades amigos. E, na medida que a vou contando, se observo que ela causou um bom impacto nas pessoas, então chego à conclusão de que já a posso meter no papel.

P - Quais são os escritores angolanos que mais admira?

R - Em princípio, admiro todos. Mas respeito particularmente Óscar Ribas e António de Assis Júnior. Quanto ao estilo de linguagem, tenho um grande respeito por Luandino Vieira, Jofre Rocha, Jorge Macedo e Boaventura Cardoso, bem como Uanhenga Xitu.

P - Acha que os escritores angolanos têm sido devidamente dignificados pela sociedade e até mesmo pelas instituições do poder?

R - O escritor angolano está no esquecimento, ninguém se lembra dele e acaba por ser um pedinte, o que é uma vergonha para este país. É lamentável.

P - Sabemos que vive exclusivamente da literatura. Como é isso possível? Fale-nos da sua experiência nesse aspecto...

R - Quando vim a Luanda, continuei a estudar. Depois da independência, vieram as bolsas de estudo. Fiz muitas tentativas para conseguir uma delas, mas não consegui. Então recorri à literatura. Fiquei fechado durante quase dez anos, a escrever e a rasgar, a rasgar e a escrever. Tive a sorte de receber uma menção honrosa no primeiro concurso Sonangol de literatura, em 1986, com o livro Undengue. Até então, tudo para mim estava perdido. Eu vim do mato para estudar e você deve imaginar a complexidade de um indivíduo que vem do mato. A sua tábua de salvação é a formação. Eu não consegui isso e agarrei-me à literatura. Fui trabalhando, trabalhando e esqueci-me de tudo. Coloquei na mente que a literatura é a única coisa que me vai dignificar. Um dia, quando a literatura me dignificar, vou dar um espaço para aumentar os meus conhecimentos académicos. Até aqui, nunca dei espaço nem tempo a outra coisa que não fosse a literatura. Fui vivendo da literatura comendo ou não, tendo sempre em mente que a literatura me vai salvar. Por outro lado, se isso é novidade na sociedade angolana, a verdade é que alguém tinha de dar esse passo.

P - E até aqui tem dado para viver, para sustentar e educar os seus filhos?

R - Dá. Isso é como tudo. Não tive grandes oportunidades na vida. Veja: se deixar de escrever, o que é que vou fazer na vida? O meu problema é precisamente esse. Eu não tenho pão, abandono a literatura, vou buscar pão aonde? Não abandono a literatura. Tive problemas com a mulher, com a família... Alguns parentes propuseram-me um emprego como protecção física num banco. "Vai trabalhar, vai trabalhar, o livro não dá nada, nunca te vai dar nada", diziam-me. Isso depois de ter passado por muitas, que aqui não vou contar. Todos diziam-me que eu era muito teimoso. Eu próprio às vezes paro e pergunto a mim mesmo o que é que eu quero com a literatura, o que é que eu quero na vida.

P - Você é um escritor de sucesso, até porque os seus livros têm sido premiados e esgotam-se no mercado. É uma pena que o mercado do livro ainda não dê para sustentar os autores...

R - Tirando os meus filhos, só Deus sabe onde tenho passado quando escrevo. Não escrevo para hoje mas para amanhã.

P - Uma pergunta curiosa: porquê que você só se veste de branco, as paredes do seu apartamento e o tecto são brancos bem como o seu carro? Porquê essa fixação pela cor branca?

R - A cor branca para mim tem um grande significado. Andar todo de branco faz-me sentir tão bem que já me sinto mal cobrir-me com um lençol de cor. Grande parte dos meus familiares gosta muito da cor branca. A minha mãe habituou-me a essa cor desde criança. Essa opção não tem nada a ver com motivações religiosas. Tudo o que faço faço-o com muita tranquilidade por causa dessa cor. É uma cor que me protege já que sou apaixonado pelas coisas misteriosas, óbitos, kimbandas, etc. Quando tenho em mãos uma obra que trate de feiticeiros vou normalmente a um kimbandeiro.

P - Vai ao kimbandeiro na condição de pesquisador?

R - Exacto. Vou e sou bem recebido, é uma coisa bonita. Em 1992, fui atrás da história de um rio, em Porto Amboim, Xige ya Mbumba. Segundo dizem, se uma mulher mergulha naquelas águas nasce-lhe um sexo masculino. Posto lá, um amigo, fazendeiro, apresentou-me a um dos seus trabalhadores dizendo tratar-se de um "nganga".

P - «Nganga»?

R - Sim, "Nganga", um homem que bate os feiticeiros. O meu amigo garantiu-me que se eu quisesse saber como é que um feiticeiro bungula (dança) era só acertar com o tal "nganga". Isso encantou-me. Conversei com "nganga", que me convenceu que, durante a noite, com as suas práticas, poderia atrair os feiticeiros e eu poderia vê-los a bungular. Eu disse, é pá, tenho de ir a Luanda buscar câmaras para filmar tudo. Infelizmente, quando cheguei a Luanda, rebentou a guerra pós-eleitoral e não pude voltar. Perdi. O "nganga" já não existe, morreu.

P - Felizmente a guerra acabou. O que é que a paz lhe sugere?

R - Angola tem de proteger as crianças, que são o seu próprio futuro. Há que, também, reconhecer, recolher, todos os quadros angolanos, aliciá-los com ofertas fabulosas, enquadrá-los devidamente, até aos que ainda se encontram no estrangeiro.

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