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«É Preciso Cimentar as Nossas Raízes»

Escrito por  António Pompílio

Entrevista de: Isaquiel Cori

António Pompílio é um dos escritores que se revelaram nos anos 90 e cuja obra, poética e ficcional, silenciosamente concita a atenção de uma crítica que infelizmente não vamos tendo. Autor dos livros O sal dos olhos do mar, poesia, UEA, 1997, Simetrias, poesia, UEA, 2004, e Mambelé, novela, UEA, 2005, Pompílio tem, no prelo, Mutudi, a Dama de Ventre de Fogo, que, segundo o próprio, «é um romance de raízes etnolinguísticas que aborda as questões dos rituais fúnebres e obituários existentes em Angola».

 

A sua poesia é marcada pela lírica mas cada vez mais ele, audaciosamente, sobretudo no seu segundo livro, envereda pela busca de novas formas expressivas, ao mesmo tempo que apresenta uma viva e pujante mensagem de inconformismo. Mambelé, a sua novela, é a estória das peripécias vividas por uma criança, escrito de uma maneira tão simples, com a incorporação "natural" da coloquialidade das ruas e do dia-a-dia de Luanda, que levou o escritor Henrique Abranches a considerá-lo "um exemplo daquilo que é a literatura angolana". Na presente entrevista, António Pompílio dá-se a conhecer aos leitores quanto ao seu percurso biográfico e literário e ainda quanto às suas ideias a respeito de temas vários da vida cultural de Angola e não só. "Temos o direito e o dever de fugir da cegueira que nos cerca. Em Angola há um campo vasto, aberto e virgem para a investigação e para a pesquisa científica."

P: Quem é, ou melhor, como se autodefine o cidadão António Pompílio?

R: António Pompílio é um cidadão comum. Nascido nesta riquíssima terra, Angola, há 40 anos.

P: Pode falar-nos um pouco do seu percurso literário inicial? Como interessa-se pela literatura, quais os meios literários que frequentou, que tipos de livros mais o marcaram inicialmente?

R: Comecei a escrever muito cedo. Sabe, naquele tempo do ensino primário, os professores obrigavam-nos a fazer muitas redacções. Tinha 10 anos quando comecei a escrever poesia, na altura entregava ao meu avô, Numa Pompílio Pompeu da Silva, que era jornalista, para ler e avaliar. Ele dizia-me para continuar e para ler mais. De facto, assim o fiz e tenho feito durante todo o percurso da minha vida. Agora, que tipo de livro me influenciou? Penso como o escritor António Ramos Rosa: "Todo o escritor é influenciado duma maneira ou de outra pelas leituras que faz". Se não fossem os vários livros que li, certamente não escreveria a poesia que faço. Dos grandes clássicos reconheço como influência, sem dúvida, Shakespeare e Guy de Maupassant, este último um mestre da narrativa, sobretudo do conto. Escrevo normalmente à noite. O acto de escrita, por ser nobre, exige uma certa tranquilidade espiritual e física. E, muitas das vezes, se possuímos uma falta-nos a outra. Então paramos, como se estivéssemos à espera de algo catalisador. Eu quando era mais jovem lia por temas e uma das coisas que me interessava era a psicologia e a parapsicologia. Li muitos livros sobre isso. Depois enveredei para a cosmologia, a astrologia. A questão do tempo sempre me fez pensar muito. Normalmente lia três a quatro livros ao mesmo tempo, compreende, separadamente. Como agora, por exemplo, estou a ler dois livros ao mesmo tempo: Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Dan Brown, O Código Da Vinci. Quanto a influência de amigos há sempre histórias a contar.

P: Sabemos que durante algum tempo viveu em Portugal. Pode falar-nos dessa sua vivência e do quanto e em que medida esta terá influenciado a sua maneira de encarar a criação literária?

R: Agora, vou-lhe contar a história deste meu amigo que se chama Maló. Estava eu com a minha mãe, quando ele ia a passar por nós e cumprimentou-nos. A minha mãe disse-me logo: "Ó Toni, como consegues lidar com esta gente esquisita? O homem parece um maluco". Eu disse: "Não, mãe. Ele é jornalista". Ele realmente tinha uma barba muito comprida, parecia o Mao Tse Tung. Era Inverno e estava calçado de socas. Levava uma sacola ao ombro e no braço direito um entulho de jornais e revistas: era O Expresso. Ele sabia que eu gostava de escrever e ler, e no dia seguinte foi a minha casa. A minha mãe abriu-lhe a porta, e ele entregou à minha mãe um livro para mim. O livro chamava-se Teresa e Isabel, de Violet Leduc, que foi censurado durante duas décadas. Só em 1960 o livro foi posto ao público. Um livro lindíssimo, que conta a história de duas adolescentes que se apaixonam. Narrado com uma suavidade extrema, uma linguagem coloquial e apaixonante. Nunca mais deixei este livro e até hoje ainda o tenho. Isto aconteceu em Lisboa em 1984. A minha mãe depois disse-me: "Ele parece maluco, mas é muito educado". Na verdade, o Maló já tinha começado a ler os meus escritos. Na altura, estava a escrever um romance e dei-o a ler. Chamava-se A Casa de Viana, que eu pessoalmente gostaria de ver editado. Porque embora esteja já escrito há vinte anos, mantém a sua mensagem. E isto me cativa. Agora mudei o título para O Pequeno Burguês. O Maló fez as suas críticas e ofereceu-me duas caixas de livros. Todos novos, eram mais de trinta livros, com a chancela da editora Águia. Imagine a minha satisfação. A minha mãe nunca mais falou uma coisa má sobre ele.

P: Simetrias, o seu segundo livro, revela um grande trabalho de oficina, uma preocupação enorme pela busca de novas formas expressivas. Está satisfeito com os resultados que conseguiu neste livro? Qual é precisamente o seu ideal de inovação no campo da poesia?

R: Estou satisfeito, embora todo o trabalho seja inacabado. Porque a pesquisa de novas formas e simbolismos não cessa. É preciso cimentar as nossas raízes, ir ao encontro da poesia tradicional angolana, mais precisamente na sua estrutura oral, e passá-la para novos modelos de afirmação da forma, para podermos ultrapassar fronteiras e as normas literárias. Isto pode ser feito através da poesia experimental.

P: Sabemos que depois da novela Mambelé dará à estampa um outro romance. Pode falar-nos desse romance?

R: Tenho três romances acabados. Mas sairá o último, que demorou três anos a escrever. Chama-se Mutudi, que em kimbundu significa viúva. Mutudi, a Dama de Ventre de Fogo, é um romance de raízes etnolinguísticas que aborda as questões dos rituais fúnebres e obituários existentes em Angola. Um tema quente com uma pitada de humor.

P: Mambelé terá continuidade. Acha que ainda não esgotou a exploração temática desse personagem?

R: Mambelé como personagem principal terá continuidade. É meu desejo fazer uma série, ou seja, um conjunto de novelas com temas diferentes e actuais. O segundo tomo tem o título de O Herdeiro, onde o personagem principal herda de forma dual: uma herança financeira e outra de feitiçaria.

P: Como vê a literatura angolana hoje? Acredita que ela está bem servida em termos de qualidade?

R: A literatura angolana está a crescer. Estou satisfeito porque apareceram novos escritores que podem contribuir para o enriquecimento da nossa literatura. E neste sentido a União dos Escritores Angolanos tem feito o melhor. Repare que a UEA publica vinte e dois títulos anualmente. É um trabalho sério que temos que honrar, o digníssimo trabalho do actual Secretário Geral, de apoiar os jovens criadores. Agora, em termos de qualidade, é necessário afirmar que em toda a parte do mundo há boa e má literatura. Mas é preciso que ela surja para podermos avaliar a qualidade literária. Aí recai o ponto crítico das coisas. Porque é necessário termos gente capaz, especializada, que possa fazer este labor criativo. Porque a crítica literária é também criativa. Note que são muito poucas pessoas a fazê-lo.

P: Qual será o grande desafio que se impõe à literatura angolana, e mais concretamente aos escritores, hoje?

R: Como fiz menção anteriormente, a literatura angolana precisa transcender, passar para fora das suas fronteiras. Mas antes de tudo é necessário primeiro que as literaturas oral e escrita sejam bem difundidas dentro do país. E isto, para além de ser um trabalho do escritor, é uma missão da sociedade, levá-las a todos os pontos do país e difundi-las no mundo. E precisamente os escritores têm esta função também de unificar sensibilidades, despertar consciências para o desenvolvimento do país e para termos uma Nação aonde cada cidadão se identifique com a sua cultura.

P: Depois da guerra, o país inteiro está aí, completamente exposto à curiosidade e à pesquisa. Sobretudo a nova geração de escritores tem a oportunidade soberana de estender o seu campo de observação e de vivência ao país inteiro. Pessoalmente o que pensa desta acessibilidade do país inteiro?

R: Eis a grande oportunidade de todo o angolano. Temos o direito e o dever de fugir da cegueira que nos cerca. Em Angola há um campo vasto, aberto e virgem para a investigação e para a pesquisa científica. Temos a oportunidade de dar o salto para o desenvolvimento. Um país cresce com os homens. É preciso cada vez mais o angolano angolanizar-se. As instituições afins devem criar condições para permitir o estudo em todas as áreas da ciência.

P: Internet, de algum modo, pode dar mais-valias à literatura angolana? Como é que lida pessoalmente com a Internet?

R: Infelizmente a Internet é de acesso ainda restrito. Nem todos têm a possibilidade de acedê-la. Mas não deixa de ser um dos caminhos para a divulgação da informação e do conhecimento. Deveria haver Internet em todas as escolas do país. Mas isto, como se sabe, ainda é um sonho, um sonho adiado indefinidamente.

P: Mambelé foi saudado pelo já falecido escrito Henrique Abranches como um dos exemplos daquilo que é a literatura angolana. No seu entendimento o que é precisamente literatura angolana?

R: Literatura Angolana posso defini-la como o modus dizenti do angolano. A nossa forma de falar é muito expressiva e diferente das demais. Bonita. A língua portuguesa falada em Angola é muito criativa e já demos várias contribuições para o enriquecimento da língua portuguesa, que é um património também nosso. Como sabe, a língua é um instrumento instável, ela é mutável. A arte coloquial no discurso textual é uma norma que há muito tem sido utilizada. Isto não surge por um acaso. É uma acção de maior liberdade da palavra escrita. Note que o modernismo tem essa característica. A introdução de neologismos de línguas nacionais no português contribui para o enriquecimento da própria língua. Aliás, é bem sabido que certos autores escreveram deste modo como forma de contestação aos cânones ocidentais. Sucedeu no Haiti, nos países do Magrebe, como também nos países de expressão portuguesa. Veja como escrevem Luandino Vieira e Mia Couto. E como a literatura cabo-verdiana, por exemplo, se notabilizou com vários escritores que introduziram o crioulo nos seus poemas e nos seus romances. Repare o romance de Manuel Lopes, Flagelados do Vento Leste. Na literatura angolana acontece a mesmíssima coisa, é às vezes a dinâmica da própria língua que define estes parâmetros.

P: Quando pensa no futuro da literatura angolana, o que é que mais o preocupa?

R: Sinceramente, me preocupam as condições de vida de alguns escritores. Uns não têm casa, vivem mal. Não existem políticas de incentivo para a criação literária, os livros são caríssimos e poucos lêem. Os escritores escrevem sem nenhuma recompensa monetária, ou seja, não existem escritores profissionais no país. E isto é muito mau, quando se quer desenvolver a cultura de um país. Tem-se dito que um país faz-se com homens e livros.

P: Quais são os grandes desafios que na sua opinião a República de Angola enfrenta neste momento?

R: Angola, neste momento, enfrenta um desafio irreversível. Em primeiro lugar, o estabelecimento da paz e da reconciliação nacional. Eu tenho dito que o Governo deveria estabelecer uma política juvenil de Estado. Segundo, apostar fortemente na cultura e na educação. Estes são factores importantes no desenvolvimento de qualquer país. Repare que a maioria da população angolana tem menos de vinte anos de idade. E é esta massa juvenil que pode impulsionar o país para a frente, se de facto o Estado der oportunidades de emprego, de formação e de instrução a estes jovens, ou seja, se garantir condições sociais, der habitabilidade aos sem teto para o melhoramento da qualidade de vida; estou certo de que Angola será [assim] em poucos anos um grande país na região austral. É necessário muito trabalho.

P: Círculos muito avançados da consciência feminina mundial hoje não se contentam tão somente com o alcance da igualdade de género mas reivindicam já a inversão dos papéis do pai e da mãe nas famílias. Quer comentar?

R: Em África, como sabe, as mulheres sempre desempenharam um grande papel e contribuíram na formação ideológica da comunidade. A rainha de Sabá, a nossa rainha Njinga, por exemplo. É preciso reparar que as famílias ocidentais são normalmente de linhagem paterna. O pai é o chefe da família e é o agente de decisão. Em África, as famílias são geralmente de linhagem materna e o nosso conceito de família é muito mais alargado. Não se trata de inversão de papéis, mas sim de dar maior abertura à intervenção da mulher na sociedade. Em todo mundo, as mulheres continuam na mó de baixo. Ganham menos que os homens, participam em menor percentagem na vida sócio-política do país. E isto é um grande erro. Já existe uma maior abertura, embora ainda ínfima. É preciso termos mais mulheres no centro de decisões e não é a afastá-las que ficaremos mais homens e elas menos mulheres. É necessário repartir tarefas. Acho que cada um sabe o seu lugar. Eu não posso gerar, mas no entanto posso tomar conta do meu filho. E isto não é machismo.

P: Enquanto cidadão de um país africano, algo na sua experiência pessoal e na sua percepção lhe faz realmente crer que exista possibilidade de integração económica e política dos países deste continente?

R: A integração económica depende da política de cada Estado. O grande problema de África está na conjuntura de certos países, o desnível económico não possibilita a criação de uma integração política e económica eficaz. Quase todos os países de África são subdesenvolvidos, com grande parte da população a viver com menos de 1 dólar por dia.

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