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Entrevista de Ana Paula Tavares concedida à Claudia Pastore.

Escrito por  Ana Paula Tavares
A poesia angolana pode ser abordada como uma poesia de gênero?

A poesia angolana pode ser abordada como uma poesia de gênero?

R. Até muito pouco tempo, isto não era preciso. A voz da mulher realmente não tinha uma identidade, embora houvesse vozes femininas que tinham construído seus trabalhos em determinados momentos, como a poesia sobre a terra... Mas eu penso que essas mulheres, incluindo dentre elas Alda Lara, não tinham ainda uma consciência das particularidades do "eu feminino" dentro daquele universo. É muito difícil nós falarmos da poesia de gênero, pelo menos até certa época, até certo ponto, com relação à poesia angolana escrita por mulheres.

P. Dentro da poesia de gênero, ela deve ser tomada como lugar específico no espaço e no tempo?

R. Sim. É muito recente este fenômeno de haver uma consciência do "eu feminino" e uma tentativa de reivindicar este espaço que ele comporta. Mas também não podemos interpretar, mesmo em relação às novas tendências, mesmo em relação à coisas que surgiram há pouco tempo, não podemos interpretar isto como uma poesia de gênero. Digamos que algumas mulheres, sobretudo a partir dos anos 80, começaram a deslocar o centro onde o sujeito poético estava muito fincado. Então, há uma poesia que surge falando da problemática de ser mulher numa sociedade africana como a nossa.

P. Mas não necessariamente uma poesia feminista...

R. Não.

P. Existe algum tipo de preconceito com relação à poesia escrita por mulher em Angola?

R. Não. Não existe assim generalizado. Não existe esse preconceito. Há preconceito em relação à poesia em geral. Por outro lado, a poesia e a escrita ainda funcionam como um argumento poderoso, contestatório. O escritor possui um estatuto muito particular naquela sociedade.

P. Aqui no Brasil, a poesia é vista como um gênero menor. Em Angola também?

R. Lá também acontece. De tal maneira que eu penso que alguns escritores que se iniciaram como poetas e, mais tarde, perambularam como contistas, acabaram por percorrer o caminho do romance, como se o romance fosse o único gênero que desse um estatuto ao escritor.

P. Como também com relação ao mercado. O romance é mais veiculado...

R. É claro. Não há uma idéia de marketing, da política das editoras, mas há no início uma idéia... Ocorre como se a pessoa tivesse que fazer um concurso e depois atingisse um estado de maioridade no momento em que escreve um romance.

P. Você pensa em escrever um romance? Você gosta da prosa?

R. Eu gosto da prosa, gosto de escrever em prosa. Mas a mim o romance não faz muita falta. Poderia chegar a ele ou não. Mas não tenho nenhum projeto. Há sim algumas coisas que eu gosto... Em torno de histórias de mulheres, mulheres muito fortes... São mulheres que eu gostaria de ver como personagens... Não sei, vamos ver...

P. Ao escrever você se preocupa em passar uma mensagem específica ao seu leitor ou escreve para você mesma?

R. Eu acho que ninguém escreve totalmente para si próprio. A pessoa escreve... E eu acho fácil dizer isso, pois durante muito tempo escrevi e não publiquei. Mas a pessoa escreve sempre pensando em alguém.

P. Você se influencia por esse leitor?

R. Quando eu tento escrever, não há maneira nenhuma de pensar que existe um leitor. Eu escrevo e tento encontrar a vida própria em cada coisa que escrevo. No fundo, toda a gente escreve e espera um dia poder publicar.

P. A questão do erótico refere-se à sociedade tradicional ou mais à sociedade urbana?

R. Eu acho que quando esses assuntos se pegam, nós não podemos separar as duas sociedades porque o clichê é a idéia de que a mulher angolana é a mais livre, a mais sensual, é um clichê generalizado, pois a sociedade africana cobra um certo papel da mulher; como ser uma boa mãe, uma boa esposa... Quando na poesia há uma referência a esta temática do corpo, da sensualidade, não pensamos numa única mulher, mas em todas as mulheres. Sendo assim, as duas sociedades, de formas diferentes, conservam seus rituais.

P. Então, essa visão de eroticidade por causa das cores, das vestimentas, enfim, dos ornamentos que se utiliza a mulher africana é uma visão que vem de fora?

R. Sim, é uma visão que vem de fora. A mulher africana tem uma relação natural com o seu corpo, apenas isso.

P. Você nota certa diferença, comparando essa mulher com a mulher brasileira, no que tange ao envelhecimento? Há tanta preocupação em não envelhecer? Na África, isso é mais brando?

R. Muito mais, mesmo na sociedade urbana. Não quer dizer que na sociedade urbana não exista uma classe de mulheres muito grande que, se tivessem possibilidade, iriam aderir à essas cirurgias corretivas... A preocupação com a beleza, com os cuidados do corpo é mais visível nas mulheres solteiras, pois as casadas, as mães e as avós, não fazem disso seu objetivo primordial.

P. Com relação ao casamento, o homem exerce certo poder sobre sua mulher? Essa mulher é submissa? Geralmente trabalha fora, ou não?

R. Sim, trabalha fora porque não há como não trabalhar fora. Em Angola, trabalhar fora tem um sentido muito largo: não é só ter um emprego, trabalhar como doméstica ou numa universidade. É participar do chamado «mercado informal» que, de certa maneira, engordam e engrossam o pequeno orçamento familiar.

P. Esta participação feminina faz com que o homem respeite este status adquirido pela mulher?

R. Não sei, acho que não. Apesar de a mulher possuir certa independência financeira, dentro de casa a submissão existe.

P. Quais são os pensadores e poetas que têm influência em sua formação como escritora?

R. Eu citaria três poetas angolanos que tiveram muita influência no trabalho que eu fiz, de uma maneira ou de outra: Davi Mestre, Arlindo Barbeitos e Rui Duarte de Carvalho. Os poetas brasileiros; Bandeira e Drummond, eu diria que são minhas referências diretas. Mas, em determinadas épocas da minha vida, fizeram parte de meu universo literário: Murilo Mendes, Clarice Lispector, Octávio Paz, Soyinka... Tudo isso são referências.

P. Nessas leituras, você buscou a poesia mais romântica ou a mais realista, forte, que denotava a sociedade, ou que buscava a religiosidade?

R. Nunca fui à procura de uma poesia por ela ser mais romântica ou mais realista. Gosto da poesia que me toca de alguma maneira, que me impressiona.

P. Quais as leituras que está fazendo no momento?

R. São muitas, envolvendo as Ciências Sociais, a História, a Literatura... Há algumas brasileiras, como Adélia Prado.

P. Há uma influência transcendental na sua escrita poética? Como você colocaria Deus, ou algo maior na religiosidade, dentro da sua poética?

R. Eu acho que Deus está muito ausente em todo o meu trabalho poético, pelo menos daquele que é feito de forma muito consciente, como um trabalho pessoal, que não tem por detrás uma carga, uma influência da poesia oral angolana, porque eu não tenho como fugir das referências a Deus que vêm já no trabalho de base que faço. Sendo assim, fico meio dividida entre uma coisa e outra.

P. Sim, pois eu notei que você faz uma referência ao «Cântico dos Cânticos» e talvez alguma referência a Deus, a alguma crença...

R. Eu não posso deixar de pensar que eu fui educada no seio de uma família religiosa; fui educada como católica, cresci indo à igreja. Olga Savary, numa entrevista, coloca o elemento do erótico enquanto vida. Ela fala que, talvez, não acredite em Deus. Mas, como ela acredita na vida, essa vida seja Deus para ela... E isso vem do erotismo... E quando se fala em erotismo, muitos o vêem pelo lado ruim... Então eu acho muito bom enxergarmos o erotismo enquanto vida!

P. Existe alguma influência dos escritores modernos brasileiros, do Movimento Antropofágico, na literatura angolana?

R. Não, talvez não uma relação direta e aberta como aconteceu em Cabo Verde, mas toda a geração que escreve em Angola depois dos anos 40, a partir de 1945, talvez, é uma geração que inclui todos os escritores brasileiros. De Mário e Oswald de Andrade, Drummond, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado; toda a gente de várias gerações... Antes de Jorge Amado ser transformado em moda, muita gente leu suas obras.

P. Em termos de poesia, me parece, que o mais lido lá é o Manuel Bandeira...

R. Em determinada época... A geração poética mais nova que surge nos anos 80 é uma geração que já não leu tanto Manuel Bandeira, leu um certo Drummond e buscou poetas mais novos como Manuel Prates, por exemplo, que foi muito lido nesta geração nova.

P. Como historiadora, qual a importância do conceito «revolução» para a formação literária angolana?

R. A literatura, em determinadas alturas foi profética, esteve antes da revolução, muitas vezes como elemento mobilizador dessa mesma revolução. Já no «Vamos Descobrir Angola», uma literatura de manifesto, uma literatura panfletária em torno da angolanidade, a partir de 1948.

P. A citação de provérbios, presente em sua obra, recupera uma dimensão africana na literatura?

R. Tenta. Mas não podemos esquecer que literatura é literatura, tudo isso é artifício... Aquela forma da tradição oral surgiu para cumprir um determinado papel e o que a poesia faz é retirá-la de seu próprio contexto e refazer essa mesma poesia. Eu trabalho com isso e me debato com esse problema entre desrespeitar a fórmula da tradição oral, para trazê-la até nós, e chegar nela para retrabalhá-la. É um desafio...

P. Existe alguma coletânea sobre esses provérbios?

R. Existem provérbios coletados desde o século XVII, antes foram reunidos por padres capuccinos, padres da Companhia de Jesus, e depois, a partir do século XIX, existe uma série de trabalhos de sistematização e organização dessas obras.

P. Como você acha que seus poemas interagem com seus leitores e na Angola de hoje?

R. A repercussão dos meus poemas, para mim, tem sido uma grande surpresa, pois eu não esperava que fossem tão bem acolhidos. As pessoas gostam, compram! O primeiro livro esgotou rapidamente, o segundo livro também tem vendido muito... As crônicas, as pessoas também gostam... Há um eco de uma importância conferida à minha poesia que eu, francamente, não esperava!

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