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«A Vivência é uma Fonte Inesgotável Para Qualquer Escritor»

Escrito por  Arnaldo Moreira dos Santos

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

«O escritor muitas vezes surpreende-se, porque a realidade lhe apresenta situações, que por muito ousado que ele fosse, nunca seria capaz de as conceber». Arnaldo Santos

 

P: Iniciou-se na literatura escrevendo para jornais...

R: Não, eu inicialmente comecei a escrever poesia, mais ou menos, por volta de 1956. Era como um pequeno exercício intelectual que me surpreendeu pelos seus resultados, na medida em que notei que isso me trazia alguma coisa de novo. Lembro-me que, por esta altura, mostrei os meus poemas ao poeta Mário António. Foi ele que me deu o primeiro impulso, mostrou interesse pelos poemas, e mandou-os para publicação no Brado Africano, que era uma revista que se publicava na altura em Moçambique. Quer dizer, os meus primeiros poemas foram publicados nessa revista moçambicana, o Brado Africano, em 1956. A partir daí, passei a dedicar-me ao exercício de poesia e, ao longo do tempo, fui-me exercitando nesse domínio. A prosa foi um exercício que apareceria meses depois, mais concretamente quando fui transferido para o Uíge, para a cidade de Carmona, que era esse o seu nome na ocasião. Não obstante, continuei a fazer poemas que marcaram um período claramente identificado na minha poesia e a esse espaço concreto em que existia uma impiedosa exploração da monocultura do café. Foi no Uíge onde comecei a escrever os primeiros contos, que mais tarde reuni num conjunto que me pareceu bastante coeso e a que chamei de «Kinaxixe». Isso teria acontecido por volta de 1958. Um ou outro conto fora do contexto do «Kinaxixe» foi publicado com o pseudónimo de Ingo Santos. Ingo, em quimbundo, quer dizer onça, mas isso não teve consequências, porque não me assumi como tal, e não retive o psuedónimo durante muito tempo. Creio que os textos com algum interesse em prosa, estão reunidos naquilo que se viria a chamar «Kinaxixe», que foi publicado pela Casa dos Estudantes do Império, na Colecção Autores Ultramarinos, onde aliás publiquei o meu primeiro livro de poemas denominado «Fuga».

P: A sua poesia traduzia, no livro «Poema no Tempo», muito do que se passava a sua volta...

R: Numa primeira fase, a poesia é uma forma de identificação do poeta consigo próprio, e através disso, também com o mundo que o rodeia. Não creio que haja qualquer originalidade nessa afirmação e como é natural, eu defini-me nessa via, que é a da tentativa do poeta se encontrar no seu próprio mundo, de se reconhecer e se inserir nos problemas da sociedade em que vive. É evidente que, nessa altura, razões de outra natureza, mais concretamente razões de ordem política, e um determinado pensamento filosófico sobre a vida, fez com que as interrogações sobre mim mesmo fossem preteridas pela necessidade de me preocupar com os problemas do mundo que me rodeava. É esse mundo que passou a predominar, e com prioridade, nos meus textos, ficando para segundo plano, digamos, uma subjectivização excessiva dos temas. Isto faz com que, necessariamente, durante este período, os meus textos fossem mais voltados para os assuntos sociais, e não para uma interiorização destas questões em mim. Com certeza essa atitude é uma atitude comprometida, que aliás é típica da grande intelectualidade da época.

P: Há textos seus, denominados «Poemas do Uíge», que integraram a colecção Imbondeiro, na fase de desenvolvimento do nacionalismo cultural, entre as décadas de 50 e 60. Recorda-se deles?

R – «Poemas do Uíge» é do período em que eu comecei a trabalhar como funcionário público e na condição de aspirante dos serviços administrativos da Saúde. Durante este período, em função da realidade que me rodeava, fiz alguns poemas muito concretos, alguns deles até demasiados descritivos sobre o ambiente, digamos físico e social. Sei que por essa ocasião publiquei um ou dois textos no caderno da colecção Imbondeiro, e recordo que eram poemas sobre o Uíge, mas não do seu conteúdo, e se depois vieram a ser reunidos nos «Poemas no Tempo».

P: Naquilo que escreve, nota-se influências de Luandino Vieira. Nos casos particulares de «Kinaxixe» e «Prosas» teve essa motivação?

R: Nesses livros não há qualquer influência de Luandino cuja obra só se veio a conhecer depois. Não nos esqueçamos do período em que os escrevi. Não havia ainda a literatura angolana publicada e muito menos conhecida como hoje, para alguns haveria porventura existiria Assis Júnior ou Trony que, aliás, nesses tempos eu não conhecia. Se há afinidades com Luandino é porque o «Kinaxixe» é um tema que nos é comum e muito caro. Se quisermos ir mais longe para encontrar influências de outros escritores nos meus textos, eu creio que o «Kinaxixe» em si mesmo pode ser a grande influência, ou a de um Graciliano Ramos, um génio da literatura brasileira, ele me impressionou muito. Eventualmente também Jorge Amado e depois João Cabral de Melo Neto. A influência dos escritores angolanos em geral, e na minha literatura apareceu muito depois, e mantém-se obviamente, na medida em que eu considero extremamente frutuoso o facto dos escritores angolanos se lerem entre si.

P: Está a falar de uma relação de mútua referência...

R: Não: estou a falar de uma mútua influência, do facto de alguns escritores se identificarem ou se reconhecerem numa determinada maneira de sentirem a cultura angolana; estou a falar da forma como alguns escritores vivem (ou viveram) as questões vitais do homem angolano, e consequentemente isso pressupor a convicção de uma matriz cultural mais ou menos definida ou percepcionada, por se tratar de um fenómeno dinâmico e em constante fundação. É nesse sentido que eu estou a falar de mútua influência, dessas contribuições que os escritores dão para essa grande matriz cultural, estou a falar dessa tentativa utópica e muitas vezes não consciente de se avançar no sentido de um cânone angolano. É por tudo isso que obviamente eu me interesso em conhecer o que os outros escritores escrevem, porque Angola é muito vasta, Angola tem uma riqueza cultural muito grande e nenhum escritor pode ter a pretensão de abarcar todos os aspectos das vivências culturais que estão espalhadas em Angola. Creio que estas contribuições individuais, que vão aparecendo com mais força nuns escritores que noutros, para mim, são motivo de curiosidade intelectual e, eventualmente posso, até subconscientemente sofrer influências destas leituras. Não nego isso, nem sequer tenho a mínima intenção de o esconder.

P: Há, apesar disso, uma relação de grande amizade entre Luandino Vieira e Arnaldo Santos.

R: É inegável, e reconheço-o com satisfação. A amizade conta, de facto, entre nós, isso é importante, mas não é o fundamental na relação entre escritores. Provavelmente, para além da amizade natural das pessoas que se conhecem desde a infância, como é o nosso caso, também o nosso percurso político e literário acabou por revelar outras afinidades. Na medida em que, lemos escritores que nos influenciaram por igual. Estou a falar por exemplo de um Guimarães Rosa, que o Luandino leu e que eu também li. Havia um acervo clandestino, chamemos assim, de obras proibidas que circulavam entre nós na época colonial, e que nós bebíamos por igual. Era o tempo da literatura comprometida, um período político em que de uma maneira ou de outra nos engajamos. E isso consolidou, uma relação especial com o Luandino, de quem, aliás, sou compadre. Ele é padrinho de um dos meus filhos, ainda quando estava preso no Tarrafal.

P: No passado, Arnaldo Santos disse que a crítica literária portuguesa tinha dificuldades de acesso ao conteúdo e linguagem da literatura angolana. Considera isso impedimento para que se faça crítica?

R: Não é nenhum impedimento, porque esses críticos ou estudiosos estão dotados de competências e conhecimentos literários para ter acesso a qualquer tipo de escrita. O que pode surgir é uma maior ou menor predisposição para encarar a complexidade de certos códigos culturais, e para entrar em certos códigos específicos da literatura angolana. Essa indisponibilidade mental desobriga o crítico ao esforço suplementar de uma pesquisa, a um esforço intelectual maior que porventura alguns nem sequer consideram justificado... E por isso nem sempre estão dispostos a fazê-lo. Hoje, a concorrência literária é grande e nem todos escritores usam de códigos difíceis e têm uma forma de escrita mais adequada às contigências do mercado. No entanto, aqueles que escolheram a literatura africana como base do seu trabalho literário e estudo, esses chegam ao seu cerne com alguma facilidade. Eu não tenho dúvidas nenhumas que são capazes de ser bastante lúcidos sobre o conteúdo dos textos. É evidente que para esses críticos é muito mais fácil falar sobre as suas próprias culturas, no caso concreto a portuguesa, ou francesa ou americana, do que sobre as nuances culturais das experiências de outros povos. Dou como exemplo, o jogo de «cassumbular», ou outro jogo qualquer que as crianças duma determinada época faziam, e mais recentemente (se calhar você até reconhece) que é do caso do Piô do MPLA. e na sua maneira de marchar, que nós chamávamos e eles cantavam «arrastô comandô», tudo isso é um conjunto de referências de ordem cultural que os angolanos recebem com alguma facilidade, mas das quais é extremamente difícil a um estrangeiro se inteirar se não obtiver mais informação. Esses elementos podem não ser totalmente despiciendos e apenas descritivos. Os seus jogos não são iguais, as suas experiências de vida não são iguais. A cultura desses estudiosos e críticos pode ser imensa, mas nela não entra em certos pormenores de outras culturas. O mesmo acontecerá se lermos algo sobre o Árctico ou a Sibéria, a maioria dos angolanos nunca sequer viu a neve que é o ambiente natural desses povos. São impedimentos que afectam a sensibilidade, mas não o intelecto. A observação que eu fiz relativamente a uma eventual dificuldade de alguns críticos estrangeiros em relação a alguns textos angolanos, tem seus limites evidentes.

P: Os escritos de Arnaldo Santos não se inserem exactamente naquilo que se convencionou chamar poemas de cárcere. Notam-se neles uma localização espacial que se traduz no bairro. Concorda?

R: Eu não sei qual é a concepção que dá a bairro. Mas se essa noção for comum aos dois, se você pretender dizer que o bairro é a zona que nos circunda, hoje o meu bairro é este aqui da Maianga, amanhã se eu estiver em Benguela será da zona em que eu estiver... e esse conceito transfere-se com muita facilidade de um local para outro, consoante eu estiver neste ou naquele lugar. Se for essa a ideia, não há duvida nenhuma que a verdadeira obra literária tem que ter um determinado chão. Tem que erguer-se sobre um chão determinado. Se a essa ideia do «bairro» se atribuir uma maior amplitude, então é natural que a minha obra seja marcada pelo meu «bairro».

P: O bairro também pode ser entendido como o espaço em torno do qual Arnaldo Santos por vezes situa as suas estórias. É a de uma zona urbana e peri-urbana.

R: Sim, é nessa medida que eu penso que se deve entender a noção de bairro, pois é normal que em muitas circunstâncias tenhamos que extrapolar a fronteira do lugar que vivemos. Embora vivendo, agora, aqui na Maianga, não deixo de reflectir, por exemplo, experiências vividas por outros no Cafunfo, experiências alheias, revisitadas através de depoimentos 10 ou 15 anos depois... Quer dizer, para além da pesquisa que se faz sobre o local onde estamos a escrever, nós socorremo-nos também da imaginação para identificarmos certos lugares, certas pessoas que vivem em certos sítios. De outra maneira nenhum escritor poderia fazer, por exemplo, um romance histórico, se não se socorresse desta imaginação.

P: Aliás, disse e bem, certa vez, que a nossa realidade é tão diversa que o escritor sente-se embaraçado, quando escreve, pois está inserido numa sociedade onde existem inúmeros temas para se fazer literatura.

R: É verdade. Eu sinto que a realidade angolana é tão rica que, quanto a mim, ultrapassa em muito a imaginação do escritor. O escritor muitas vezes surpreende-se, porque a realidade lhe apresenta situações, que por muito ousado que ele fosse nunca seria capaz de as conceber. Eu considero pois, uma fonte inesgotável para qualquer escritor, a sua vivência, a sua integração nestes grandes movimentos de conhecimento do povo angolano para subsistirmos e vivermos neste momento, aliás extremamente controverso, e de sobremodo importante para o futuro dos angolanos. E então surgem-nos aspectos que nos confundem, porque eles aparentemente, até ao nível da ficção eram difíceis de serem imaginados.

P: Como escritor e homem, Arnaldo Santos, denota ser um cidadão invulgarmente preocupado com a exactidão dos temas e com a pesquisa deles. Isto faz de si um perfeccionista?

R: Qualquer escritor que abdique da ideia de fazer o melhor, penso que à partida, está predestinado a fracassar literariamente. Isto não quer dizer que a ideia de se querer atingir uma certa perfeição seja decisiva. Não é incomum encontrar escritores que estejam, ou estão em absoluto contentes com aquilo que fazem. No entanto, creio que os escritores, refiro-me, sublinho os escritores, perante o texto final e depois de o ler atentamente, a grande maioria sente que poderia fazer melhor. Isto faz com que ele hesite antes de publicar. Esse é o meu caso. Eu hesito muito sobre a folha branca e sobre os riscos que eu faço sobre ela. É evidente que posso pensar, e penso, que a mesma frase pode ser formulada de muitas maneiras diferentes e podem dar origem a um discurso diferente. Este tipo de angústias, perante estas infindáveis possibilidades da escrita, faz com que, eventualmente possa ser entendido como veleidades ou pretensiosismos de perfeccionista, mas decisivamente, não considero isso, como um grande defeito.

P: Fora da veste de escritor, espelha-se desta maneira?

R: Não, mas sou uma pessoa com princípios com os quais tento ser coerente, e agir em conformidade. Obviamente que cometo erros como qualquer outra pessoa. Nem sempre na minha vida fiz as coisas de maneira perfeita e, provavelmente, na literatura há textos que eu poderia ter retido para depois os melhorar, mas que acabei por lhes dar à publicação prematuramente.

P: Falando em publicação, venceu o prémio Mota Veiga (1968) com a obra «Tempos do Munhungo». o que o catapultou, de certa forma, na literatura, pois na época tinha já grande aspiração em ser escritor. Foi este o sinónimo do prémio?

R: O prémio foi uma consequência natural do facto de eu ter escolhido ser escritor e o prémio Mota Veiga não foi mais do que isso, quer dizer, mesmo que nunca tivesse obtido esse prémio, eu creio que continuaria a ser escritor, independentemente de nunca vir a ganhar qualquer prémio! Isso não me parece muito importante. Reconheço, no entanto, que a atribuição do prémio tenha conseguido chamar a atenção de mais alguns leitores para os meus textos. O que me parece primordial num escritor é a sua necessidade interior de escrever. No caso concreto do prémio Mota Veiga, ele serviu sobretudo para uma coisa que era importante: a publicação do livro. Porque nessa altura, não havia como há agora, embora com todas as dificuldades, os movimentos editoriais. Não havia editores interessados em publicar literatura angolana, longe disso, e nem existiam como tal. Publicar um livro era de extrema dificuldade para quem vivesse nessa época. O prémio monetário servia essencialmente, e isso fazia parte do regulamento, para publicar o manuscrito. Se sobrasse algum dinheiro, obviamente o escritor poderia ficar com esse dinheiro, mas isso raramente acontecia. No meu caso, o prémio foi pura e simplesmente para a publicação do livro.

P: Na verdade não tinha grande motivação em concorrer ao prémio...

R: Sim, nessa altura eu não tinha interesse nenhum em concorrer ao prémio, se não tivesse sido motivado por alguns amigos. Estou a lembrar-me do poeta Antero de Abreu. Não achava que era importante, porque já tinha feito a minha escolha mas acho que um prémio é estimulante para qualquer escritor que o ganhe. Considero que a motivação principal para escrever é de outra natureza. Não é para ganhar prémios embora eles sejam necessários e muitas vezes bem vindos. Nessa altura, o facto de me ser sido atribuído o prémio, dava-me uma notoriedade que me foi útil, porque obviamente os meus textos passaram a ser recebidos de outra maneira. Naquela altura tinha alguns problemas com a polícia política. É óbvio que prender uma pessoa anónima sem culpa formada era uma coisa, como acontecia todos os dias, prender ou encarcerar outra pessoa que já tinha uma certa notoriedade, torna-se mais visível e poderia ser usado como um argumento político pelas forças patrióticas. É claro que o prémio me deu uma certa protecção. E nessa medida até me foi útil.

P: Arnaldo fala do «Kinaxixe» com o amor que Luandino fala do «Maculusso». Fale-nos do cosmos cultural que o Kinaxixe encarna na sua obra?

R: O Kinaxixe transformou-se com o tempo num pretexto temático, mas que assentava numa realidade concreta. Ele existiu. O Kinaxixe foi também um espaço físico concreto, e que eu e uma certa juventude da época conheceu bem. A lagoa que deu ao local o nome de Kinaxixe , deu também origem que se tivesse criado à sua volta um ambiente sócio cultural muito próprio. As pessoas tinham o hábito de ir lá na lagoa, umas para pescar, outras para brincar era o nosso caso outras por causa da Kianda, que era uma divindade real para quem vivia dessa tradição, sobretudo os que viviam próximo da lagoa, e que a ela faziam as suas oferendas e recorriam nas suas malambas. A lagoa criava à sua volta algo que hoje se pode traduzir com propriedade como uma certa consciência ecológica, na medida em que as pessoas se sentiam impelidas emocionalmente a visitá-la Havia uma interdependência das gentes com esse ambiente físico que as atraía. Por sua vez, a lagoa estendia-se consoante as chuvas mas havia uma mancha vegetal que se prolongava numa pequena floresta que ia dar à Igreja da Nazaré, na praia, hoje Avenida Marginal. Tantas vivências de crianças que por ali passavam, criam valores, ou pelo menos põem em causa a existência de certos valores.

P: Diz que o Kinaxixe é o paraíso perdido na terra

R: Literariamente essa imagem é muito vulgar e serve com facilidade para me justificar da razão porque regresso sempre ao Kinaxixe como uma fonte de valores. Diz-se que o espaço da infância é sempre um espaço paradisíaco, independentemente das boas e más experiências vividas. Lembro-me que, se alguma vez estive muito perto da morte essa sensação foi vivida no Kinaxixe. Tive paludismo grave, e durante um período incerto deixei de ter noção do tempo. Contudo essa má experiência não alterou o eterno encanto daquele lugar. O que conta foi o que me marcou na minha relação com esse mundo perdido no tempo.

P- Na altura, Arnaldo Santos era considerado o «rei do Kinaxixe». É verdade?

R: Não. Eu nunca fui o rei do Kinaxixe. As pessoas gostam muito de atribuir estes epítetos. Na minha época, eu era um jovem muito discreto, como sou hoje, e não era uma pessoa relevante no meio do grupo, dos jovens que brincavam por ali. Nunca fui dotado de uma grande força física, para me impor. Isso era um dos argumentos que os jovens normalmente têm. Ao ler o livro «Kinaxixe» dá para perceber que há realmente os mandões, os verdadeiros líderes. E eu, realmente, não poderia me opor a eles. Esse título está mal atribuído.

P: «Kinaxixe» é uma das partes do seu livro «Prosas», que é uma reunião de vários textos. A sua intenção foi sintetizar ou reunir vários textos no livro.

R: Na altura isto foi, digamos, uma questão técnica. «Prosas», como sabe, inclui livros diferentes, que é o «Kinaxixe» e o «Tempo do Munhungo». Por questões técnicas, para não ter que atribuir um título só, eu optei na edição portuguesa pelo título «Prosas». Mas o mesmo livro publicado pela editora brasileira Ática, muito conhecida na época, foi adoptado o titulo de «Kinaxixe e outras Prosas». De maneira que é o mesmo livro, só com rostos diferentes.

P: Diz a professora Maria Santili numa análise a este livro, que os motivos africanos dominam o livro. Criou propositadamente esta estrutura de conjunto?

R: Não fiz de maneira voluntária e calculada, mas eu africano como sou, de origem africana, (a minha avó é negra de Massangano) é obvio que eu tenha um substrato cultural africano, pelo qual me identifico totalmente. O que seria estranho era que estas características não aparecessem.

P: O velho Pedro, em «Prosas» tem alguma simbologia?

R: O velho Pedro que aparece no livro como uma personagem, teve uma existência real. Foi um indivíduo que morava ao lado da minha casa no Kinaxixe, numa cubata. Ao longo do tempo, este mais-velho pobre, magro, e andrajoso, com poucos recursos de vida levou-me a perceber que ele era muito mais do que essa imagem estereotipada. Percebi que era um homem dotado de uma cultura acima do vulgar, que sabia ler e escrever, o que na altura não acontecia comigo, que era miúdo semi-analbabeto. Ele dava explicações das primeiras letras às crianças e obtinha assim uma parte do seu sustento. Esse homem num determinado momento da sua vida tinha pertencido a um segmento da sociedade burguesa luandense com recursos, mas depois empobreceu. Essa é a verdadeira imagem do velho Pedro, que depois eu reabilito no final do conto. De certo modo, penso que reencontrei esta história do empobrecimento da burguesia negra na «Casa Velha das Margens», nas «Histórias de Kuxixima» por exemplo.

P: Já pelo seu estilo, linguagem e arrumação concorda que «Prosas» pudesse ter a conotação de um livro de crónicas?

R: «Prosas» inclui o livro de contos «Kinaxixe» e «Tempo do Munhungo» e este, na realidade não é mais do que a colecção das crónicas que eu ia publicando na página cultural do Jornal de Angola, na época do saudoso e amigo Carlos Ervedosa. Eu limitei-me a reunir essas crónicas que depois foram editadas como livro. Esses textos podem ser vistos, em termos pedagógicos como crónicas, tal como João Melo definiu no preâmbulo que fez para as «Crónicas ao Sol e à Chuva», que eu publiquei. No entendimento de que o conceito de crónica é um pouco elástico, eu também assim o referi quando falei a Hamilton Russel, professor americano, e ao professor Michel Laban. A minha concepção de crónica pode-se definir de maneira muito simples, como relatos despretensiosos de acontecimentos do dia-a-dia, capaz de interessar as pessoas, sendo uma leitura que eventualmente entretém, mas que ao mesmo tempo é reflectiva. A crónica é, digamos, o resultado dessa narrativa onde intervém a realidade e os artifícios literários que o escritor usa com muita liberdade.

P: Acerca de «A Casa Velha das Margens» existem duas críticas. O facto de incidir sobre temas já abordados por outros: seja por Agualusa, seja por Assis Júnior, Cordeiro da Mata. A segunda relaciona-se a personagens que inspiradas em «Nga Muturi». Que apreciação faz destas críticas?

R: Eu conheço os textos do Troni «Nga Muturi» e os textos «A Conjura» do Agualusa. Aliás eu fiz parte do júri do prémio Sonangol que lhe atribuiu o prémio à «A Conjura» São bons textos. Mas num caso como noutro, eu não sinto que a «A Casa Velha...» tenha uma relação intrinseca com essas obras. A criação das personagens de «A Casa Velha....» são mais evidenciadas pela minha tentativa de reinventar a época em que viveram os meus avós. Isso tem um pouco a ver com a vida da minha própria família. O ambiente, foi recriado evidentemente à época, mas por exemplo a «A Casa Velha...», como tal, existia, e já depois da independência foi visitada por um engenheiro agrónomo, que fez a apresentação do meu livro na Chá de Caxinde, o engenheiro Pacheco, que conheceu a Casa Velha. E foi ali onde o meu avô trabalhou, onde a minha avó morreu. O enforcamento da minha avó é um facto real. Há uma relação muito directa entre este texto e a vida da minha família. Não tem nada a ver com textos de outros escritores que abordaram a época, cada um a seu modo. Distintamente..

P: A nota que se faz ao livro é a conjugação bem conseguida do português falado, de onde avultam expressões como «dandy»?

R: Dandy é um anglicismo, e eu tentei relativamente ao estilo, não fugir a época. Por exemplo, Dandy era um termo muito empregado na época, e acabava por definir um certo tipo de homem elegante, que aparece correntemente nos romances europeus do séc. XIX. Porque já nessa época havia uma certa globalização dos gostos, pois o Dandy luandense era muito parecido com o Dandy francês na forma de vestir. Os luandenses da época vestiam-se de Paris. Os que tinha recursos recebiam os seus fatos, os seus smokings, os seus chapéus da Europa. Havia, de facto, um certo modelo de estética que era muito semelhante. De certo modo, eu tentei na Casa Velha em termos de estilo, dada a quantidade de textos que tive que ler, respeitar a própria forma de falar e tentar entrar um pouco dentro do estilo da época, para adequar a forma ao conteúdo.

P: O crítico literário angolano Luís Kandjimbo observa, de forma atenta, que Arnaldo Santos confunde de forma incompreensível o rei Ndunduma e o escritor angolano Ndunduma Wé Lepi

R: O texto tem este erro histórico, porque eu li, precisamente na época em que o rei Ndunduma tinha sido expatriado para Cabo Verde, em que os portugueses já exerciam este tipo de repressão, exilando líderes angolanos. O Wé Lepi, foi uma distracção indesculpável, um disparate que não teve razão de ser senão porque convivo com meu confrade Costa Andrade. Outro erro que passou despercebido, e no qual mais tarde reparei, foi ter referido que algumas personagens passavam em frente da Embaixada Britânica, ali à fortaleza, onde aliás agora existe actualmente essa embaixada mas que, na altura, era obviamente apenas um consulado.

P: Na oratura não é possível apagar-se o que já se disse. Depois de publicado o livro há essa possibilidade?

R: Na oratura é mais difícil, e ao mesmo tempo mais fácil, se o discurso não estiver a ser registado como agora está a ser esta entrevista.. Amanhã ele poderá ser diferente se a memória do povo não lhe der protecção. No livro nem tudo pode ser corrigido, a não ser as habituais gralhas e as imprecisões. O verdadeiro conteúdo do livro constitui um núcleo inalterável, sem o que toda a sua estrutura poderá ser abalada. O discurso escrito permite a possibilidade de rever os erros e de os alterar posteriormente numa segunda edição. Ou até fazer no próprio livro uma errata.

P: Ainda que personificando o título, chamaria a Angola uma «casa velha das margens»?

R: Não. De forma nenhuma. Esta imagem para Angola não serve. Houve um tempo que esteve à margem da História, ou tentando fazer a sua História enquanto Angola no mundo.

P: Um comentário que li, sobre o livro «A Boneca de Quilengues» atribui a ele a chancela da crioulidade

R: Eu não entro nessa conversa da crioulidade, a não ser que se parta de uma noção consensual do que é crioulidade, que só me parece defensável ao nível da linguagem. Em Angola tanto quanto sei não há crioulos. Haverá talvez a tentativa de se criarem crioulos, e isso por razões mais políticas do que propriamente culturais. Esse equívoco vem do tempo em que uma pessoa que eu respeito muito, que é o Mário António, escreveu de «Luanda, ilha crioula». Eu compreendo que essa confusão se pode arrastar por mais algum tempo, mas passará sem deixar mossas visíveis, porque os angolanos são apenas angolanos, com tudo que há neles de permanente e imprevisível. A «Boneca de Quilengues» não tem nada a ver com isso. Tem apenas a ver com uma mulher que viveu num contexto político-social concreto. É condição da mulher mestiça, nessa época e na sociedade benguelense da época, e a forma como ela reagiu às pressões sociais e a forma como ela age depois da independência.

P: Está de acordo que esse livro poderia ter a dimensão de um romance?

R: Sim, o livro poderia ter essa dimensão se se entender o género pela sua maior ou menor extensão. Eu reconheço que o texto poderia permitir outros desenvolvimentos, e creio que a própria estória sairia disso muito mais beneficiada. A própria personagem talvez o merecesse. Mas o que está feito, está feito.

P: Em estórias proibidas, uma das partes deste vemos abordada a «problemática» do mestiço através da personagem

R: O problema da mestiçagem não pode ser sempre abordada da mesma maneira, abstraindo as circunstâncias. Há o mestiço que é recolhido pela mãe, abandonado pelo pai branco e se integra perfeitamente na sociedade da mãe, e é recebido como tal, nalguns casos sem qualquer descriminação. Ele sente-se como negro e só em função da sua cor é que se distingue dos outros. Há o mestiço que é recolhido pelo pai branco e tem tratamento especial, e se esquece ou recusa a mãe. E depois há o mestiço que vive entre o estilo de vida da mãe e do pai, e se cria dentro de duas influências que mais ou menos se harmonizam ou toleram. Quer dizer, os surtos das mestiçagens ocorrem de acordo com o contexto sócio-cultural, e a razão como os mestiços reagem dentro de uma sociedade provém muito da forma como se ligam às suas origens. No caso da Boneca é o caso concreto de alguém que viveu com o pai e com a mãe e que a partir de certa altura ficou sem a mãe e sem o pai. O pai porque se foi embora e a mãe porque morreu. Ela ficou perdida e sem raízes. Então ela fica entregue a si própria numa sociedade em que tinha que se defender, sobreviver e viver com os seus próprios recursos.

P: Há uma nota nesse livro onde se lê o seguinte: «Fica aqui bem claro que esta estória fui eu que lhe inventei sem a confirmação dos próprios, seu conhecimento expresso ou mesmo tácito». O autor tenta proteger-se ou prevenir-se das interpretações dos leitores, já que a nota é desnecessária?

R: Isto é um artifício literário, que os autores usam em certos casos para dar credibilidade à estória. Como quem diz, atenção! Eu estou a falar de uma pessoa real, mas uma pessoa que na realidade só vive como personagem deste livro, e não de outra maneira, e que as pessoas não têm o direito de identificar como uma pessoa determinada na sociedade . Este artifício faz com que o escritor se sinta mais à vontade para criar uma figura, que pode ter uma identificação com alguém, mas não é esse alguém. Pode ser esse alguém e mais outras pessoas criadas. É uma personagem, no fundo, mais rica porque não se limita a ser uma biografia de uma determinada figura social. Foi um artifício que usei para me permitir a determinadas liberdades ficcionais.

P: Depois da poesia e da prosa. Arnaldo Santos escreve e publica literatura infantil. Fale-nos desta experiência.

R: Estas estórias foram publicadas sob o título as «As Estórias de Kuxixima». Mas antes de me referir a elas, quero fazer uma referência especial à minha amiga e querida escritora Gabriela Antunes que, no lançamento desse livro na UEA, fez a sua última aparição pública. Falo desse lançamento com um sentimento especial, foi como se tivesse havido a uma certa premonição da tragédia que foi o seu falecimento posterior, pelo facto de eu ter insistido no lançamento do ivro antes da sua partida para Portugal por razões de saúde, um lançamento quase improvisado, mesmo sem aquelas praxes habituais dos convites, etc. a sala praticamente estava só cheia de crianças. Recordo hoje esse momento com muito carinho, porque fico com uma imagem da Gabriela muito viva e alegre.

P: Não é comum escritores com o percurso de Arnaldo Santos voltarem-se a literatura infantil. Na realidade como surgiu a estória?

R: Eu fiz essa experiência, de certo modo influenciado pelo próprio Kuxixima kia Muxima, que como sabe é o tal personagem da «A Casa Velha...», que contava umas estórias às crianças. Eu senti que, de certo modo, estava em dívida para com as crianças, e tentei recontar as estórias que eventualmente ele teria contado no romance. Foi uma experiência a que eu me entreguei sem muito sucesso, pois não me considero nela completamente realizado. Tive as dificuldades próprias dos iniciados e mais aquelas imprevistas que advieram de um certo voluntarismo, porque literatura para crianças é obra que requer uma certa forma especial. Eu ressenti-me disso e percebi que não estava no meu terreno.

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