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Na Ciência não Pode Haver «Nacionalismos» Estreitos

Escrito por  Inocência Mata

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

«O crítico tem também de ser humilde e não pensar que tem a bitola tanto da literariedade quanto da nacionalidade.»

 

 

 

P: É praxe deixar que os entrevistados se apresentem aos leitores. No seu caso, gostaria que focasse a sua infância e a importância do hábito de leitura.

R: A minha foi uma infância muito feliz passada em São Tomé, entre pais óptimos, irmãos capetas (como quaisquer crianças!) e primos-irmãos igualmente capetas; entre dezenas de primos e amigos dos amigos dos irmãos e primos; entre tios e avó (infelizmente apenas uma, de quem herdei o nome, mas não a inteligência e a sabedoria talvez a persistência e a teimosia, o que já não é mau!). O meu pai era um homem especial, severo q.b., mas muito avançado para a época. Não me lembro de nos comprar livros para além dos escolares (nem podia, não tinha dinheiro, apesar de, «para negro», ter uma posição profissional boa era primeiro oficial): éramos muitos filhos, mais primos-irmãos que viviam connosco e os irmãos mais novos da minha mãe o meu pai era um «típico» irmão mais velho da família e, como era aquele melhor colocado no ranking social, tinha algumas responsabilidades familiares porventura incompreensíveis no Ocidente. Enfim, o certo é que ele vibrava quando nos visse estudar e ler. E incentivava-nos. Dizia-nos que a única riqueza que nos deixaria seriam os estudos. E assim foi. Mas nós gostávamos de ler, eu e os meus irmãos. Eu lia tudo que me viesse parar às mãos, desde revistas e romances cor-de-rosa (a minha mãe não gostava porque eu era de facto muito nova) a romances de Camilo ou Júlio Diniz. Não li literatura infanto-juvenil na verdade, para histórias tinha a minha avó e a minha mãe, que eram grandes contadoras de histórias. Depois, as minhas leituras começaram a ser «orientadas»: os amigos da minha irmã mais velha passaram-me para as mãos livros como O Filho Nativo, Cartas de Prisão de George Jackson, Raízes, A Cabana do Pai Tomás (lembro-me de o meu pai não ter gostado de eu ler este livro, pois, disse ele, essa leitura na minha idade era nefasta uma vez que o livro convidava à conformação, à resignação e isso ele não queria), Os Condenados da Terra. Enfim, comecei cedo e tive bons «professores».

P: A Professora Inocência Mata é um dos rostos visíveis daquilo que é a investigação sobre literaturas africanas feita por uma africana. A viver na Europa, a sua actividade pode ser encarada como o contributo ao seu continente?

R: Espero que sim. Acredite que, apesar de gostar do que faço ensinar e aprender (porque se aprende muito ensinando), tudo o que faço quero pensar que seja um contributo para que a África se liberte dos anátemas que na Europa ainda lhe colam. E, acredite, mesmo as pessoas que se dizem «especialistas» (detesto esta palavra!) de África são, muitas, muito preconceituosas: a África é, na maior parte da vezes, um «objecto» conveniente, que dá visibilidade a muita gente (se estivessem a estudar um qualquer outro «objecto» seriam um entre muitos), mas com o qual não querem «misturar-se».

P – Fez o seu mestrado em 1987. Como conseguiu emergir numa sociedade pouco aberta a imigrantes como a portuguesa?

R: Deveria dizer antes «pouco aberta a pessoas diferentes» ou «pouco aberta à diferença». Porque um imigrante do Norte da Europa nem sequer é visto como imigrante! E isso, isto é, esse complexo de superioridade/inferioridade (consoante o nosso interlocutor) é algo que herdámos do colonizador! Respondendo à sua questão: foi difícil, nem pode imaginar as situações por que passei, apesar de ter tido bons apoios, isto é, pessoas que me ouviam. Foi difícil, muito difícil. Mas também sou muito teimosa. E creio que sempre soube o que queria. E a sociedade portuguesa é também pouco aberta à pluralidade cultural enquanto valor resquício da política colonial do assimilacionismo cultural?, e disso resulta uma apetência para a hierarquização de culturas em presença. Dai que a primeira recepção da expressão «integração de imigrantes» pressupôs em Portugal, durante muito tempo, «assimilação». Num Mundo em que se faz a apologia da diferença mesmo em contexto de euforia globalizante. É contra esse tipo de ideologia assimilacionista que se deve lutar, sobretudo numa ex-metrópole colonial. É verdade que muito tem mudado, porém, diferentemente de outros países europeus, não tem havido uma política séria de educação intercultural. Só a educação pode mudar este estado de coisas. E o que digo é válido também para Angola ou para qualquer país de contexto multicultural e hoje quase todos os países são sociedades multiculturais.

P: Apesar dos «laços» históricos entre Portugal e África, porquê só agora o estudo de literaturas africanas vem ganhando adeptos e tem receptividade?

R: A sociedade portuguesa, como disse anteriormente, é muito fechado à diferença. E muito preconceituosa. Eu ouso dizer que Portugal é o país europeu que mais tempo teve de contacto com a África. Mas será, porventura, aquele que menos conhece a África. Mas não se pense que as literaturas africanas são tão estudadas... não são! Nem sequer são reconhecidas como literaturas «dignas» de figurarem ao lado de outras literaturas. Alguns escritores de África são parangonizados, alguns, grosso modo aqueles que permitem a ilusão da continuidade portuguesa em África. Que receptividade acha que têm estas literaturas quando um currículo universitário da área de Língua Portuguesa contempla apenas um semestre de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa numa disciplina em que, supostamente, devem ser estudadas cinco literaturas?! Eu acho que nenhuma! Ou quando os mesmos mesmíssimos! escritores publicados por editoras portuguesas são convidados para todos os eventos, numa total ostracização de outros escritores porventura menos «ocidentalizados», como se os escritores publicados em Portugal fossem os únicos escritores dignos desse nome nos países de cujo sistema literário nacional, em princípio, fazem parte?! É tudo tão perverso que eu já não me detenho a estudar a receptividade em Portugal da literatura africana embora eu tenha que concordar que Portugal é, ainda, a metrópole para muitos africanos, pelo menos literariamente falando. O que sei é que a Portugal interessam uns escritores e outros não. Convém estudar porquê.

P: Concorda, então, com o Professor Carlos Reis quando diz, no seu livro O Conhecimento da Literatura. Introdução aos Estudos Literários, que existe uma «mal disfarçada resistência contra o reconhecimento do significado próprio das chamadas Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa; fruto, em parte, de reminiscências ideológicas de raiz colonialista»?

R: Completamente! Se fosse eu a dizer isso, certamente ganharia o epíteto de racista ou fundamentalista. Como sabe, sempre que alguém um africano, sobretudo negro, é mais veemente na reivindicação das suas causas que se reportam à relação com a Europa, é rotulado como racista, radical, fundamentalista, eu sei lá! O que querem o Ocidente e seus porta-vozes? Uma «história santificada»? (A expressão não é minha, é do historiador Claude Liauzu, autor do livro La Société Française Face au Racisme de la Révolution à nos Jours, 1999). Mas como digo sempre, não me incomodam os rótulos que me quiserem colar, só porque não concordam com as minhas ideias! Estou contra qualquer tipo de monolitismo, seja político, cultural e muito mais pseudocientífico!

P: O conhecimento sistematizado da poesia africana permitirá a elaboração de modelos teóricos mais adequados ao estudo desta literatura. Que causas pode apontar para este incipiente tratamento científico da cultura africana?

R: Não vou falar do «tratamento científico da cultura africana». Vou ficar-me pela literatura, ou melhor, pelo estudo da literatura. O conhecimento sistematizado da literatura, não apenas da poesia o ensaio literário incluído. Muitas são as razões que explicam a colagem que ainda se nota às formulações teóricas vindas de fora. Uma delas creio ser o complexo de que a literatura africana ganha se se adaptar aos modelos críticos vigentes, vou aqui para não demonstrar que o literário africano é diferente, uma vez que tal ideia de diferença literária significaria a fragilização dos sistemas literários africanos. Já tenho discutido isso, a que chamo a obsessão da universalidade. Vários estudiosos, de várias áreas culturais (do peruano Cornejo Polar ao indiano Ahmad Aijaz, do beninense Tidjani Serpos ao inglês Terry Eagleton) têm vindo a reflectir sobre esta tensão entre universal e local. Terry Eagleton, por exemplo, chama a atenção para universalismos pretensamente neutros em que se baseiam determinados «juízes» do literário e que consolidam a hegemonia do «cânone ocidental» de que a literatura africana está cheia, sobretudo em Portugal! Na verdade, esquece-se que tais modelos e formulações se fizeram a partir do cânone literário vigente, sem levar em conta as particularidades de outras literaturas de outros universos culturais e civilizacionais. Um simples exemplo: quando se estuda a problemática dos géneros literários e dos géneros da ficção narrativa, contam-se o romance (com os seus subgéneros), o conto, a novela. E a «estória»? Ora, a estória não é o mesmo género que o conto.

P: Posso apontar-lhe outra aparente causa endógena. É mais fácil vermos surgir nas bancas um novo poeta [angolano ou são-tomense...] do que um ensaísta africano a publicar uma obra sobre o seu objecto de estudo. Isso é uma grande lacuna na actual era

R: Não sei a que chama «causa endógena»... Porém, esta razão que aponta é uma razão importante. Que também está ligada, ainda, ao estatuto do escritor nos nossos países e isso é mais visível em Angola: na sociedade angolana ser escritor é uma mais-valia! Isso é bom? É mau? Não sei, sinceramente, nem gostaria de me pronunciar sobre isto. O que me parece lacunar é a «tradição» de reflexão endógena sobre a literatura nacional. Que tem a ver também com a inexistência de instituições válidas e credíveis de legitimação literária: a academia, a universidade, a crítica literária, revistas de especialidade, enfim, toda uma série de pilares que concorreriam para formar um campo dos estudos literários (vertente do campo de investigação das Ciência Sociais e Humanas). Uma faculdade de letras ou de ciências sociais e humanas a funcionar em pleno, como centro irradiador de saber e conhecimento, é condição sine qua non para uma reflexão endógena sobre a identidade nacional. Pois é preciso não esquecer o que nos ensina, entre outros, o mexicano Mario Valdés: que a literatura é uma força, uma energia figurativa que contribui para a conformação de certa identidade cultural. Veja-se, por exemplo, o caso do Canadá, que considero modelar na programação identitária: na política de imigração canadiana, os candidatos com cursos técnicos e tecnológicos têm possibilidades muito maiores do que aqueles das áreas das Ciências Sociais e Humanas. Porquê? Porque sendo um país de imigração, há que ter cuidado com as teorias exógenas que vão criar pólos centrífugos de gestação identitária. Política inteligente, não é? Por que somos tão deslumbrados com o que os outros dizem de nós?! Isto não será complexo? Ou obsessão de reconhecimento externo? Houve até um escritor angolano que chegou a afirmar que não escrevia para angolanos, mas para portugueses e brasileiros. Ora isto daria tema para um congresso, ou uma tese de doutoramento, sabendo-se que a recepção é uma instância fundacional da nacionalidade literária... Devem, pois, encontrar-se outras razões e uma delas reside no escritor. Existe hoje um impulso para um reconhecimento externo, o que é legítimo (se pensarmos em termos individuais), mais do que a preocupação de reconhecimento interno. Ora, esse impulso é ditado não apenas pela perversa dinâmica da globalização que tende a funcionar, devido às fragilidades dos espaços periféricos, como imperialismo cultural, mas também pelo facto de a experiência literária angolana continuar a ser marcada pela instância do colonial, embora muitas obras nos últimos anos estejam já a assimilar as contingências da dinâmica do pós-guerra, como, por exemplo, a obra que ganhou o Grande Prémio da Ficção 2004 da UEA, Os Dias e os Tumultos, de João Tala.

P: Porque julga temerária a utilização da posição do Prof. Russel Hamilton segundo a qual cabe aos angolanos a opinião autorizada sobre o que é literatura angolana?

R: Acho temerária porque não me reconheço na teoria de que apenas os nacionais podem falar de si. No que diz respeito à Ciência, não pode haver «nacionalismos» estreitos isto é chauvinismo, quando não puro oportunismo. Não quero dizer que a Ciência, e sobretudo as Ciências Sociais e Humanas, é isenta de ideologia; pelo que há que arranjar equilíbrios, para que não se caia no autismo cultural, tão fácil e frequente quando se quer justificar exclusões. Por exemplo, pensar que alguém não tem legitimidade para falar de uma cultura só porque não é nacional. Isto é fascismo, a meu ver (há vários tipos de fascismos, há fascismo de esquerda também: e é óbvio que estou aqui a utilizar esta noção fascismo no seu sentido corrente). Porém e isso é muito importante, uma cultura nacional não pode ser estudada apenas por estrangeiros (que é, ouso dizer, o que está a acontecer com a literatura angolana, salvaguardadas as actuais excepções, nas quais me incluo apesar de ter sido excluída várias vezes por não ser angolana: tivesse eu nascido na «metrópole», em vez de em São Tomé e Príncipe, e seria, naturalmente, angolana! Mas isso é outra história). Não me refiro a recensões críticas, pequenos apontamentos jornalísticos. Refiro-me a uma um trabalho sistemático, que vai do ensino á crítica profissional e a materiais escritos. Mais do que congratularem-se com o que os estudos da literatura angolana fora no Brasil e em Portugal, sobretudo, penso que há que criar condições para que ela seja objecto de estudo intensivo no país e que esse estudo seja internacionalizado. Pois que, salvo raríssimas excepções, apenas são estudados os escritores de «projecção internacional». E isto é nefasto para o sistema literário. Eis porque o projecto do Ministério da Cultura sobre a História da Literatura Angola é uma iniciativa fundamental, a todos os níveis. Neste sobretudo.

P: Sobre o seu livro Literatura Angolana: Silêncios e Falas de uma Voz Inquieta, Luís Kandjimbo, crítico literário angolano, diz que, apesar da abordagem, a obra «não culmina com qualquer demarcação clara do seu objecto de estudo: a Literatura Angolana. Verifica-se uma apresentação difusa, disseminada em fragmentos cujas conexões vão ocorrendo ao longo do livro». Quer comentar?

R: Não gosto de comentar críticas que me são feitas. Porém, acho que esta merece comentário: o crítico Luís Kandjimbo certamente não leu, ou não percebeu, que a organização dos capítulos de uma obra também se «lê»; que a leitura é sempre selectiva, isto é, o crítico faz escolhas, quando selecciona está a demarcar embora eu não saiba exactamente o que ele entende por «demarcação». E diferentemente dele, que acha que pode pôr fronteiras no sistema literário, eu não sou capaz de tamanho julgamento e discurso sentencioso ao que ele chamará deficitário, eu chamo prudência e consciência da complexidade que é a pretensão de «demarcar» sistemas literários num trabalho ensaístico. O crítico tem também de ser humilde e não pensar que tem a bitola tanto da literariedade quanto da nacionalidade. Os exemplos de Cesário Verde (e de Clepsidra) e, na contramão, de Pinheiro Chagas e da sua prolífera obra que hoje ninguém lê deveriam servir para que as pessoas tivessem menos tentação de demarcação e de julgamento.

P: Quer explicar-nos melhor a que refere, numa acepção conotativa, quando se refere neste livro à «autocanibalização da nova escrita angolana»?

R: A imagem vem-me do trabalho dos modernistas brasileiros em relação à «tradição» (mas devo dizer-lhe que esta expressão está descontextualizada. Você retirou-a do contexto e assim parece significar que é a nova escrita a «sofrer» a canibalização; não, a nova escrita procede ao processo de canibalização, ela é sujeito da canibalização, não seu objecto, entendido?). Bem, respondendo à questão: penso que hoje se verifica uma reescrita e consequente releitura dos lugares literários (temas, sinais, símbolos, ideias) fundacionais do sistema, que foi subsidiário da ideologia libertária. Ora, hoje, os escritores continuam a perseguir o projecto utópico. Tanto na poesia quanto na ficção narrativa, a literatura ainda labora visando a (re)construção da nação, porém pela mobilização de outros temas e recursos estilísticos e retóricos, a que subjaz uma outra filosofia: tanto a da escalpelização das responsabilidades (por que o advento não se tornou evento), como o exercício da cidadania e a apologia da heteroglossia, isto é, a da pluriferação de visões sobre o país e sobre a nação que, afinal, ainda se vai processando. É a isso que chamo canibalização, uma atitude antropofágica que consiste em «devorar» o que vinha do nacionalismo literário, mas a que são acrescentados outros ingredientes que dizem respeito à actualidade. Vemos isso em A Geração da Utopia (já começáramos a ver em Mayombe), na poesia de José Luís Mendonça, Adriano Botelho de Vasconcelos, João Maimona, Paula Tavares, Fernando Kafukeno, Amélia Dalomba, António Gonçalves, entre muitos outros. E mesmo os mais «antigos», como Arnaldo Santos, Costa Andrade, Jorge Macedo, Ruy Duarte de Carvalho, enfim, que têm vindo a ultrapassar-se, tanto em termos semântico-pragmáticos, como em termos ideológicos e, obviamente, técnico-compositivos. Canibalização no sentido oswaldiano: «Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada».

P: Disse certa vez que pertence a cinco países. Penso que a CPLP seria o epicentro de interacção cultural de todos os países membros. Que nota nesta instituição a este respeito?

R: Este é o problema, Aguinaldo Cristóvão: não noto nada! Senão servir de pretexto para os «altos dignitários» e sua entourage passearem.

P: Há pouco falávamos de países lusófonos. Considera pacífica a expressão «lusa», que é rejeitada por alguns?

R: Você falou de «países lusófonos»? Olhe, eu não disse isso. Respondendo à sua questão: obviamente que não acho pacífica e já tenho escrito acerca disso. E nem acho que quem a rejeite tenha uma «mentalidade» menos centrípeta, ou seja «complexado» e mais epítetos afins; nem aceito também o argumento de que a expressão deve ser adoptada porque não existe outra melhor. Enfim, o que quero dizer é que, apesar da sua «funcionalidade», há que discuti-la, conhecer as razões de uns e de outros e, sobretudo, expulsar as pretensões hegemónicas que ainda subjazem à expressão. Já reparou que «países lusófonos» são os africanos? Portugal é Portugal, Brasil é Brasil. Mas os Cinco são «países lusófonos». Porquê? Vale a pena, neste contexto, conhecer as posições de Fernando Cristóvão, Alfredo Margarido e Eduardo Lourenço. Estabelecem um diálogo (denso e tenso) muito produtivo e desmistificante: esgrimem-se razões e advertem-se contra subentendidos.

P: A questão do acordo ortográfico voltou à agenda. Em que ponto devem os países que falam português convergir para uma plataforma de entendimento?

R: A questão da língua é eminentemente política. É preciso que não nos esqueçamos disto. Os técnicos já fizeram o seu trabalho. Mas a decisão é política com repercussões na Educação, na Cultura, na Economia. Sabe que com a ratificação e a implementação do Acordo Ortográfico o mercado do livro, por exemplo, sofreria uma reviravolta? E no sistema de ensino? Já pensou na revolução nos manuais escolares? Sem falar nos professores? Mas, sinceramente, este é um assunto sobre o qual não tenho vindo a reflectir... O que sei é que não existe um acordo ortográfico para a língua inglesa e nem por isso o inglês deixa de ser uma língua viva e em expansão...

P: Conversei com linguistas angolanos que reclamam, neste acordo, atenção especial às línguas africanas. Mas há quem diga que uma uniformização nunca será possível. Que opinião tem do assunto?

R: Como lhe disse anteriormente, não gosto de falar sobre assuntos que não domino. Julgo, no entanto, não perceber muito bem a «preocupação» em relação às línguas africanas: o acordo será ortográfico e será apenas referente à língua portuguesa, não? Será que se referem às palavras das línguas africanas utilizadas no sistema da língua portuguesa? Bem, este seria uma questão, de facto, que exigiria uma decisão técnica: escreverem-se as palavras segundo o Alfabeto Africano de Referência ou segundo as regras ortográficas da língua portuguesa? É isso?

P: Já sei que não está virada para a ficção. Prefere ater-se aos ensaios. Mas a poesia, diz-se, está enraizada no quotidiano africano. Partindo deste silogismo, já escreveu ou pensou em escrever poesia?

R: Sim, como toda a gente, sobretudo adolescente ou quando está apaixonada, não é? Qual é a rapariga que não escreveu poesia sobre as suas paixões? Ou quando está muito triste por qualquer motivo? Claro que já escrevi poesia, mas deitei fora. Tenho a noção da mediocridade o que muita gente não tem, acho... Poesia não é expressão de sentimentos: para além do génio, há o trabalho artístico, que a teoria literária não ensina. Se assim fosse, todos os professores de literatura seriam óptimos escritores.

P: O consumo de boa parte da literatura africana é feita no exterior do continente. Acredito que os autores a maior parte aliados a editoras estrangeiras terão em conta, sempre que escrevem, este seu «potencial público-alvo». Que reflexão faz a este respeito?

R: Eu penso que esta é uma arma de dois gumes para o escritor africano: ele quer ser aceite na Europa particularmente Portugal, no caso como escritor africano (ele sabe que se ele fosse escritor europeu, não teria a projecção que tem). Conheço dois casos paradigmáticos de escritores (por caso, uma escritora e um escritor), que quando começaram a escrever não se diziam africanos (aliás, um escondia o facto de ter nascido em África; a outra, que até nasceu em Portugal, dizia que era portuguesa); depois, quando viram que ganhariam se se afirmassem africanos, começaram a reivindicar a sua «africanidade»! (No caso, até continuam a assumir-se como escritores portugueses quando lhes convém...). Há poucos anos, em Setembro de 2002, Mia Couto referia, numa entrevista, o ghetto para o qual os escritores africanos são atirados quando se lhes exige «passaporte» para provarem que são «tipicamente africanos», para provarem seus «valores históricos», considerados «tradicionais» (as expressões não são minhas), acrescentando que se trata de uma armadilha terrível, porque o valor de um livro é o seu «carácter universal» (voltamos ao «universal» como sinónimo de rasura do «local»: como se García Márquez, visceralmente colombiano, fosse menos universal por isso!). A questão que ponho é: onde está contradição nesta «exigência»? É que tal «passaporte de valores tradicionais» é exigido ao escritor africano cuja comunidade receptora se encontra primordialmente no Ocidente pois se ele é publicado e lido por ser «africano»! Ora, este é mais um aspecto da perversa relação que a literatura africana e seus agentes produtores, e até críticos, mantêm com o «centro metropolitano», de onde se esperam sinais de legitimação, sob vários aspectos.

P: O fenómeno da melhor e maior aceitação de um escritor no exterior do que no seu próprio país levar-nos-ia à questão do analfabetismo que precisa ser erradicado de África?...

R: Será por causa do analfabetismo? Será por causa de analfabetismo que o cineasta Manuel de Oliveira tem maior receptividade em França (ou melhor, em festivais) do que em Portugal? Não, não acho isso, acho que tem a ver com a questão da identificação. Quando a «comunidade receptora» não se identifica com o universo que o escritor cria não se transforma em «comunidade interpretativa». E isso é porque alguma coisa se passa e a «responsabilidade» não tem de estar no autor, obviamente, pode estar, é verdade, na comunidade. Ou na falta de diálogo entre as duas instâncias que me parece o caso mais comum: um exemplo flagrante é o de Herman Melville, o autor de Moby Dick, hoje um verdadeiro monumento da literatura norte-americana, mas que foi um flop total, quando, em 1851, foi publicado (com partes truncadas hoje diríamos censuradas para não ofender «sensibilidades políticas e morais»).

P: Que pensa da existência de uma literatura histórica entre Portugal e os hoje PALOP?

R: Aproveito para dizer que não utilizo esta sigla para me referir aos nossos países. Até já existe o gentílico daí derivado: palopiano! Prefiro a designação «Os Cinco», que vem da «Geração de Cabral», dentro da ideia da CONCP Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas. Muda-se a designação, muda-se o objecto? Não, mas a atitude é afirmativa e isto para mim é importante. Sei que estou a remar contra a maré mas conheço gente muito «engajada» hoje na luta de Timor-Leste que achava que os timorenses deveriam conformar-se e trabalharem para a integração...

P: Por que existem tão poucos escritores a retratar este passado comum, já que os laços históricos e culturais entre os povos se estendem também a outros países, como São Tomé e Príncipe?

R: Esta é uma questão que tem a ver com o processo de criação literária. Creio que os escritores escrevem sobre o que os «incomoda» aliás, García Márquez, José Saramago ou Chinua Achebe dizem isso. Por isso vê como o discurso da história contamina a obra de Pepetela, de Henrique Abranches, de Boaventura Cardoso a vários níveis e tempos: história de um tempo pré-colonial (Misericórdia para o Reino do Kongo!, A Revolta da Casa dos Ídolos, A Gloriosa Família, Nzinga Mbandi), de um tempo de transição, pode dizer-se, para o colonial (A Casa Velha das Margens, A Conjura), história de um tempo colonial e de resistência (Nambuangongo, Mayombe, A Geração da Utopia, O Signo do Fogo), de um tempo pós-colonial (Os Anões e os Mendigos, Maio, Mês de Maria), enfim.. Se ainda não fazem literatura sobre a história das relações interafricanas talvez seja porque a intelligentsia ainda não começou a preocupar-se com esta questão. Porque, sendo a História do domínio do factual e a Literatura do domínio da imaginação, as duas modalidades discursivas fazem pensar que a aquela (a História), assim como esta (a Literatura, mormente o romance) que procura nela o seu tema, são «tentativas de itinerários», como diz José Saramago, que afirma também que a ficção histórica, por exemplo, aquela que procura na História material, é uma visão da história, tão legítima quanto o discurso da ciência histórica. Portanto, se o escritor angolano não utiliza esse material, talvez seja por que o escritor não está preocupado, sei lá. Como sabe, sou autora de escrita ensaística, não criativa. Tem de perguntar isto aos escritores angolanos.

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