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«O Poeta é Sonhador, Mas o Sonho Dele Torna-se Realidade»

Escrito por  John Bella

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

Nativo da Brigada Jovem de Literatura de Angola, John Bella, heterónimo literário de Jorge Marques Bela, traça a sua evolução como escritor, embora não diga abertamente que tem um dom de prever situações. Essa interrogação levou-nos a reler os seus livros e a constatar que os seus três livros de poesia referem-se às mais importantes etapas da história recente de Angola. Mas, como o próprio escritor diz, parafraseando Agostinho Neto, apenas basta-lhe que as mãos coloquem pedras sobre os alicerces do mundo.

 

P: John Bella é dos «jovens escritores» que se têm firmado na literatura. No Sambizanga, bairro que o viu nascer, havia um ambiente intelectual que o tivesse impelido às letras...

R: Se puder considerar isso «intelectual», eu cresci no Sambizanga numa época em que aquilo era considerado um «mato», mas não um mato do jeito pejorativo que muita gente às vezes tenta desenhar. Aquele mito de que em Luanda tudo é urbano, e rural é só para além de Luanda, e nas outras províncias, a começar pelo Bengo e por aí fora. Mas eu considerava que foi uma época em que eu chamava de mato, porque aquela tradição que nós encontramos no interior de Angola, há quem goste de chamar «Angola profunda» já existia. As pessoas arreigadas à sua própria língua materna, que na altura era o kuimbundu que eu também aprendi muito, aquela batucada, aquelas músicas, portanto aquela literatura que estava dentro da alma das pessoas e que era ressaltada quando juntávamos à volta da fogueira, as estórias dos animais etc; era aquilo que eu considerava uma parte rural dentro de Luanda. Mas foi sempre considerado, e até agora é considerado um dos bairros-chave para o desenvolvimento desta própria cidade capital. Talvez sejam elementos que fizeram de mim a pessoa que hoje sou.

P: Deve-se dizer que o Sambizanga é o bairro mais populoso de Luanda...

R: Podemos até não generalizar as coisas, mas do Sambizanga saíram determinadas referências que do ponto de vista cultural Angola tem. É preciso ver que alguns músicos de referência partiram de lá. O grupo da maior manifestação popular mais referenciada (Carnaval), o Kabocomeu, também saiu de lá. Um dos grandes grupos tradicionais, quando se fala de desporto, quer no Brasil ou em Portugal, fala-se muito do Progresso do Sambizanga. Eu penso que ponto de vista da vivacidade, deste dinamismo todo, eu também sou um dos frutos do Sambizanga.

P: Nos livros, sobretudo de poesia, que tem publicado, ressalta muito o facto de o autor ter sido um observador atento na sua infância?

R: Acredito que sim. Eu sempre defendi que a literatura é uma coisa específica que nasce com a pessoa. O que não significa, porque muita gente gosta de colocar palavras na minha boca, que o facto de eu dizer isso, estou a dizer que já não precisa mais nada para ser escritor, basta ter o talento, não é nada disso. Eu acredito que nasce com a pessoa porque todos os meus colegas, os meus amigos de infância, tinham a mesma vivacidade que eu, ouviram também estórias à volta da fogueira, brincávamos juntos, cantávamos e dançávamos o Carnaval mas, pelo que eu saiba, eles são unânimes em dizer que não saíram escritores. Uns saíram cantores, outros nem tanto assim, portanto eu acho que isso nasce com a pessoa. No entanto, o Sambizanga é um mosaico de coisas que propicia que a pessoa tenha determinadas visões, principalmente do ponto de vista cultural, para a sociedade em que se insere.

P: Nasceu e reside em Luanda, onde aprendeu o quimbundo que hoje utiliza nos seus livros...

R: Conforme havia dito, eu acho que a minha foi a última geração que ainda apanhou a língua materna. Agora acredito que a geração que imediatamente me seguiu já não fala o kuimbundu. Uma forma, acredito, de preservação da nossa cultura, foi através da língua. No entanto, depois de 1975, as pessoas acharam que já não havia necessidade, porque eram todos os meios possíveis para a identificação do homem angolano. Para preservar o que é nosso, então as pessoas encontraram na língua uma das formas; mas depois do 11 de Novembro, as pessoas acharam que talvez já não haja tanta necessidade de se preservar a cultura, porque já não havia forma de nos roubarem, porque o colono já havia se ido embora. Então, a meu ver, aí tinha que haver uma outra instância. Seria então papel do Governo pegar e dar continuidade àquilo que já havia do ponto de vista ágrafo e passá-lo para a grafia.

P: Embora com tenra idade, que efeitos notou como sendo repercussões culturais, após a independência de Angola?

R: Eu escrevi uma entrevista à revista Libero, que muita gente até elogiou, sobre o que eu senti na independência. E o que mais me emocionava naquela altura, eu era criança ainda, devia ter por aí os meus 7 a 8 anos, recordo-me como se fosse hoje tenho uma memória de «sambila» nato eu penso que das coisas que mais me emocionou, foi que eu sabia que Agostinho Neto era poeta e que um poeta, um homem de letras, havia de proclamar a independência. Essa era uma das cisas pelas quais eu achava que seria uma independência de verdade. Porque era um homem de quem eu já lia as obras naquela altura, embora a «arranhar» um bocadinho... eu não via tanto o político que lutou por nós, mas fazia-me um bocado de espécie, como é que um homem conseguiu transformar a sua literatura e eu na altura já começava a tentar querer entender o que era a literatura na libertação do seu povo.

P: O silogismo diz-nos que um poeta é um sonhador. John Bella é um poeta, logo é sonhador?

R: Eu acredito que é um sonhador, mas de sonhos que depois fazem-se verdade, conforme escreveu o nosso amigo escritor Fragata de Morais. Ele pode sonhar, mas o sonho dele torna-se realidade e é o que acredito que aconteceu com Agostinho Neto. Aqueles sonhos de cadeias, etc., tornaram-se verdade, a meu ver, em 11 de Novembro de 1975.

P: Vinte anos depois lança o seu primeiro livro Água da Vida. O livro surgiu no contexto que desejava?

R: Eu começo a escrever em 1980. Ou um pouco antes, talvez. E acompanhava todo o percurso literário que o país desenhava. Lembro-me que, já naquela altura, eu era pequeno, já havia nascido, no dia cinco de Julho, a Brigada Jovem de Literatura e Luanda. Quis ir ao acto de proclamação, mas com 12 anos era muito pequinininho, achavam-me; e pensei «eu com esta idade! Como vou para um sítio, que foi Agostinho Neto presidente... não, não. Não vou fazê-lo». Mas fui ganhando coragem, até que em 1984 fui para a União dos Escritores Angolanos à procura da Brigada Jovem de Literatura, entregar uma obra, de uns escritos que eu já havia feito. Lembro-me que na altura encontrei o senhor Joaquim, homem antiquíssimo, que disse-me que não. «Aqui não é sítio para vocês. Mas eu aconselho-te a ires para a Brigada Jovem de Literatura. Eu vou te indicar onde é: é ali no palácio das Beiras» (que depois passou a ser Universidade de Angola). E eu disse-lhe «Está bem, vou para lá!». E fui muito bem acolhido. Encontrei algumas pessoas que hoje já são bem referenciadas.

P: Quem encontrou na época?

R: Na altura, era o António Panguila, o Kudijimbe, a Rosária da Silva. Encontrei já a saírem da Brigada, o Lopito Feijó, o Luís Kandjimbo, o Sílvio Peixoto (já malogrado). E a partir daí fui me evidenciando. Achei a Brigada uma escola excelente, não escola de fazer escritores, mas de contribuir para que os escritores já feitos, com o seu talento, possam então avançar. Naquela época eu fui fazendo trabalhos, muita gente às vezes acusa-nos de que nós estamos com pressa. Eu não digo isso, porque eu entrei em 84 e só publiquei o meu livro em 1995, imagine, onze anos depois. Mas nunca tive pressa. Mas o problema é que, às vezes, os jovens têm ânsia. Eu fui sempre esperando, e é aí onde eu vejo a maturidade das pessoas. «Como é possível que eu não conheço este jovem, nunca o vi a declamar um poema, a assistir a uma actividade literária, uma Maka na União, de um momento para outro aparece com quatro ou cinco livros? Será ele mesmo que escreveu? Isso não é um bocadinho duvidoso»? Por isso é que eu chamo a atenção aos jovens para não o fazerem. Logo que acharem que têm algo de literatura, vão à União assistir às Makas, vão à Brigada Jovem de Literatura assistir, por exemplo, às Tardes dos Poetas. Pelo menos quando aparecerem, já não terão aquele ar de duvidosos. Que há alguém por detrás deles, se aparecerem com quatro ou cinco livros. Pode ser que isso aconteça. Há génios desta forma, mas há quem sempre tem um pé duvidoso, porque nunca o vimos em parte nenhuma. Foi com isso que tive cuidado, e acredito que a maioria das pessoas que está na Brigada tem esse cuidado.

P: Afinal, a Brigada dá ou não o apoio necessário aos mais jovens escritores, pela passagem de testemunho?...

R: A Brigada dá aquilo que ela tem. Ela não tem sido muito apoiada e nunca foi, diga-se em abono da verdade. Mas o incentivo que a Brigada dá é o da leitura e aos hábitos. Por exemplo, há os próprios programas que a Brigada tem. Tem a «BJLA na escola», que é para incentivar o hábito do livro e a leitura entre os estudantes. Há as chamadas «Tardes dospoetas», onde qualquer pessoa que achar que faz a sua poesia tem a oportunidade de apresentar. E depois dali é que as pessoas apresentam os seus trabalhos, tanto por escrito (às vezes fotocopiam) como declamando. Depois vêm as críticas. Muitos jovens da Brigada têm sido negativamente criticados, e quando digo «negativamente« não é no sentido pejorativo; porque dizemos crítica positiva e negativa para não dizer crítica construtiva e destrutiva. E eles no dia seguinte melhoram. Mas eles têm que aparecer. E eu não concordo quando as pessoas dizem que, por estar a ler errado, desaparecem. Amanhã melhora-se um ponto. As pessoas dizem «o fulano leu Mal», e a gente vai, conversa com ele: «Olha, o fulano não gostou deste teu procedimento». No dia seguinte há uma nova tarde dos poetas e nós vimos que ele melhorou. Mas ele tem que aparecer. Temos de lhe dar voz e ouvidos. Porque se não, não vai melhorar, não vamos ver onde é que está o erro. É isso que a Brigada faz, eu acredito que muitas outras associações deveriam fazer o mesmo.

P: O ano de 1992 foi um marco político do país (primeiras eleições multipartidárias). Em 1995 lança o seu primeiro livro, como já dissemos, que carrega, acredito, a epopeia de 1992...

R: Acredito que sim, porque foi um momento que marcou muito a vivência dos angolanos, e eu estava, naquela altura, no auge das manifestações culturais. Imaginem que, naquela época, eu tinha já o meu primeiro livro preparado, mas não conseguia publicar. Mas outras coisas eu tive que mudar em função daquele momento que se vivia. Foi um determinado momento histórico, que a juventude deve saber. Mas as particularidades daquela época, da vivência na altura, da ganância de determinados políticos em quererem tudo, em não respeitar por um lado a vontade do povo, eu penso que isso marcou em mim. Mas do ponto de vista artístico eu digo que me marcou pela positiva. Porque eu consegui mais «garra», entender melhor as coisas da vida, e hoje posso até me considerar como sendo um jovem que vivi um pouco de tudo: vivi um pouco de 75, um bocado de 77 e sobretudo de 92.

P: Durante a guerra civil de Luanda, em 1992, pôde escrever algo em poesia?

R: Não só em poesia, mas também em prosa. Aquela vivência, porque eu não estava em casa, passei sobre tiros, fui «resguardado» pelas autoridades para não acontecer o pior. Coisa que eu achei humana: estavam a prender as pessoas nos quartéis para que não fossem embora. E eu era um daqueles que não estava em casa e quando ia para casa, prenderam-me para me protegerem. Só quando acalmou é que me deixaram sair.

P: Ainda se recorda do que escreveu na altura?

R: Iniciei a escrever... um livro onde começo pela própria trajectória política de Angola antes, durante e após a independência, e os momentos que antecederem o próprio 92. Portanto é um livro histórico. As lutas que se travaram em Angola, passando um bocadinho pelas guerras de resistência à ocupação – porque eu estou também a escrever um romance sobre a Rainha Njinga, e aí passo um bocadinho por aquilo. Uma característica que eu tenho nos romances é que nunca acabo, porque eu penso que o romance é uma coisa de contornos contínuos. O que estou a conversar consigo hoje pode me inspirar para meter no romance. Mas tem que chegar um dia em que coloco um ponto final, se não nunca mais acabo. Ainda não publiquei um Romance.

P: Água da Vida (BJLA, 1995, Luanda) foi uma estreia literária rodeada de prémio e prestígio que, é notório, lhe ajudou muito na sua ascensão na literatura. A partir daí começou a escrever mais à vontade...

R: Muito, muito mesmo. Mas há quem diga que todos os livros são filhos, e as pessoas falam muito mais de Panelas cozinharam madrugadas. Gostam muito. Há pouco tempo, veio um colega meu, que é escritor também. Ele disse: «John Bella, encontrei a venderem Panelas que Cozinharam Madrugadas no Roque Santeiro (maior mercado informal de Angola). O único livro a ser vendido no Roque. Mas deu-me a impressão que parecia ser pirateado, porque a capa não tem aquela vivacidade. Estava a ser vendido a 500 kz (menos de 6 usd) e com muita concorrência». Eu disse: «olha, nunca mais li esse livro, até porque não foi o livro de que mais gostei. Gostei mais de Água da Vida». Por ter sido o primeiro. Imagine, eu lanço em 95 e em 1996 fui considerado escritor do ano por aquele livro e, conforme disse e muito bem, na altura deram-me o prémio Galax. Muita gente desenhou negativamente o meu futuro. Disseram-me que aquele prémio seria a minha derrota, porque eu iria ficar envaidecido não sei se aquilo era uma profecia negativa que estavam a atirar contra mim. Mas cinco anos depois eu lanço Panelas Cozinharam Madrugadas, que embora eu não tenha gostado tanto como do primeiro, teve mais sucesso do que o livro de estreia.

P: Em Panelas Cozinharam madrugadas (BJLA, 2001, Luanda), temos um escritor mais maduro e com uma construção poética mais sólida...

R: Realmente. É justamente por isso que as pessoas gostam. Dizem que eu ali atingi o apogeu. Mas acho que o auge foi atingido na primeira obra.

P: Estou recordado que esteve em Cuba, onde reuniu assinaturas para a liberação de Xanana Gusmão. O escritor é, antes de mais, um activista social?

R: Eu acho que sim. Agora, falando em Xanana Gusmão, eu penso que África está a cometer um erro sobre o que está a acontecer no Sudão, ao virar as costas para aquele povo. É o seguinte: em função de ter ganho o Prémio Galax e de me terem escolhido como o coordenador da lista de assinaturas a favor da libertação incondicional do poeta Xanana Gusmão, fui para Cuba, na altura havia lá o Festival Mundial da Juventude e estudantes. Eu tinha a função de recolher, através de todos os escritores interessados que lá estivessem, homens ligados às letras e outros, um abaixo-assinado para reforçar a nossa lista. Eu encontrei-me com um senhor de que me recordo bem o nome. Chama-se Tomás Tutti Nion Kuet, que era o responsável dos estudantes da federação do Sudão. Isto foi em 1997. Conversámos e disse-me amigavelmente: «John Bella, o Sudão está como vocês, Angola, quando estavam rodeados do Apartheid». Eu perguntei: «Como assim?». «Porque vocês estavam a enfrentar sozinhos uma guerra que era de toda a África e nós, os negros do Sudão, com John Garang à frente, que não somos muçulmanos, estamos a enfrentar uma guerra que é de toda a África». «Explica-me melhor isso». Ele disse «Olha, tu sabes que o islamismo tende a impor a sua religião por meio das armas. O Sudão é o maior país de África. O que os muçulmanos querem é acabarem-nos a sul. Mas basta acabarem a sul, começarão também a desestabilizar outros países. Aí atacam os Kongos, que vêm a seguir e assim sucessivamente outros países. E você, John Bella, vai ver que daqui a uns anos esse massacre vai se agudizar ainda mais para a região de Darfour». E tenho testemunha disso. Na altura eu estava com o Tomás Ana, o Etona, artista plástico, a ouvir toda esta conversa. E o massacre está-se a ver agora. E ele diz «A África não nos socorre. Quem nos ajuda apenas são os Estados Unidos. Há momentos em que toda a nação muçulmana une-se para ir nos acabar, e a África não nos socorre. Quem nos vai defender são os homens que vêm da América». É um grande crime, que eu vejo países e povos a acharem que este massacre que está a acontecer no sul do Sudão é uma coisa de nada. Nós já vimos massacres no Ruanda, no Uganda e só depois disso é que nos vamos arrepender. A África está a dar as costas ao nosso povo. Por isso é que no ano 2000, quando publiquei Panelas Cozinharam Madrugadas, na página 39 pude escrever o seguinte:

«Os Condenados da Rota Islâmica»

«Ao amigo

Thomas Tut Nyoum-Kueth

Forever young

Na memória d um fumo que luta

Com gatilhos do Nilo-Branco

Um cérebro refutado em «Las Villas»

Enquanto a gola guerreira da camisa

[animista

Desnuda o Velho-Testamento,

Em águas melancólicas do Juba.

E Wau, pode ser fim do trem?

Oh África lábios de cor,

Não vá permitir de novo

Renovadas mãos cristianicidas

Comerem restos sanguíneos

António crucificado

Com Santa Beatriz do Kongo.

Há um templo sudanês

Transpirando sinagoga em

[Malakal».

Achei um bocado curioso porque depois, aquando da proclamação da independência de Timor, muita gente que acompanhou o nosso empenho pensou que eu estaria entre os escolhidos das entidades angolanas para ir assistir àquele magno acontecimento. Mas foram escolhidas, na altura era ainda Ministério da Educação e Cultura, pessoas e outros artistas que, pelo menos visivelmente, pouco ou quase nada fizeram em prol daquela causa. Eu até agradeço, porque, para mim, consegui aquilo que Agostinho Neto diz, as minhas mãos colocaram pedras nos alicerces do mundo. Isso não fez com que eu parasse de escrever sobre Timor-Leste. Tanto que no meu livro de poemas Cântico Romântico (à Paz) ainda falo e agradeço ao Poeta, assim como ao seu antigo e fiel representante em Angola, Dr. Roque Rodrigues Um Homem de Cultura. O que incentivou-me a segurar esta causa, pois quando vejo que o poeta luta, ele entrega-se todo, que é o caso de Xanana Gusmão. Lembrei-me de Agostinho Neto, e recordei que era uma causa justa, o que fez com que eu estivesse ao lado de Timor-Leste, nesse caso do seu povo. Nesta luta foram mobilizados, para além de escritores, outros artistas que em Angola se solidarizaram connosco. É assim que, por ocasião de uma possível visita de Xanana Gusmão a Angola, o «Colectivo de Artes-Horizonte Njinga Mbande» procurou-me a ver se, à semelhança dos anos passados, poderíamos remontar a peça teatral intitulada «Pátria», título de um dos poemas de Xanana Gusmão, e se poderíamos apresentá-la na UEA na presença do mesmo. Achei a ideia pertinente e logo apresentei-a ao Secretário-Geral desta Instituição, o poeta Adriano Botelho de Vasconcelos, que ficou de ver o caso, encetando contactos junto da Presidência da República e do Ministério das Relações Exteriores, para que, aquando da sua estadia em Luanda, Xanana possa visitar a UEA. Já visitaram esse local José Sarney, escritor e na altura ainda Presidente do Brasil, e Durão Barroso, ex-Primeiro Ministro de Portugal.

P: Para além da visão sociológica, o escritor deve ter, é importante, como relata o contacto do escritor com o mundo que o rodeia...

R: É um contacto bastante frutífero, até porque aumenta realmente o nosso background, embora, a meu ver, este conhecimento deva partir mesmo da nossa terra. Digo isso porque, numa das vezes que fui a Portugal, encontrei uma escritora que não estava a acreditar, porque eu lhe falei de partes do Brasil, sobre a Cultura do Brasil, desde a alimentação à literatura, coisas que ela desconhecia. Havia becos até de que eu lhe falava. Ela dizia «mas não é possível nunca teres ido ao Brasil, com toda esta descrição». Falei-lhe de uma procissão que fazem na Bahia, depois de passar o São Luís do Maranhão. É um préstimo que fazem à Colina do Bom Fim, expliquei taxativamente como aquilo acontecia e ela levou a ideia de que eu já havia estado no Brasil. Mas tudo tem que começar pela nossa própria terra, pesquisarmos primeiro o que é nosso, daí o grande valor das bibliotecas. Mas para que se vá a estas «casas do livro», temos que incentivar o jovem, de pequeno, ao hábito de leitura.

P: Panelas cozinharam madrugadas sai a público em 2001. Eu não resisto a tocar noutro momento histórico que está ligado a este livro que é o de 1992. Porque o seu livro seguinte Cântico romântico (à Paz) (publicado em 2003) é uma homenagem ao ano anterior.

R: É. Isso é uma verdade. É uma homenagem à paz, principalmente aos verdadeiros lutadores da paz. Que, resumindo e concluindo, é o povo angolano. Todo o mundo que vive e ama Angola, a meu ver, faz parte deste povo. Gente sacrificada que passou por 75, 77, se quisermos também 89, pelos acordos de paz, que muitos deles falharam, para culminar em 2002 em que houve o verdadeiro acordo de paz. Mas já em Panelas cozinharam madrugadas Jomo Fortunato [crítico literário angolano] dizia que «John Bella só quer paz para escrever, para sentir, para contemplar o comboio da vida e da água». Quer dizer que eu já estava à procura desta paz. E quando o trabalho chegou à Mesa de Leitura o título era apenas Cântico Romântico. Mas o coordenador da Mesa de Leitura é que disse: «Não, não. Aí tem muito poema que fala da paz. Antes até da paz aparecer, porque fala-se como se a paz já tivesse vindo. Então vamos pôr entre aspas a paz». Primeiro eu não quis. Eles só me convenceram quando me disseram que colocariam entre aspas a paz.

P: Esse livro poderia ser encarado como uma premonição...

R: Realmente. Esse é um dos poderes do poeta, e que eu mais admiro em Agostinho Neto. A meu ver, e eu digo isso muito livremente, se formos a ler os últimos discursos políticos, eu não sei discernir muito bem os discursos políticos ou culturais de Agostinho Neto, porque em política ele dizia 50 ou 40 por cento de cultura. Se é que a actividade política não se traduzia numa actividade cultural. Porque, se notarmos bem, o seu discurso era também literário. Aquela visão das coisas que Gorbatchov só observou nos anos 90, Agostinho Neto já havia visto nos anos 70, só que na altura era um bocadinho sinuoso. Essa é a minha visão. Porque, quando Agostinho Neto diz: «porquê que só tem que haver uma elite de políticos? Nós temos que ter uma verdadeira democracia para todo o povo», [é] porque o povo é a base. O que é que estamos a ver agora? Primeiro vamos ao povo fazer campanhas para no final todo o mundo votar. Para quem observar bem ele já dizia. Não pode ser uma democracia como na antiga Grécia, que os Estóicos faziam. Embora a democracia nasça na Grécia, mas era uma democracia para uma pequena elite. O político e poeta da «Sagrada Esperança» já combatia essa «suposta» democracia. Projectava o governo da maioria em que todo o povo pudesse participar. Para bom entendedor é «um homem, um voto». O sufrágio universal. E eu penso que naquela altura era um bocado sinuoso, delicado falar-se disso.

P: Há uma constatação interessante de João Maimona, a propósito de Cântico Romântico (à paz) (BJLA, 2003, Luanda). Para ele John Bella apresenta uma «fuga à preocupação metafórica». Concorda com esta asserção?

R: João Maimona como mais alguém tem a sua opinião. A opinião do João Maimona com relação ao que é metafórico talvez seja diferente da minha e de muita gente. O Poeta e Dramaturgo Trajanno Nankova, na sua introdução composta no livro, sublinha grandes figuras de estilo. Por exemplo o Adriano Botelho de Vasconcelos, como escritor, quando fez a apresentação da obra ele diz que eu tenho muita metáfora neste livro. Já o João Maimona diz o contrário. Então eu penso que são apenas pontos de vista e devemos respeitar. O que acho é que, para análise de um texto, devemos nos despir de todos os conceitos ou preconceitos que possamos ter contra a pessoa do autor.

P: Durante toda esta conversa, fala insistentemente em Agostinho Neto. Que representa para si a figura e dimensão cultural de Agostinho Neto?

R: Do ponto de vista cultural e literário, foi um grande escritor, um grande pensador. Eu, às vezes, tento, e muitos dos meus colegas tentaram e não conseguiram. Mas não é fácil nós transformarmos arte em política. Uma marimba ou um kissanje [instrumentos musicais tradicionais de Angola] fazer disso uma arma de combate, a pessoa tem que ser um génio. São coisas muito diferentes. E eu penso que Agostinho Neto conseguiu fazer isso. Ele transformou a literatura em arma de combate, sem tirar o cariz estético, estilístico, propriamente literário.

P: Se quiséssemos saber os ídolos de John Bella poderíamos apontar desde logo Agostinho Neto?

R: Agostinho Neto e outros mais. Agostinho Neto, Uanhenga Xitu, gosto muito da poesia de Jofre Rocha. Por exemplo ele tem um poemário, Assim se fez a madrugada, que é um grande trabalho. Também temos, dos mais velhos, o próprio Dario de Melo, escritor de vários géneros, sobretudo de literatura infantil. E é aí onde eu penso que deve incidir mais porque é básico para a juventude. Também gosto da poesia de António Jacinto.

P: Se John Bella já é conhecido e reconhecido como poeta, decide a dada altura escrever para crianças e publica A Canção Mágica (Chá de Caxinde, 2001, Luanda). Sentiu essa necessidade ou já tinha coisas escritas e queria publicar?

R: Um pouco das duas coisas. Eu acho que comecei um bocado pela literatura infantil. Primeiro ouvindo, depois contando também aos meus irmãos as estórias à volta da fogueira. Eu penso que eu chamava àquilo de literatura infantil. Depois tive muita sede de leitura e isso inspirou-me. E o que me inspira são os hábitos e modos de vida da sociedade. E até agora a experiência que a sociedade encerra é de maior necessidade de literatura infantil, que do ponto de vista da concepção do escritor até passar para o papel tem sido diminuto.

P: Porquê?

R: Há vários aspectos. Primeiro eu diria que a literatura infantil não é a mais difícil, mas a mais trabalhosa. Então muita gente hoje não está muito disposta a trabalhar para tal. Por outro lado, também, não há um grande reconhecimento para quem faz literatura infantil. Logo, o jovem que está a começar há-de pensar «Para quê fazer literatura infantil, se todos os prémios que eu conheço são prémios para poesia, romance; e preciso de ganhar um bocadinho de dinheiro. Quero ganhar nome e a literatura infantil não me vai levar a lado nenhum». Devemos saber que não podemos só pensar no dinheiro, mas reflectir que por detrás de tudo isso, existem crianças, jovens que têm por base a literatura infantil.

P: Alguns escritores dizem que basta pensar nos seus filhos que também necessitam de literatura...

R: Essa é uma das razões, mas não só, o filho não é o único que vai ler. Pensa-se mais nas crianças no total. Por isso e para simbolizar, dediquei na primeira página do livro ao meu filho. De qualquer modo, seu nascimento e as fases do crescimento inspiraram-me. É claro, a criança vai ter que ler isso, quem sabe amanhã, vai-se inspirar também por uma outra coisa. Pode não ser propriamente literatura, escrever um livro, mas ter o hábito de leitura e incentivar as outras pessoas. Deixo também um apelo à sociedade, para que as pessoas, neste caso até a própria União dos Escritores Angolanos, que acredito ter já começado a fazê-lo, continuem impulsionando os autores a fazerem mais literatura infantil. Acredito que sou o único jovem neste género, nesta altura. Porque os autores que temos, e muito bem posicionados do ponto de vista da literatura infantil- começamos por Eugénia Neto, a malograda Gabriela Antunes, o Dario de Melo, inquestionável, a Maria Celestina Fernandes, Maria João etc., são pessoas também de uma certa idade. Gostaria de sugerir aos meus colegas que fazem poesia a estarem comigo no cultivo desse género. Tenho certeza de que, se trabalharmos juntos, podemos levar este barco a bom porto. É comum dizermos que a poesia é a mãe da literatura, e eu concordo em pleno, então a literatura infantil é a «mamã-grande». O indivíduo das zonas rurais de Angola, na sua maioria é tido como respeitador dos homens e da natureza, que de maneira nenhuma concorre para profaná-la. Toda esta educação lhe é transmitida em tenra idade por provérbios, adivinhas, lendas e fábulas, contos da tradição oral que são sem dúvida matéria-prima da palavra escrita para crianças. E o lema é o seguinte: «Se a árvore não for regada de pequena, no futuro não dará frutos/se a pessoa não ler de pequeno, no futuro não dará frutos!

P: Não poderíamos terminar esta conversa antes de falarmos de A geografia Mágica a Kianda (BJLA, 2004, Luanda) que deverá ser a primeira antologia poética dos últimos anos dos brigadistas...

R: Esse livro pertence à última geração da Brigada Jovem de Literatura. A primeira antologia contou com os poemas de Lopito Feijó, João Maimona, Luís Kandjimbo, São Vicente, Irene Alexandra Neto, etc. Depois vem outra publicação, com poemas de Conceição Cristóvão, Sílvio Peixoto, António Panguila e Malengue, etc. A terceira antologia conta com poemas de Rosaria da Silva, Nanda Baião e eu próprio. A antologia Geografia Mágica da Kianda, na verdade, é a quarta antologia e conta com poemas dos jovens Mwhamo Kikisua, Zulini Bumba, Louro Domingos, Diognail Caprício, Douro Profeta e Carlos Botelho de Vasconcelos. Agora, a estrutura deste livro não me agradou. É claro que a recolha e coordenação dos poemas foram feitos por mim. Mas rejeitei categoricamente a ideia de terem colocado o meu nome na parte superior de cada uma das páginas da antologia.

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