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«Adoro Criar Situações Inverosímeis» Destaque

Escrito por  Aguinaldo Cristóvão

Linguagem fluída e estórias quase sempre risíveis, até misteriosas, fazem parte do modus operandi de Luís Fernando. O escritor e jornalista manifesta uma preocupação estética intimamente ligada ao prazer que a escrita lhe dá. O realismo mágico tem sido a sua marca, mercê da vivência e da literatura latino-americana que consumiu. Gabriel Garcia Marquez é, aliás, a mais importante fonte de inspiração. O director do Jornal de Angola, como muitos escritores, é contra as definições redutoras. «A literatura é o que sai das mentes das pessoas sem preocupações com correntes, com tendências».

 

P: A história que descreve em A Saúde do Morto é um bom ponto de partida para conhecer a sua infância. Que aspectos de Tomessa mais lhe marcaram na infância, os quais terá usado na literatura?

R: A Saúde do Morto é o levantar daquelas questões que deixaram em mim dúvidas profundas enquanto menino. No meio rural, como se sabe, os mitos e as crenças são em número sem conta e eu, nascido numa aldeola do Uíge, não poderia de modo algum ver-me livre desse mundo rodeado de estórias por explicar. O que me marcou na infância e está presente com grande peso no meu primeiro livro de ficção é o medo da noite, o medo que no fundo nos é inculcado pelos mais velhos no campo em relação aos demónios que andam à solta de noite e com quem nos podemos cruzar e tudo o que isso possa significar. A poligamia, vista como coisa mais do que normal na aldeia, as suspeitas em relação às pessoas que conseguem enriquecer num meio genericamente pobre, que só o conseguem tendo «mortos» a trabalharem para elas, enfim, um grande número de crenças do tipo «acredite se quiser», que qualquer menino de aldeia se habituou a escutar até se fazer homem. O meu livro é isso, essencialmente.

P: Foi uma criança que, como li, teve invulgar apetência pelas coisas simples. Desde a sua infância no Uíge ao seu amadurecimento profissional em Cuba, teve no futebol uma grande paixão. Faço-lhe duas questões ao mesmo tempo: já pensou escrever sobre futebol e qual tem sido a sua relação com este desporto hoje?

R: Os temas no percurso de um escritor surgem sem um pré-determinismo. Não disponho de um inventário a definir que escreverei sobre tal e tal tema nos períodos tais e tais; a inspiração flui livre e com ela a eleição de assuntos. Neste momento não tenho o tema futebol para um romance possível, conto ou qualquer outro género literário mas nunca se sabe o que poderá vir a suceder amanhã. Obviamente que o futebol continua muito presente nos meus actos. Sofro com o meu Sporting (Clube de Portugal) quando as coisas não correm bem e não perco o bom futebol dos principais campeonatos da Europa. Quanto a escrever, abracei uma onda revivalista desde há algum tempo, assinando algumas notas no Jornal de Angola sobre o desempenho da selecção nacional, os Palancas Negras. Era muito difícil sendo eu o jornalista desportivo que fui na década de 80, permanecer indiferente à campanha dos Palancas rumo ao CAN e ao Mundial da Alemanha.

P: Estava na quinta classe com 11 anos, quando venceu o concurso de redacção na Escola Preparatória Marechal Carmona, no 1º ano do ciclo preparatório (actual 5ª classe), com o título «Se eu fosse o director...». Recorda-se do que escreveu nesta composição, já que o destino reservou-lhe efectivamente este cargo?

R: Tenho uma ideia do que escrevi apesar do tempo que já lá vai. Isso aconteceu em 1972, há mais de trinta anos, e o que apontei foram os aspectos que à época precisavam ser melhorados na gestão da Escola Preparatória Marechal Carmona, no Uíge. Lembro-me que critiquei o mau estado dos WC, a infiltração de águas no terraço, os problemas no recreio pela falta de espaço adequado para a prática do futebol, entre outras observações feitas com uma motivação construtiva, edificante. Então como agora penso da mesma forma em relação aos cargos directivos: ou se assumem para fazer obra, ser-se criativo, percursor de mudanças para melhor, ou então devem ser rejeitados.

P: O ano em que nasce é de grande efervescência política em Angola. Há o início da luta armada contra o regime colonialista. O que pôde fixar por altura da independência de Angola?

R: Quando se deu a independência de Angola eu tinha 14 anos feitos. Era, felizmente, dono de uma memória fabulosa, que me permitiu gravar os traços essenciais do colonialismo. Sabia, por exemplo, que os meninos negros eram pobres na sua esmagadora maioria e que, nas suas relações com os colegas de raça branca, eram sempre os coitadinhos a quem caía bem um gesto generoso (como a partilha do lanche na escola, o convite para ir à casa do colega rico, etc.). Os tempos frenéticos anteriores à independência (1974 e 1975) são também marcas fortes como, por exemplo, os confrontos entre a FNLA e o MPLA na antiga Carmona, em Julho de 1975, que terminaram com a retirada das forças do MPLA em direcção a Luanda. Algumas das lembranças desse tempo estão num livro de crónicas que em breve estará nas bancas com o título Antes do Quarto.

P: A ideia que nos traz de Tomessa é a de ser uma aldeia pacata, com estórias incríveis. Que estórias ouviu nessa altura?

R: O Tomessa é de facto uma aldeia pacata. Situa-se a dois km da cidade capital do Uíge, rodeada do verde clorofila que é, no fundo, a imagem de marca de toda a região nortenha, onde praticamente chove todo o ano. É uma aldeia onde não acontece nada de especial, a não ser o privilégio de se poderem ouvir ali estórias belíssimas do infinito imaginário do campo profundo. Contam-se fábulas onde os animais da selva têm todo o protagonismo e transmitem aos homens lições de vida que os inteligentes fazem bem em seguir, lições de humildade, de modéstia, que tornam as pessoas de profunda matriz rural umas jóias, pouco dadas às disputas selvagens próprias do meio urbano e que exercitam até ao limite a solidariedade, o espírito de entreajuda.

P: Como se dá a sua viragem de Director da Rádio Nacional de Angola a Director Geral do Jornal de Angola?

R: Na Rádio Nacional de Angola era, por altura da minha indicação para DG do Jornal de Angola, Director de Informação. Exerci aquela função de Janeiro de 1993 a Novembro de 1994. Pessoas que acreditam nos jovens, no seu potencial, resolveram dar-me uma oportunidade e avançaram o meu nome para preencher uma vaga entretanto aberta no Jornal de Angola com a exoneração do colega Victor Silva. Apenas isso.

P: Beneficiou de uma bolsa de estudos para formação superior em Cuba. A América Latina contempla alguns ilustres escritores e escribas. O que consumiu durante esse período?

R: Foi uma surpresa agradabilíssima o meu contacto com a literatura latino-americana. Direi mesmo que, se calhar, a ousadia de um dia escrever um livro terá nascido ali, na minha descoberta dos magníficos escritores daquela região do Mundo. Fascinou-me de modo incrível o Gabriel García Márquez, que comecei por descobrir através da sua obra prima Cem Anos de Solidão e depois todos os outros escritos seus, ou quase todos, com realce para O Amor nos Tempos de Cólera, O General no Seu Labirinto, Crónica de uma Morte Anunciada, etc. Li-o também enquanto cronista exímio (tinha uma coluna semanal num jornal de Havana, o «Juventude Rebelde», que literalmente se evaporava dos quiosques aos domingos, o dia dos escritos do colombiano). Li outros grandes nomes, como Mário Vargas Llosa, Borges, Neruda, e todos eles redimensionaram o gosto pela leitura que me vinha já de criança. Sonhei em ser um dia como eles, salvas as respectivas distâncias, é claro.

P: Concorda com o sistema socialista que Cuba engrena?

R: É claro que o sistema político de Cuba gera sentimentos contraditórios, uma espécie de amor e ódio contíguos. Acredito em muito do bom que o sistema moldado por Fidel Castro conseguiu, como a educação, a saúde, o desporto, os índices baixíssimos de criminalidade urbana, o respeito pela pessoa humana, etc., mas está claro que sou suficientemente equidistante para não aplaudir muitas coisas do regime, como o esforço inglório pelo igualitarismo, que pretende que um cientista, por exemplo, tenha de penar na bicha do leite como o faz o taxista ou o operário. Não sou do mesmo modo favorável ao olhar desconfiado do regime para com as pessoas com riqueza material, como se viver confortavelmente configurasse um atentado ao pudor. Existem, de facto, situações difíceis, contraditórias, preocupantes, na Ilha onde passei seis valiosíssimos anos da minha juventude, mas admito que por lá são mais as coisas boas, os princípios bons, as normas boas, que abundam, se comparadas com as falhas e os insucessos do regime. Para quem, como eu, dá muito valor à dignidade e tem o sentido de justiça bem arraigado, é claro que respeito muito Cuba e o seu percurso.

P: É comum dizer-se que o jornalista está, de uma ou de outra forma, amordaçado. O que representa para si, em Angola, o exercício do jornalismo?

R- Ser jornalista é, em primeiro lugar, responder a uma vocação. E, como todas as vocações, ninguém sabe explicar porque se quer ser jornalista e não outra coisa qualquer. No nosso caso, qual é a nossa situação? A mesma de qualquer jornalista em qualquer outro lugar do mundo: comprometido com a verdade e agarrado a balizas que são as que definem a linha editorial do meio de comunicação social que o emprega. Não há jornalista nenhum que trabalhe numa revista tipo «Play Boy» e que se atreva a falar mal da nudez, das curvas de sereia das mulheres avantajadas. No entanto, quem escreva para o boletim do bispado nunca terá chances de gabar o erotismo das mulheres. É tudo uma questão de compromisso, de se ter um patrão, por muito que este termo pareça pesado. Disse há dias numa palestra sobre comunicação social que a «independência no jornalismo é qualquer coisa apenas inventada para soar bem aos ouvidos dos democratas, mas que não tem, rigosamente, qualquer realização prática».

P: Fala-se da globalização como uma fonte geradora de aculturação. Que papel cabe aos jornalistas, nesta era da informática, como formadores de opinião?

R: Os jornalistas não precisam de cair rendidos aos encantos da globalização, de modo acrítico. Seria uma tristeza e uma pena. Têm de ser os primeiros a reconhecer que pertencem a um espaço geográfico determinado, a um espaço etno-cultural específico e que, por isso, não precisam virar meras caixas de ressonância ou infelizes copiadores do que outros criam. Se o jornalista for capaz de se assumir no que pensa e difunde como um cidadão de um determinado país antes de sê-lo do Mundo, aí sim, estará a formar opinião, estará a ser útil a si e aos seus, o seu trabalho terá serventia.

P: Que subsídios trouxe para o jornalismo angolano o surgimento da imprensa privada?

R- A imprensa privada veio oxigenar o jornalismo angolano. Para já, trouxe consigo um alargamento do mercado de emprego porque, até então, ingressar no jornalismo significava a priori trabalhar para a TPA, a RNA, o Jornal de Angola ou a Angop. Acho que era um mundo demasiado restrito, não só no aspecto físico, mas entendido também como espaço de ideias. Basicamente, os quatro veículos mencionados têm a mesma orientação editorial, pois são de capitais públicos. A imprensa privada alterou o «status quo» e permitiu, pela primeira vez em décadas, outros ângulos de abordagem. A visão monolítica da sociedade não é uma virtude, aliás, só ajuda a criar mitos que podem levar muito tempo a desmantelar, com todo o prejuízo que causa em gerações de indivíduos. Dito de modo mais directo, o surgimento da imprensa privada foi um passo positivo. Não quer isto dizer, porém, que ela seja um poço de virtudes. Tem as suas falhas, os seus desacertos e até por culpa sua ou não é deste tempo a ideia que acho ridícula de se acreditar que só existe liberdade de imprensa se um órgão determinado falar mal do Governo.

P: Noventa Palavras é precisamente um pouco do que já tivemos a oportunidade de tomar conhecimento pelo verbo de Luís Fernando. Este seu livro, uma compilação de textos jornalísticos representou a sua vontade de avançar para a literatura?...

R: Não direi o contrário. Noventa Palavras será, se quisermos, a ante-sala do meu abraço definitivo com a literatura, embora deva reconhecer que nunca, nos meus anos de exercício do jornalismo, tenha olhado para a literatura como coisa distante, inalcançável, para outra gente. Sempre estive no jornalismo vivendo paredes meias com a literatura. Por isso é que o salto foi natural e começou, a bem dizer, em plena lavra jornalística, com o Noventa Palavras.

P: Certa vez conversava com um político que me dizia que tinha mais tempo do que em muitas profissões para se dedicar à literatura. O mesmo ocorre, consigo, no jornalismo?

R: O meu trabalho deixa-me com pouca margem para a escrita. Sou gestor de uma empresa com mais de setecentos trabalhadores e com muita coisa para resolver. Chego a casa diariamente entre as 20 e as 21 horas, com o cansaço a tolher-me o físico e a mente, mas, quando me dá a inspiração, apelo ao espírito de sacrifício que todo homem de escrita tem dentro. Deixo que todos vão para a cama, a minha mulher e os meus filhos, e aí torno-me dono e senhor da solidão, da noite, para deixar fluir as ideias, para criar como bem entender. Entre a uma da madrugada e as cinco horas, é um tempo bom para deixar falar as musas.

P: Há, de facto, uma renovação naquilo que se hoje apresenta em termos de literatura e de jornalismo. Concorda com esta afirmação?

R- Plenamente. Angola está num tempo de graça em matéria de jornalismo e literatura, sobretudo desta última. Escreve-se muito e com alguma qualidade. Praticamente todas as semanas há um livro novo que entra para as livrarias. Os nossos autores estão imparáveis, o que nos deve alegrar a todos. Chegará o tempo em que as coisas se vão decantar e sobreviverão apenas os escritores de talento. É um processo natural de selecção, que já pode começar a ser visto quando este ou aquele autor resolve apresentar um novo rebento seu. Há escritores que não vendem mais do que vinte livros no dia da apresentação dos seus livros, enquanto outros esticam a fasquia para os duzentos ou trezentos. Sobre o jornalismo, devo acrescentar que estamos bem, pela diversidade de veículos a circular, mas há que admitir, honestamente, que continua a ser um clamor a melhoria da qualidade da escrita. Há ainda muita «marretada» sobre o português.

P: «Uma geração não se forja do pé para a mão, nem precisa de dar lugar a manifestos de intenções estéticas muito bem definidas. Antes pelo contrário, define-se em função do momento histórico e do modo como o retratam». Que comentário faz a esta célebre frase de Serafim Ferreira?

R: Concordo com Serafim Ferreira. Não se precisa de sair por aí aos gritos a definir momentos ou fases da escrita, o importante é que se escreve porque há inspiração, porque existe motivação e vontade; e os estudiosos que se encarreguem do resto. Nunca me sentei a pensar: «pertencerei a que geração ou a que corrente literária?». Quero apenas é fazer bem as coisas, chegar aos leitores e transmitir-lhes o mesmo gozo que me faz ficar diante do computador muitas madrugadas.

P: Voltemos à sua produção literária. Recordo-me que A Saúde do Morto, seu primeiro romance [ou livro de contos?] foi apresentado numa sexta-feira, 13, dia de azares na tradição africana. Acredita no misticismo, superstições ou magia?

R: Há que dizer que foi uma simples coincidência a apresentação do meu primeiro romance numa sexta-feira 13. A data inicial era a sexta-feira anterior, 6 de Outubro de 2002, mas a minha filha e a minha mulher teriam ficado de fora se o acto se realizasse. Encontravam-se hospitalizadas e houve que atrasar por uma semana a apresentação. Claro que não sou supersticioso e por isso mesmo avancei com a cerimónia sem vacilar. Agora, se o feitiço existe, se há coisas estranhas que acontecem e ninguém as explica de modo convincente, é uma dúvida, um mistério que permanece. Precisamente por isso existe em A Saúde do Morto, a saga de um homem que existiu de facto e de quem se diz que se deixava apodrecer na cela da PIDE (polícia política portuguesa) para se ver livre. Não são poucas as pessoas que juram a pés juntos que ele fazia isso e, coisa curiosa, até sou amigo de um dos seus filhos, que não nega as façanhas do pai. E o que devo fazer: acredito ou não?

P: Apesar de ter crescido num meio que lhe propicia o domínio da língua nacional, não o manuseia na literatura com grande desenvoltura. Porquê?

R: Nasci num meio kikongo (Uíge) e devo confessar que é mínimo o domínio que tenho da minha língua materna. Uma grande pena, mas explica-se facilmente: a minha aldeia era demasiado vizinha dos bairros ricos da próspera Carmona e era inconcebível, então, que um menino que se juntava a petizes brancos fosse falar em kikongo. Seria expulso da escola, no mínimo. Práticas cruéis de um colonialismo que, felizmente, os ventos da História levaram.

P: O espaço em que decorre toda a estória apresenta características de um estado de natureza. Note-se nesta passagem: «Como puderam andar aqui tantos anos sem um comício, sem uma chicotada do poder, um homem enforcado em praça pública para impor respeito? Moles!!» (págs. 21-22). Sabe-se que o epicentro é a aldeia de Tomessa, mas de que forma construiu a estória?

R: Na verdade, a história não se passa na aldeia de Tomessa, onde nasci e cresci, mas numa aldeia intemporal e inexistente, sem nome. O universo é de facto o Uíge, mas a aldeia é simbólica, poderia ser qualquer uma. A única aldeia referida no livro e com existência física, com existência real, é a aldeia do KAPA e surgiu tal qual se conta. Um sujeito chegou a um lugar ermo, construiu a sua casa onde vivia com a esposa, logo depois arranjou outra mulher, depois outra e depois outra, construindo para cada uma delas uma nova casa e o lugar foi crescendo em extensão. Quem conhece o Uíge e se desloca no percurso Uíge-Negage descobrirá facilmente a aldeia do KAPA.

P: Há um aspecto que julguei pertinente. É o facto de inicialmente ter entregue ao Editor do livro a estória com pouco menos de 60 páginas A4, pelo que foi aconselhado a avolumá-la. Que final teria João Kyomba na versão original?

R: Curiosamente o final não mudou. As cenas que tive de criar para tornar mais volumosa a estória aconteceram no meio, tive de inventar o personagem Kyomba Filho e toda a sua saga paralela, a menina por quem se interessou de forma endiabrada, a reunião dos feiticeiros, o fim trágico da rapariga, a outra grande aventura do filho do herói-vilão, enfim, tudo acontecimentos criados em catadupa para dar consistência e volume à obra, mas que, longe do aspecto físico da obra, acabaram no fundo por valorizá-la enormemente, creio.

P: Penso que, por isso, a estória perdeu o fôlego. João Kyomba, que era o centro das movimentações e inquietações da aldeia, passa a ter uma actuação cada vez mais monótona, chegando mesmo a chorar, sentimento que não teria de acordo com o ímpeto que apresentava de início...

R: Fico feliz por ser essa a sua leitura. A graça da literatura está precisamente aí. Os leitores põem, também eles, a sua imaginação a voar, a sua interpretação a funcionar, enfim. Sabe que não me dei ao trabalho de ver se João Kyomba teria menos ímpeto com o surgimento de Kyomba Filho? Ah, que bom escrever para sermos reescritos por outros. O gozo da literatura é isso. É a força de quem escreve, acredite!

P: Dario de Melo disse que, se os livros tivessem rótulos, este teria o do realismo mágico. Concorda?

R: Plenamente. Não escondo que o fascínio, a atracção, pelo imaginário da América Latina deixou marcas profundas em mim. Senti-me muito feliz quando um colega (também jornalista e escritor) fez um apontamento sobre o livro para uma revista editada em Portugal e começou logo por encontrar semelhanças de estilo com a genial obra de García Márquez. Claro que as distâncias devem ser rigorosamente salvaguardadas, mas é bom, muito bom, quando as pessoas descobrem que o meu livro está salpicado de realismo mágico. Não há escola que admire mais do que essa na literatura e muito dificilmente um dia poderei afastar-me dela. Tenho mais dois livros feitos e com circulação prevista para breve que leio e releio para chegar à mesma conclusão: «a atmosfera dos mestres latino-americanos continua lá, o realismo mágico está de novo presente». Sinto-me bem a enveredar por esse caminho.

P: É verdade que a ficha cadastral do homem em quem inspirou-se para forjar o João Kyomba consta, algures, no espólio da ex-Pide DGS arquivado na Torre do Tombo, em Portugal?

R: Acredito que vasculhando as pilhas de papéis da Torre do Tombo seja possível encontrar referências pidescas à pessoa do grande Kibabo, um cidadão do Negage que complicou a vida à polícia política portuguesa. Mas se lá não consta nada tese bastante improvável , resta o consolo de ainda continuarem vivas muitas pessoas que conheceram a figura inspiradora de João Kyomba e que não se cansam de relatar-me novos e surpreendentes episódios. Em Outubro passado (2005), numa reunião de naturais do Uíge, veio ter comigo um cidadão de meia idade e depois de um abraço fraternal disse isto, mais palavra menos palavra: «Muito obrigado por tudo o que fazes pelo Kibabo através dos teus livros. Sou irmão dele». Fiquei petrificado, pois nunca tinha tido antes qualquer reacção de um parente do homem que, segundo a lenda (?) , apodrecia nas celas da PIDE mas ressurgia pujante depois de atirado para uma vala comum.

P: Como caracteriza a personagem principal e o narrador face ao autor, já que os dois últimos se confundem.

R- Os meus livros estão escritos para uma leitura sem complicações. Narrador e autor são uma mesma entidade, no fundo. Enquanto autor, relato as aventuras de João Kyomba na cidade de Nova Iorque como se eu lá estivesse também no ano 4000, facilitando a missão do narrador. Dá a impressão que existe um esforço de entre-ajuda entre ambos, para tornar conhecida a actuação do herói, a personagem principal, no caso João Kyomba. É caso para dizer que o narrador sou eu, o que, na visão de alguns estudiosos, acaba por ser o resultado inevitável do meu longo percurso de jornalista (quase trinta anos), onde se adquire o hábito de contar aos outros as histórias. Não encontro razões para negar esta tese !

P: A sua literatura é caracterizada pela linguagem fluida e a simbiose entre a ironia e a facécia. Procura desviar-se, por esta via, para um rumo literário aparentemente mais desligado da sua realidade?

R: Adoro criar situações inverossímeis. Gosto que o leitor diga, extasiado: «ah, este Luís Fernando está a inventar aqui». De facto, quem ler o meu livro e não soltar uma exclamação assim, tenho que dizer que alguma coisa não funcionou. Não contem comigo para relatos estritamente verídicos ou verificáveis. A menos que algum bicho me morda nesse futuro, que espero seja o mais longo possível, nunca me verão a fazer a crónica verídica da História; para isso já basta o jornalismo. Tomo a literatura para espairecer, criar cenários, dar asas à imaginação. É só ler Gabriel García Márquez para se ver como o meu grande ídolo é capaz de, até num romance histórico como O General no Seu Labirinto, descreve Simón Bolívar em situações que muito dificilmente poderão ter acontecido. É uma literatura de puro prazer, para fruição, para gozar, divertir-se, relaxar, que me proponho abraçar. É disso que eu gosto e ponto final!

P: Até agora só publicou prosa. Nos momentos de maior inspiração já engavetou alguns textos poéticos?

R: Não sei escrever poesia, embora a desfrute de tempos a tempos. Gosto dos dizeres entendíveis e constato que, em muita da poesia que nos é servida de bandeja por aí, há tudo menos mensagem, menos comunicação. A pessoa lê e não tem nada para dizer ao filho, à mulher, ao amigo que está por perto. Já na prosa, no romance, há uma estória ou várias estórias que partilhamos docemente com quem nos é próximo, nos é querido. Não tenho veia de poeta!

P: Dizia Gabriela Antunes que, antes de se escrever um livro deve-se ler, uns 100. Que escritor ou literatura tem por referência?

R: Leio muito Gabriel García Márquez, mas os nossos também. Manuel Rui, Pepetela, Luandino e Aníbal Simões. Há uma descoberta recente que me está a dar um gozo tremendo, o cubano Pedro Juan Gutiérrez, que vai ser seguramente um nome fabuloso das letras mundiais. Quem duvide que leia El Rey de La Habana.

P: Há uma frase que tenho sempre em mente: «o jornalista é o cronista do seu tempo». A sua primeira passagem por Nova Iorque em 1993 e os atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001 que destruíram as torres gémeas do World Trade Center foram o ingrediente que precisava para compor uma história (João Kyomba em Nova Iorque), tentando escrever a história sob a veste da ficção?

R: Diria que foram mais as passagens por Nova Iorque a determinarem a motivação, não tanto a tragédia do 11 de Setembro. Conhecer Nova Iorque foi um caso de amor à primeira vista e achei simpática a ideia de um aventureiro da estirpe do João Kyomba mergulhar numa cidade assim, onde sofreria com os naturais e incontornáveis problemas de adaptação mas faria adoráveis estragos atendendo aos seus poderes de feiticeiro africano. No fundo o livro é uma abordagem divertida, suave, simpática, uma paródia à vida frenética de uma cidade de matiz profundamente americana apesar do seu cosmopolitismo, onde está muito presente o egoísmo dessa nação e a crença enraizada de que ninguém supera a América.

P: O seu terceiro romance, «Clandestinos no Paraíso», parece-se com um apelo social. Como justifica, na sua obra, o epíteto de paraíso que atribui, sub entendendo no título, a Luanda?

R: No romance que alude Luanda é, de facto, tratada como «paraíso». Faço-o com total responsabilidade, agarrado à ideia de que é nela que vivem os homens e mulheres que se movimentam na história e parecem todos felizes, desde o Alegria da Costa que tem uma vida ostensivamente boémia e de procura incessante do prazer, à mulher Dorita que, à sua maneira, consegue resposta para os seus apetites mundanos mantendo uma longa e secreta relação adúltera com o melhor amigo do marido, Tobias Melaço. Segundo rezam as Escrituras Sagradas, o paraíso é um lugar onde as pessoas se sentem bem num grau supremo e aquilo o que o meu livro reserva a Luanda como local dos factos, não tem grande diferença. As pessoas desfrutam do álcool, da festa, do sexo e até do prazer mórbido da traição com uma alegria fantástica. Pelo menos para os hábitos e gostos dos humanos, um paraíso deve reunir todos esses ingredientes e Luanda consegue-o !

P: A afirmação dos valores africanos que faz nesta obra («Clandestinos no Paraíso») é uma questão que avulta na sua literatura. Fale-nos dos seu posicionamento enquanto escritor sobre este tema.

R: Ainda bem que descobre essa tendência nos meus escritos. Sou de facto um africano orgulhoso dessa condição e vivo tendo em alta conta o melhor do nosso estatuto de filhos de África. Como escritor, é claro que representa para mim uma mais valia mergulhar nesse esquema de valores, os africanos, por conhecê-los bem e concordar com grande parte deles. Assim falo do que sei e passo para os meus semelhantes o espelho da minha alma, no que aliás não invento absolutamente nada, pois lendo por exemplo contos dos irmãos Grimm capta-se facilmente a atmosfera da Europa antiga ou apreciando autores latino americanos da estirpe de Gabriel Garcia Márquez, ficamos a saber do imaginário da região, aquilo em que crêem as gentes de lá, ao mesmo tempo que descobrimos (ou pelo menos julgamos insinuado) o posicionamento dos escritores da América Latina.

P: Todos os seus livros têm sido editados pela Nzila. Tem estabelecido uma periodicidade para publicar ou este critério é-lhe ditado pela inspiração?

R: Tenho a Nzila como minha editora pela seriedade e alto profissionalismo do seu trabalho. O Arlindo Isabel, pessoa a quem me liga uma relação que há muito superou a simples amizade para assumir contornos de uma irmandade não sanguínea mas efectiva (desde 1978 que seguimos juntos o caminho tortuoso da vida), faz com uma correcção irrepreensível o trabalho a que se consagrou um dia e merece toda a minha confiança. Claro que não existem imposições de tipo algum, nem de datas nem de temas, sendo eu livre de apresentar as minhas propostas literárias sempre que as tiver. E se eu decidir ficar anos sem publicar coisas novas, está claro que a Nzila e o seu director respeitarão a minha opção. A inspiração é que manda mas procuro impor-me uma certa disciplina, apresentando no mínimo uma obra por ano.

P: Acredita que a literatura angolana tem um ícone do qual haja seguidores?

R: Não, ninguém segue ninguém entre nós, rigorosamente falando. Talvez, quando tivermos o nosso Saramago, vejamos alguns principiantes a seguirem-lhe as pegadas mas, por enquanto, cada um vai como pode e como entende melhor, bebendo , pode ser, um pouco daqui ou dali. Não acredito que exista algum guru das letras e que hipnotize, inspire, todos os que vêm atrás.

P: Coloca-se ao nível de alguns círculos a questão das correntes literárias. Existe, que se saiba, alguma corrente literária angolana tida e reconhecida como tal?

R: Sou contra essas definições redutoras. A literatura é o que sai das mentes das pessoas sem preocupações com correntes, com tendências. Podem existir estilos que se assemelhem, uns que façam lembrar outros (eu próprio achei soberbo ler Aníbal Simões em Entre a Morte e a Luz e constatar que tínhamos muitas semelhanças na capacidade de fabular, no desenvolvimento dado aos personagens, na descrição dos ambientes), mas, no fundo, cada um escreve de modo independente, despreocupado com a arrumação redutora que os críticos farão a posterior.

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