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«Há Muita Poesia Lírica, Muito Lirismo de Amor»

Escrito por  Ana Lopes de Sá

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

Ana Lúcia de Sá é ensaísta. Doutoranda em Literaturas Africanas pela Universidade da Beira Interior, dedica especial atenção desde a sua tese de mestrado a literatura angolana, tendo incidido sobre a obra de um dos mais originais e carismáticos escritores angolanos: Uanhenga Xitu. Portuguesa de nacionalidade, lançou «A confluência do tradicional e do moderno na obra de Uanhenga Xitu» (UEA, Luanda, 2004). Todavia, apesar de lidar com a poesia e os poetas, considera-os como «seres superiores a nós, comuns mortais».

 

P- Ana Lúcia de Sá é conhecida entre nós pelas recensões críticas que tem feito a alguns livros publicados pela UEA. A sua tese de doutoramento incide sobre literatura angolana…

R- Faço o doutoramento no departamento de Letras da Universidade da Beira Interior, na Covilhã, e sou orientada pelo Professor Doutor Salvato Trigo e pelo Professor Doutor José Carlos Venâncio. Neste meu trabalho, estudo a representação da ruralidade na narrativa ficcional angolana do século XX de uma forma interdisciplinar, aliando os estudos literários às ciências sociais e humanas, mais concretamente, à antropologia e à sociologia.

P- Quais são os escritores que mais tem estudado?

R- Eu parto do estudo que fiz da obra de Uanhenga Xitu, no Mestrado em Estudos Africanos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que me será bastante útil, não só pela base que me deu em termos metodológicos, mas como suporte comparativo com outros autores. Estou a tentar abranger um corte literário o mais vasto possível de autores que fazem situar as suas obras ou algumas delas em cenários rurais. Posso referir, a título de exemplo, Ruy Duarte de Carvalho, António de Assis Júnior, Raul David, Pepetela, Cikakata Mbalundu

P- Fala de Luandino Vieira?

R- Não vou tratar Luandino Vieira, porque ele centra as suas obras em Luanda e eu pretendo trabalhar textos de autores que recuperem cenários rurais. No fundo, quero observar a forma como a ruralidade é trabalhada literariamente por alguns autores angolanos.

P- Uma das questões julgadas inerentes a esta ruralidade é a vertente linguística, a terminologia usada pelos escritores...

R- Eu não pretendo trabalhar questões linguísticas, pelo menos nestes momentos iniciais do doutoramento. Talvez daqui a uns tempos eu considere esse tópico mais pertinente para o meu trabalho, mas não pretendo ser exaustiva. Tenho incidido mais o meu estudo no tratamento das personagens situadas do espaço rural das obras e dos universos culturais por elas veiculados. Aliás, recordo que estou a fazer um estudo interdiscipinar, aliando as ciências sociais à literatura, ou seja, tomo o texto literário como base de um trabalho antropológico e sociológico. Enfim, cada um de nós procura o seu método e o seu objecto de estudo, que delimita e que enquadra conceptualmente

P- Tenho lido as notas que tem feito a livros de poesia de alguns escritores angolanos. Que impressão tem dos poetas angolanos neste seu primeiro contacto?

R- Acho que se têm publicado muitos textos bons, mas alguns que não o são. Tenho notado novas temáticas que surgem na nova poesia angolana, temas desligados de outros que já foram tratados antes poeticamente. É o caso das consequências da guerra civil. Está também a tratar-se literalmente e com mais frequência poesia de amor e poesia bastante intimista que muitas vezes não era cultivada por outros poetas angolanos que conheço, como António Jacinto ou Viriato da Cruz, que tinham uma poesia muito ligada ao contexto político, nomeadamente de luta contra o sistema colonial e de denúncia das suas arbitrariedades e injustiças. Conheço pouca poesia de amor dessa época, mas agora há muita poesia lírica, muito lirismo de amor. E isto falando da poesia actual me que vai chegando, ainda inédita; não posso extrapolar muito as minhas considerações, pois o meu desconhecimento é grande.

P- Antes disso, que contactos teve com a literatura angolana?

R- Eu estudei literatura angolana pela primeira vez com o Professor Doutor Pires Laranjeira durante a minha licenciatura (Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra). Aí, conheci alguma literatura angolana, a possível para tão curto espaço de tempo das aulas, desde Espontaneidades da Minha Alma de Maia Ferreira, a Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Pepetela, Luandino Vieira

P- Agostinho Neto representa uma matriz para muitos poetas. Por outro lado coloca-se Luandino Vieira como a matriz de muitos prosadores angolanos, nos anos que se seguiram. Quero que comente essa apreciação.

R- Agostinho Neto pode representar essa matriz. Creio que isso também decorre do facto de ele poder ser considerado como um «pai da nação», dado o seu percurso nacionalista, o facto de ter sido o primeiro Presidente da República Popular de Angola. Contudo, penso que a poesia que se escreveu e que se escreve acaba por distanciar-se da poesia cultivada por Agostinho Neto. Ele, como qualquer outro poeta, tem um estilo muito próprio, tanto em termos de forma como em termos de conteúdo. E não sei se ele tem influenciado assim tantos poetas. É natural que sim, mas tenho as minhas reservas. Em relação a Luandino, também ele tem um estilo de escrever muito próprio. Na sua época foi inovador, porque transportou para a escrita a forma como as pessoas falavam. Neste aspecto é inovador e talvez tenha passado a haver menos um certo «complexo» de passar a linguagem oral para a escrita, de as imbricar e de não lhes marcar as distâncias. Neste sentido, a obra de Luandino Vieira é, também, fundadora.

P- Como analisa, então, a obra poética de Agostinho Neto?

R- Há uma vertente política que nós não podemos dissociar da poesia de Agostinho Neto. Eu penso que ele sabia utilizar a palavra curta, incisiva, para atingir o objectivo que queria: a sua própria luta nacionalista, também através do canto poético. É assim que eu vejo a poesia de Agostinho Neto. Uma poesia marcadamente nacionalista de Angola.

P- Tem estado debruçada principalmente sobre a prosa. E a atenção recai para a obra de Uanhenga Xitu. De O Ministro a Manana encontramos diferentes narrativas. Como explica isso?

R- O Ministro é uma obra singular no conjunto das literaturas africanas que estão escritas em português, pois não é apenas um olhar crítico sobre a vida política da Angola independente, mas um olhar crítico de alguém que viveu dentro do sistema, um olhar endógeno. O Ministro tem esta particularidade, mas também se distancia das outras obras porque tem muito registo de ensaio e as outras obras não, pelo menos tão evidente. Em termos das outras obras de Uanhenga Xitu, notamos que uma constância temática é o tratamento de personagens e de situações culturais (chamemos-lhe assim) divididas entre dois mundos, que podem ser vários. Encontramos o mundo dos colonizados e o dos colonizadores, o mundo rural e o mundo urbano, o mundo cristão e o mundo religioso chamado tradicional. Toda essa dualidade está presente na Obra literária de Uanhenga Xitu, talvez para nos mostrar a todos que o mundo não é feito de maniqueísmos. Essas diferentes narrativas de que fala encontram o seu eco no tratamento de personagens tão diversas como «Mestre» Tamoda, Kahitu, Mafuta, Felito, etc. São as personagens as reais manifestações de diversidade temática na Obra do autor de que falamos.

P- Encontramos em O Ministro elementos que traçam os contornos de um romance. Como pesquisadora da Obra de Uanhenga Xitu, gostaria que explicasse exactamente como pode ser entendido o livro?

R- O Ministro é um romance muito peculiar. E pode ser chamado romance precisamente porque é pluridiscursivo, ou seja, comporta vários discursos. Só um género como o romance permite sta diversidade e esta heterogeneidade estilística. A parte ficcional da obra, por exemplo, sendo a menor em número de páginas, é importantíssima. Não podemos esquecer que há dois ministros que merecem um tratamento ficcional: o ministro Kuteku e o ministro Toni. Há este registo mais literário e há também um registo ensaístico, que é igualmente muito importante. Por exemplo, há um ensaio sobre o racismo que surge no meio do romance, entre discursos de vária ordem. E há também as memórias pessoais do próprio Agostinho Mendes de Carvalho enquanto ministro e enquanto pessoa ligada desde a primeira hora ao movimento nacionalista que levou não só à luta de libertação, mas à independência de Angola. No sentido discursivo, é uma obra muito completa, em minha opinião.

P- Manana e Vozes na Sanzala (Kahitu) apresentam, a par de «Mestre» Tamoda, um mesmo tratamento estético, que depois já não se regista nos livros seguintes de Uanhenga Xitu. Que impressão tem destes livros?

R- Creio que o livro que se distancia mais dos outros é O Ministro, que já abordámos. Também Cultos Especiais apresenta novidade em relação aos restantes, na medida em que contém discursos de diversos tipos, que vão do ficcional até ao político. Contudo, em termos globais, creio que há que destacar a forma como Uanhenga Xitu escreve, isto é, a atenção que desperta no leitor e a aliança que faz entre o romancista e o contador tradicional de histórias, e a forma como este autor consegue jogar a ficção com a realidade, a forma como consegue deslocar-se nos vários mundos que conhece: o mundo urbano de Luanda, o mundo que ele viveu na sua sanzala de Calomboloca ou nas várias regiões de Angola. Foi com base nestas premissas que eu estudei a obra de Uanhenga Xitu numa perspectiva sociológica e antropológica. Nós podemos ir buscar a Manana informações sobre a Luanda daquela altura, podemos ir buscar ao Kahitu conhecimentos sobre a zona rural próxima de Luanda da década de 30, por exemplo, sobre o que é a entidade sobrenatural Kyanda. E isto sem esquecer o óbvio, que é o facto de estarmos perante literatura ficcional.

P- Cultos Especiais e Mungo, Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem, outros livros deste escritor angolano, trazem-nos um tratamento diferente dos anteriores. É esse relacionamento que pretendo que faça.

R- Em cada obra há novidade temática, mesmo naquela que recupera a figura do «Mestre» Tamoda (Os Discursos do «Mestre» Tamoda). Mungo é um caso também particular na obra de Uanhenga Xitu, porque passa-se fora tanto do cenário habitual de Luanda, como do do seu interior próximo. Uanhenga Xitu desloca a sua literatura para o Mungo, para o centro. Até o protagonista apresenta características diferentes, pois, e em contexto colonial, é um metropolitano, enfermeiro e vem viver para Angola. Eu penso que, da Obra de Uanhenga Xitu, é a que faz mais explicitamente a demonstração da máquina colonial. É muito explícito o sistema de contrato, é muito explícito o sistema político vigente na altura, são muito explícitas as relações sociais duras que se viviam entre os brancos e os negros. Há esta distinção racial injusta mostrada de forma bastante crua no romance. Nós vemos igualmente no «Mestre» Tamoda a violência do chefe do posto e a violência dos cipaios, observamos a discriminação a que um Tamoda era votado, considerado um alienado, e a situação de assimilado na altura. Podemos ver isso, também, em Manana. Mungo distingue-se porque tem um protagonista e um espaço diferentes.

P- Pensa que Cultos Especiais segue a «sequência» que a obra de Uanhenga Xitu parecia ter?

R- Eu creio que Cultos Especiais não se distancia assim tanto dos restantes textos de Uanhenga Xitu. Se reparar, o prefácio de Cultos Especiais é um discurso político, notando-se nele a função de mais-velho do autor, que se evidencia também no alerta que faz à sociedade angolana sobre os problemas que existem. O posfácio desta obra entronca de forma evidente em O Ministro, um registo mais político e a parte ficcional tematiza os problemas de uma comunidade a braços com duas vivências religiosas e a solução que encontram para os seus males. Este tema da dualidade é, na minha opinião, muito próprio de todas as obras de Uanhenga Xitu.

P- Que papel julga que a literatura angolana alcança, ao nível da literaturas africanas de expressão portuguesa?

R- Não gosto de estabelecer hierarquizações ou entrar em discussões de validades de qualquer literatura. Qualquer quadro literário (seja nacional, seja de um autor individual) desempenha o seu papel e abrange as suas especificidades. Daí que eu pense que qualquer literatura dos países que falam português tem o seu papel específico, de diálogo, de expressão identitária. E não deve haver um papel de relevo de uma ou de outra, porque cada uma tem, como referi, as suas contingências específicas.

P- Nota diferenças entre a literatura angolana que emerge de Angola e a feita a partir de Portugal, onde estão a maior parte dos escritores angolanos na diáspora?

R- A situação de diáspora implica uma escrita específica, creio. Pode manifestar um olhar mais distanciado e mais crítico. Pode anotar formas de expressão e de conteúdo que dificilmente poderiam ter lugar se os escritores estivessem no seu país. Estas características são gerais e não se aplicam apenas à literatura angolana de diáspora. Vejam-se, por exemplo, os casos de V. S. Naipaul e de Salman Rushdie. Pode haver também uma tendência de buscas de identidades, de algumas especificidades ou, talvez, de pretensas autenticidades (conceito no qual, aliás, eu não acredito), de origens que estão já longínquas e cuja actualização é permitida pela expressão literária. Uma dúvida que tenho e que me vai inquietando: José Eduardo Agualusa, um autor que me é agradável, será um escritor angolano de diáspora?

P- Pelas análises que faz da poesia, pode-se supor que gosta deste género. Que lê, neste aspecto entre autores portugueses e angolanos?

R- Gosto bastante de poesia, mas não sou uma grande leitora do género. Digo isto porque prefiro uma leitura intimista, pessoal, que não divulgo, e porque tenho os poetas quase como seres superiores a nós, comuns mortais. Contudo, circunstâncias várias têm-me levado a escrever textos com um certo pendor ensaístico sobre o género poético e que têm sido publicados pela União dos Escritores Angolanos. Inclusive, creio que neste momento conheço melhor a poesia que se faz (e fez) em Angola do que a poesia portuguesa. Daí que não possa fazer grandes considerações comparativas entre escritores dos dois países.

P- Olhando para o seu percurso, poderei dizer que é, de facto, uma crítica literária?

R- Creio que não Sou, sim, estudante de literatura africana e, nomeadamente, de literatura angolana. Não comecei neste caminho de estudante de literatura angolana há muito tempo, mas tem sido o meu objecto de estudo privilegiado. Também neste aspecto o caminho que a minha vida tem trilhado me tem sido bastante favorável. O papel de crítica surgiu como culminar de algumas etapas desse caminho, mas ainda não me sinto muito à vontade nessa pele.

P- Não poderia terminar a conversa sem que fizesse uma curta referência sobre o tratamento que é dado à literatura angolana em Portugal do ponto de vista editorial e comercial.

R- Apenas posso dar uma opinião, que é a de leitora, pois desconheço os critérios das editoras. Não há ainda muitos escritores angolanos publicados em Portugal. Por exemplo, Uanhenga Xitu não é publicado em Portugal e há inclusive livros dele traduzidos em inglês e publicados em Inglaterra. Mesmo dos autores publicados, os que mais vendem são, creio, Pepetela e Agualusa. Isto pode ter que ver com factores de prestígio conferido por prémios (Pepetela foi já galardoado com o Prémio Camões) ou, então, com factores que se prendem com as expectativas dos leitores, do conteúdo que buscam em obras estrangeiras, no caso angolanas. Naturalmente, estes factores são apenas duas hipóteses que agora levanto; com certeza, haverá muitas outras explicações.

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