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Sou Um Escritor Ligado ao Realismo da Alma Destaque

Escrito por  Escrita Criativa

 

José do Carmo Francisco nasceu em Santa Catarina a 13 de Fevereiro de 1951. Foi bancário entre Setembro de 1966 e Novembro de 1996. É jornalista. Trabalhou nas revistas «Ler» e «PCwin» e no semanário «O Mirante». Actualmente trabalha no jornal «Sporting» e na Editora CLIMEPSI. Manteve até Junho de 2002 no jornal «A Bola» a coluna semanal «Livros». Colabora com notas de leitura nos jornais «Notícias da Amadora», «Correio dos Açores», «Diário Insular» e «O Distrito de Portalegre». No jornal «Voz de Alcobaça» publica a coluna «O Lugar do Poema». Mantém na «Gazeta das Caldas» a coluna quinzenal «Estrada de Macadame».

 

EC: Apesar dos inúmeros livros que escreveu, foi bancário durante 30 anos. Em Portugal um escritor tem de ter outra profissão que lhe pague as contas?

José do Carmo Francisco: Sim, são raros os escritores que vivem da escrita. Toda a gente aceita que um escritor seja médico ou bancário. Há muitos exemplos, o caso do Fernando Namora, Miguel Torga, etc. Isto acontece porque Portugal é um país de analfabetos: temos 48% de iliteracia e não há mercado que justifique escritores a tempo inteiro. O José Saramago é um caso especial. O Saramago só se tornou escritor depois de ficar desempregado como jornalista, e depois do Círculo de Leitores lhe ter emprestado umas centenas de contos para ele fazer a viagem a Portugal. Foi isso que lhe permitiu passar de um semi-anonimato para ser bastante conhecido. Mas no geral, e tirando alguns casos especiais, o escritor não pode viver da escrita e tem de ter outra profissão.

EC: Já escreveu sobre literatura, informática, desporto e até poesia. Com qual destas áreas se identifica mais?

JCF: No fim, tenho que dizer que me identifico com todas. O facto de eu ter escrito sobre desporto desde 1979 Em termos de ciclos é assim: em 1978 comecei a escrever no Diário Popular e comecei a publicar livros em 1981. O jornalismo e a literatura vão um pouco a par, não faço uma separação rígida. Mas, para mim, todos os temas são importantes, no caso do desporto foi um filão, eu não descobri nada, limitei-me a jogar com a minha própria realidade, ser sobretudo muito coerente, já que os meus primeiros passos foram dados entre os postes de uma baliza. O meu avô era guarda-redes de uma equipa de futebol lá na aldeia, tenho um primo que foi internacional «esperança», portanto, para mim, o desporto sempre foi uma realidade muito próxima, e embora passasse de um desporto rural, não-federado, depois para uma vivência aqui em Lisboa para onde vim trabalhar em 66 e comecei a tornar-me espectador do Sporting, onde nasceu o poema «A balada do peão», quando havia ainda o peão, mas, no fundo, escrever sobre desporto tem para mim toda a lógica porque o desporto sempre esteve presente. Lembro-me de estar ao colo do meu avô a ver os jogos lá na aldeia, tudo aquilo era uma festa. E, para mim, tenho a felicidade de trabalhar no futebol juvenil do Sporting, onde ainda há um resto dessa inocência, porque os miúdos ainda jogam com um bocado de amor à camisola, ainda choram quando perdem, ou seja, gosto mais de acompanhar os pequeninos do que acompanhar a equipa «A».

EC: Escreveu «O Desporto na Poesia Portuguesa». A poesia fá-lo ver e escrever o desporto de forma diferente?

JCF: Existem óbvias ligações entre o desporto e a poesia, a ideia que está na poesia é partir sempre de uma base e tentar fazer melhor, tentar bater o recorde, existe o desafio do papel em branco. No desporto é a mesma coisa, é tentar bater o recorde, fazer melhor, mais alto, mais forte, mais veloz como diz o símbolo dos jogos olímpicos, portanto para mim tudo isto surgiu com muita lógica.

EC: Venceu em 80 o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores. O que sentiu?

JCF: Foi muito importante porque foi a minha maneira de poder passar do chamado «poeta de fotocópias» fazia uns poemas, tirava umas fotocópias para dar aos amigos. E era muito essa vida de café, de vivência na Baixa, e foi muito importante esse prémio porque me permitiu sair do anonimato e entrar no campo dos famosos, onde apareciam os grandes poetas Jorge de Cena, Sofia de Melo Breyner. De repente passei do zero para compartilhar uma colecção de livros onde estavam os grandes nomes.

EC: Poemas seus são estudados nas universidades de Pádua e Veneza. Porque não em Portugal?

JCF: No meu caso foi através de um professor brasileiro que vive em Itália e que me pediu em tempos que arranjasse fotocópias de poemas sobre desporto, uma vez que ele arranjava os brasileiros e a mulher os italianos. Tratou-se de uma espécie de tripla base entre Brasil, Itália e Portugal. Porquê? Porque existem muitos brasileiros a jogar em Itália, e havendo muitos estudantes italianos que querem aprender português, para ele pareceu-lhe que o facto de gostarem de futebol era uma boa aproximação. Mas nunca esperei que fosse escolhido para integrar este grupo. Isso não se verificou ainda em Portugal, porque cá existe ainda muita diferenciação entre estas duas componentes. Não é por acaso que a minha coluna de livros n´ A Bola foi suspensa desde Julho de 2002. É absurdo que um jornal como A Bola não tenha uma coluna de livros, com tantos livros sobre desporto Em Portugal os jornais desportivos vivem sobretudo do Benfica.

EC: A Poesia não é um género especialmente popular, nunca se sentiu tentado a escrever um romance apenas para vender muito, uma coisa mais comercial e com menos alma?

JCF: Nunca, e prova que nunca me senti tentado é que também nunca transmiti isso aos meus filhos, e a minha filha acaba de publicar um livro que é totalmente o oposto desse tipo.

EC: O que sentiu ao ver um livro da sua filha publicado?

JCF: Senti uma grande satisfação e um grande orgulho porque ela no fim de contas, como aliás vem esta semana num artigo do Expresso, ela faz tudo isto de uma maneira coerente, esta simplicidade, esta quase ingenuidade com que ela ilustra as estórias, ainda é qualquer coisa de puro que existe e que deve ser transmitido. Eu não seria capaz de explorar um tema e de fazer um «best-seller» ou uma «besta-seller», como dizia o poeta Alexandre O´Neill.

EC: Faz parte do júri de vários concursos literários promovidos por Câmaras, Juntas de Freguesia, Sindicatos, etc. Como se avalia uma obra literária? Não será sempre subjectivo?

JCF: È relativamente fácil. Pela minha experiência de muitos anos de participar em júris diz-me que a qualidade vem sempre ao de cima. Quando as pessoas levam para casa um saco com textos e depois vai lendo e vai separando é muito fácil de ver porque a qualidade vem ao de cima. E nunca tive grandes discussões com outros colegas do Júri pela qualidade dos poemas ou romances. Ainda há pouco tempo fiz parte do júri do Prémio de Crónica que deu o prémio à escritora Maria Judite de Carvalho e foi unânime. Ainda agora quando foi o prémio José Carlos Ary dos Santos na Câmara de Grândola, cada um levou um saco de livros para casa para se escolher o melhor. Escolheram todos o mesmo. Quando não é tão fácil, faz-se uma votação entre júris. Existem também pessoas que concorrem aos prémios mas que são equívocos, ou não sabem escrever, escrevem com erros de gramática e de sentido e esses ficam logo de parte.

EC: Em poucas palavras, como se define como escritor?

JCF: Utilizando as palavras de um escritor que já morreu «um escritor ligado ao realismo da alma» ou seja, utilizando sempre um registo realista mas procurando também ultrapassar sempre o imediato. De uma maneira simples nós temos corpo e alma, uma vida mais imediata e outra mais anterior. Procuro que os meus textos alcancem uma ideia mais profunda e mais completa.

EC: O que acha da criação de um site dedicado única e exclusivamente à escrita criativa?

JCF: Vivemos numa sociedade muito fechada onde é muito difícil a colocação de textos literários e o aparecimento de um site destes é sempre de saudar. O problema é a questão da divulgação, saber como os possíveis candidatos a escritor podem saber da existência do site.

EC: Acha que a leitura na Internet se pode tornar uma alternativa viável à tradicional?

JCF: Penso que sim, existem já os e-book´s, estamos numa espécie de metamorfose, a passar de uma sociedade onde existem muitos analfabetos, onde 90% das queixas que chegam à DECO não avançam porque é preciso escrever uma carta e as pessoas não sabem. Mas relativamente à Internet, ainda no outro dia fui convidado para escrever um prefácio para um livro que nasceu na Internet. A Internet não prejudica a leitura tradicional, é antes um campo de incentivo à produção literária e ao convívio entre autores...

EC: Que conselho dá a alguém que queira ser escritor?

JCF: Que tente sempre ser igual a si próprio, isto é, que procure nunca fugir das suas raízes, porque nós não podemos ser quem não somos. Temos que avançar com os conhecimentos e capacidades que temos e apostar na nossa base. Dou o exemplo da minha filha que escreveu este livro, o editor já me disse que está a ser um êxito, porque ela conta estórias vivenciadas por ela, acrescentando a sua ironia e humor. Ela nunca fugiu de ser quem é. Grande parte dos problemas estão aí, e daqui por uns anos vamos ver, há livros hoje em dia muito conhecidos, mas que serão esquecidos, porque há uma peneira de qualidade que é o tempo. No tempo do Eça de Queiroz quem era conhecido era o Pinheiro Chagas. No tempo do Cesário Verde era o Cláudio Nunes. No tempo do Camilo Pessanha era o Augusto Gil, ou seja, os mais populares com o tempo deixaram de o ser, e aqueles mais autênticos, mais fiéis a si próprios permaneceram.

EC: Tem algum livro na calha para ser publicado?

JCF: Neste momento tenho dois livros. Um que se chama «Uma Voz da Terra», uma espécie de colectânea de textos escritos na minha terra de origem entre Alcobaça, Rio Maior, Foz do Arelho. Tenho outro que se chama o «Saco do Adeus» que é um conjunto de 40 poemas onde se fala do «adeus». O livro aparece como um saco de poemas de despedida.

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