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Ninguém se Torna Escritor Sem Trabalhar Muito Destaque

Escrito por  Escrita Criativa

Nascida em Coimbra, em 1962, Inês Pedrosa licenciou-se em Lisboa, na Universidade Nova, em Ciências da Comunicação. De convicções fortes e um grande fascínio pela escrita e pela literatura, Inês envolve-se apaixonadamente em todos os trabalhos que realiza. Integrou a equipa fundadora do Independente e foi directora de uma conceituada revista feminina, a Marie Claire, colaboradora do Expresso e da revista Ler. Em 1991 lança o seu primeiro livro. Hoje conta com oito livros publicados. E foi a propósito desta carreira brilhante que fomos ao encontro de Inês Pedrosa, que desde o primeiro minuto se mostrou receptiva a colaborar com o EscritaCriativa.com.

 

EC- Qual o título que melhor lhe assenta, jornalista, escritora…?

Inês Pedrosa - Eu não funciono por títulos. São duas coisas que eu faço. Prefiro dizer que pratico a escrita jornalística e a escrita de ficção do que arrogar-me «títulos» em qualquer área. É que há demasiados auto-proclamados «titulares» não praticantes, no jornalismo e na ficção como em muitas outras áreas.

EC - O que leva tantas pessoas a lerem os seus livros?

IP - O melhor é perguntar às pessoas (risos). Penso que há muitas pessoas que gostam das mesmas coisas de que eu gosto. Um livro chega tanto mais aos leitores, quanto mais os inquietar e os perturbar. Todos nós, mais do que consolação, precisamos de quem nos ajude a pensar em temas diferentes ou a encará-los de uma outra maneira. Nos meus livros procuro encontrar outras perspectivas para os assuntos que me tocam e que me interessam.

EC - E cria os personagens a partir desse ponto de vista?

IP - Exactamente. Embora as figuras sejam «desenhadas» pelo próprio leitor. Por vezes, quando se juntam alguns leitores, percebe-se que têm ideias diferentes da mesma personagem. A função dos livros é trazer-nos novas pessoas.

EC - Assim, nunca escreve com o intuito de vender?

IP - Não, quando se começa a escrever, o intuito de vender não existe. O êxito é sempre relativo e fugaz, não penso muito nisso, eu não contava com ele. Pensar nisso é prejudicial. O melhor é escrever aquilo que se tem para dizer. Nunca penso no que os críticos vão dizer. Tenho uma preocupação grande em experimentar novas formas de escrita, mas ao mesmo tempo mantê-la simples e musical. A minha experiência em jornalismo condiciona-me nesse aspecto.

EC - Quando escreve um livro, traça um horário?

IP - Tento libertar-me das coisas em meu redor, para me dedicar a tempo inteiro a ele. Por vezes, até me esqueço das refeições (risos)

EC - Em relação aos temas que escreve, predomina o amor, a amizade porquê?

IP - O que me interessa são as relações humanas, a minha paisagem são pessoas, no sentido em que os locais em abstracto não têm interesse para mim. Dentro das relações humanas, interessa-me aprofundar áreas pouco trabalhadas, como essa particular espécie de amor a que chamamos amizade. Muitas vezes, as pessoas zangam-se e não percebem porquê, e são questões de diferenças de perspectiva. Interessa-me trabalhar sobre os equívocos e os mal-entendidos. Vivemos a um ritmo muito acelerado e não temos, por vezes, tempo para analisar as relações.

EC - Já teve dissabores com a escrita?

IP - Não. Nunca ficamos completamente satisfeitos com nenhum livro, mas só nós é que sabemos o que queremos dele. Procuro que a preocupação tenha a ver com a qualidade mas claro que fico contente por saber que o meu primeiro livro ainda hoje vende, ou seja, passado doze anos ainda encontra novos leitores.

EC - Escreve hoje com mais maturidade do que quando escreveu o primeiro?

IP - Sim, penso que aprendemos. Eu não gosto muito da palavra maturidade, porque não sei se alguma vez chegamos a isso, mas ao longo do tempo perde-se inocência embora eu tente manter alguma. Por outro lado, ganha-se autoconfiança, e vou tentando encontrar a minha voz própria. Conheço as minhas falhas e hoje em dia sinto-me mais independente em relação ao olhar dos outros. Por outro lado, dou cada vez mais a ler o que escrevo a alguns amigos muito exigentes, antes de publicar, e essas críticas têm-me sido muito úteis, obrigando-me a trabalhar mais e melhor.

EC - As personagens são um mero fruto ficcional ou baseadas em pessoas que conhece?

IP - As personagens são ficção, mas não acredito que venham do nada. Muitas vezes surpreendem-nos, enriquecem-nos, porque nos dão uma outra perspectiva das coisas.

EC - Acredita na inspiração para a escrita, ou no trabalho?

IP - Há inspiração e talento para a escrita. Os cursos de escrita criativa não fazem escritores. Pode acontecer é alguém ter um dom e não ter oportunidade de o desenvolver. O trabalho sem talento tem pouco a fazer. Mas ninguém se torna escritor sem trabalhar muito.

EC - Conselhos para alguém que queira ser escritor? IP - O mais importante é ler muito bons autores, evidentemente. Depois, no que diz respeito à ficção, penso que o escritor deve tentar situar as suas histórias em ambientes e atmosferas que conheça, partir do seu específico conhecimento do mundo e dos seus interesses. Entregar-se a um tema e aprofundar a sua relação com ele. A tão procurada originalidade surgirá naturalmente em consequência da autenticidade da voz de quem escreve não pode ser caçada à força.

EC - A leitura na Internet pode substituir a tradicional?

IP - Eu não consigo ler durante muito tempo no computador. Nunca substituirá, é útil para uma leitura mais rápida, embora não haja controlo de credibilidade. Eu gosto de blogs, mas existem já muitos com o intuito de ofender gratuitamente, a coberto do anonimato. O insulto anónimo é particularmente desprezível.

EC - Projectos para o futuro?

IP - Tenho um projecto para um novo romance. Parece-me que será muito diferente do anterior, com um tom mais realista, ou, se quiser, sociológico. Mas não gosto de falar dos livros enquanto os estou a escrever, para não os gastar eles reagem mal às explicações prévias dos autores, rebelam-se. Entretanto, por volta do dia 25 de Abril sairá o tal livro de entrevistas de que lhe falei (na Dom Quixote, como de costume). O título é «Anos-Luz: Trinta Conversas para Celebrar o 25 de Abril». As entrevistas são com: Agostinho da Silva, Agustina Bessa-Luís, António Alçada Baptista, António Lobo Antunes, Augusto Abelaira, Carlos do Carmo, Eduardo Lourenço, Fernanda Botelho, Fernando Dacosta, João Botelho, Jorge Sampaio, José Cardoso Pires, José Mário Branco, José Saramago, Júlio Pomar, Lídia Jorge, Manuela de Freitas, Maria Ondina Braga, Mário de Carvalho, Moisés Espírito-Santo, Otelo Saraiva de Carvalho, Natália Correia, Pedro Ayres Magalhães, Raul Solnado, Rui Horta, Rui Reininho, Rui Veloso, Sérgio Godinho, Virgílio Ferreira, Teresa Villaverde.

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