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A Escrita de um Romance é Actividade Mais Apaixonante que Eu Conheço

Escrito por  Teresa Mascarenhas

Entrevista a Escrita Criativa

Teresa Mascarenhas nasceu em Lisboa a 27.01.52. Depois de alguns anos decorridos entre uma passagem pelo Conservatório de Teatro e por vários cursos na área das Belas-Artes, ingressou na Faculdade de Letras de Lisboa onde, se licenciou e fez vários Seminários de Pós-Graduação, sempre na área da Literatura. Cursou em seguida Creative Writing e Script Writing na Universidade de Oxford. Durante três anos leccionou Criação Literária no Ensino Superior Privado. Em 1990 publicou o seu primeiro livro. Tem neste momento vinte e oito livros publicados, oito prémios literários ganhos e várias outras obras concluídas aguardando oportunidade de publicação. Realizou duas exposições de pintura individuais e colaborou em catorze exposições colectivas.

 

 

 

EC - Fale-nos um pouco do seu trajecto enquanto escritora.

Teresa Mascarenhas: Eu aprendi a ler muito cedo. Andei numa escola onde nos ensinavam a ler pelo método global, um método suíço inovador, que nos fazia aprender sem darmos por isso. Comecei a ler e apaixonei-me completamente pela colecção dos Cinco da Enid Blyton. Depois também tive a sorte de ter encontrado algumas boas professoras. Eu cheguei aos meus 12 anos e na primeira semana de aulas «devorava» a Selecta Literária da primeira à última página. Comecei por escrever mais ou menos por essa altura, umas coisas que tive o bom senso de deitar fora, e aos 17 anos escrevi o meu primeiro livro, «Rapsódia em Technicolor», que foi rejeitado por umas trinta editoras, e no fim acabou por ser premiado. Era um texto que estava muito adiantado para o seu tempo. Mais tarde escrevi uma novela, «Eu Lourenço, andarilho da vida», que foi duplamente premiada, e a partir daí nunca mais parei. Nessa altura eu trabalhava como Correio de Turismo, o que me obrigava a viajar pelo mundo todo, e isso foi uma mais-valia imensa para mim, como pessoa e como escritora. Estou neste momento com cerca de trinta livros publicados, oito prémios literários ganhos. Alguns desses livros foram escritos por encomenda, fiz traduções, enfim... quem quiser saber tudo isso em pormenor poderá consultar a minha Página Web www.Teresa-Mascarenhas.com.

EC - Se não tem ganho os prémios que ganhou, (25 de Abril, Cidade da Amadora, Ferreira de Castro, etc) tinha chegado onde chegou?

TM - Se calhar esses prémios, que por um lado não têm importância nenhuma, porque eu já vi alguns textos mal escritos e vazios de conteúdo serem premiados, por outro lado foram decisivos para mim, na medida em que foram de facto um incentivo. Porque é realmente muito difícil publicar em Portugal. Eu julgo que a maior parte das editoras nem sequer se dá ao trabalho de ler os trabalhos que lhes chegam às mãos.

EC - Ambiciona escrever guiões para Hollywood. Os livros em si, contemplam um universo já muito pequeno?

TM - Não, não se trata disso. Trata-se de ganhar a minha vida, porque ninguém em Portugal consegue viver só a escrever literatura.

EC - A pintura, as aulas, a escrita de livros, de guiões... com qual destas áreas se identifica mais?

TM - Bom, a escrita de um romance é a actividade mais apaixonante que eu conheço, mas agora que enveredei pelo guionismo parece que também lhe estou a tomar o gosto.

EC - O que pensa do estado da cultura em Portugal?

TM - Eu julgo que existe em Portugal uma tradição de não apoiar a cultura, e de as pessoas acharem bem que os escritores e outros artistas vivam com tremendas dificuldades financeiras. O Camões morreu de fome, e ninguém quer saber disso para nada. É um fenómeno secular. E eu acho que a Televisão podia cumprir muito melhor a sua obrigação no sentido de divulgar as Artes e as Letras portuguesas, e não o faz. Quando eu publico um livro gostava que o Telejornal desse a notícia, e eu não queria isto só para mim, queria para todos os outros escritores portugueses, e para os pintores, os músicos... e não acho que fosse favor nenhum. Mas não, a RTP não se dá ao trabalho de divulgar a cultura portuguesa. De repente chega do estrangeiro um pateta alegre qualquer, e toda a gente lhe põe tapetes vermelhos debaixo dos pés. Apesar de tudo, quando começou a Televisão parece que havia mais sensibilidade para estas coisas . Eu ainda me lembro do programa de poesia do João Villaret... eu era miúda e adorava o João Villaret, em minha casa toda a gente adorava o João Villaret. Depois veio a Maria Germana Tânger, espantosa, como só ela. O último foi o Mário Viegas, talentosíssimo. Morreu o Mário Viegas, e com ele morreu a poesia na RTP. E é por essas e outras razões que todos os dias chegam a Portugal jogadores de futebol «importados», e todos os dias grandes valores da Cultura Portuguesa debandam para o estrangeiro. E não são só pessoas da Cultura, são investigadores na área das Ciências... porque de facto este país trata muito mal os seus filhos, não dá oportunidades a ninguém. Isto é um escândalo nacional. Eu não sou contra o futebol, acho muito bem que eles andem a jogar à bola, se é isso que eles gostam de fazer, mas penso que é um escândalo que se tenham gasto milhões a fazer estádios agora para o Euro 2004, e não haja um programa de âmbito nacional no sentido de se utilizarem depois esses estádios para se fazerem Concertos, Espectáculos de Ópera, etc... nada! É uma tristeza. Fica aqui o recado para o Zé Cabra, que qualquer dia ainda chega a Ministro da Cultura.

EC - Que conselho dá a alguém que queira ser escritor?

TM - Penso que deve procurar outras alternativas, e escrever nas horas vagas. A menos que seja rico, ou tenha «padrinhos» muito influentes nas editoras, com entrada nas grandes superfícies, que exigem percentagens que são perfeita uma imoralidade, deviam ser todos presos. E depois fazem batotas publicitárias, eu vejo às vezes livros com cintas impressas, «50 mil exemplares vendidos»... ora só quem estiver completamente por fora do nosso universo editorial é que acredita numa coisa dessas coisas. Eu terminei a obra prima da minha vida, é um livro que tem por título «Em Nome do Amor», e ainda nem o mandei para lado nenhum, nem sei se vale a pena. Ainda nem sei o que é que hei-de fazer com ele...

EC - Acha que a leitura na Internet se pode tornar uma alternativa viável à tradicional?

TM - Não sei, sinceramente. Eu fiz uma tentativa, e não resultou, não sei porquê. Talvez seja porque ler num ecrã não dá o mesmo gozo. Não há o contacto táctil, eu diria quase sensual, com o livro enquanto objecto. Pode ser que com outros autores venha a resultar, não sei. Eu julgo que para quem realmente gosta de ler, o gozo de uma boa leitura não é o mesmo. Comigo não resultou, o que não quer dizer que vá desencorajar outras pessoas.

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