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Os Livros Foram Sempre a Minha Grande Paixão

Escrito por  António Pedro Vasconcelos
António Pedro Vasconcelos nasceu a 10 de Março de 1939. É Cavaleiro da Ordem do Infante D. Henrique. Faz filmes há cerca de trinta e cinco anos, mas, no total, esteve cerca de quinze meses a trabalhar com os actores. É assim o cinema português. No seu currículo de realizador, conta com filmes como «O Lugar do Morto», «Jaime», «Aqui d’el Rei» e «Os Imortais». Mas não só de cinema é feita a sua vida. António-Pedro Vanconcelos é também jornalista, escritor, professor, comentador desportivo, entre outras actividades. Àqueles que querem vir a ser cineastas, o nosso entrevistado aconselha que «se batam pelas melhorias de condições de trabalho em Portugal».

EscritaCriativa.com - Em que momento da sua vida decide ser cineasta?

António-Pedro Vasconcelos - Quando estava na Faculdade de Direito, no 1º ano, inscrevi-me no cineclube universitário e comecei a ver outro cinema, e cinema com outros olhos. E aí, houve alguns filmes que me tocaram de tal maneira que eu percebi que era isso que eu queria fazer. Sempre tive uma veia artística. Eu fazia poemas, escrevia, desenhava, etc. Os meus pais achavam que eu devia ir para pintura, e até cheguei a ter aulas. Aliás, o primeiro dinheiro que ganhei foi a fazer capas de livros, com dezoito anos, e até uma banda desenhada fiz. Mas não era isso que me interessava. A escrita, sim. Os livros foram sempre a minha grande paixão, ainda hoje são. Acho os livros mais importantes do que os filmes, mas percebi que o que eu queria fazer era através de imagens, pois o cinema tinha duas coisas, para mim, fundamentais: primeiro, porque era a primeira arte ficcional que trabalhava directamente com a realidade. A pintura imitava a realidade, a literatura sugeria a realidade, mas o cinema filmava a própria realidade, filmava o corpo dos actores. Mesmo quando eram décores artificiais, filmava a matéria, a vida. E isto tocou-me imenso. Depois, porque eu percebi que a literatura, escrever, e ainda hoje gosto de escrever, é uma tortura. Uma tortura e um acto solitário, que conduz quase inevitavelmente à loucura, ao desespero ou à solidão absoluta. E é muito difícil viver com isso, é preciso ser muito forte. Todos os grandes escritores acabaram malucos ou a dar um tiro na cabeça, drogados ou alcoólicos. Há muito poucos escritores que acabaram bem e mesmo os que acabaram bem, aparentemente, como o Tolstói, acabaram completamente virados da cabeça. Portanto, eu devo ter percebido, em qualquer sítio, que a fase solitária diante da página branca era uma coisa que ia favorecer o meu lado depressivo, e eu queria puxar pelo meu outro lado, pelo meu lado vital, o meu lado solar. O cinema tem isso, filmar a vida e, por outro lado, não é em si um acto solitário. Fazer cinema implica lidar com as pessoas, que é possivelmente uma das servidões maiores do cinema. Um pintor, no fundo, não depende. Um compositor de música, não depende. Mesmo quem escreve para o teatro, um escritor, etc., não depende de mais ninguém que não seja dele próprio. Nós, não. Nós dependemos de uma série de pessoas. Eu costumo dizer que o cinema é a única arte, a única actividade criativa, em que o criador tem um horário de funcionário público. Nós entramos às oito e saímos às seis, temos de picar o ponto, e temos de estar inspirados durante aquelas horas. Não é, de facto, muito fácil. Mas, por outro lado, isso dava-me o convívio com as outras pessoas. Criava-me uma dependência. O cinema é convivial. É a sociabilidade do cinema que eu acho que me salvava da loucura, do lado depressivo.

EC - Mas, por outro lado, não deixa de ter uma participação activa na escrita dos argumentos dos seus filmes?

A-PV - Mas, aí está. Um romance, por exemplo, eu teria de escrever sozinho. O argumento, já não tenho.

EC - Não realiza filmes que outros escrevem?

A-PV - Não. Tomara eu. O meu sonho era haver alguém que me trouxesse um argumento em que eu não tivesse de mexer em nada. É impossível. Até hoje, nunca me aconteceu. Só o último é que foi escrito por mim, por inteiro. Primeiramente, foi adaptado de um livro, trabalhei com outras pessoas na contrução, mas depois escrevi-o sozinho. Escrever, escreve-se sozinho. Eu acho que mesmo quando um argumento é feito por várias pessoas, é sempre escrito por uma pessoa. Nunca é escrito a quatro ou mais mãos. Acho muito difícil. Escrever é só uma pessoa, mesmo que depois possa ser reescrito, passe por várias mãos. O cinema americano e o italiano têm exemplos disso, mas os americanos, a partir do aparecimento total do investimento no argumento, ganharam uma grande relevância, e criou-se o hábito de escrever o argumento por vários escritores. Inclusivamente, em alguns casos, havia produtores que encomendavam a vários e depois viam qual era o melhor. O “Casablanca” é um caso exemplar, pois o argumento passou por variadíssimas mãos. E, hoje em dia, é perfeitamente possível de detectar que aquilo, sendo uma obra perfeita, é o contributo de três grandes argumentistas: um, era um homem com mais sensibilidade ao aspecto político; outro, ao aspecto social; e outro, ao aspecto sentimental. Todos eles foram-se corrigindo uns aos outros. É um milagre que aquilo saia como uma obra perfeita, que não se note esse “corte e costura” que houve. Portanto, o cinema, mesmo na fase da escrita, tem isso. Discute-se, conversa-se, trabalha-se. Não é um acto solitário como o da escrita.

EC - É o argumento a fase mais criativa da concepção de um filme?

A-PV - Eu acho que todas as fases são criativas. Cria-se no argumento, na realização, cria-se na produção, na fase da montagem, na sonorização, até quando o filme vai a público. A maneira como a gente vê o filme e fala do filme, tudo isso é criativo. Aquilo que eu acho mais criativo, na minha maneira de fazer, é o trabalho com os actores, a filmagem.

EC - Como é que se considera? Um realizador, um jornalista, um escritor, um professor?

A-PV - Eu estive a fazer contas um dia destes e concluí que há trinta e cinco anos, talvez mais, que comecei a fazer filmes e, ao todo, passei à volta de quinze meses a trabalhar com os actores. Em quase quarenta anos, trabalhei um ano e três meses com os actores. Portanto, eu não sou um profissional, costumo dizer que sou um realizador bissexto. O que eu gostava de ser era profissional, só fazer isso. Mas, não sou, não há condições para ser. Portanto, eu próprio não me sei definir. Aqui há tempos, houve um censo e eu, como toda a gente, tive de preencher e não sabia o que escrever na profissão. Fui à Junta de Freguesia perguntar o que é que havia de pôr lá. Pensei em pôr realizador, pois é aquilo que eu quero ser e é aquilo pelo qual sou mais conhecido, mas depois dizia «quantas horas trabalha por dia na sua profissão?», e eu não sabia o que responder. E, na Junta de Freguesia também não me souberam dizer. Assim, sou jornalista, sou escritor, sou professor, sou realizador, já fui e gosto de ser produtor. Tenho um handycap que é positivo e negativo, que é o facto de saber e gostar de fazer outras coisas. É positivo porque me possibilita sobreviver com mais facilidade do que se estivesse dependente do cinema. É negativo porque se eu só soubesse fazer filmes, ou se só quisesse fazer filmes, se calhar batia-me mais para fazer filmes. Mas, por outro lado, se calhar, aceitava piores condições como acontecesse com muitos colegas meus. Por exemplo, gostava de trabalhar para a televisão mas não me dão condições mínimas para fazer um bom trabalho. Assim, eu prefiro falar de futebol, não me compromete.

EC - Como aparece o futebol?

A-PV - Eu gosto de futebol como o comum dos mortais. E, além de ser um benfiquista ferrenho, gosto de ver futebol. Em tempos, um amigo meu desafiou-me para eu escrever no Record e eu comecei a escrever no Record, e depois outro amigo meu, o Vasco Pulido Valente, convidou-me para eu escrever no Independente. Eu preferia escrever no Independente, porque permitia-me escrever de outra maneira. A minha ideia era tentar escrever sobre futebol para as pessoas que não gostam de futebol, para levar essas pessoas a ler e fazê-las perceber por que é que eu gosto de futebol e tentar fazê-las gostar de futebol ou, pelo menos, tentar fazê-las ter um bocadinho mais de respeito pelo futebol. E, aos que gostam de futebol, tentar interessá-los por outras coisas e ver futebol de outra maneira. Os meus artigos tinham, por vezes, página e meia e só no último parágrafo é que se via a relação que aquilo tinha com o futebol. Mais tarde, compilei esses artigos num livro «Porque é que as mulheres não gostam de futebol». O título do livro é um pouco sencionalista. A minha ideia era chamar ao livro «Futebol, mais do que um jogo», mas depois surgiu este título, pois havia uns artigos sobre o porquê das mulheres não gostarem de futebol e ficou assim. Aliás, o título nem era esse. Era «Porque é que as mulheres não gostam que a gente goste de futebol?». Isso é que me intriga. Um dia mais tarde, encontrei o Emídio Rangel na praia e ele sugeriu-me que eu fosse para «Os Donos da Bola», e eu fui. Actualmente, estou na RTP N, com um programa para os adeptos de futebol que não gostam tantos das guerras do futebol. É que esse tipo de programa não me apetece muito fazer. Eu costumo dizer que ao domingo, no estádio, sou completamente fanático, como qualquer mortal, mas à segunda-feira já sou uma pessoa normal. No entanto, há pessoas que durante a semana mantêm o fanatismo.

EC - Compensa viver do cinema em Portugal?

A-PV - Para o Manoel de Oliveira, compensa. Mas para a maioria dos realizadores, não. Há muito pouco profissionalismo no meio dos realizadores. É uma coisa que me choca. Eu próprio, como faço um filme de quatro em quatro anos, tenho alguns problemas. Primeiro, nunca trabalho com as mesmas equipas, o que é mau. E, segundo, no meio do plateau, o pessoal da produção, script, luzes, câmaras, guarda-roupa e maquilhagem, têm de viver daquela profissão, ou seja, estão todos os dias a fazer filmes, e nós, realizadores, não. Somos «emprestados» àquela equipa. É muito difícil viver dignamente do cinema em Portugal. É um cinema que vive de subsídios e, portanto, é aleatório. Os filmes não permitem pagar bem. O único filme com que ganhei dinheiro foi «O Lugar do Morto» que tive de acabar de o produzir. Pedi dinheiro emprestado e acabei-o eu. Nos outros filmes, ganho o meu cachet, que é sempre a primeira coisa a ser sacrificada. Por isso, o cinema, para mim, é um mau negócio. Obriga-me a interromper todas as actividades que tinha antes de gravar um filme. Agora, há pessoas que ganham bem com o cinema. Os realizadores não têm vida fácil, excepto alguns, como o Manoel de Oliveira que há vinte anos que faz um filme, de nove em nove meses, e faz-se pagar principescamente. Não há na história do cinema mundial nenhum realizador que tenha sido tão bem pago como o Manoel de Oliveira, em termos de percentagem sobre orçamento.

EC - Acredita que o panorama pode ser alterado?

A-PV - Eu tenho sempre a mesma resposta: eu não posso deixar de acreditar que sim. Na altura da ditadura, também achava que não ia durar sempre. Ou que o Apartheid não ia durar para sempre.

EC - Há uma nova proposta de lei…

A-PV - Não deixo de estar muito céptico em relação a ela. A própria confusão que a lei estabelece e as resistências que vai ter... Não vejo vontade, nem coragem política, para pôr a lei a funcionar, o que ficou também muito aquém do que podia ser. Agora, abre uma porta. Pela primeira vez, desde 1971, admite-se que haja outros financiamentos para o cinema, que não os do Estado. O que tenho andado anos a dizer é que há trinta anos que existe democracia e continuamos a funcionar segundo um sistema soviético. Isto não funciona. É um cinema em que o Estado decide e financia quem é que filma, em cada ano. EC - O que leva a uma pouca responsabilização dos agentes envolvidos…

A-PV - Há zero de responsabilização. E, desde 1971, que as salas de cinema, as distribuidoras, o público, etc., odeiam o cinema português.

EC - O que é preciso fazer para «americanizar» o cinema português?

A-PV - O cinema europeu condenou-se há vinte e cinco anos. Não sei se voltará a ter a importância que teve nos anos 20, 40 e 60. Sou muito céptico em relação ao ressurgimento da cinematografia europeia. Teve muitas vicissitudes, como as duas grandes guerras, mas apesar disso aguentou-se. Hoje, perdeu todo o seu prestígio e Portugal é o que está pior de todos. Mas tem de se fazer um esforço para fazer os filmes circularem.

EC - Como vê o aparecimento, neste contexto, do cinema Brasileiro?

A-PV - O cinema brasileiro teve uma fase de grande prestígio nos anos 60, que foi morta pela TV Globo e pelo Color de Melo. Hoje em dia, está a retomar, graças à nova lei do mecenato, e começam a ter filmes vistos em Portugal e no mundo inteiro. Mas, entre Portugal e Brasil é muito complicado haver colaborações, devido à distância geográfica e ao facto de eles não gostarem muito de nós, apesar de proclamarem o contrário. Mesmo com Espanha, que fica aqui ao lado, não há o mínimo contacto nesse sentido. No mercado europeu, que já tem liberdade de circulação de pessoas, bens e serviços, não existe circulação de filmes. Circula um filme espanhol quando é do Pedro Almodôvar, ou um italiano quando é do Benigni. Eu, quando comecei a ver cinema, via tudo o que era francês, italiano, sueco… Acredito que é possível criar uma indústria. No entanto, hoje em dia, a média de visualização dos filmes nacionais na Europa é de 20%, o que é muito baixo. Em Portugal, a média está em 0,4%. Estamos cinquenta vezes abaixo da média europeia. É uma coisa impensável. A média de espectadores por filme português, em 2004, foi de 720. Vigora ainda uma concepção do artista autista. É ele que realiza, que decide e que não dá satisfações a ninguém. E depois, há também a cumplicidade da crítica.

EC - Como vê o aparecimento de pessoas que não são actores a fazerem filmes, como o Rui Unas que, aliás, foi o António-Pedro que lançou?

A-PV - Isso sempre aconteceu no cinema. Um actor começa por não existir e há um dia em que se torna actor. Agora, há pessoas que passam por cursos e outras não. Mas devo-lhe dizer que já vi actores que têm cursos e que são verdadeiros «pés», e outros que nunca representaram e são fantásticos. O ensino de actores em Portugal é um desastre. Eu participo numa escola de actores que a minha filha fundou precisamente por causa disso. Existem escolas em que o aluno passa por lá quatro ou cinco anos e nunca chega a ver uma câmera. Acho que o actor tem de ter características específicas. Há um fenómeno no cinema que se chama fotogenia. Costuma-se dizer que existem actores em que a câmera parece que gosta deles. Para mim, há duas coisas fundamentais num actor: o olhar e o andar.

EC - Também está na moda ir tirar um curso de actor…

A-PV - Está. Existem fábricas de actores para telenovelas, e nesse caso, desde que o actor se consiga desinibir, faz telenovela.

EC - Que filme lhe deu mais prazer fazer? Qual o seu melhor filme?

A-PV - São duas perguntas diferentes… Eu não vejo os meus filmes, e por isso tenho uma certa dificuldade em responder. Tenho filmes meus que nunca mais vi. A filmagem que correu melhor foi o «Aqui d’el Rei» que, no entanto, demorou cerca de quatro meses. Não houve falhas e a relação entre os actores foi fantástica, apesar da diferença linguística entre alguns. Todos os outros filmes tiveram filmagens problemáticas. O «Jaime» e «Os Imortais» foram filmagens duríssimas, com chuva nos exteriores, etc. Outra coisa é o resultado final. Acho que «Os Imortais» é o meu filme mais sólido, tem menos altos e baixos, é mais complexo e, ao mesmo tempo, mais maduro, já que consegui atingir uma certa simplicidade, sem grandes efeitos. Nesse sentido, talvez seja o melhor. A melhor história de todas foi o «Aqui d’el Rei», que é o filme mais brilhantemente construído. Depois, há outros pelos quais tenho bastante carinho, embora tenha alguma dificuldade em analisá-los, pois só vejo os defeitos.

EC - Como classifica o seu cinema?

A-PV - Eu sou herdeiro de uma época de ouro do cinema, em que havia grandes mestres, grandes personalidades. Eu tento ser fiel a essa tradição. Histórias sólidas, bons actores, criação de personagens, situações fortes, etc. Mas, nos meus filmes, procuro que os actores sejam a peça principal, porque é deles que vive o cinema. O que seria do «Casablanca», sem o Humphrey Bogart e a Ingrid Bergman? Ou «O Padrinho», sem o Marlon Brando? Portanto, eu diria que o meu cinema é um cinema de actores, e tento retirar o melhor que posso deles.

EC - Que conselhos dá a alguém que queira ser cineasta?

A-PV - Primeiro, que se bata pelas melhorias de condições de trabalho em Portugal. Que obrigue o Estado a intervir de outra maneira. Depois, deve ver muito cinema, não apenas os filmes de hoje, como também muito do que se fez para trás, tentando perceber como foi feito. Que seja também parte integrante na produção do argumento. Tem de aprender a gostar de contar histórias e saber avaliar outras histórias. É também preciso ler muito, não só cinema, como também teatro. Tem de gostar de actores, da sua interpretação. E depois, deve testar a sua própria convicção e ser ambicioso, colocar a fasquia alta. Pensar grande. Para descer, estamos sempre a tempo. E, sejam isentos consigo próprios, não pensem que o argumento já está acabado numa primeira versão, pois quase nunca é bom à primeira. E, finalmente, dar ouvidos ao público, pois este nunca se engana.

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