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«Entendo a Poesia Contemporânea Como um Vaivém que Cruza o Espaço Sideral»

Escrito por  José Luis Mendonça

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

«O engajamento na poesia é natural, nada premeditado, é ele também lírico, porque é a expressão de um sentimento de revolta popular, é um engajamento com a vida, tem a ver com a marcha corajosa para o mundo de todos os homens de que falava Agostinho Neto»

 

P- Quando atentamos no percurso poético de José Luís Mendonça, deparamo-nos com uma identidade de grupo. A sua infância foi marcada pela poesia ou a poesia marcou a sua vida?

R- Quem entra em minha casa sai carregado de sonhos. A minha poesia identifica-se com os seres e coisas dos lugares vividos. Seres animados e inanimados que se integram num todo cultural e que entram pelo verso adentro com as suas vozes diversas, cantando no meu verso o silêncio que lhes cala fundo na alma. A minha infância não termina nunca. Nem a morte a pode acabar. Pela eternidade fora, hei-de ver-me nessa criança que me habita, por isso é a minha infância que marca toda a minha poesia. É de dentro dessa criança que os sonhos nascem imparáveis. Da primeira infância, no Golungo Alto, lá na Mussuemba, guardo recordações indeléveis, as cantigas de roda, as estórias sobre kifumbes e bichos do mato que a minha mãe me contava, as conversas em Kimbundu entre ela, a minha avó e as minhas tias e o sabor das frutas da terra. O meu primeiro professor foi o meu pai, que começou a ensinar-me a ler e a escrever ainda antes de eu entrar para a escola primária. Foi com ele que adquiri a paixão pelos jornais ainda em Ndalatando, depois de ter saído da minha terra natal, Golungo Alto. Eu não lia os jornais nessa altura, com apenas quatro anos, mas de tanto ver o meu pai a ler, eu «lia-os», segurava neles e falava o que me vinha à cabeça, num gesto de imitação. Sei que foi a partir dessa imitação que me tornei jornalista. O meu pai gostava muito de ler, tinha duas ou três dezenas de livros que carregava há muitos anos com ele. O primeiro livro que li, tinha eu 9 anos, foi-me oferecido pela minha professora primária, Dona Cândida Lavado, minha segunda mãe, como prémio pelo melhor desempenho em História. Chamava-se Os Cinco na Casa em Ruínas, de Enid Blyton. A partir daí nasceu a minha paixão pelos romances de aventuras. A Ilha de Coral, de Balantyne, levou-me ao mundo fascinante da aventura. Poupava os tostões que me davam, para comprar livros. Comecei a escrever os melhores poemas na folha azul do céu e hoje vou buscando as reminiscências.

P- Esta identidade de grupo a que me referia tem a ver com a influência que teve de David Mestre. Gostaria que me falasse do contacto que teve com este jornalista e qual a influência dele na sua veia literária.

R- Do David Mestre bebi, sim, a noção da camuflagem literária. O resto, a busca de inovação tentando andar atrás da forma do Mestre, resultou no caderno de poesia experimental que intitulei de Gíria de Cacimbo e do qual hoje apenas aproveitei dois poemas. Ninguém pode imitar o mestre, temos de ser nós próprios, ou melhor, superar o mestre. Foi com o David Mestre que eu abri a minha própria veia e deixei escorrer livremente o sangue da poesia. O David Mestre foi muito importante porque me deu a ler o Karingana wa Karingana, do grande José Craveirinha, e deu-me também os Cem Poemas, do Mário António. O David levou-me a ler muita coisa e essa foi a melhor parte da nossa relação. Foi ele que me explicou que a poesia parte sempre de baixo para cima, nunca está em linha com os poderes políticos. A essência da poesia está em profunda contradição com a essência dos poderes dominantes na organização da sociedade humana. Daí ela abarcar o coração da humanidade. O pulsar desse coração é de uma onda tão subtil que qualquer instrumentalização do homem gera na poesia fonemas de sangue que deixam no papel o tal silêncio, de que falámos antes, o tactear o pensamento do leitor.

P- Teve um percurso jornalístico que o ligou à cultura e à literatura. Que importância teve no seu tempo a gazeta «Lavra & Oficina» bem como o «Vida Cultural», suplemento do Jornal de Angola onde trabalhou?

R- Tive muito pouca, senão escassa colaboração na gazeta da União dos Escritores Angolanos (UEA). A gazeta foi para mim um manancial de leituras. O suplemento «Vida & Cultura» foi um espaço onde nos entregámos ao olhar crítico dos leitores. Eu próprio coordenei o suplemento, enquanto repórter cultural do Jornal de Angola, e publiquei muitos autores. No meu tempo havia colaboradores de peso, como o Ruy Duarte de Carvalho, só para citar um exemplo. No tempo do Américo Gonçalves, ele faz publicar muita produção da nova geração, que poderia, em vez de Geração das Incertezas, talvez chamar-se Geração do «Vida & Cultura», assim como houve a Geração da Mensagem. Hoje o suplemento intitula-se «Vida Cultural», quer dizer que o «Vida & Cultura» está enquadrado numa etapa bem precisa da história do jornalismo e da cultura angolana e, nesse contexto, poderíamos adoptar aquela designação para a nossa geração.

P- Como funcionário do UNICEF, passou a ser essencialmente colunista. Como avalia o papel prestado pelos «opinion makers» e críticos sociais em Angola?

R- Como funcionário do UNICEF escrevo dezenas de artigos anónimos, as chamadas notas de imprensa, as intervenções públicas da agência e ajudo a produzir as suas publicações, para além de trabalhar com os nossos colegas da imprensa local e da imprensa internacional sobre o teor e a importância dos projectos em curso no quadro da promoção dos direitos da criança. Bom, sempre que posso, nas horas que me pertencem como ser livre e independente, também escrevo e publico reportagens e ensaios literários, sempre levado pela paixão do jornalismo. Tenho escrito para a revista África Lusófona, com sede em Lisboa, e para alguns jornais aqui na nossa terra, incluindo o Jornal de Angola. Escrevo sempre com muito amor. Este ano (2005) fiquei na lista dos finalistas ao prémio da CNN-Multichoice para o melhor jornalista africano e vou a Nairobi em Junho para a selecção final. Mas como cronista, devo dizer que temos muita gente que quer fazer dos jornais manuais de filosofia, o que também é válido, mas não esgota a função da coluna social e política. Tenho para mim que há questões profundas a debater, a trazer à tona do grande mar da problemática social angolana e que ainda navegam no fundo dele. Um desses problemas é o da dignidade da pessoa humana, o valor da vida humana, não pela posição sócio-económica do seu detentor, mas pela própria existência do ser humano em si. Esta foi a razão última da luta de libertação e está a cair no olvido nos tempos que correm. E depois temos assuntos fulcrais para a vida em comunidade, como as regras da conduta social, os valores éticos e princípios morais, pequenas coisas do dia-a-dia, que fazem grande a vida humana e que eu tenho tratado de forma coloquial. A mim, atrai-me muito a ironia como forma de atiçar a chama do humor. Luto para que Angola e o mundo sejam praças da alegria.

P- É considerado um dos representantes da «novíssima poesia angolana». Que interpretação dar a esta expressão, já que pode ser entendida como uma delimitação entre os poetas com obra publicada antes e depois da independência?

R- É realmente uma delimitação. A chamada «novíssima poesia angolana» é aquela que nasceu numa nova era da vida angolana, em que ocorreu uma interiorização colectiva da liberdade e uma promoção do homem e do intelectual antes humilhado. O autor poético tomou conta dos espaços da criação e, daí decorrente, da própria criação, do corpo novo a dar aos animais verbais, com uma forragem melhorada e com utensílios estilísticos mais inovadores. No entanto, não sou muito propenso às dicotomias geracionais. O que nos separa são mais os temas que abordamos. É que a geração anterior deixou-nos um legado inalienável para quem quiser firmar-se no universo das letras nacionais e universais.

P- Diz o professor Pires Laranjeira que, nos anos 80, José Luís Mendonça e outros aspirantes a poetas confrontaram-se com dois caminhos: a Brigada Jovem de Literatura (ora nascente) e o grupo da revista Archote. Quer explicar-nos o que se passou nesta altura?

R- Eu tenho uma grande admiração e respeito pelo Pires Laranjeira e muitos outros analistas externos da nossa literatura. Mas, às vezes, dada a distância a que se encontram do fenómeno literário angolano, pecam por uma visão muito simplista da coisa poética da geração dos anos 80. Pelo facto de não terem vivido a nossa experiência, tentam iluminar esse período com dados recolhidos de forma superficial. A Brigada sempre teve uma certa conotação política e até serviu de trampolim para voos mais altos de alguns dos seus integrantes, e não tenho nada contra isso, até dei um apoio significativo aos brigadistas no tempo em que fui secretário para a cultura da UEA, nos anos 80. Estou, como Heródoto, simplesmente a descrever o que realmente aconteceu com a Brigada. Já o Archote foi uma pequena publicação de que só saíram dois ou três números, com literatura variada, boa literatura por sinal, e no qual publiquei uma crónica escrita para ser uma futura novela. Surgiu muito mais tarde do que a Brigada. A diferença está em que no Archote se podia publicar o que era considerado tabu pelo regime. Mas o facto de eu ter publicado no Archote não significa que houvesse um corpo orgânico oposto à Brigada, nem uma tendência organizada em torno dela. Era pura carolice e, isso sim, desejo de publicar literatura de qualidade, a preocupação era publicar literatura (no Archote).

P- Surgiu ainda em finais da década de 80 um livro de autoria de Luís Kandjimbo e Lopito Feijóo, considerado como «um esforço de teorização». Que importância teve para si o livro Geração da Revolução, Novos Poetas Angolanos em Volta?

R- A grande importância dessa pequena antologia foi a de dar-nos a conhecer ao mundo e este aspecto é um mérito que atribuo aos meus confrades Kandjimbo e Lopito. Mas teve também como escopo procurar definir a nossa geração como geração da revolução, definição a que Kandjimbo renunciaria mais tarde, para, já a solo e longe do espartilho do pensamento condicionado, enveredar pela terminologia «Geração das Incertezas». Eu tenho criticado muito o Lopito Feijóo porque ele abandonou essas lides de ensaísta, e acho que de tanto criticá-lo ele vai voltar a fazer estudos e veremos novamente o Lopito aí a ombrear com o Kandjimbo na análise do fenómeno literário angolano.

P- Concorda quando se diz que, se nas gerações de 40 a 80, houve elementos individualizadores, a geração de 90 é marcada por uma «pluralidade de vozes», que abarca todas as anteriores?

R- O verdadeiro sentido da poesia actual que possibilite ler uma superação da herança das gerações anteriores revela sempre uma continuidade dos elementos individualizadores, até porque a produção da poesia é muito solitária e individualista. O que vai para além desta exegese, tanto pode ser hermetismo com pés de barro, como plágio subterrâneo de autores universais.

P- Existem poetas da sua geração que tomaram percursos diferentes. É o caso de Eduardo Bonavena e Rui Augusto. Como avalia o percurso dos seus contemporâneos, incluindo Kandjimbo e Lopito Feijóo?

R- Se lerem com atenção as obras dos poetas da geração de 80, à qual pertenço, verificarão que não existe uma linha comum de escrita que possa fazer com que nos agrupemos todos univocamente numa mesma corrente literária ou filosófica. Penso que haverá uma identidade formal nos poetas da minha geração, mas mesmo aí com algumas diferenças de estilo, que só um estudo acurado das obras pode revelar. Tudo tem a ver com o grau de sensibilidade, de inocência, que cada um transporta no seu imo. Mas esta é uma avaliação que pertence aos verdadeiros críticos e estudiosos da nossa literatura. Faço meus os versos do poeta Eugénio de Andrade: «como posso eu, que só conheço os caminhos da sede, indicar a direcção das nascentes?».

P- Há uma preocupação estético-formal na sua poesia. É essa a razão que o leva a cogitar tanto sobre o papel, ao ponto de levar anos a publicar nova obra?

R- Uma das grandes razões por que levo anos a publicar nova obra é o trabalho social, o dia-a-dia laboral para ganhar o pão. Falta-me o tempo que devia dedicar à poesia. Quanto à preocupação estético-formal, é ela que tem ditado a qualidade da minha poesia, mas não só, a boa poesia faz-se também de uma feliz reorganização do caos da vida. Eu crio um mundo que não existe e é essa certeza da existência de algo de tão belo que não existe que levo para o papel e começa a pulsar com um coração visível a olho nu.

P- Penso que individualizou parte da sua poesia lírica, pois no contexto colonial ela era tímida. Que representa para si a mulher e o amor como forma de expressão poética?

R- Tudo para mim tem um significado transcendental, até as pedras do caminho e os burgaus rolados pelas águas do Bengo. Nessa transcendentalidade, a mulher é a mais alta expressão da poesia, antes de transcrita para o papel. Mas ela é também, como tudo nesta vida, efémera e traz, como tudo nesta vida, o cheiro agridoce da terra. Por isso, a minha poesia recria-a, transforma-a em maresia e entrega essa nova imagem da mulher ao leitor e à eternidade. O tempo colonial estava espartilhado por uma outra moral, a moral colonial que apertava os pulsos da poesia, tornando-a incapaz de cantar os lugares mais secretos da passada feminina. Foi a ideologia do materialismo dialéctico que nos deu essa expansão para cantarmos todas as tonalidades da beleza feminina. Quer dizer, o materalismo dialéctico, como todas as filosofias, tem também a sua parte saudável, não podemos deitar por terra, na sua globalidade, um dos grandes contributos do pensamento humano, só porque o socialismo está fora de moda. Se você ler a própria Bíblia com atenção, verá, nos cantares de Salomão, um erotismo de primeira água.

P- Outro elemento marcante na sua poesia é a «reciclagem» de expressões, vocábulos e objectos tradicionais para expressar sentimentos e conferir veracidade a factos. Fale-nos um pouco desta sua construção poética?

R- Foi António Jacinto que afirmou que ninguém pergunta a uma bananeira porque dá bananas. E a visão literária de Agostinho Neto vem elucidar o teor acentuadamente angolano da poesia que produzo, quando diz: «Neste momento, a África é a África, com os seus problemas particulares, como a Europa é ela mesma, a América ou a Ásia também. Criar a literatura escrita em África é diferente de realizar o mesmo na Ásia ou noutro Continente».

P- Há um laço inquebrantável que José Luís Mendonça cria entre a sua poesia e a imagem ilusória, traduzida bastas vezes em ideografias. O que trouxe de novo à sua poesia a aliança entre a pintura e a literatura?

R- Venho de um país que ainda não existe (José Craveirinha). Como disse, escrevo aquilo que só existe na face oculta de cada coisa, de cada ser, de cada pensamento, de cada som. E o que vejo são imagens que pinto com palavras. Tenho um profundo fascínio pelas cores, que me cego a mim mesmo, para poder observar o sonho colorido que cada coisa sonha por detrás da cor que ostenta.

P- Se pudesse caracterizar em três períodos o seu percurso literário, como o faria?

R- O primeiro período foi o do ciclo fechado pelo livro Gíria de Cacimbo e que iniciou com Chuva Novembrina: ciclo da poesia experimental. O segundo começa com Respirar as Mãos na Pedra e vai até 1995, quando sai Quero Acordar a Alva: ciclo do lagarto. O terceiro período vai de Logaríntimos da Alma até Ngoma do Negro Metal: ciclo da ascensão à raiz. A antologia Cal & Grafia encerra esses três ciclos. Surge, a partir de Gramática do Amor Contemporâneo (2002), um quarto período que ainda não sei caracterizar, porque espera ainda o subsídio das próximas obras, uma das quais já no prelo.

P- A sua obra-trampolim de exercício literário, Chuva Novembrina (poesia, Luanda, INALD, 1981)prémio Sagrada Esperança trazia já as bases da apreciação polissémica da palavra que até hoje (re)utiliza. Que ambiente lhe servia de recanto à inspiração?

R- Tudo. Mas sobretudo a solidão da Terra, que eu interiorizei de tal forma que me tornei na própria órbita do planeta, recebendo todas as impressões e aprendendo todas as expressões de cada ser. O que me inspirou e me inspira é precisamente o ambiente da escuta, da aprendizagem de cada lugar que nunca é o mesmo a cada manhã, embora vivido anos a fio.

P- Se no primeiro livro era lírico, depois José Luís Mendonça traz uma poesia mais «engajada». Porque é que em Gíria de cacimbo (poesia, Luanda, UEA, 1987) a sua linguagem poética muda ?

R- Isso já expliquei atrás, quando falei da influência do David Mestre. Mas é preciso admitir que já na Chuva Novembrina se manifestava esse engajamento. E eu tinha muita poesia guardada nas gavetas. Mas a linguagem poética começa a mudar pela aprendizagem, com David Mestre, da camuflagem verbal, para depois negar ou, melhor, superar essa aprendizagem e regressar ao meu próprio caminho, com Respirar as Mãos na Pedra. O engajamento na poesia é natural, nada premeditado; é ele também lírico, porque é a expressão de um sentimento de revolta popular, é um engajamento com a vida, tem a ver com a marcha corajosa para o mundo de todos os homens de que falava Agostinho Neto. Devido ao carácter belicista e de confrontação permanente da vida em Angola nos últimos 100 anos, a poesia do último século necessariamente reflecte com acentuada ênfase a aspiração do povo angolano à vida. Veja que a África, que, com a escravatura, deu ao primeiro mundo toda a riqueza que ele hoje ostenta, ainda não conseguiu experimentar as benesses do progresso técnico-científico e industrial na sua plenitude. É esta angústia que a minha poesia reflecte. Mas a maior angústia é a de ver o homem africano baixado à categoria de coisa sem valor pelo próprio homem africano, o negro a ser trucidado, a ser massacrado pelo próprio irmão negro, não já o colono branco. Isto dói que se farta, dói como uma faca espetada no meu coração. Não que eu não entenda a raiz das coisas. O que eu não entendo é porque não se pára com este estado de coisas, a morte barata que nos invade todos os dias. Porque é que não se fala disto, porque é que os políticos escondem este aspecto, não o discutem nos parlamentos, dentro dos partidos políticos, apenas os religiosos se insurgem, como a Igreja Católica aqui em Angola? Depois de tantas décadas de independência no Continente, temos de pôr fim a estas humilhações aqui na terra sagrada dos nossos antepassados. Temos de ser modernos. Respeitar a vida. Se não o conseguirmos, teremos sempre o neo-colonialismo dentro de portas. Esta preocupação está sintetizada no meu poema «Catembe».

P- Reportando-nos à época, que «problemas, armadilhas e emboscadas da palavra e do silêncio» terá encontrado na produção literária?

R- Em primeiro lugar, deparávamo-nos todos com a grande questão do próprio desencanto pós-revolução. Transposto para a produção literária, este desencanto traduzia-se numa grande inspiração, mas sem o correspondente escoamento para o leitor, porque praticávamos a auto-censura. Foi nesta fase, nos anos 80, que o Luís Kandjimbo achou o termo para a «Geração das Incertezas». Tratava-se de incertezas quanto à própria sobrevivência enquanto produtores literatura, mas também incertezas sobre o caminho a desbravar para sermos novos num novo país.

P- Prefiro encará-lo como um poeta plurifacético: por um lado o jornalista e actor social que cogita sobre a sua realidade, por outro o poeta em si, o homem que encara a sua realidade como objecto artístico. Pode assim entender-se o poemário Se a Água Falasse [1.º prémio ex-aequo, nos Jogos Florais de Caxinde], nos seus verso e reverso? Já agora, fale-nos como e porquê concorreu, quem o incentivou…

R- Como vem expresso na nota de orelha do meu próximo poemário, Nua Maresia, sou poeta a tempo inteiro e jornalista de profissão. Ora, é bem verdade que a veia jornalística entranha o seu sangue, melhor, a sua tinta, no sangue da veia poética e isso pode observar-se no poema «Coração de Água Morena» (in Se a Água Falasse). Mas o contrário também é válido, porque também, quando escrevo para os média, escrevo com muita paixão e paixão significa poesia. A ideia de concorrer foi individual. Havia um concurso, eu tinha os poemas, queria mostrá-los ao mundo e o concurso apresentava-se como o canal ideal na altura.

P- «Respirar as mãos na pedra», poesia que dá título ao seu livro (poesia, Luanda, UEA, 1989), encerra quase metade da obra, na medida em que traduz, penso, o assunto central do segmento de poemas ali publicados. Ora, se o respirar está para a vida, as mãos para o trabalho e a pedra para a construção, como entender o largo horizonte temporal que as poesias encerram?

R- Neste livro existe uma unidade estrutural e temática, por isso é que o poema «Respirar as Mãos na Pedra» começa na primeira página e se completa na última. Na antologia que publiquei pela Imprensa Nacional Casa da Moeda, em Lisboa, este poema já entra na sua unidade inalienável com o título «O Pensador». O horizonte temporal que os separa não é relevante, porque o que os une é a identidade temática, são poemas feitos dentro da mesma trincheira, a trincheira escavada em tempo de sarcasmo, não para atacar um exército, mas para erguer um edifício, trincheira destinada a escavar alicerces e lá acumular pedras, com as mãos nuas, pedras dos alicerces da dignidade humana.

P- Como entender, por outro lado, a influência de poetas como Carlos Drummond de Andrade e Agostinho Neto na mesma obra?

R- Cada poeta que fui lendo foi-me deixando sinais de magia, telas de onde se erguiam paisagens na sua nudez intolerável para o mundo da matéria, tambores dos quais eu ouvia o canto de cada coisa que arde no coração. Li e leio muito mais Agostinho Neto que Drummond, porque Neto tem muita coisa para nos dizer num só verso, a nós angolanos, que nos leva a novos caminhos não só da poesia, mas da descoberta do nosso destino. Pelo meio passaram por mim poetas como Pablo Neruda, cujo primeiro livro que li dele, Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada, quase me levaram a uma loucura irreparável, à mistura com um amor proibido. E os poetas da terra, como o João Abel, que já vinha descobrindo desde a era colonial, o Mário António com o seu magistral Chingufo, o Arlindo Barbeitos, li os poetas congoleses na língua de Victor Hugo, li o Breyten Breitenbach, Brecht, Mayakovski, antologias de várias latitudes, pelo meio absorvi toda a revolta de Craveirinha e há uns anos a esta parte tenho-me encantado com a ternura de Nuno Júdice, depois de «descobrir» o bucólico poeta brasileiro Manoel de Barros e a liquidez das mãos da Sophia de Mello Breyner Andresen. Com esses sinais de magia, aprendi a criar novas artes de prestidigitador solitário, um novo cenário e um novo número de magia, que se elabora num estilo próprio.

P- Logaríntimos da Alma (poesia, Luanda, UEA, 1998) é um livro de poesias de amor. Há, todavia, uma justa inquietude do leitor de o considerar ou uma colectânea de versos de amor escritos ao longo dos anos, ou simplesmente um inédito de poesias líricas. Qual das opções terá seguido o autor?

R- As duas. Os versos foram acontecendo, amadurecendo na copa da árvore e um dia foram caindo, caindo, e eu apanhei os mais belos frutos, de uma cor rosada como os cajús de Dezembro, outros amarelos como as mangas de Janeiro, outros ainda vermelhos como as jinguenga, outros houve que me escaparam na noite, caíram por terra e apodreceram, o que ficou da safra foi o que dei ao mundo, Logarí(n)timos da Alma, preenchidos de doçura e acidez, de ternura e amargura, de saudade e reencontro, de tudo e de nada. Um livro de amor?

P- Enquanto leitor, reflicto geralmente sobre os espaços que os poetas deixam em branco. De que forma o poeta transmite o seu silêncio?

R- Entre o nascimento e a morte, há imensos espaços em branco, como o espaço em branco daquele escravo que nunca foi à escola e que nem sequer chegou ao Brasil, foi atirado ao Atlântico, enquanto os grandes poetas liam em público as suas belas poesias contra a escravatura nas capitais da Europa. O meu silêncio é a escrita a escorrer pelo mar adentro toda uma vida parada no elevador das mortes que o poeta morre em busca da vida. O silêncio é talvez o melhor momento da expressão, daí aquele poema «O feitiço da boca» a fechar a minha antologia Cal & Grafia, que insere o provérbio Umbundu «Umbanda womela okuha» (O feitiço da boca é o silêncio). O leitor-poeta reescreve esse silêncio e capta-lhe os sinais vitais.

P- Analisemos o seu poema «Pôr-do-Sol» (Logaríntimos da Alma, pág. 83): «(...) Mais uma vez o dia/ fuma o último cigarro e a cinza espalha/ a canção do meu amor(...)». Não será o lirismo então apontado um tubo de escape à realidade que, ainda assim de forma velada, apresenta?

R- Sempre que posso subo à fortaleza de S. Miguel e de lá, sozinho ou acompanhado, fico a abraçar o pôr-do-sol. Depois o mar termina o sonho e eu vou para um lugar qualquer com uma alegria nostálgica dentro dos dedos das mãos. Não é um escape à realidade, trata-se da verdadeira realidade que ninguém vê.

P- Passando por Ngoma do Negro Metal, é com Gramática do Amor Contemporâneo que acentua a chamada poesia em prosa, de que já vinha dando mostras nos livros anteriores. Como explica essa mudança?

R- Eu já tinha escrito um poema em prosa no meu livro Respirar as Mãos na Pedra. A Gramática do Amor, que já tem agora outro título e novas versões de alguns dos poemas para uma segunda edição, é o dongo ainda não acabado, mas já a sair da mafumeira, depois de um longo trabalho de escultura da palavra. Não é um dongo igual aos outros, mas é na mesma um dongo igual aos outros livros destinado a navegar na grande massa das águas onde desponta a beleza que nos entrega o balaio cheio de forças vitais para continuar a gostar de estar aqui e agora.

P- Tem consciência de que, com esta obra, abriu um (vasto) caminho para a poesia erótica ou nua, a qual não tem precedentes?

R- Tenho essa consciência, porque tudo o que crio é deliberado, mesmo inconscientemente. Quem já viu o filme brasileiro «O Homem Nu» sabe que andamos todos nus por debaixo da roupa que vestimos, que no princípio o homem era e é um nu absoluto, e que o cheiro dos lugares mais íntimos do corpo e da Terra é sempre o mais procurado. Só quem leva a inocência no olhar até ao dia da morte é capaz de viver essa experiência até ao mais ínfimo caudal das fontes.

P- Concorda com Augusto Kâmbwa quando o aponta como um «recolector» (a expressão é minha) de palavras novas para enquadrar no seu vocabulário poético?

R- Tal como o nosso antepassado recolhia bagas silvestres nas grandes florestas para sobreviver pensando na comunidade, também eu ando pelos mesmos espaços neste tempo mais que primitivo recolhendo enseadas para reconstruir os portos da alma de cada pessoa que vem a mim. O meu amigo Kâmbwa era um homem que conhecia os grandes espaços que eu piso todos os dias, só de ler os meus versos.

P- A par da sua já vasta bibliografia, o que representa para si a sua antologia Cal & Grafia, alusiva aos 20 anos de poesia?

R- A antologia Cal & Grafia encerra, como já referi antes, os três ciclos da minha produção poética. É, como digo na abertura do livro, uma antologia que mostra uma visão de conjunto que permite anotar as possibilidades de evolução da arte do poema, através de um rigoroso processo selectivo que privilegiou a qualidade e a inovação temático-formal. Cal & Grafia marca o culminar de um período de vinte anos da minha criação literária, em que lapidei o verso orientado sempre pelo fio condutor da energia telúrica, da angolanidade que preside ao meu ser e estar no mundo. Toda a minha poesia é o resultado desse amor à terra. No momento em que escrevi esses poemas, Angola e a África estavam, como ainda estão, em profunda crise. E a angústia do homem africano reflecte-se nos versos de Cal & Grafia.

P- Ficamos com outras obras suas por abordar. Todavia, gostaria que utilizasse este espaço para debitar três tópicos que julga pertinentes abordar para melhor apreciação da sua obra e da literatura angolana.

R- A minha relação com a Poesia tem sido, desde o primeiro instante em que a conheci e com ela convivi, uma relação de entrega apaixonada, através de rituais muito demorados, nos quais eu me perco de mente e de corpo, na busca do rigor e da inatingível perfeição do verso. Diria mesmo que é um culto, este que eu tenho pela Poesia. Poderão chamar a esta forma de criar poesia uma idolatria. E tanto é um culto, uma idolatria sem limites, que cheguei ao ponto de sacrificar os meus estudos universitários, nos anos 80, para publicar alguns dos livros que me consagraram na altura. Sem uma fidelidade total, não alcançamos a perfeição, a excelência da poesia, porque doutro modo Ela não nos entrega os mais altos dons da criatividade. Isto mesmo o disse Fernando Pessoa: «Para ser grande, sê inteiro». Para criar boa poesia precisa-se de muito, mas muito tempo a sós com ela. O tempo exerce aqui uma função sagrada. Assim Fernando Pessoa viveu só até à morte. E Agostinho Neto nunca mais escreveu poesia, depois que se tornou presidente. Escrever poesia é difícil. Tão difícil como projectar e fabricar um foguetão e poisar os pés na lua. Daí o meu quase isolamento. A poesia contemporânea, eu entendo-a assim: como um vaivém que cruza o espaço sideral. Se não tiver a potência, o saber e a ciência acumulados durante milénios, nunca será poesia contemporânea. Por outro lado, a poesia contemporânea angolana tem de ser angolana e obviamente africana. Ou será só contemporânea. Daí eu ter assumido para a poesia que escrevo uma linha programática que se entranha da mensagem de Agostinho Neto, contida no seu poema «A Voz Igual»: Reencontrar a África. Este é o fio condutor da minha produção artística. Transportei para os meus versos a inspiração do movimento de fins da década de 40, «Vamos Descobrir Angola!», iniciado por Viriato da Cruz e no qual militaram poetas como António Jacinto e Agostinho Neto, aproveitando principalmente a ideia da recuperação da palavra dentro de um discurso angolano autêntico e de intervenção política. Eu recuperei a linha de força do discurso vincadamente angolano e acrescentei-lhe a proposta de Agostinho Neto, que extraí do poema «A Voz Igual». Alcançada a independência, seria um equívoco, e alguns poetas incorrem nele, considerar extemporâneas as grandes correntes e movimentos político-literários dos escritores que nos antecederam na era colonial. A reconstrução de Angola passa pela reconstrução cultural. Daí que faça sentido institucionalizar as línguas nacionais no ensino, quase trinta anos depois da independência. Infelizmente os caminhos da nossa juventude, principalmente a urbana, apontam para outros continentes e para a imitação pura dos seus usos e costumes. Por isso, mais do que nunca, considero inadiável a descoberta de Angola e o reencontro com a nossa mãe-África. Para terminar, quero celebrar aqui a poesia angolana, aquela que sabe escutar com olhos de falar e boca de ouvir o acumular de mais de três mil anos de poesia universal e que se nutre do secreto cantar da alma do nosso povo. Celebro todos os nossos poetas, fazendo uma proposta às autoridades culturais do nosso país e a todos os mecenas nacionais e estrangeiros adoradores de poesia: Angola necessita de um prémio de poesia. É urgente criar um concurso só de poesia em Angola. A poesia angolana alcançou um nível de excelência tal que é digna de merecer um galardão à parte.

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