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«A Crioulidade Não Existe Em Angola»

Escrito por  Luís Kandjimbo

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

O luso-tropicalismo é uma falácia. De invenção brasileira passou a doutrina do fascismo em Portugal. É por isso um anacronismo, segundo Luís Kandjimbo.

 

 

 

P- Kalitangi é uma prodigiosa criatura que desafia a lógica do mundo e dos deuses. Podemos encará-lo na sua acepção tradicional, como um filósofo?

R- Kalitangi é o nome de uma prodigiosa personagem das literaturas orais angolanas em língua Umbundu. Repare que falo de um tipo de personagem que se encontra nas culturas das várias comunidades étnicas angolanas. Por exemplo, em Cokwe chama-se Nadalakalitangi; em Kimbundu pode ter o nome de Kimalawezu kyia Ntumba Ndala. Trata-se de uma criatura cujo nascimento ocorre de modo invulgar. Nas narrativas em que é personagem, ele apresenta determinadas características: antes do nascimento a mãe tem de cumprir a promessa que fizera a outras mães, segundo a qual as respectivas crias seriam mortas ou devoradas à nascença; é sempre uma criança adulta, quer dizer, no momento em que se desprende do cordão umbilical dá-se conta de que traz consigo os instrumentos de caçador, ferramentas de que necessita para enfrentar as contingências da vida em sociedade; as circunstâncias em que nasce são marcadas por ameaças de animais predadores. Sofre perseguições. Escapa sempre ileso porque tem a virtude de se confundir com as árvores, a água, o ar. Enfim, ele confunde-se com a natureza. Por isso, os que o querem matar desconseguem. Em algumas versões dessa narrativa, Kalitangi chega a pedir o auxílio da aranha para construir uma teia ou uma escada que o pudesse levar até à presença de Deus (Suku). Kalitangi, no fundo, é o símbolo da capacidade indagadora dos homens, da luta contra o conformismo. Tal como Kalitangi, os homens interrogam-se sobre a sua omnipresença e omnisciência.

P- Da apologia que faz de Kalitangi, traz igualmente uma parte da sua vida, nomeadamente a tradução e transmissão de regras de discurso e lógica desenvolvidos ainda na sua infância em exercícios familiares. É assim?

R- Kalitangi representa a maturidade. E esta é hoje uma qualidade observável em muitos angolanos, entre os quais alguns da geração a que pertenço. Mas, ao mesmo tempo vejo a formação da minha personalidade, enquanto membro de uma geração de angolanos nascidos no século XX , profundamente marcada por determinadas formas tradicionais de transmissão dos saberes articuladas com manifestações da modernidade em Angola. É por isso que evoco a figura de meu pai, que em diversas ocasiões, sobretudo quando solicitado a demonstrar a necessidade da coesão das famílias da sua região de origem, desempenhava o papel de nganji em contexto urbano. A coerência do discurso e a fluidez do pensamento, embora por vezes fosse veiculado em português, eram revelados basicamente em língua Umbundu, predominando a força exemplificativa do provérbio. Pude comprovar a importância dessa forma de transmitir saberes, quando, ao confirmar a informação veiculada de modo oral pela minha mãe e meus tios, em 2000 encontrei no Arquivo Histórico Nacional documentos sobre meus bisavôs maternos, filhos de um patriarca chamado Mathias Rodrigues da Costa, capitão de segunda linha, que viveram em Kakonda na segunda metade do século XIX e em princípios do século XX, cuja proeminência social foi liquidada durante a afluência de colonos portugueses e boers àquela parte do território. Mas dessa história eu já sabia de ouvir contar lá em casa. Portanto, a Apologia de Kalitangi é também expressão da importância que dou à memória individual e colectiva.

P- Para além da cultura que foi absorvendo durante os anos, que outros factores influenciaram a sua actividade social e, mais tarde, política?

R- Vejo-me mais como um homem de formação humanística. Sempre me interessaram os fenómenos que dizem respeito à cultura e aos homens. Por exemplo, na primeira metade da década de 70, à semelhança de outras crianças de alguns bairros de Benguela, gostava de assistir a festivais de Cinganji (pronuncia-se chinganji). Como espectador não tinha possibilidades de saber o que os vinganji faziam quando saíam ou entravam para os santuários. Sabíamos que alguns deles eram nossos amigos. Mas, ao vê-los como dançarinos com aqueles paramentos, animando as tardes e noites de sábados e domingos, passavam a estar investidos de poderes quase sagrados. Não podíamos atrever-nos a apontar-lhes os dedos. Era um incómodo deambular à noite naqueles dias. Dizia-se que, se não fôssemos circuncisados, corríamos o risco de ser apanhados por um dos vinganji e submetidos à circuncisão. Ora, não poder entrar nos santuários, ter de fugir quando víssemos a aproximar-se um cinganji, e como espectador assistir com passiva curiosidade ao comportamento gestual dos iniciados nessas matérias, quando eram interpelados por um cinganji, tudo isso, além da má fama que os não iniciados durante algum tempo tinham entre as raparigas, deu-me ânimo de me submeter à circuncisão com autorização do meu pai. Fui à circuncisão, num ritual iniciático realizado em contexto urbano.

P- E foi gratificante?

R- Foi gratificante porque passei a entrar e a sair nos santuários. Já não fugia quando por mim passava um cinganji. Eu tinha aprendido os gestos e os códigos. Descrevo este facto porque é um dos mais memoráveis que marcaram a minha infância. Para essa formação de que estou a falar contribuiu igualmente o gosto pela leitura. Instilado pelos meus pais, cada um à sua maneira. O meu pai, mantendo certos hábitos dos angolenses do princípio do século XX. Aliás, quando jovem, meu pai fora enviado para Benguela por meu avô, que era patriarca de uma populosa aldeia de Cikomba. Por isso, enviado para o mais importante centro urbano do litoral sul com a finalidade de adquirir outros saberes e conhecimentos, em Benguela meu pai viveu em casa de um dos representantes da Liga Africana. Marcado por hábitos dessa época, meu pai conservava em casa duas malas de porão. Numa delas, entre outros livros, havia hinários em Umbundu e almanaques, que eu e meu irmão folheávamos de vez em quando. A minha mãe, que era peixeira, no regresso da sua jornada trazia alguns livros usados, oferecidos por suas clientes. Continuei a cultivar a leitura, lendo banda desenhada. Também foi na Benguela dos anos 70, já estudante do ciclo preparatório.

P- Pôde tomar contacto com imensa bibliografia e conhecer novos autores, ainda em Benguela. Fale-me desta fase.

R- Eu era cliente de um estabelecimento comercial, uma espécie de alfarrabista, o Bazar Americano, situado na rua do Hotel Mombaka. Feito o depósito de um montante em dinheiro podia regularmente levantar livros desde que devolvesse os que tivesse lido. Já como estudante do liceu passei a comprar livros nas livrarias da cidade. Conservo ainda alguns livros dessa época. É o caso da 3.ª edição do livro de A Obra de Arte Literária de Roman Ingarden, editado pela Gulbenkian que comprei na Livraria Lello em Benguela. Aos primeiros rabiscos nos tempos do ciclo preparatório e às leituras juntou-se depois o facto ter sido aluno de alguns dos animadores do Círculo Literário Convivium, constituído por portugueses de esquerda e que, em Benguela, divulgavam textos de alguns autores angolanos e colaboravam na imprensa local: Jornal de Benguela, O Intransigente, revista O Sul. Desse grupo foram meus professores, entre outros, o Ruy d’Almeida e o padre Cardiga. Ao primeiro mostrei, em 1976, alguns dos meus textos de poesia adolescente. Também me deleitava com a leitura de autores portugueses como Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett, Júlio Dinis, além de ingleses como Charles Dickens. Deste autor li nesses anos o Oliver Twist. No período eufórico do pós-25 de Abril, a que se seguiu a independência, comecei a devorar obras de autores angolanos. Nessa altura, no liceu já se leccionava literatura angolana. Iniciei-me igualmente na leitura daqueles textos de introdução à filosofia marxista. O mais célebre era o de Georges Politzer. Havia ainda os textos de Marx, Engels, Amo Sé Tuna, Lenine, Enver Hoxa, Louis Althusser. Mais lá para os fins dos anos 70, além da leitura autores portugueses, brasileiros e cubanos, foi o boom do estruturalismo francês que nos chegava através das traduções portuguesas com autores como Roland Barthes, Tzvetan Todorov, Julia Kristeva e as terias linguísticas de Noam Chomsky. Havia ainda a literatura latino-americana através das traduções do INALD e a colecção “Vozes de África”, em que pontificavam autores como Chinua Achebe, Ciprian Ekwensi, Ngugi wa Thiong’o, Wole Soyinka. Não me posso esquecer das publicações periódicas da União Soviética que difundiam teorias do socialismo e com elas chegavam as pesquisas da Escola de Semiótica de Tartu, de que se destaca o nome de Yuri Lotman.

P- Recordo-me de um workshop sobre marketing cultural para o qual foi convidado como orador. Defendeu, na altura, a necessidade de se apostar na promoção exterior da cultura angolana. Através de uma pesquisa feita em sites nota-se que boa parte dos dados científicos sobre cultura e literatura angolana têm a sua assinatura. Como começou este trabalho de investigação?

R- Venho reflectindo sobre essas matérias há cerca de vinte anos. No meu livro Apologia de Kalitangi, há um texto que consagrei ao tema da ordem cultural e das relações culturais internacionais. A divulgação da literatura angolana nesta grande rede que é Internet tem a ver com o facto de muito cedo ter percebido a importância deste poderoso meio de fornecer e obter informação. Foi em 1984, na cidade de Franceville, no Gabão, por ocasião de um seminário destinado a documentalistas do CICIBA, que vi, pela primeira vez, a concretização de um processo de transmissão de informação online. Nunca mais me esqueci. Era apenas a confirmação de que ser detentor de informação significava ser capaz de dominar o mundo que nos rodeia, significava ter poder. Digo confirmação porque nessa altura eu era funcionário do então Centro de Documentação e Investigação Histórica, actual Arquivo Histórico.

P- Luís Kandjimbo é, ao lado de Carlos Ferreira e outros, dos brigadistas que emergiu com toda a força, mas que tinha nessa qualidade propósitos firmes como literato. Conte-nos o que se passou nesta altura e como foi encarando a literatura angolana feita em Luanda, distinguindo-a da produzida em Benguela e no Lubango.

R- Em 1981, em estava no Lubango, onde tinha iniciado os estudos de letras modernas na antiga Faculdade de Letras, que entretanto tinha deixado de ter aquele nome e passara a ser ISCED. Os ecos da proclamação da Brigada Jovem de Literatura em Luanda chegaram até lá. Um pequeno grupo constituído por mim, Luís Neto, Dinis Kakinda, colegas do curso de letras modernas. Tínhamos uma experiência editorial com O Estudante, Boletim Literário dos Estudantes do Instituto Friedrich Engels, onde concluímos o Pré-Universitário Pedagógico (Português/Inglês). Já éramos estudantes matriculados no curso de Letras. Então decidimos proclamar a nossa Brigada. Aproveitando a ida a Luanda de um colega, Luís Neto (Kilunji Kota), recomendámos que ele trouxesse os documentos da Brigada. Com eles elaborámos o texto da nossa proclamação, tendo a cerimónia decorrido no mês de Setembro desse ano num acto presidido pelo general António França (Ndalu), que se encontrava na altura no Lubango e que aceitou proferir um discurso, até porque era o mês em que se assinalava o aniversário de Agostinho Neto. Aquele núcleo inicial mobilizou depois outros jovens, uma boa parte dos quais eram estudantes universitários também. Por exemplo, o Aníbal Simões (Cikakata Mbalundu), que andava no 2º ano do curso de psicologia, com quem eu tinha formado o grupo musical Duo Mensagem. Participávamos em espectáculos na cidade do Lubango. Mas havia igualmente funcionários públicos, estudantes e professores do ensino secundário.

P- Já exercia à data alguma actividade profissional?

R- Nessa altura, todos nós já tínhamos a experiência da leitura de autores angolanos, africanos e latino-americanos, sem falar de autores portugueses. O Cikakata Mbalundu tinha até a experiência de ler autores cubanos, já tinha estado em Cuba como professor de português na Ilha da Juventude. Entre os jovens do Lubango e de Luanda que aspiravam a ser escritores não havia grandes diferenças. Pertencíamos à mesma geração, nascidos entre 1955 e 1963. Eu, que vim para Luanda logo a seguir à proclamação da Brigada da Huíla, integrei-me sem problemas na Brigada de Luanda, onde conheci o São Vicente, o Buka, o Gastão Rebelo, o Lopito Feijó, o António Fonseca, o Domingos Ginginha, o Pimenta, o Joca Paixão, o Vítor Jorge, o Kudijimbe e outros. Já conhecia o Cassé dos tempos da Rádio Nacional, onde em 1979 tive o meu primeiro emprego como jornalista (Locutor-Repórter). Apesar de me ter integrado na Brigada de Luanda, sempre me interessou a renovação dos discursos. Por isso, a dada altura, fundei com Lopito Feijóo, Domingos Ginginha, Frederico Ningi, Cikakata Mbalundu, Joca Paixão, António Panguila, um grupo que se chamou OHANDANJI, palavra formada por aglutinação de duas outras das línguas Umbundu e Kimbundu.

P- É membro da associação dos críticos literários de África. Neste fórum, a cultura angolana continua a ser vista como a mais propensa a aculturações?

R- Sou de facto membro da APELA. Trata-se de uma associação francesa de críticos, professores e investigadores de que fazem parte europeus e americanos de outras nacionalidades, mas igualmente africanos dos países de língua francesa. Como os estudos das literaturas africanas de língua portuguesa são minoritários, os membros franceses são alguns poucos professores que se dedicam ao ensino do português e das literaturas portuguesa e brasileira. Como as literaturas africanas vão de boleia, geralmente nos colóquios e jornadas de estudo da APELA raramente se encontram painéis sobre as Literaturas de Angola e Moçambique, porque nunca aparecem mais de duas ou três comunicações. Por isso, a literatura angolana é mal conhecida, para não dizer desconhecida. O mesmo já não acontece com as literaturas africanas de língua inglesa que contam com um elevado número de especialistas. Grande parte das publicações da APELA é basicamente feita sobre as literaturas francófona e uma parte é dedicada às de língua inglesa. Mas há igualmente especialistas das literaturas orais africanas. Angolanos membros da APELA são três: Manuel dos Santos Lima, Boaventura Cardoso e eu.

P- Podemos, nesta altura, dizer que já existe um cânone da literatura angolana ou iremos propugnar que serão precisos mais 20 anos para que ela se solidifique?

R- A verdadeira problemática do cânone tem que ver com as políticas da educação. Enquanto não for introduzida a disciplina de literatura angolana ou história da literatura angolana no sistema de ensino, a literatura angolana andará sempre pendurada ao ensino da língua portuguesa. Por isso, é absolutamente imperioso autonomizar o ensino da Literatura Angolana. No entanto, tacitamente já existe um cânone literário angolano. Alguns dos angolanos mais esclarecidos sabem quais são os autores angolanos que conformam a nossa tradição literária escrita, que tem já um século existência. E da literatura oral temos igualmente referências dos textos mais representativos. Mas não basta. O projecto de redacção da História da Literatura Angolana lançado pelo Ministério da Cultura vem de certo modo dar respostas a estas questões.

P- Inocência Mata, no seu livro Literatura Angolana: Silêncios e Falas de uma Voz Inquieta (Mar Além, 2001), diz que entre as literaturas africanas de expressão portuguesa existe uma identidade comum, à partida, e, mais tarde, uma singularização. Afirma mesmo que os seus sistemas literários são sui generis. Que impressão tem deste aspecto e do epíteto «lusofonia» que lhe é incrustado?

R- Exactamente pelo facto de os sistemas literários africanos de um modo geral apresentarem aspectos específicos ou algumas semelhanças de família, e não podia ser de outra maneira, é que se justifica uma teorização própria.

P- A propósito da história da literatura angolana, pensa que a sua classificação das gerações literárias representa um avanço?

R- Do meu ponto de vista, a periodização da literatura angolana pode ter no conceito de geração literária um importante instrumento heurístico.

P- Li uma entrevista com o escritor Manuel dos Santos Lima que falava do gabinete de leituras da UEA, criado após a independência, funcionando como um «barómetro» para a publicação de um livro. Hoje ainda existe uma comissão de leitura…

R- Creio que há uma diferença entre as comissões de leitura a que se referia o mais-velho Manuel Santos Lima e a comissão de leitura que hoje existe na União dos Escritores Angolanos. Aliás, as circunstâncias históricas em que surgem uma e outra são diferentes.

P- Estive a reler Gerald Bender que trata no seu livro Angola Sob o Domínio Português (Livraria Sá da Costa, 1980) o fenómeno do luso-tropicalismo. Esta questão é sempre abordada em debates sobre cultura. Que posição tem a este respeito?

R- Trata-se de um conceito-pária. O ilustre ensaísta Mário Pinto de Andrade começou por combatê-lo ainda nos anos 50, quando o luso-tropicalismo estava a ser recuperado pelo Estado Novo em Portugal, servindo para defender a hegemonia de Portugal, sua cultura e língua, em detrimento da cultura angolana, ignorando-se completamente a rica diversidade existente no território. De resto, sabe-se que para o luso-tropicalismo só contava um inexistente mundo que o português criou. Tendo em atenção a sua sobrevivência ainda hoje, na medida em que ainda encontra muitos seguidores, e pelo carácter nefasto da sua semântica, devemos rejeitar o seu uso e aplicação à cultura e à sociedade angolanas. O seu poder explicativo relativamente aos fenómenos sociais e culturais de Angola é nulo. O luso-tropicalismo é uma falácia. De invenção brasileira passou a doutrina do fascismo em Portugal. É por isso um anacronismo.

P- Verifica-se, igualmente, o despontar, ainda que mitigado, de algumas correntes que defendem a crioulidade. Recordo-me de José Eduardo Agualusa se ter pronunciado acerca e de Jacques dos Santos ter omitido resposta. Parece-lhe que estamos perante um falso problema?

R- Por ser um prolongamento eufemístico do luso-tropicalismo, a crioulidade é uma falácia derivada.

P- Domingos Van-Dúnem defendia, como se vê no seu livro Apologia de Kalitangi (INALD, 1997), a eliminação da crioulidade, tese que igualmente propugna. Que argumentos julga pertinentes acrescentar?

R- Essa conclusão a que chega o mais-velho Domingos Van-Dúnem é sugerida pelos argumentos que apresento no meu livro. A crioulidade, substantivo e adjectivo, que deriva do que Mário António chamou «ilhas crioulas», na verdade não existe em Angola. Cada vez mais se conclui que com essa invenção Mário António errou na análise dos fenómenos sociológicos de Angola, ao ter pretendido incorporar uma perspectiva organicista e biológica para explicar as relações e os contactos que as populações angolanas estabeleceram com os portugueses. Nesse sentido, ele acabou por defender uma visão essencialista, atribuindo importância, infundadamente, ao conceito de raça e à mestiçagem biológica como se no mundo dos nossos dias houvesse raças puras.

P- Os primeiros temas do seu mais conhecido livro Apologia de Kalitangi fazem-me recordar o historiador inglês Basil Davidson em O Fardo do Homem Negro (Chá de Caxinde, 2000), livro onde aborda o Estado-Nação que é Angola a sua história e natureza multifacéticas. Esta constatação ajuda o angolano a avaliar o seu país e os seus problemas culturais?

R- Sem pretender subscrever o que diz B. Davison e apesar da crise do modelo de Estado-nação, construído no chamado mundo ocidental, o seu conceito adaptado aos contextos dos países africanos, tendo em conta o facto de a população do território nunca ser etnicamente homogénea, do meu ponto de vista, continua a ser útil. Existe hoje uma abundante reflexão de sociólogos, juristas, cientistas políticos africanos sobre este tema. Mas há uma dimensão do Estado-nação que deve ocupar uma importante centralidade. Trata-se da dimensão cultural. O pluralismo cultural, a diversidade linguística e cultural devem estar sempre presentes na abordagem desta matéria. O cientista político do Congo Democrático Mwayila Tshiembe apresenta dois conceitos que vai buscar às virtualidades do Estado-nação. São eles: nação sociológica que é a etnia e nação jurídica que é o Estado.

P- Afirma que a crise do Estado-nação é, também, uma crise conceptual. Que argumentos traz a este debate?

R- Originariamente o conceito de nação surge na Europa durante o apogeu do romantismo. É um conceito holista que pretende difundir a ideia segundo a qual lá onde a uma nação passou a corresponder a existência de um Estado já não se reconhecia a existência de instituições políticas que escapassem ao seu controle. Além de holista, o conceito de Estado-nação é também precário. Para que ele recupere a sua validade no contexto de países como Angola deverá adequar-se às realidades sociológicas e culturais endógenas como referi-me antes.

P- Propõe a clara inserção da chamada “Constituição Cultural” na lei mãe do país. Nela, aponta, entre outros, o reconhecimento ou pelo menos a legitimidade do direito costumeiro. O que propicia, do ponto de vista objectivo, tais articulados?

R- Pela leitura que tenho feito do ante-projecto de Constituição já publicada, nota-se que a cultura terá um lugar que nunca teve antes na Lei Constitucional. Por exemplo, o reconhecimento das línguas nacionais e das autoridades tradicionais. Mas eu acho que os órgãos da Assembleia Nacional que estão a elaborar o referido projecto deviam ser mais audazes e exaustivos, deixando as traves mestras de uma constituição cultural nas suas vertentes subjectiva e objectiva.

P- Voltando à questão da identidade e da constituição cultural, Kandjimbo apresenta um elemento chave para a dissecação do problema que é a angolanidade. Tendo por base os seus estudos, como tudo se articularia?

R- Angolanidade é um conceito estratégico. Por isso, deve ser considerado central. Mas é preciso que lhe conheçamos o sentido. Ele deriva do nome do país, sim senhor, mas é muito mais do que isso. Vai para além da alusão ao carácter físico do território e engloba igualmente uma dimensão ontológica que tem que ver com a nossa identidade cultural enquanto comunidade. Para mim a angolanidade é um conceito que resume a nossa história colectiva e a nossa condição de estar no mundo. Tudo isto visto incessantemente a partir da nossa própria perspectiva.

P- O tribalismo moderno floresce na desordem e escarnece o Estado de Direito. Cito de memória o historiador inglês Basil Davidson. Que apreciação faz a esta afirmação?

R- Estou de acordo na medida em que o tribalismo é sempre consequência da manipulação política do conceito de tribo, com a carga depreciativa conhecida, e das realidades a que se refere.

P- Recordo-me de tê-lo ouvido certa vez, na União dos Escritores Angolanos, em acesa discussão com a professora de literatura Rita Chaves (Universidade de São Paulo – Brasil), porque esta dizia que alguns dos precursores da literatura angolana teriam bebido e utilizado muitos cânones dos literatos brasileiros. Recorda-se da discussão?

R- Recordo-me perfeitamente do debate. O que a Rita queria dizer é que se registavam influências literárias. Influência literária é diferente de intertextualidade. O meu argumento assentava na ideia segundo a qual não há intertextualidade entre os textos angolanos a que ela se referia e os textos brasileiros. Influência literária é um fenómeno superficial. Não é determinante no que diz respeito aos processos que caracterizam os sistemas literários. Este assunto tem sido muito debatido em estudos de literatura comparada. Mas há um conceito que ajuda a compreender o que digo. Temos de recorrer ao conceito de campo cultural que remete para uma memória do sistema literário. A leitura de um texto angolano será mais ou menos feliz se tiver em conta a tal memória do sistema literário, que é uma espécie de armazém onde encontramos ferramentas que nos podem dificultar ou facilitar a vida na qualidade de leitores. A literatura angolana começa por ser reconhecida como tal pelos leitores angolanos, aqueles que nela se revêem. Não posso sentir-me satisfeito só pelo facto de um chinês ou búlgaro achar que neste ou naquele texto se conta uma história tipicamente angolana, mesmo quando eles trabalham com critérios da sua cultura de origem. Será sempre necessário ter um conhecimento da tradição literária angolana e da sua especificidade.

P- A experiência como adido cultural proporciona uma visão privilegiada da expressividade das manifestações culturais?

R- Proporciona uma oportunidade de perceber como as diásporas se comportam no plano cultural, sem dúvida. Mas ao mesmo tempo deixa a angústia de não poder fazer mais por razões de ordem orçamental.

P- Cada vez mais as comunidades angolanas no exterior têm menos conhecimento dos mais elementares pilares da sua cultura. Um bom exemplo é a literatura. Em lançamentos de livros de escritores angolanos o interesse das comunidades ainda é fraco. Tem este registo?

R- Pelo contrário, a comunidade angolana em Portugal revela uma avidez fora do comum relativamente às informações de interesse cultural. As contingências da vida quotidiana é que nem sempre permitem estar presente com regularidade em eventos de carácter cultural organizados pela Embaixada. Independentemente disso, tenho notícias de que se realizam com frequência iniciativas culturais nos distritos, bairros, freguesias onde vivem angolanos.

P- Tendo em mãos um dos seus livros, O Noctívago (Nzila, 2000), a sua primeira narrativa de ficção, o leitor tem com a percepção de se tratar de um livro em que o autor, mais do que retratar as memórias do benguelense, pretende passar uma visão despretensiosa da realidade, ora fictícia, ora factual...

R- É tudo ficção. Mas recorro mesmo assim à experiência pessoal.

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