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Romance é Reflexão

Escrito por  José Saramago

Entrevista à Época

O maior escritor da língua portuguesa, José Saramago, de 75 anos, Prémio Nobel de Literatura de 1998, acaba de lançar no Brasil o livro Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido (Companhia das Letras, 136 págs., R$ 29,00) . Na realidade, é uma peça de teatro, uma comédia, pensada para virar libreto em italiano de uma ópera. A parceria com o compositor italiano Azio Corghi já resultou numa ópera, que deveria ter sido estreada no teatro alla Scala de Milão em Março, mas uma greve adiou a estreia para data indeterminada.

 

Na sua comédia, Saramago retoma o mito de Don Juan e homenageia o compositor da ópera homónima de Wolfgang Amadeus Mozart com libreto de Lorenzo da Ponte, estreada em Praga em 1787. Apaixonado pela ópera de Mozart, Saramago resolve absolver o conquistador impenitente, numa sequência de três actos hilariantes. Nesta entrevista à ÉPOCA, feita por e-mail, José Saramago conta sobre seus gostos musicais, o que pensa da dramaturgia operística e adianta o seu novo romance, que tem como personagem um violoncelista.

ÉPOCA: Como o senhor distingue o trabalho de dramaturgia «declamada» da dramaturgia para ópera?

José Saramago: Consideremos o caso de Lorenzo da Ponte, libertista, como se sabe, da ópera Don Giovanni de Mozart. Nessa época o libertista tinha de escrever para a música porque, de um modo geral, a música preexistia ao texto, quer dizer, a música primeiro e só depois o texto. Composta uma ária, mandava-se ao libertista, e este, que sabia música, escrevia as palavras necessárias, seguindo, claro está, a linha argumental antes estabelecida. Hoje as coisas são diferentes. Tanto assim que eu pude escrever o meu Don Giovanni como se ele se destinasse a teatro declamado, e não a ópera. Estava a escrever para uma ópera, é certo, mas não tinha que subordinar o texto a uma música que, aliás, nesse momento, ainda estava por compor.

ÉPOCA: Os outros trabalhos com o compositor italiano Azio Corghi foram mais adaptações de romances do que peças propriamente ditas?

Saramago: No caso de Memorial do Convento, sim, mas a ópera Divara, também de Azio Corghi, foi composta sobre a minha peça de teatro In nomine dei, para esse fim escrita. A transformação do texto teatral em libreto esteve praticamente, toda ela, a cargo de Corghi, apenas com reduzidas intervenções minhas.

ÉPOCA: Que particularides houve nesta troca de e-mails e cartas com Corghi para Don Giovanni? Foi um trabalho mais árduo ou imaginativo que os anteriores?

Saramago: Árduo não direi, mas imaginativo, com certeza. O excelente comentário da musicóloga italiana Graziella Seminara, publicado em apêndice à edição de Don Giovanni ou o Dissoluto absolvido, mostra foi como vivo e mutuamente estimulante o diálogo entre o músico e o escritor. Cada um em sua casa, com dois mil quilómetros a separar-nos, pudemos trabalhar como se estivéssemos lado a lado.

ÉPOCA: O Sr. concorda com Joseph Kerman, que afirma ser o compositor o dramaturgo final da ópera?

Saramago: Não me sinto com autoridade para discutir o assunto, em todo caso atrevo-me a dizer que a minha experiência de espectador me sugere exactamente o contrário. Lembro-me de ter visto em Berlim um Rigoletto cuja encenação e cuja dramaturgia eram a tal ponto radicais, a tal ponto subversivas, que me resultou extremamente difícil seguir uma música que eu conhecia de cor e salteado. O que os olhos viam quase anulava o que os ouvidos se esforçavam por escutar.

ÉPOCA: Como o Sr. julga a dramaturgia operística de Lorenzo da Ponte? Foi desafiador retomar a parte final do Don Giovanni de Da Ponte para seguir o seu dramma gioccoso? Aliás, podemos chamar a sua peça de «dramma giocoso» ou de «bufoneria» pura e simples? Porque há passagens realmente hilariantes...

Saramago: Recordo que o Don Giovanni de Mozart foi chamado ópera cômica e ainda hoje conserva essa designação, embora ela possa parecer algo estranha a um espectador contemporâneo. O que Mozart conseguiu, com suprema mestria, foi equilibrar a ópera bufa, que é a base da sua estrutura musical, e a ópera séria, imposta pelo carácter das suas personagens. Por minha parte, uma vez que o meu propósito era desmistificar toda a história de Don Giovanni, mas não só a dele, o caminho estava traçado de antemão: humor, ironia, mas sobretudo sarcasmo. Aquele que sai menos mal parado ainda é o próprio Don Giovanni.

ÉPOCA: O Sr. chegou a estudar Tirso de Molina, José Zorrilla e outros para compor a sua peça? A impressão é que Da Ponte constituiu a única fonte...

Saramago: Nunca foi minha intenção fazer uma espécie de arqueologia textual passeando por todos os autores que trataram o tema desde Tirso de Molina. O meu Don Giovanni começa onde acaba o de Lorenzo da Ponte, é de alguma maneira complementar dele. E a pergunta que constitui o ponto de partida da peça dos meus romances «E se a Península Ibérica se separasse de Europa? E se a caverna de Platão estivesse debaixo de um centro comercial também se encontra nesta peça: E se Don Giovanni não tivesse caído no inferno? ». Feita a pergunta, a pergunta essencial, as conclusões surgem quase de forma espontânea.

ÉPOCA: O sr. já ouviu a música de Azio Corghi para Don Giovanni? Quando estreará a montagem do La Scala? É mesmo mais para Falstaff do que para o serialismo a que Corghi vinha se dedicando ultimamente?

Saramago: Ainda não ouvi a música de Corghi. A estreia da ópera estava marcada para o dia 10 de Março, mas uma greve da orquestra levou ao cancelamento do espectáculo. Espero que o assunto venha a resolver-se e que possamos ver e ouvir um Don Giovanni que não é tão má pessoa como costumam pintá-lo. Não é a primeira vez que isto nos sucede, a Azio Corghi e a mim. A ópera Blimunda também foi cancelada em Lisboa no dia que devia ser o da sua estreia. Parece que os músicos fazem mais greves que os operários...

ÉPOCA: Don Giovanni, chamada por muitos de «a ópera das óperas», é a sua favorita também? Ou há outras óperas que o inspiram de certo modo?

Saramago: Don Giovanni é, para mim, como para muita gente, a ópera suprema, a tal ponto que gostaria que o meu texto fosse visto como uma homenagem a Mozart. E tenho a pretensão de crer que ele não desgostaria de saber que Don Giovanni continuou vivo depois da estúpida maldição do Comendador.

ÉPOCA: Qual a sua ligação com a música? Gosta de ouvir clássicos, jazz, popular portuguesa e brasileira?

Saramago: Gosto de música, ouço-a continuamente. Os clássicos, claro, mas também cantores como Jacques Brel ouça-se «Les Vieux» ou «J'Arrive» ou Leonard Cohen, e muitíssimos mais que não caberiam nesta entrevista. Gosto da boa música popular brasileira e portuguesa, e tenho uma boa colecção de discos de uma e de outra. O jazz interessa-me menos, mas a culpa é com certeza minha...

ÉPOCA: O que o Sr. escreve no momento? Mais uma ficção? Quais as suas obsessões ficcionais no momento? O que ainda o desafia ou o encanta?

Saramago: Estou a escrever um romance que terá o título de As Intermitências da Morte. Dele nada direi, a não ser que há um violoncelista metido na história. Como tenho dito algumas vezes, utilizo o romance como veículo para a reflexão. Reflexão sobre quê? Sobre a vida, sobre isto.

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