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«A Literatura Nasce na Ilha da Leitura» Destaque

Escrito por  Laura Padilha Cavalcante

Entrevista de: Aguinaldo Cristóvão

Os estudos culturais vêm sedimentando, nas últimas décadas, um espaço de reflexão teórico cujo objectivo acaba por ser o redimensionamento do que, por séculos, os aparatos culturais do ocidente branco-europeu procuraram deliberadamente rasurar. É essa a acepção de Laura Cavalcanti Padilha, professora de literatura da Universidade Federal Fluminense (Brasil). Ela tem-se dedicado, dentro do seu objecto de trabalho, à literatura angolana, no quadro do aumento significativo da expressividade desta literatura além fronteiras. É, pois, sobre literatura e outras coisas que a professora acedeu falar, quando aprestava-se para mais uma viagem de trabalho.

 

P- Que avaliação faz, com base no seu objecto de trabalho, das literaturas africanas e angolana em particular?

R- São literaturas, do ponto de vista estético, muito inovadoras, sobretudo pela forma como reactualizam o legado da tradição oral. Nelas, a diferença cultural se encena com muita força.

P- Ao lado Inocência Mata e Pires Laranjeira tem surgido grande interesse pelas literaturas africanas, sobretudo aquelas que se praticam nos PALOP. A que se deve este interesse que não de verificava há 10 anos, por exemplo?

R- Não me parece que este interesse não se verificasse há 10 anos atrás. Basta que se cotejem as traduções em várias línguas feitas há tanto tempo atrás. Não há como negar, no entanto, que esse interesse cresceu muito, sobretudo no âmbito das universidades, onde os estudos africanos se vêm consolidando, talvez, principalmente, pelas questões abertas pelos estudos culturais e, em parte, pelos pós-coloniais.

P- A emigração de quadros africanos sobretudo para a Europa influencia no estudo das realidades dos seus países, como vemos nos temas escolhidos para doutoramentos?

R- Parece-me que, em parte, sim. Basta que se cotejem as produções desses estudiosos que emigraram para a Europa e EE.UU. Como dizia Derrida, «só se vê a margem, se está no centro». Como argelino, ele foi um bom exemplo do processo que descreveu.

P-Há pouco falávamos dos PALOP. Cada vez mais este elo dos países «lusófonos» de África carece de uma base sólida. Acredita que uma ponte cultural poderá ser motivo para aglutinar estas culturas e países?

R- Claro. Desde muito tempo temos insistido na necessidade de sedimentarmos uma ponte cultural entre nossos países. Afinal somos todos utentes de uma mesma língua, não é?

P- O mesmo se poderia dizer da CPLP. O acordo ortográfico, na sua opinião, é uma prioridade para o seu secretariado?

R- Não sei responder, pois não conheço o programa do actual secretariado da CPLP.

P- Alguns linguistas angolanos defendem que há uma bipolarização neste aspecto, precisamente entre Portugal e Brasil. Esta é uma questão de lideranças?

R- A nossa língua viva é diversa dentro da unidade do padrão de base do português. Será difícil estabelecer normas pelas quais o uso se iguale, por assim dizer. Não sei se se trata de liderança desse ou daquele país. A questão é muito complexa em sua base.

P- Que lugar teria a identidade das línguas africanas neste projecto?

R- Eis aí uma questão que comprova o que disse na resposta anterior. E a língua dos índios brasileiros? E as diversas variantes regionais? São problemas muito mais profundos do que pode parecer a uma primeira leitura. Tudo isso vai demandar uma análise linguístico-cultural mais densa, pois as tensões são muitas.

P- Havendo consensos, poder-se-á encontrar nos dicionários, para além de «bué», termos como «mujimbo», «maka», «kota» entre outros?

R- É claro! Mas me parece que a questão extrapola o âmbito dos dicionários.

A propósito da problemática da identidade cultural, a doutora referiu certa vez, num comentário a propósito de um livro da Doutora Inocência Mata, que há que se aprofundar a percepção de que os textos africanos se empenharam sempre em desenhar a nação imaginada, e da influência dos cânones ocidentais na cultura africana. Que mais lhe convém acrescentar?

R- Penso que é isso mesmo. Nessas literaturas o local e o global se interseccionam e não há como ser diferente. O livro da professora Inocência demonstra muito bem tal pressuposto.

P- Gostaria que comentasse esta sua opinião: «a importância de uma fala crítica em diferença ou, se quiséssemos, uma outra forma possível de pensar não só as literaturas africanas em sua especificidade, mas o próprio modo pelo qual nós, falantes da língua portuguesa, nos colocamos na cultura de nosso tempo». (in Silêncios e falas de uma voz inquieta, Inocência Mata, 2002, Mar Além).

R- Cada vez fica mais claro que o discurso crítico sobre as literaturas africanas e não só não pode prescindir de um mergulho no próprio cultural de cada um dos países onde se produza. Não há uma África, como não há uma América. Há um tapete de diversidades de ordem cultural que se sobrepõe à ideia de unidade. Se pensamos apenas em Angola, por exemplo, essa diversidade lá está intratável. A unidade política é outra coisa. É só lembrar o Brasil também para vermos que ela aparece, em força. Só o olhar do colonizador fez de nós um «um». Somos muitos.

P- A expansão da língua portuguesa deve ser acompanhada pela literatura afim?

R- Como assim? Penso que não entendi a pergunta. A literatura de Portugal? As nossas todas? Hoje, há uma língua da globalização, o inglês. O espanhol vem logo atrás, mas isso no ocidente. Já pensou quantos falam chinês? Não sei não.

P- Acredita que a edição bilingue literária pode derrubar fronteiras culturais e expor mais a «periferia da literatura mundial»?

R- De novo pergunto. Como assim? De um lado o português, o espanhol, o italiano, o chinês, etc. E na outra ponta? Ou do outro lado? O inglês? É reforçar demais essa hegemonia. Sou contra.

P-Uma das formas de tornar a cultura africana milenar é a existência de literaturas de época que subsistam. Há a preocupação hoje em deixar legados para as gerações posteriores pela literatura, como se pôde observar na Grécia?

R- Sempre haverá esse legado. Basta que a literatura seja literatura. Os textos hindus mostram isso; Os Lusíadas o comprovam também; e o Quixote, e a Divina Comédia, etc. Nada morre, pois a arte vara o tempo, já que é o não-tempo que o imaginário do homem consegue plasmar.

P- Poder-se-á falar de literatura africana de expressão africana. Que elementos julga que nela podem estar contidos?

R- A mim me parece que toda literatura africana é a expressão do que nela é diferença. Logo, ela só pode expressar-se a si mesma. As línguas europeias já atravessaram, como ensina Gassama, os mares. E agora são de todos e expressam os sujeitos que nelas se expressam. Quanto às línguas nacionais, se os textos nelas se vazarem, elas serão o veículo de uma literatura africana igualmente. Acho descabida a discussão.

P- Quais são, na sua opinião, os pontos mais fortes da literatura africana e aqueles que a enfraquecem, face à feita nos outros continentes?

R- Não creio que haja pontos fortes e/ou fracos em qualquer literatura, se ela é literatura. Também não creio que haja o singular. Serão sempre literaturas africanas, múltiplas, híbridas e o que mais queiramos delas dizer.

P- Uma forma de se produzir boa literatura é ter escritores cultos, não necessariamente doutorados em ciências humanas. Qual é o seu entendimento doa formação que um escritor teve ter face a sua responsabilidade social?

R- Creio que a literatura nasce na ilha da leitura. Nesse sentido, mesmo que o escritor não tenha um conhecimento académico, ele deve ter criado uma espécie de arquivo literário em seu imaginário. É o caso de Machado de Assis, no Brasil, e de alguns escritores africanos, como sabemos. Quanto à responsabilidade social, é outra coisa. Nenhum ser humano pode abrir mão de sua cidadania e de sua participação social responsável.

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