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«A Minha Veia Poética Tem Como Fonte e Causa a Libertação Social do Povo Angolano»

Escrito por  Eduardo Pimenta

Entrevista de Aguinaldo Cristóvão

Reza a história que os primeiros 40 membros da UEA são fundadores e estiveram nos dois primeiros dias de vida da associação. Eduardo Fernandes Pimenta é o membro 44. Nesta conversa, o autor conta as mais importantes passagens da sua vida, revelando-se preocupado com os aspectos discriminatórios da sua raça, a negra. Por isso, centra a sua atenção no musseque e no quimbundo, cujos valores transcendem os períodos históricos do país.

 

 

 

P: Que significado tem para si a língua quimbunda?

R: Um significado muito especial, por ser a minha língua materna. Com ela minha mãe me expressava os sentimentos mais íntimos, carregados de ternura. Além disso prova-me a racionalidade humana da minha descendência materna, de cuja cultura muito me orgulho, sobretudo pelo seu altruísmo. Também é a sua paisagem que me acolhe nos sonhos, bons ou maus.

P: Fez os estudos primários e secundários em várias escolas. Que razões históricas nortearam estas mudanças?

R: Na idade escolar, meu pai era agro-pecuário, fazendeiro. Matriculou-me na escola primária da comuna recém construída. Era o primeiro ano que leccionava. Comecei o meu primeiro ano de Cartilhas de João de Deus debaixo do braço. O meu pai alojou-me em casa duma tia no bairro protestante Obelard, que distava um quilómetro e tal da escola, percurso que fazia todos os dias a pé. Uma temporada depois, meu pai construiu e abriu uma loja a nove quilómetros da escola. Aí, passei a ir e vir de bicicleta para a escola, tinha eu sete anos. A professora e os amigos julgavam isso contraproducente e convenceram-no, um ano depois, na terceira classe, a transferir-me para a escola da Missão Católica do Calulo. Na quarta, matriculou-me também na escola primária por força dos amigos que viam a missão da escola para gente sem possibilidades, onde fiz o exame de admissão.

P: Quando vem pela primeira vez a Luanda?

R: Pronto para a escola secundária, que nesse mesmo ano se concluiria em Calulo, a Escola Técnica. Nas férias, a minha irmã, que vivia em Luanda, não sem muito esforço conseguiu convencer meus pais que o melhor era a educação em Luanda. Venho e me matriculo no Cristo Rei, no curso nocturno, trabalhando de dia. Um ano e tal depois, meus pais souberam e de imediato mandaram-me voltar para a terra. Fiquei até fazer o ciclo preparatório. No segundo ano, retornei à base. Ainda em férias, eles, meus pais, pensavam na forma de me colocar decentemente a estudar, porque era indecente trabalhar e estudar. «Um cão não leva dois ossos». Um belo domingo, um primo meu, que trabalhava e estudava em Santa Comba, apareceu e convenceu-os a levar-me para a Cela, no regime de trabalho e estudo. Não sei como os convenceu, mas fui. Trabalhava e estudava. Integrei-me bem nesse colonato que era a Cela.

P: Em que momento integra uma célula partidária clandestina e inicia a actividade partidária?

R: Foi no colonato da Cela, onde fui co-fundador e tesoureiro duma associação juvenil, a JUSC Juventude Unida de Santa Comba. Também fundámos eu, Burdi Conde Vitória Neto, guarda-redes de futebol, e Santana, funcionário das Finanças, uma célula clandestina do MPLA, mais tarde reconhecida pelo Éme e coordenada por Tó Zé, Adão da Silva, que morreu assassinado à entrada do Aeroporto 4 de Fevereiro. Na Cela, cheguei a ser secretário-adjunto da JMPLA. Lá fiz o curso comercial e, por mérito, adquiri uma bolsa do «Externato Lusitano do Comércio» do Porto, para um curso superior à distância, totalmente pago por uma instância do Estado Local. Costumo pensar que devo ao curso o saber ler e escrever com a objectividade que me fez escritor. Eis a história.

P: Apesar de ser membro antigo da UEA publica pouco. Porquê?

R: Com sabe, ninguém vive da literatura, da edição de livros em Angola. Sou técnico de contas e isso absorve completamente o tempo útil e parte do recreativo, o que me deixa muito pouco para a reflexão. Mas, também, porque a forma que cultivo é a histórica, o que leva muito tempo para delinear os contornos objectivos. Tanta vez na história se esperou paz e veio guerra, que exige muito tempo para compreender a tendência, dos meios aos objectivos, ou seja, o fim do desenvolvimento de dado momento histórico. Temos a nossa própria história, na qual se esperava, em 1970, a independência total e imediata, e esta só veio a se dar 35 anos depois, com a paz. E, porque em estado de guerra, vimos que a cultura e as artes são as últimas a alimentar. Por outro lado, não ando a pedinchar patrocínios, mas parece que as coisas vão mudando.

P: Quer explicar-se melhor?

R: Os meus textos têm dependido muito da dinâmica de terceiros, daí que publiquei com Luandino [Vieira] como secretário-geral e agora com o Botelho [de Vasconcelos, Adriano]. De resto, não sei bajular para ser editado.

P: Recuemos alguns anos. Como surge a sua veia poética?

R: Sobretudo da reflexão dos aspectos discriminatórios da minha «raça», negra, não obstante qualquer raça humana e o oportunismo de muitos de nós que se alvoroçam em revolucionários, dos quais procuro espelhar a contradição na sua realidade objectiva, sobretudo económica. Claro que já ao a forma avoenga dos «portuguesugos» ambaquistas dos anos 30. A minha veia poética tem como fonte e causa a libertação social do povo angolano, cujos filhos se consciencializaram e fizeram luta. É natural que a libertação não seja um estado, é um acto evolutivo. Como foi a injustiça social, é hoje o civismo, a moral e o Direito. Porque a liberdade é infinda e democrática, particular e geral. De um modo geral Angola é livre. E cada um de nós é livre? Há que ser e ter cônscia resposta.

P: Que aspectos julga peculiares na poesia angolana?

R: Primeiro, o seu grande pendor para o altruísmo, que fez de potenciais civilizados e assimilados combatentes pela independência. Segundo, a originalidade da sua linguagem, isto é, a sua forte vontade e determinação em prol da identidade angolana e a sua noção exacta de país, no combate por uma sociedade sã e eficiente, sem menosprezar os estilos românticos e outros. A literatura histórica, como a de Assis Júnior, Uanhenga Xitu e tantos outros, dão-nos material e atributos da personalidade angolana muito ricos, para o que concorre a diversidade étnica, linguística e geográfica da nossa terra. Graças à coragem dos nossos escritores, vão sendo enterrados os «pasquins» da guerra com seus tribalismos e racismos imperfeitos e antagónicos, e o quimbundo já canta em umbundo e kikongo.

P: Que autores angolanos tem como referência?

R: Para não fazer injustiça, vou pôr de parte a minha geração, mesmo aqueles que com os kotas proclamaram a União, por terem a maioria dos seus escritos engavetados ainda da geração anterior. Agostinho Neto, António Jacinto, Luandino Vieira, Uanhenga Xitu e Manuel Rui Monteiro. Estamos a falar de formas e estilos, porque toda a literatura angolana é boa e os escritores angolanos têm vindo a defender, a preservar essa qualidade desde sempre com as mesas de leitura, que consideram editáveis ou não. É defesa da classe!

P: Com o seu livro «Ngana Pondero e o seu filho Lango» venceu o primeiro prémio da UNTA. Em 1977, o que se poderia escrever num livro de contos?

R: Muita coisa! Menos rosas e beijinhos A sociedade estava ansiosa para ver o resultado e levar a bom termo a realização do desejo secular: a independência. O que não se faria com jantares à vela, nem dias de São Silvestre. E modestamente chamei a atenção para um facto preponderante: o camponês. Pois a literatura tem uma função histórica e responde às necessidades do seu tempo.

P: Mas curiosamente, nota-se que não foge muito da sua ideia central como escritor, que é contar histórias.

R: Gosto de reler a história, dentro do meu âmbito, naturalmente. Não sou historiador, mas sei tirar as ilações do bom e do mau que a história, das particularidades à universal, nos dá. E a ideia central para mim de literatura é a de fazer luz no obscuro, dar transparência ao opaco das consciências do meio que nos rodeia e/ou animar o desânimo. Isso também tem uma certa influência da minha profissão, contabilista, que é dar ordem na desordem, legibilidade ao ilegível, etc., etc. O que é natural, já que a estória se conforma à história, como o homem à humanidade, e o particular ao geral. Mas espero não ficar pelas estórias...

P: «O Tatata da kalaxi do mukaxi» foi o seu segundo livro saído pela UEA. De que trata esta obra?

R- Trata do entusiasmo popular de velhos e crianças e o pasmo das mamãs perante os actos heróicos da juventude e dos papás na luta urbana pela «dipanda», em que qualquer nacionalista, do musseque, sabia diferenciar os disparos da AKA, da Uzi, da G3, e quase conhecia o passe para a segurança própria. Era pois pelos disparos que se conhecia o lado em que era válida a senha: «Kalaxi!–Mukuaxi!» que seria «Tenha terra! É da terra!».

P: Apresenta mais recentemente «Yn Kalulu na Dipanda» que se revela, parafraseando Gabriela Antunes, «uma estória engraçada». Como enlaça a sátira e o humor num livro onde o quimbundo e o português são aleatoriamente usados?

R- O povo angolano é bilingue, por força da camuflagem linguística a que nos obrigaram. Se o faço como dizes, bem melhor o consegue Luandino, que infelizmente poucos o podem ler e entender hoje, fora daquele âmbito, que é o nosso musseque, hoje albergando o povo angolano de Cabinda ao Cunene e com o direito de cada um preservar os seus hábitos e costumes, por vezes pouco cívicos, ainda. E é nisso que reside a nossa originalidade linguística, que é agradável de se ouvir, entendendo, claro!

P: O contador de estórias que se revela nasceu da sua vivência ou da sua actividade literária?

R: Nasceu da vivência, mas não só, claro. A minha vivência foi muito rica nesse aspecto, como podes ver no caso da mina formação, desde a fazenda ao barro protestante, aos musseques de Luanda, onde com aduelas de barril e cabeçadas se resolviam as makas, que não eram à quarta, mas aos sábados e domingos, ao convívio ameno com o colono. Ma colono mesmo de colonato, que a Cela, onde me apelidaram de «Brasileiro, porque diziam não conhecer nenhum angolano assim, pois que eu nomeio deles e sentia-me, se não superior, pelo menos melhor, porque sempre me senti dono da terra e conhecedor dos meus direitos, se bem que formais. Se tivesse o azar de lhes cair no posto da polícia, arrepender-me-ia naturalmente desta ousadia. E isso era característica do angolano daquele tempo. Considerávamos o «besugo» mais atrasado, isto pelos próprios brancos, porque vinha obcecado pelos discursos irreais e falaciosos dalém.

P: Que pôde absorver em matéria de literatura numa época tão conturbada?

R: Tive uma vivência rica e a sorte de a cultivar, apreendendo a forma de investigar e o gosto pela leitura. Lembro-me mandarem-nos apagar a luz e eu punha o candeeiro no mínimo debaixo da cama e lia e lia tudo, desde as novelas aos «Seis Balas»; os clássicos portugueses, a Bíblia… Tudo o que fosse impresso. Mas, sobretudo, por ter vivido uma época filosófica. Repara que nasci em 1955 e, em 1956, é fundado o MPLA; em 1970, rebenta a guerrilha e eu vivi esses momentos de fogo. Tinha seis anos e vi o Tio Marcolino, como por respeito o tratava por indicação dos meus pais, enforcado, no jeep da Pide. Um terrorista, diziam. É lógico que tudo fermentaria de qualquer jeito a vontade de escrever.

P: Enquanto poeta, que lhe apeteceria escrever se lhe colocassem à frente um embondeiro?

R Diria: «grande e forte como o espírito da vontade de liberdade e justiça do povo angolano!», para significar «cortem agora estas árvores de Fevereiro viradas para o infinito», como disse alguém da geração anterior.

P: Acredita, por exemplo, numa uniformização da língua portuguesa?

R: Nunca! Seria congelar a língua, o português da Idade Média. Não é o português de hoje em Portugal. Nem que eu conheça há algum exemplo desse congelamento na história dos povos! O catalão? Talvez até esse tenha registado mudanças! É óbvio que se enriquecerá, na sua sócio-vivência, com os nossos dialectos aborígenes que também se desenvolveram. Pacífica e democraticamente se desenvolverão.

P: Nota-se uma preocupação do escritor em privilegiar e passar o testemunho das línguas nacionais...

R: Sim. São trunfos culturais da nossa identidade para a eternidade. Não venham a julgar que os angolanos não tiveram língua, nem se percam as suas bases como perdemos a língua bantu e que, por isso, gosto de dizer, as nossas línguas actuais são dilectos daquela. Haja é a sua canonização! Porque vimos com a língua bantu que, sem a canonização, padronização, sem gramática, qualquer língua morre. Olha o nosso velho latim, vai indo lá longe

P: Dos manuscritos que tem em casa, guarda alguma coisa escrita inteiramente na sua língua materna?

R: Nada! Daí a necessidade da sua canonização, uniformizando regras e princípios, porque há muito a depurar para se considerar vernácula.

P- Na sua prosa, nota-se que escreve reutilizando verbos e adjectivos de forma a que o leitor sinta o conto num contexto, incontornavelmente, suburbano. Porquê?

R: É claro que tenho que caracterizar a linguagem dos meus personagens, naquilo que são: suburbanos, enquanto força activa da nossa independência, maioritariamente. Conta-se não sei se ficção se realidade, se verdade também não, mas é possível acontecer julgar-se Luandino negro e Lopito Feijóo branco) pela língua empregue nos seus livros.

P: Privilegia o espaço suburbano, como dissemos. Será essa uma tendência de dar voz e enfoque a certos factos e aspectos desta realidade?

R: Mais do que dar a voz, é um direito que cabe a essa camada da nossa sociedade, cuja voz e actos fizeram a revolução nos momentos mais difíceis. Quando muitos de nós fugíamos para o Mussulo ou mesmo para o mar alto, para ver como iam acabar as coisas!

P: Como intelectual sente-se preocupado com esta realidade que descreve?

R: Preocupado nunca, porque essa realidade é vitoriosa. Pelo contrário, congratulo-me com isso enquanto sujeito participante. Registo essa realidade como testemunho desses tempos, em relação à realidade actual, em que se nota uma certa discrepância dos hábitos e costumes entre campo e cidade, musseque e o asfalto. Estou consciente que a sua evolução não será sempre assim. O nosso povo, como venceu o colonialismo, vencerá o analfabetismo e todo o atraso inerente, tomou a zona urbana por direito e a força, como qualquer povo que se libertou, e isso é um direito. Não se podia importar gente para ocupar os prédios!

P: Acredita na força dos factos verosímeis da literatura, na transformação, ou pelo pelos nos alertas sobre certas questões sociais?

R: Como a água faz a germinação da semente e amolece a terra para sair a planta e desabrochar, a literatura dá ideias válidas do bem e do mal ao Homem. Se bem que, por vezes, e quase sempre, de modo subconsciente. Mas transforma!

P: Que implicações tem o segundo volume do roteiro da literatura na nossa história literária?

R: É pertinente sobre todas as formas. Interessante se se livrar dos velhos preconceitos de bom e mau para a literatura, cujos valores não se avaliam por gosto deste ou daquele, nem dum dia para o outro. É pertinente porque vai permitir actualizar aquilo que já foi feito pelo nosso querido confrade Ervedosa e avaliar o crescimento ou o decrescimento da nossa coisa literária. Mas que quanto a gostos, falem os leitores e, mesmo esses, que saibam que gostos não se discutem.

P: Para terminar esta conversa, conte-nos uma anedota das muitas que tem no seu espólio.

R: Depois de muitos anos no internato sem ver o pai, num ano de boa colheita, este vai visitar o filho. Num domingo, vão passear e sentam-se num banco do jardim. O filho, distraído, pensativo, esquecido do pai ao lado. A dada altura pergunta-lhe o pai: o que pensas, pá!? Ele, esquecido da companhia porque nunca tinha acontecido antes, responde sem hesitar: -Estava aqui a pensar o que vou fazer da fazenda do meu pai quando ele morrer… -Oh!–exclamou o pai.

-Desculpa!-só disse o filho.

(Bandeira!–diriam os nossos putos hoje!)

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